Arquivos Diários: 2 abril, 2011

JAZZ SESSION – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

 

 

 

 

Minha alma

tem um revólver carregado

com seis peixes de prata

e toureia um Minotauro

e apanha pássaros com uma  rede de pesca

e vê guardas ingleses treinando

para serem homens estátuas nas praças.

 

E imagina árvores que no lugar de folhas

tem lambaris

brilhando ao sol.

e o vento e o vento

minha alma gosta de viajar

agarrado nas crinas do vento

de hoje até ontemotem

e grita.

Um corte no indicador de um escritor e como corte na língua.

 

Minha alma vai indo fluindo

fluindoevindo

 

Visita à lua crescente,

abre a boca e se amamenta

de um raio solar.

e viu Deus

e ele espalitava os dentes.

viu

marcianos e eles comem apenas

folhas de eucalipto como coalas

e também quis

brincar de moldar

genes de leões.

Leões em miniatura,

leões negros,

leões camaleônicos,

leões bioluminescentes,

leões coloridos,

mega-leãos,

leões malhados,

leões poodle.

 

 

Minha alma é errante toca em tudo.

 

Entra nas cobras,

entoca-se no cerne das árvores,

nos rios,

em balaios kaikanges,

dentro

de uma andorinha em migração,

dentro de um abutre

e consegue comer como carniça com gosto.

Minha alma entra

numa orquídea e explode em flor.

 

Cavalga no centauro Gerridae

pelos sete mares.

No grifo Actias Luna

que voou em torno do sol

até morrer.

 

Minha alma viu

o caçador levar a anta abatida

nas costas até o shopping center,

estaquear e a carnear e comer.

 

 

Minha alma sentiu

e gritou:

Beethoven, Beethoven!

como deve ter sido difícil

e pesado levar dentro

do peito a nona sinfonia,

deve ser como ter uma tempestade no peito

se debatendo dentro do útero,

chutando a barriga.

Que alivio quando finalmente nasceu.

 

Os olhos de minha alma.

Os olhos de minha alma.

Grudam nos livros,

tromba de pernilongo

sugando, sugando o sangue dos livros.

Mãos de carrapato grudam na capa dos livros e não querem mais soltar.

Hematófago,

o vampiro Desmundos lambe livros com sua anti-coagulante secreção,

suga, suga a essência dos livros,

seus eflúvios,

seu ectoplasma,

minha alma se alimenta dos livros

e passa para eles doenças sexualmente transmissíveis.

 

E os olhos de minha alma engolem

programas de televisão

revistas, viagens, seios,

e transformam tudo em poesia.

 

 

 

Minha alma tem sede de poder,

quer tudo o que é belo,

quer demarcar meu território com urina

em qualquer arvore bonita,

qualquer montanha elegante,

ou por de sol cor de rosa.

 

Minha alma sabe

de um boi que caçava galinhas.

Se uma galinha

passava perto dele

virava pasto.

 

E que o ditador Somoza

comprou uma estatua eqüestre de Mussolini,

em promoção depois da deposição do Duce.

retirou a cabeça de Mussolini da estátua

e colocou uma sua.

E acha que radiografia é pop

porque já olhou para radiografias

com garrafas de Coca-cola no reto,

com souvenir da torre Eiffel

e da torre de Dubai,

com casulos de cocaína,

com réplicas da Apolo 11,

e miniaturas de mísseis nucleares enfiados no intestino.

 

Minha alma sonha

que no Amazonas caçadores perseguem

onças e sucuris

com uma matilha de carrancas.

 

Minha alma inventa

um isqueiro com um dispositivo

que segure a chama e possa ser usado como vela.

 

E diz

que muitos problemas emocionais

acontecem  quando se tenta domar

a emoção pela brutalidade

e pela obediência cega a razão.

Às vezes temos que levar a emoção para passear

alimenta-lá bem, dar carinho.

Se a emoção ficar presa,

se você bater nela

e a deixar com sede de sexo,

sua emoção vai morder sua mão,

e morder seu cérebro macio,

arranhar seu coração

como um gato angustiado o sofá.

 

Minha alma pensa

em jazz enquanto como gabirova,

pensa em jaz enquanto chupo cana

e também consegue pensar em assobio

enquanto chupa cama

e afirma que lavagem intestinal cura disenteria.

 

Minha alma,

minha alma,

encosta o ouvido num cabo de aço que segurava um poste

e toca a corda como quem toca um contrabaixo

e escuta um som que parece um lazer

dos filmes ficção científica.

 

 

Minha alma gosta

de andar pelas ruas tocando harpa nas grades das casas

prrrrrrprrrrprrrrrrrrr pla pla pla pla.

