Arquivos Diários: 18 abril, 2011

BIBLIOTECA “BARCA DOS LIVROS”, na Lagoa da Conceição, Ilha de Santa Catarina, é matéria da RHBN

Revista de História da Biblioteca Nacional sobre o projeto Barca dos Livros

Biblioteca flutuante
Um barco próprio é a meta para 2011 da Biblioteca Comunitária Barca dos Livros. Fundação atende a cerca de 1,3 mil pessoas por mês gratuitamente, à beira de lagoa de Florianópolis
Alice Melo
Um barco próprio. Esta é a meta da Biblioteca Comunitária Barca dos Livros para o ano de 2011. A biblioteca é uma associação sem fins lucrativos que atende a cerca de 1,3 mil pessoas por mês, à beira da Lagoa da Conceição, em Florianópolis. Seu acervo conta com 10 mil títulos catalogados. Com a compra da barca, a coordenadoria da instituição prevê aumento de 50% no número de pessoas beneficiadas.“Quando comprarmos e reformarmos o barco, vamos assistir todas as pessoas que moram no entorno da lagoa”, diz Tânia Piacentini, coordenadora da Barca dos Livros. “Passaremos a ter um braço itinerante da biblioteca”, explica.

Atualmente, a programação da instituição inclui passeios mensais com música, livros e narração de histórias em uma barca alugada de uma cooperativa vizinha. A intenção é que no futuro visitas diárias consigam atender a todos os 40 mil habitantes espalhados em vários núcleos à margem da maior lagoa da ilha. A assistência atingiria também as pessoas que moram na Costa da Lagoa, um povoado no qual a única via de acesso é aquática.

Segundo Tânia, a meta do ano está prestes a ser batida. Faltam apenas R$ 58 mil para que o veículo possa ser adquirido: “Isso é pouco para uma grande empresa que pode descontar o valor inteiro da doação de seu imposto de renda”. As forças da coordenação, assim, estão voltadas para a captação de recursos. A previsão é de que ano que vem o novo membro da fundação já esteja pronto e já possa navegar pelas águas calmas da lagoa.

O projeto
A biblioteca comunitária foi inaugurada em 2007, quando a casa de dois andares à beira da Lagoa da Conceição foi finalmente alugada. Neste ano, o projeto da ONG Sociedade Amantes da Leitura foi contemplado pela Lei Rouanet e recebeu verba de alguns patrocinadores. A ideia de se criar a Barca dos Livros, no entanto, surgiu bem antes, em 2001.

“Em Florianópolis só existiam duas grandes bibliotecas públicas: uma municipal e outra estadual”, lembra Tânia Piacentini. “Vimos aqui uma necessidade de oferecer à população uma outra fonte de leitura, principalmente às comunidades que cercavam a lagoa”, completa.

Tânia conta que, como membro do júri dos prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), recebia muitos livros de editoras dispostas a concorrer aos títulos. Assim, decidiu juntar as obras com alguns números de sua coleção pessoal e doar a uma instituição. Essa ideia aliou-se à proposta de criar uma biblioteca comunitária em Florianópolis. Daí para frente, começou a corrida pela captação de recursos para que ela surgisse.

Hoje, a Biblioteca Comunitária Barca dos Livros vem obtendo avanços. Recentemente a Prefeitura da ilha reconheceu o projeto e firmou um convênio para o pagamento do aluguel da casa. “Isso foi um grande avanço. O aluguel já representava quase a metade da nossa folha de pagamento. Foi um alívio”, diz Piacentini.

A Barca dos Livros funciona de terça a sábado, das 14h às 20h, na Rua Senador Ivo D’Aquino, 103 – Lagoa da Conceição, Florianópolis. Informações através do blog www.noticias-da-barca.wordpress.com.

JOSÉ MARÍA ARGUEDAS: a luta por uma cultura esquecida – por manoel de andrade /curitiba

1. O suicídio de Arguedas.

No entardecer do dia 28 de novembro de 1969, um sábado, eu aguardava um amigo costarriquense no Café Goyesca, na Praça San Martin, centro de Lima. Era Francisco Rojas, estudante de arquitetura da Universidad de San Marcos, que eu conhecera em março daquele ano,em Assunção. Elechegou com uma frase nos lábios:

— Arguedas se dió un balazo y agoniza.

