Estudo para um perfil possível – amilcar neves / ilha de samta catarina


Está dito no Primeiro Livro das Crônicas, que narra uma longa história de primogênitos:

A descendência de Rúben, o primogênito de Israel: Ele era na realidade o primogênito, mas porque profanou o leito de seu pai, o direito da primogenitura foi conferido aos filhos de José filho de Israel, e assim os rubenitas não foram registrados como primogênitos. (1Cr 5,1)

Ele já perdera o raro privilégio dessa primogenitura, perda que via como uma espécie de pecado original pessoal que vinha somar-se ao coletivo. A isso juntava-se a perturbadora questão da mulher: por inspirar nos homens pensamentos impuros, levando à profanação de leitos, não há dúvida de que ela é impura por natureza. E quanto mais virgem e pura for, mais tenazes e tentadoras serão as impurezas pensadas pelos homens. Um mundo sem mulheres permitiria aos homens o convívio pacífico e harmonioso – sem ciúmes nem desconfianças – indispensável ao bom andamento dos negócios públicos e privados e das guerras em geral, que são outra forma de fazer negócios.

Por outro lado, é devastadora a vingança do Senhor pela desobediência “à palavra do Senhor”. A punição faz-se de enorme crueldade e patético derramamento de sangue. A cena é narrada sem meias palavras:

Os filisteus atacaram Israel, e os israelitas fugiram diante deles, caindo muitos feridos mortalmente no monte Gelboé. Os filisteus foram no encalço de Saul e seus filhos e mataram Jônatas, Abinadab e Melquisua, filhos de Saul. Então a luta se tornou mais violenta em torno de Saul e finalmente os arqueiros o acertaram e o feriram. Saul disse ao escudeiro: “Tira a espada e traspassa-me com ela, para que não venham esses incircuncisos e zombem de mim”. Mas o escudeiro se recusou, pois tinha muito medo de fazer tal coisa. Então Saul agarrou a espada e se atirou sobre ela. Quando o escudeiro viu que Saul estava morrendo, também se atirou sobre a espada e morreu. Assim morreram Saul e seus três filhos; toda a família se acabou de uma só vez. (1Cr 10,1-6)

Há, portanto, uma necessidade imperiosa de fugir da zombaria e da humilhação, mesmo à custa da própria vida, mesmo depois de 10 anos porque à época não se tinha à mão a espada do escudeiro.

Aos 23 anos de idade e com diagnóstico de esquizofrenia profunda firmado ainda na tenra infância, a espada do escudeiro chama-se internet e ensina com riqueza de detalhes tudo o que se queira ardentemente saber, seja para o bem, seja para o mal. O esquizofrênico é aquele que cria para si um mundo próprio e nele passa a viver, acreditando na legitimidade da sua vivência. É evidente que esse seu mundo possui diversas áreas de contato com o mundo dito objetivo, ou real, pois o doente come, por vezes trabalha e encontra as pessoas na rua. A medicação prescrita opera algum controle sobre as relações entre ambos os mundos até que, por decisão voluntária, o sujeito deixa de tomar os remédios.

Os inocentes sacrificados em volta apenas estavam com a mesma idade e no mesmo lugar em que, aos 13 anos, ele via a garotada prepotente que o ridicularizava sem piedade, mostrando-lhe quanto ele era perdedor naquele mundo do qual ele se excluía, pois nem a mais feia e desengonçada menina da escola lhe dava atenção.

Realengos os temos quase todos os dias em nossas estradas e nas avenidas das nossas cidades, só que as vítimas inocentes sacrificadas em volta não têm nada a ver com o agressor, que sequer é esquizofrênico, apenas é irresponsável e criminoso por gosto e vontade.

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