 

Cada grade tem uma música diferente.

E também de

lamber pedaços de madeira.

Quer saber que gosto tem as árvores e não só os frutos.

sabe que o pinheiro tem gosto de resina,

guabriuva é amarga,

que cedro e marfim lembram palmito.

 

 

E o cheiro da folha de figo

e parecido com o gosto da fruta.

 

E flor de mamão tem um refinado perfume

cheiro de fruta e de flor juntos.

 

E acha

que joaninhas verdes metálicas

ficariam ótimos como brincos.

 

De repente minha alma

que estava pensando em joaninhas,

cria sabores de refrigerantes,

refrigerante sabor de folha de bergamotas,

refrigerante de pitanga,

refrigerante de guabiroba e araçá,

refrigerante de cidreira,

refrigerante de pequi,

de caraguatá,

 

E vai para qualquer

descaminho,

com as pernas na terra,

mas braços

sempre tentando alçar vôo

sem conseguir.

Porém os olhos,

sempre,

os olhos,

gostam de seguir aviões.

 

 

Minha alma,

minha alma,

quer fazer

um teatro em preto e branco

ou um filme colorido

onde o cenário, as pessoas, o figurino.

tudo

tudo

é preto e branco.

E ver

uma baleia azul cruzar a cidade

voando e cantando,

lenta como um zepelim.

 

Minha alma me pergunta

será?

será?

Se conseguirmos por uma cabeça de um velho

no corpo de um jovem,

será que o corpo vai envelhecer?

ou a cabeça vai rejuvenescer?

ou ambos vão continuar distintos?

 

Minha alma quer fazer parques temáticos.

 

A cidade de Pedrok, dos Jetsons, do Asterix.

A cidade dos super-heróis da Marvel, da DC Comics.

com vilões e heróis lutando nas ruas.

Cidade dos gangsteres, com bares de jazz

e um escritor beat escrevendo sem parar,

tocando sua maquina de escrever

como se fosse um piano.

Cidades romanas, com hotéis e bordeis, e luta de gladiadores.

Uma cidade submersa imitando uma quadra de Nova Iorque,

onde só se pode entrar com submarinos ou trajes de mergulho.

 

 

Nada de partenogênese hoje.

 

A alma quieta,

quieta,

nada, nada.

Fumo um cigarro e nada, nada.

partenogênese me vem esta palavra,

procuro metáforas e nada, nada.

saio, vejo o Beto, pensei em fazer poesia sobre o Beto,

mas não da,

Porque o Beto viu disco voador, mas não foi abduzido,

e ainda tenho que ir ao banco.

O Beto

parece um desses imitadores de Jesus.

Nada, nada,

poema sobre o Beto não da,

Beto é um nome que não cai bem para um poema.

Um gole de água,

sem sede, nada, nada.

Penso em cavalos, ventos, brincos, no Beto.

Nada,

nada,

estou seco, sem alma,

a alma deve ter ido brincar em alguma chuva distante.

A mão batuca a mesa,

cavalgo com os dedos,

Vou ao banheiro,

Sento novamente,

sinto dores na nuca, coceiras.

Nada,

nada,

o pensamento esta imerso na escuridão.

Coço as costas, acaricio a fronte,

mais um gole de água, ginástica facial,

Vou pegar um outro cigarro,

parece insônia

debato-me,

e nada, nada como falta de sono

nada se idéias,

nada de tema

nada

penso em avião, no Beto, não no Beto não adianta não dá poema.

O telefone toca,

O subconsciente não está para

peixes bioluminescentes.

Esta tedioso,

o milagre da multiplicação dos peixes profundos

não acontece,

raiva,

soco na mesa, coceira, dores,

Nada disso acontece quando

quando consigo escrever.

Sem alma

sinto-me um ídolo de pedra

e ninguém devia ler

o que um ídolo de pedra escreve,

seria idolatria.

Olho meu sapato,

preciso comprar outro

o tempo passou hora do almoço,

outro dia, minha alma foi passear sem mim.

Vi meus e-mails,

Estou perdido,

cérebro sem pensamentos

é um celebro com cegueira, é tudo escuro.

Acendo um cigarro,

sinais de fumaça para minha alma me localizar,

 

 

nada de idéias,

nada,

nada,

 

A minha garrafa ou mar foi engolida por uma baleia.

Jonas, Jonas volte para tua caverna estomacal

e leia esta mensagem.

 

O telefone grita como gato esfaqueado,

bebe com fome

e quer ser atendido,

procura as glândulas mamarias de minha orelha.

 

Minha alma voltou,

minhaalma voltou,

estou fluindo e vindo.