Há cerca de um mês eu lera, em Cusco, o seu livro Os Rios Profundos e, por meu crescente interesse pelo indigenismo, o poeta Luís Nieto, em Cuzco, aconselhou-me a procurá-lo na Universidade Nacional Agrária deLa Molina, em Lima, onde Arguedas era professor. Eu chegara à capital peruana acerca de duas semanas, mas, envolvido numa intensa atividade cultural, aguardava alguns contatos feitos naqueles dias, a fim de encontrar os caminhos para entrevistá-lo.

A notícia me deixou perplexo, estupefato e olhando fixamente nos olhos de meu amigo eu, repentinamente, me lembrei da minha chegada aLa Paze da morte, alguns dias depois, do guerrilheiro Inti Peredo a quem eu também fizera os trâmites para encontrar. Arguedas já tentara o suicídio, em 1966, decepcionado culturalmente com a política indigenista do Peru, e agora, diante de um espelho, no banheiro da própria Universidade onde lecionava, dera um tiro na cabeça. Deixou para fazer isso num sábado, como confessou em carta, para evitar que os alunos fossem prejudicados. Sempre me perguntei o que leva um escritor ao suicídio, por tratar-se justamente de alguém com um profundo significado da vida, com um mágico compromisso consigo mesmo, com seu tempo e com a humanidade. Havia tantos casos, e alguns muitos tristes, na literatura. Casos que me tocavam mais de perto como o do nosso poeta Pedro Nava, também com um tiro na cabeça, em maio de 1984, no Rio de Janeiro. O “poético” suicídio da grande poetisa argentina, Afonsina Storne, que entrou caminhando pelo mar adentro e desapareceu nas ondas. Os casos mais célebres, de Maiakovski e Hemingway,  e o mais emocionalmente triste, da cantora Violeta Parra.  Quais os motivos de um desfecho tão lamentável para quem tem tanta beleza para dar ao mundo? O sociólogo francês Émile Durkhein fala de causas sociais, provenientes de sociedades carentes de integração, como sempre foi, etnicamente, a sociedade peruana onde viveu e sofreu, culturalmente, o escritor e etnólogo José María Arguedas, viceralmente identificado com a causa indígena.

2. O universo transcultural na obra de Arguedas.

 

Eu respirava ainda na atmosfera cultural d’Os Rios Profundos, em cujas páginas mergulhara nos conflitos de um universo heterogêneo de duas culturas assimiladas pelo jovem Ernesto, o personagem autobiográfico do romance. Foi a obra que me abriu a primeira janela para olhar a paisagem literária do indigenismo através da transculturação, pela qual a oralidade dos povos indígenas da América, aplastada pela colonização espanhola, é resgatada pela palavra escrita da literatura indigenista  — no exemplo pioneiro de Miguel Angel Astúrias, traduzindo do quiché, em 1926, o Popol Vuh, livro sagrado dos maias, seguido por Arguedas e posteriormente por Roa Bastos, com o guarani.   Em Os Rios Profundos esse processo transparece em cada página numa prosa traduzida com poesia e lirismo e onde o quéchua e o castelhano mesclam-se recriando trechos de canções de amor à vida e à natureza:

“Elas só conheciam huaynos do Apurímac e do Pachachaca, da terra morna onde crescem a cana-de-açúcar e as árvores frutíferas. Quando cantavam com suas vozes fraquinhas, pressentíamos outra paisagem; o ruído das folhas grandes, o brilho das cascatas que saltam entre arbustos e flores brancas de cactos, a chuva pesada e tranquila que cai sobre os campos de cana; as quebradas em que brilham flores de pisonay, cheias de formigas vermelhas e insetos vorazes:

 

Ay siwar k’enti!                                         Ai, beija-flor!

amaña wayta tok’okachaychu,                 não fures tanto a flor,

siwar kenti.                                               asas de esmeralda.

