Arquivos Diários: 10 abril, 2011

Com ônibus itinerante, comunistas nos EUA buscam apoio da juventude / eua

Nos tempos da Guerra Fria, eles eram temidos, perseguidos e odiados. Hoje, quando os membros do Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA) aparecem em público, a reação é de surpresa. Vinte e dois anos depois da queda do Muro de Berlim, pouca gente sabe que ainda existem comunistas no país. Juntos, o CPUSA e sua irmã mais nova, a Liga Comunista Jovem dos Estados Unidos (YCLUSA, na sigla em inglês), têm cerca de 3 mil membros cadastrados. Para mudar este quadro, a YCLUSA inaugurou há duas semanas a Red School Bus Tour, que oferece aulas gratuitas sobre comunismo de costa a costa.


“Temos aulas e debates sobre marxismo e o movimento político; Construindo o movimento para mudar; A crise do capitalismo hoje; Classe Trabalhadora e o Movimento Operário (…). E também muitas atividades culturais, sociais e recreativas”, enumera a propaganda no site da liga.

Transmitida ao vivo pela internet, a Red School Bus Tour é uma das poucas novidades do site. A última edição da revista da liga saiu em 2008, o último post do blog é de 2009 e o último podcast, do ano passado. No entanto, a página da YCLUSA no Facebook respira bem, com mais de 900 fãs e posts sobre Che Guevara e Tania, a Guerrilheira.

“O futuro do partido é certo. Estamos envolvidos em todas as principais lutas dos trabalhadores do país”, garante o presidente do CPUSA, Sam Webb, de 65 anos. Durante os protestos contra a redução de direitos trabalhistas em Wisconsin, na semana passada, os membros do partido foram convocados para participar das manifestações em suas cidades.

Em Washington, uma pequena multidão vestida de vermelho e branco – em homenagem à Universidade de Wisconsin-Madison -, pedia melhores condições de trabalho e o fim das desigualdades sociais. “É inspirador ver esse povo vestindo vermelho e lutando por direitos trabalhistas. Queremos ver essa multidão crescer por todo o país”, comentou o manifestante russo Vlad Gurenko, que mora em Washington e usava uma camiseta vermelha da aviação russa Aeroflot. 

Mas a procura no ponto de partida do Red School Bus Tour, em Los Angeles, não chegou a ser revolucionária. “Apareceram entre 20 e 30 pessoas. Mas, se somarmos o público online, tivemos um total de cem alunos. E alguns deles viraram membros no mesmo dia”, garante o organizador nacional da liga, Jordan Farrar, de 27 anos.

Filho de republicanos, Farrar acredita que o Partido Comunista passa por um bom momento: “É encorajador ser um comunista nos Estados Unidos hoje. Diferentemente do que a mídia capitalista acredita, nós somos cada vez mais bem-vindos”. Ele tem certa razão. Uma pesquisa do Washington Post e da rede de TV ABC mostrou em janeiro que 36% do americanos simpatizam com o socialismo, enquanto 35% simpatizam com o ultra-conservador Tea Party. “O Tea Party é uma besta. Eu tenho grande familiaridade com eles. Minha mãe é um deles e Lloyd Marcus, um ativista notável do partido  e cantor horroroso, é um velho amigo da minha família. Minha mãe se casou no quintal dele”, conta Farrar.

Até abril, a Red School Bus Tour vai passar pelos Estados de Texas, Flórida, Michigan e Connecticut. Desde que a novidade foi anunciada, a liga vem recebendo ameaças anônimas. “Se eu vir comunistas perto de crianças, vou deixá-los com a cara vermelha!”, escreveu no site da YCLUSA um leitor, escondendo sua identidade sob um apelido impublicável.

Os ataques provocaram debates no site e na página da liga no Facebook. Mas os anônimos anti-comunistas não são nada perto do inimigo que eles tentam combater, como  explica um dos professores do Red School Bus Tour, o vice chairman do CPUSA, Jarvis Tyner: “Nossos inimigos são as corporações e os bancos. São eles que fecham fábricas, cortam salários e benefícios, e forçam as pessoas, especialmente os jovens, a trabalhar por salários baixos ou entrar para a carreira militar a fim de ter uma educação e uma renda”.

CPUSA/divulgação

Jovens comunistas norte-americanos durante manifestação

Exatamente o mesmo inimigo desde 18 de setembro de 1919, quando um dos fundadores do CPUSA, C. E. Ruthenberg, escreveu um documento anunciando a criação do partido: “O Partido Comunista é um fato”. Este e outros milhares de documentos acabaram sendo doados para a Biblioteca Tamiment, da Universidade de Nova York, há quatro anos. “Nem imaginava que eles (comunistas) ainda existiam”, disse o diretor da Tamiment, Michael Nash, ao jornal The New York Times na época.

Reforma ecologicamente correta

Na ocasião, o partido precisava abrir espaço em sua sede para novos inquilinos. Do prédio de oito andares no Chelsea, bairro nobre de Manhattan, os comunistas habitam hoje apenas um andar. Os outros foram alugados, inclusive a loja no térreo, onde ficava a livraria do partido. Uma corretora de imóveis e uma loja de produtos de arte, entre outros inquilinos, ajudam a reforçar o orçamento do partido, possibilitando, há três anos, uma reforma 100% ecologicamente correta na sede.

Ao custo de um milhão de dólares, a reforma fez o partido voltar à mídia – ainda que por poucos dias. Balançando a bandeira da ecologia com o slogan “Pessoas e Natureza antes dos Lucros”, o CPUSA optou por carpetes biodegradáveis, sensores de luz, tinta não-tóxica e janelas imensas para aproveitar a luz natural. Mas sempre com a cor vermelha prevalecendo na decoração.

Se agora eles vivem de doações dos membros e dos aluguéis, a história era outra até o fim dos anos 80. Numa época em que os líderes do partido ainda eram obrigados a usar codinomes para se protegerem, o Kremlin enviava dinheiro regularmente. Entre 1971 e 1990, o CPUSA recebeu, em segredo, 40 milhões de dólares.

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