Minha alma me leva,

alimenta-me de estrelas,

de flores com néctar.

 

E me conta

Que a criação sempre surge antes da realização

portanto a criação esta sempre um passo a frente do real.

A criação é o objetivo do real.

E que as fantasias sexuais que um casal tem quando fazem sexo

é uma evolução da masturbação.

E posições sexuais acrobáticas são para casais sem imaginação

é que seu melhor parceiro sexual

e aquele que você pode partilhar todas suas fantasias.

 

Minha alma assiste televisão

a lutas,

corridas,

feras,

panis et circus televisivos

 

Minha alma me diz enquanto vou comprar pão:

 

Não tenho medo de alturas,

temo é minha vontade de me jogar,

pareço estar sendo puxado por algo magnético,

sempre que fico perto de uma platibanda ou sacada.

 

 

 

 

Se temos o mesmo antecedente primata dos chipanzés

e os chipanzés têm apenas os pelos negros,

mas as peles deles não são apenas pretas,

pois há muitos chipanzés de pele branca,

então, teoricamente os primeiros homens africanos

também poderiam ser pretos e brancos e não só negros.

 

Minha alma pensa enquanto

olha as lajotas hexagonais,

lajotas quebradas por uma raiz de arvore,

cigarros mortos no caminho,

Minha alma se lembrou quando estava na praia

e fui a uma padaria.

Entra

e olho para os pães de queijo murcho como uma teta velha,

achar de asco,

pede 10 pães franceses,

troco em chicletes Plets tutti-frutti,

e volta olhando as lajotas hexagonais.

 

Minha alma pensa

 

em um tiro no coração que explode como um vaso com rosas.

 

Minha alma gosta

de ver atrás dos quadros,

olhar a armação da tela,

as madeiras, os pregos,

gosta de ver as costas dos quadros.

 

Quer fazer um a exposição com telas viradas.

pintar telas viradas.

E diz,

Louvre

já cansei de ver a cara de Rembrandt,

virem à tela de costas,

coloquem a Monalisa em decúbito ventral.

 

 

O olho cheio de alma

chega antes.

 

O Hubble,

olho da humanidade,

chegou antes em Andrômeda.

O olho passeou por super novas.

O olho, já viu galáxias.

O olho pode ver o centro do sol sem se queimar.

O olho pode rondar sobre um buraco negro.

Que os outros sentidos

morram de inveja.

E por causa dos oceanos e da terra

o nosso planeta deve ter

gosto de uma lágrima

de lavrador.

 

 

Minha alma,

minha alma,

sonha

dar movimentos a fotografia

e parar filmes,

pintar estátuas,

esculpir quadros e músicas.

Sim, minha alma já experimentou muita coisa,

entalhou ventos e mares,

moldou um raio de sol,

um canto de canário

e um grito de dor,

nadou no aço

e pescou peixes fossilizados dentro de pedras.

 

E descobriu

que todas as estátuas de santos

que choram e sangram

foram feitos de madeira

retirada

dos instrumentos da inquisição.

 

Então

tirou um galho de uma coroa de espinhos

e fez

uma caneta

com a qual escrevo todos os poemas

que me dita.

Sou o escriba

de minha alma.

 

 

 

 

 

Com minha alma

 

cavalguei em um casal de libélulas azuis

enquanto acasalavam.

 

Cavalguei

em um garanhão

enquanto montava uma égua.

 

Minha alma me mostrou

leões caçando

atuns em um recife de corais.

 

Tubarão branco matando

uma zebra na savana africana.

 

Golfinhos se alimentam

bandos de estorninhos em evolução.

 

Com minha alma sonhei

que meus dedos se multiplicavam e viravam teclas

de marfim,

e vísceras cordas e ossos engrenagem,

e meu corpo e corpo do piano.

Que reencarnei como um piano,

desses que ficam no canto de uma sala

sem serem tocados.

 

Minha alma

é livre e afaga cães

e diz o que pensa.

 

Poetas discutem nomes

numa guerra inútil de conhecimentos.

A criatividade é a espada do poeta,

não o conhecimento,

o conhecimento é sua faca.

E

O artista louco ganhou respeito

desde Van Gogh, Artaud.

O poeta que não deciframos,

a tela que não compreendemos

deixa-nos ansioso,

em duvida,

todos ficam sem saber se o que vem

é loucura ou genialidade.

Mas o artista louco é muitas vezes só um louco,

não um gênio louco.

O louco

também pode ser apenas um idiota

 

 

Vento, vento, vento,

minha alma quer ir com o vento,

o seguro com um cordão umbilical.

 

e com um óculo escuro

entardece o meio dia.

 

Minha alma

 

flutuando

gosta de ler                   pelo escritório.

E grita:

Ler um poeta e incorporar sua alma.

Vejo Minas com as mesmas retinas de Carlos

e recife com a mesma exatidão de Cabral.

 

Canta Patativa, canta,

que depois que te li, teu sertão é também o meu.

 

Quero quando me ler,

que as guaxunbas,

as gabirobas,

as casas azuis,

que as pingas com cidreiras nas bodegas,

as pingas com milome

sejam minhas.

E quando

cavalgar numa pedra de avalanche,

cavalgar num tsunami,

lembrem de mim.

 

 

Minha alma

notou

aquele que só consegue ser ele mesmo

disfarçado e com nome falso.

 

E como está cansada

inveja até

cobra morta que parece descansar

enrodilhada

dentro de um vidro de formol.

 

 

Minha alma

delfim gosta

de brincar na chuva,

se lambuzar de água-doce,

ver a cidade incrustada

e as ruas espelhando céus.

 

Minha alma gosta

de nadar entre os arabescos dourados das músicas de Bach.

 

Entre os corais na primavera

e depois fumar uma nebulosa.

 

Minha alma

mesclou-se com o vento

e brincou com uma folha no outono.

 

Contorceu-se em redemoinhos

atravessando um cemitério abandonado.

 

Em viagem astral

minha alma,

minha alma,

já foi pintar desertos americanos,

os creosotes e cactus

e ao fundo a parte de traz dos de motéis,

e depósitos com pneus velhos,

lanchonetes, postos de gasolina.

Pintava ouvindo os automóveis passar

e bebia sua areia com gelo

e sobrevoou com abutres a procura

de carniça no asfalto quente.

Morou em trailers prateados

escrevendo poemas tristes,

esvaziou uísque e jogou

as garrafas com mensagens

ao céu.

Tinha a geladeira cheia de cascavéis e enlatados

dormia sobre um sofá rasgado em

frente a uma TV preto e branco,

ouvindo apenas os pulsares.

De madrugada discos voadores

perturbam seu sono.

Andava pela noite ouvindo

o coração e dissecando

cada pedra do Mojave

e voltava pela manhã apenas música.

 

 

Viagem astral,

viagem astral,

minha alma,

minha alma passa

por distritos industriais com cheiro de cinzeiros,

com imensas catedrais de aço

ligadas por tobogãs com feridas de ferrugem.

Motores e máquinas que parecem

tubulações intestinais,

é possível ler a sorte

em suas vísceras expostas.

Alguns corvos sentam

em seus galhos metálicos.

Há apenas algumas árvores empoeiradas

como artefatos em uma tumba.

Sirenes uivam, gemidos

e ranger de dentes,

o choro das engrenagens, caldeiras e seus guizos.

Containeres como legos nos pátios.

Abutres que comem ferro podre

rondam a putrefação bio mecânica.

Telas eletrificadas como

velhas como meia-calças desfiadas,

como redes de pescas velhas e rasgadas.

 

 

Minha alma

continua,

minha alma não para.

 

Minha alma,

minha alma

joga uma pedra no ar

e a pedra se transformou em pomba

que continuou a voar

e fez ninho,acasalou,ensinou seus filhos a voar.

A pedra-pomba procurou frutas,

comeu milho nas praças

e restos de pipoca.

Minha pedra pousou nas platibandas

e num entardecer, caiu e morreu.

Sua carne e penas foram reaproveitadas

mas os ossinhos lindos ficaram em um canto da praça,

delicados em uma posição elegante de fossilizados,

Quem diria que uma pedra ia acabar assim,

porque geralmente uma pedra já nasce morta,

mas esta não, esta viveu e morreu.

 

 

Minha alma,

minha alma

procura os cantos,

olha cada canto da cidade

como quem procura,

um quadro bonito em uma galeria.

 

Minha alma

encantou-se com um pedacinho de mato

que cresceu sobre pedra brita

encostado em um muro velho de um estacionamento.

Cresceu silencioso, sem gritar flores,

certamente já gemeu algumas florzinhas

minúsculas em alguma primavera,

mas agora acho que não consegue mais florir.

Agora só tem algumas folhas envelhecidas,

empoeiradas

e alguns galhinhos ressequidos,

descarnados, ossinhos pretos e sem carne,

esqueletinhos secos de planta.

Nem insetos parecem se interessar por seus

galhinho.

Vejo formigas passarem displicentes.

Pode ate ter milhões de micróbios, mas

aparentemente não tem nada.

Tão lindo este cantinho de mato

enfeitado com embalagens de chicletes

e bitucas de cigarros.

Um lugarzinho belamente feio,

uma feiúra que causa comoção

de tão singela, feiúra que não pede atenção,

uma feiúra discreta,

que nem se percebe, escondida num canto,

tanto que o dono do estacionamento

nem a tira, nem a nota.

como certamente faria com uma feiúra vistosa.

Só minha alma perigosamente a notou

e as plantinhas pareceram amedrontadas

com os olhos de minha alma.

Este pedaçinho de mato

sempre esteve escondido dentro da discrição,

descrição era sua toca.

Parece que nunca tiveram

a atenção de um olhar,

por isto aterrorizo este pobre matinho

e ele se sente pela primeira vez

frente a frente com o perigo.

Tento o acalmar afagando suas folhas secas,

mas é melhor eu e minha alma irmos,

para não chamar a atenção do dono e sua enxada.

 

 

Minha alma

gosta de digressões.

 

A magia tem milênios e só muda de roupa e língua.

A magia sempre foi ligada a uma religião

e todas as religiões querem realizar prodígios

como prova de sua verdade.

Milagre é outro nome dado à magia.

Os magos modernos

pegam seu livro milenar

a Bíblia

e recitam seus encantamentos,

conclamam poderes superiores

e com gestos e palavras mágicas

chamados de oração

tentam curar doenças,

fazer paralíticos andar sobre as águas

 

 

 

A arte é uma invenção da religiosidade.

A arte esqueceu que nasceu como oferenda

para caçar mamutes.

Sim, sim sua origem é singela

e Michelangelo foi coveiro do Papa Julio II.

 

A arte faz

uma haste de ferro

florescer rosas vermelhas,

consegue fazer uma maçã

que não e uma maçã.

 

 

E o que é um poema?

 

O que é um poema?

 

A melhor definição de algo é sempre sua palavra,

fora a palavra toda a definição é incompleta.

 

Pode se dizer que um homem

é um bípede,

mas se alguém não anda

ele continua sendo humano.

Que são racionais

mas se alguém nasce sem cérebro

ele continua sendo humano,

Portanto bípede e racionais são em si conceitos falhos

que não servem para todos os humanos,

então a melhor definição para o que é homem

é a palavra homem.

 

Como a melhor definição para a poesia

é a palavra poesia.

E a melhor definição da uma árvore

é a palavra árvore,

e a melhor definição da palavra

pedra é a palavra pedra.

 

E uma pedra tem alma

e uma árvore também tem alma,

tudo tem alma,

porque, se olhássemos

as pedras

apenas como pedras

e as árvores

apenas como árvores

nos é que não teríamos alma.

Porque uma pedra

não olha a alma de outra pedra

nem uma árvore

olha para alma de outra árvore.

Apenas quem tem alma

consegue ver almas em coisas

inanimadas.

 

Minha alma,

Minha alma

curiosa,

curiosa

gosta de entrar em casas vazias.

Com jeito de arqueólogo,

de ladrão de tumbas,

entra nas casas a beira do asfalto

que vemos quando viajamos de carros.

Em casas que parecem casamatas.

Em casinhas azuis com portas abertas.

Minha alma

abre as geladeiras,

mexe em gavetas,

nos guarda-roupas, nos perfumes

vejo se usam xampu pra cabelos secos ou não.

Experimento todos os perfumes,

os sabores dos alimentos,

tomo os remédios,vejo as plantas,

leio as revistas e livros.

 

Minha alma

vai para a ilha de Utopia

e  lá fazem sexo como bonobos

e em toda a praça tem

uma estatua da Liza Simpson.

 

 

Minha alma explica

o porquê do homossexualismo entre os animais:

É porque o sexo é feito para o prazer e não para procriar.

Se o sexo não fosse delicioso, faríamos sexo apenas para procriar

como um sacrifício para a continuidade da espécie.

O prazer é uma isca atraente demais para ser evitada e a procriação a usa, então o homossexualismo existe entre os animais

porque o sexo existe para ser prazer.

Comer também é um prazer e se um alimento

não tem nenhum valor nutritivo,

mas é muito saboroso como o sal,

será consumido com avidez.

 

Minha alma vai fluindo indo,

sem lenço ou documento,

leve, leve descompromissada e diz o que quer.

E minha alma quer uma máquina que retrate cheiros,

que ao achar uma flor, possa levar seu perfume para casa.

Uma máquina para que eu possa me perfumar

com o cheiro da maçã,

com o cheiro de uma

manhã orvalhada.

Minha alma

quer uma máquina que retrate o sabor.

Telescópios que nos permitam lamber estrelas,

sentir o gosto de uma nebulosa,

Quero saber que gosto tem os confins do universo,

telescópios que nos permitam lamber estrelas,

sentir como seria fumar uma nebulosa.

Quero que seja possível

procurar no google um sabor e um cheiro.

 

 

 

Minha alma me diz:

 

Não se preocupe quando o inferno estiver cheio

os demônios podem colonizar

o sol,

este inferno que nos aquece no inverno.

 

Minha alma fala

que  dobras espaciais,

universos paralelos.

viagens no tempo

são besteiras.

Einstein foi o gênio

que atrai uma legião de seguidores estúpidos,

como Leonardo da Vinci

atraem ocultistas.

e Duchamp  artistas idiotas,

Minha alma brinca

com fogo

e sopro de dragão não apaga velas.

 

 

Minha alma vai para onde quer,

vai para onde,

vai parar aonde?

 

Sentado em uma pedra com as mãos no queixo

pensa em  pavões cor de rosa,

agulhas para suturar líquidos,

cigarros feitos com água de mar,

 

Minha alma gosta de fumar um cigarro,

quando chega a uma  praia,a uma cidade,

gosta de sobrar sua fumaça  xamânica

em todo lugar bonito,

Gosta de passear

soltando pela boca a cada tragada

um ectoplasma

que me mescla

com as casas, rios,

une-me em ligação sensual com o todo.

 

Minha alma,

Minha alma

vendo uma imensidão

gritou do cume:

 

Eu sou tudo que minha visão alcança, sou enorme

sou ate aonde vai meu olhar.

Com meus olhos toco as nuvens e o céu,

com meus olhos sinto os pássaros,

com meus olhos apanho as frutas mais altas.

Sou uma redoma de olhar,

imenso,moldável,

em mim cabe uma parte de rua

com seus carros,

mas a massa de meu olhar para nos prédios.

Se num quarto,

acabo em suas paredes,

e em uma janela para a amplidão

sou até a linha do horizonte,

se vejo a noite vou até as estrelas.

A carne do meu olhar tem tato,

e sente os ventos.

A carne do meu olhar sente gosto,

com ele lambo a prateada lua,

A carne do meu olhar tem olfato

e cheira a primeira flor de

Andrômeda.

Meu olhar e tentáculo

vai ao longínquo,

e toca o fim visível do cosmos,

Meu olhar e língua de camaleão

e engole estrelas.

Por isto gosto de imensidões onde meu olhar cresce

e me estendo até o Máximo,

sem meu olhar me reduzo,

fico apenas do tamanho me meu tato,

do tamanho de meu gosto.

Só meu pensamento é ainda maior

que meu olhar

e vai ainda mais longe,

Meu pensamento é o olhar do meu olhar

e chega ate depois da linha do horizonte

e chega ao depois do Cosmos,

mas o pensamento

também tem seu final.

 

Minha alma

estava nas profundezas do oceano

assando um peixe bioluminescente,

olha para cima e vê um sol,

duas luas e um planeta anelado,

e grita:

Espero

que no próximo estado evolutivo

da humanidade os músculos

responsáveis pelas gargalhada se tornem mais fortes,

e os falos sejam mais sensíveis e as vulvas mais

receptivas.

Sim,sim e acredito no improvável,

porque se o aço levita,

se o aço flutua,

então posso ser ascendente, sempre ascendente,

pólen pronto para fecundar

e quero

um poema forte como uma oração,

um poema milagroso

que ao ser entoado faça

minha carne flutuar

quero cuspir tempestades,

inundar, irromper ,erupção

libertar sinfonias,

rasgar o peito e gritar mais forte ainda:

Voa meu coração com azas

está livre destas grades de ossos,

e gemer um gozo,

um êxtase eterno

que irá arrancar de mim

cachos de notas floridas perfumadas,

notas soltas com dente de leão ao ar.

Arrancar de mim

e rodar uma valsa do tornado

e vou

escrever na pele de meu amor uma ode a seu seio pequenino,

aranhando suas costas brancas uma ode a borboleta

pousada perto de seu ombro.

e na sua face um poema sobre seu olhar.

 

Minha alma,

minha alma

é onívora

e come todos os estilos de poemas,

alimenta-se de todas as músicas.

Mas colhe solitária

os cabelos da estátua de Davi

que estavam no meu travesseiro

pela manhã.

 

Minha alma,

minha alma

marcou a ferro quente o vento

e a primavera

marcou a ferro a poesia.

 

Minha alma

arrancou um pedaço de minha própria carne

e alimentou uma águia

para que pelo menos uma parte de mim seja livre.

Que parte de mim voe.

Que parte de mim saiba o que e ser águia.

 

E quer ser

Como certos pássaros quando se esquecem  que são pássaros e se  pensam vento.

Como certos pássaros se esquecem que são pássaros e vivem

como peixes.

Como certos pássaros se esquecem que são pássaros

e se deixam frutificar.

Como certos peixes quando se esquecem que são peixes

e se pensam oceano.

 

Minha alma diz:

Para rever a beleza de algo a tire do normal.

Se uma noite comum,

a mesma noite de sempre,

com as mesmas estrelas,

com a mesma lua.

Apenas florescesse em pleno meio dia,

todos olhariam novamente para a noite

com encantamento.

O olhar novo sempre rompe o hímem

que nasce entre a beleza e o cotidiano.

 

 

 

Minha alma

é entranhada com minha carne,

minha alma perde cabelo,

se me corto a minha alma também levará a cicatriz.

 

Minha alma grita:

Serei o que me falta?

o que não sou,

serei o que almejo?

Serei eu, a parte que não sou?

Serei eu, as azas que não tenho?

Serei eu as barbatanas que me foram amputadas

ou as guelras que não tive?

 

Sou o que desejo ou o que sou?

O que desejo ou o que faço?

Será este sonho eu,

Ou sou o que possuo,

meus braços e minhas pernas e o que tenho como meu,

Serei eu?

Serei eu insatisfação

e falta ou o excesso?

Então me falto ou me sobro?

Será que sou o terceiro olho que não tenho?

Será que ser é uma essência alimentada

pelo que não existe,

enraizada no nada e quando este nada

vai se transformando aos poucos

em substância,

a essência morre,

porque a essência  bebe seu néctar

nas inflorescências do nada.

 

Minha alma

não quer mais pensar.

Minha alma quer descansar,

voar no colo de

uma pomba sem cabeça.

 

POEMA I – de fernando monteiro / recife

“E para que ser poeta
em tempos de
penúria?”

Insepulta jaz a pergunta acima

e bem acima do motivo
supostamente íntimo

visto no verso de um dos últimos poemas de Roberto Piva.

A inquirição, franca, fende a fina porcelana de cera dos ouvidos.

Sabemos da penúria,

porém não queremos saber dela.

Plantamos a flor carnívora,

mas desviamos a vista

quando o jardim do pecado

castiga com isso:

indiferença, acídia, tédio mortal

no peito de avestruzes

(os do estômago forte

para literatura feita

com lixo).

FARINHA DO MESMO SACO – de edu hoffmann – curitiba

Eu que andava desse mundo

mais cheio que prato de caminhoneiro

sem rumo sem amor e sem dinheiro

 

talvez por ir com muita sede ao pote

comia o pão que o diabo amassou

pagava mico pagava o pato

até o meu retrato a outra queimou

 

andava mais quebrado

que arroz de terceira

amor, você me tirou da dieta

você é minha feijoada completa

 

agora choro de barriga cheia

você me lambuzou, você se regalou

você meu ante-pasto, minha ceia

 

nesse bolo todo você é a cereja

que fica comigo à esmo

tomando cerveja

comendo torresmo

 

 

Bolsonaro: a cepa de 1964 segue viva em 2011 – por saul leblon / são paulo

Bolsonaro tem sido tratado pela mídia conservadora como uma excrescência. Um ponto fora da curva. Um excesso. Um palavrão deselegante na narrativa garbosa do conservadorismo nativo em nosso tempo. De fato, o deputado professa de forma desabrida e truculenta um relicário de anticomunismo, racismo, elitismo, defesa da
tortura (hoje em interrogatório de presos comuns…) e mesmo da pena de morte. Ademais, vocaliza alinhamentos nada exóticos em relação a outros temas, quando recebe menos espaço na mídia, mas cumpre igual papel de perfilar entre os que erguem pontes de atualização do programa e dos interesses que produziram 1964.

Não deve ser negligenciada a coincidência entre o aniversário dos 47 anos do golpe militar de 1964 e o vomitório homofóbico-racista despejado pelo deputado Jair Bolsonaro (PP), nas últimas semanas.

Em entrevistas e declarações a diferentes veículos, ele adicionou mais algumas pérolas a sua robusta coleção de ataques aos direitos humanos, cujo usufruto, na visão sombria de mundo desse ex-capitão reformado do Exército brasileiro, deveria ser vetado aos negros, aos homossexuais, os índios, os comunistas, socialistas, os pobres e, possivelmente, também, aos deficientes físicos.

Bolsonaro tinha apenas 12 anos de idade quando ocorreu o golpe que instaurou a ditadura militar de 1964. Mas sua formação na Academia de Agulhas Negras ocorreu exatamente durante os anos de chumbo, tendo deixado a carreira em 1988 (fim do regime) para se transformar no único parlamentar brasileiro que defende abertamente o golpe de abril de 1964.

Bolsonaro tem sido tratado pela mídia conservadora como uma excrescência. Um ponto fora da curva. Um excesso. Um palavrão deselegante na narrativa
garbosa do conservadorismo nativo em nosso tempo. De fato, o deputado professa de forma desabrida e truculenta um relicário de anticomunismo, racismo, elitismo, defesa da tortura (hoje em interrogatório de presos comuns…) e mesmo da pena de morte.

Assim apresentado, parece mais uma caricatura inofensiva do folclore político nacional. Um Tiririca da Tortura. Será?

Em primeiro lugar, cumpre reconhecer que o ex-capitão exerce o seu 6º mandato. Logo, tem adeptos fiéis. Conta com financiadores perseverantes. Ademais, vocaliza alinhamentos nada exóticos em relação a outros temas, quando recebe menos espaço na mídia, mas cumpre igual papel de perfilar entre os que erguem pontes de atualização do programa e dos interesses que produziram 1964.

Vejamos. Bolsonaro, a exemplo de próceres da coalizão demotucana (caso do senador Agripino Maia, hoje presidente dos Demos e de Artur Virgílio, ex-lider do PSDB) é esfericamentre contra o programa Bolsa Família, que garante uma transferencia de renda a 50 milhões de brasileiros mais pobres.

No seu entender, trata-se, aspas para o capitão: “um projeto assistencialista, de dinheiro de quem trabalha, de quem tem vergonha na cara, para quem está acostumado à ociosidade”. Vamos falar sério. O linguajar pedestre condensa para o nível da caserna aquilo que sofisticados economistas e ‘consultores’ dos mercados financeiros apregoam diariamente como plataforma para a racionalização do capitalismo tupiniquim. Como tal são incensados pelos colunistas, editorialistas e ventríloquos instalados na mídia conservadora que cumprem assim a função de trazer para o ambiente do século XXI aquilo que foi cimentado pelo udenismo, pela repressão e pela censura nos anos de chumbo, aqui e alhures.

Na campanha presidencial de 2010, certos alinhamentos ganharam vertiginosa transparência como acontece sempre que se decide o passo seguinte da história.

Enquanto o jornal Folha de São Paulo e o candidato Serra tentavam sedimentar uma imagem de terrorista e abortista para a então candidata Dilma Rousseff, Jair Bolsonaro, com a rude transparência daqueles a quem é reservado o trabalho dos porões, foi aos finalmentes.

Num comício de Dilma no Rio, o parlamentar pendurou três faixas em postes da Cinelândia. “Dilma, ficha suja de sangue”; “Dilma, cadê os 2,5 milhões de dólares roubados do cofre do Adhemar” e “Lula, vá para o Mobral. Dilma, para o Bangu Um”.

Na verdade, o homofóbico deputado apenas fazia uma suíte, a seu modo, da ficha falsa de Dilma construída pela Folha de SP em mais uma demonstração do jornalismo isento…(e que até hoje não se retratou).

Dava incômodos decibéis, igualmente, ao empenho da esposa do tucano José Serra, a bailarina Mônica Serra, que em corpo-acorpo na Baixada Fluminense, em 14 de novembro de 2010, vociferou autoritariamente ao vendedor ambulante Edgar da Silva, de 73 anos: “Ela é a favor de matar as criancinhas”, insinuando o apoio de Dilma à legalização do aborto. Seria cansativo rememorar outros alinhamentos do período expressos, por exemplo, por setores de extrema direita da Igreja Católica e por ‘jovens’ revelações dessa mesma cepa ideológica, como o candidato a vice de José Serra, Índio da Costa, um bolsanarinho versão ‘mauricinho carioca’.

Bolsonaros, Fleurys, Erasmos Dias, Curiós, Virgílios, Agripinos, Rodrigos Maia, ACMs netos, Índios da Costa e Carlos Lacerdas nunca prosperam num vazio de conteúdo histórico. Em certos momentos, como agora, incomodam à elite conservadora ao personificarem com alarido e crueza as linhas de passagem que promovem o aggiornamento, para os dias atuais, dos interesses e valores que fizeram o golpe de 32 em SP; o golpismo que levou Getúlio ao suicídio em 54, a tentativa de impedir a posse de JK em 56, a quartelada contra a posse de Jango em 62, a ditadura 64 e a tentativa de impeachment de Lula em 2005.

Mas assim como as tardes quentes do turfe requisitam chapéus esvoaçantes e blazers de linho delicado, também é forçoso cevar e tolerar os relinchos dos potros selvagens nas estrebarias. É dessa cepa que sairão as manadas decisivas para limpar e ocupar o terreno quando for a hora, de novo.