Ama jhina haychu                                    não sejas cruel

mayupataman urayamuspa                     desce a beira do rio,

k’ori raphra,                                            asas de esmeralda,

kay puka mayupi wak’ask’ayta               e olha-me chorando junto da água

                                                                vermelha

K’awaykamuway                                    olha-me chorando.

K’awaykamuway                                    Desce e olha-me,

siwar k’enti, k’ori raphra,                      beija-flor dourado,

llakisk’ ayta,                                           toda minha tristeza,

purun wayta kirish’aykita,                   flor do campo ferida,

mayupata wayta                                   flor dos rios

sak’esk’aykita.                                     que abandonaste”.

 

(ARGUEDAS, José María.Os Rios Profundos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977, p.48/49.).

 

       No dia seguinte, domingo, todos os jornais traziam, em manchete, o gesto trágico do grande narrador peruano do século XX. As legendas resumiam que “O escritor José María Arguedas, em frente a um espelho, no banheiro da Universidade Agrária, disparou um tiro nas têmporas, num sábado, para evitar que seus alunos perdessem o ditado das aulas”. O fato enlutou o país e deixou consternados os meios intelectuais, ideólogos e militantes de esquerda, muitas lideranças agrárias e indígenas, sobretudo, com as quais Arguedas tinha contato, defendendo e buscando sua identidade perdida, lutando pela pureza da sua cultura e pela redenção de suas degradantes condições econômicas e sociais. Este foi, na verdade, o dramático enredo biográfico do escritor, como Ernesto, no romance Os Rios Profundos. O crítico literário peruano Antonio Cornejo Polar, analisando Os Rios Profundos no seu contexto indigenista, refere-se ao comprometimento político de Arguedas, quando ele o relaciona à grande sublevação camponesa no Valle dela Convención, nas cercanias de Cuzco, em 1962, transformada em movimento guerrilheiro sob o comando de Hugo Blanco:

        “A exatidão desse enfoque; isto é, sua verdade sociológica, a provava Arguedas com a recente história do Peru, especialmente com o levante camponês de La Convención:

 

          Quatro anos depois (de publicada a novela) deu-se a revolta de La Convención. Eu estava seguro que essas pessoas se rebelariam antes que as comunidades livres, porque estavam muito mais castigadas e muito mais à beira da morte do que as comunidades livres que tinham alguma terra. Aos colonos se impunha essa alternativa: ou invadir as terras ou morrer de fome e nesse caso, o homem, por instinto defende sua vida.

       Estas mesmas idéias estão contidas na primeira parte da estremecedora carta de despedida de Arguedas à Hugo Blanco, líder da revolta de La Convención, na época encarcerado”

(CONEJO POLAR, António. La novela peruana. Lima: Latinoamericana Editores, 3ª ed., 2008, p. 175/175)

3. A carta de Arguedas a Hugo Blanco.

Na sequência Cornejo Polar cita a primeira parte da carta de Arguedas a Hugo Blanco. Contudo, creio ser imprescindível transcrevê-la aqui integralmente, neste ano em que se comemora, em todo o Peru, o centenário de seu nascimento em Andahuaylas, no dia 18 de janeiro de 1911.

No mês em que Arguedasse suicidou, novembro de 1969, o guerrilheiro Hugo Blanco, preso desde 1963, escreve-lhe duas cartas. A primeira no dia 14 e a segunda dia 25, quatro dias antes do tiro que o levou à morte. Foram originalmente escritas em quéchua e retratam a intimidade de ambos com a cosmogonia indígena, expressando, numa linguagem quase sempre poética, a singela grandeza e a cruciante miséria do mundo andino. Mesmo nas vésperas de sua morte, Arguedas não demonstra nenhuma amargura pessoal ao responder ao amigo. Assumindo seu invejável engajamento político como escritor, denuncia, exalta a luta social e política e respira com o ar puro da esperança. Quanto ao guerrilheiro, com sua “pena de morte” comutada para “25 anos de reclusão” não cede um milímetro nas suas convicções, contando a Arguedas as glórias e os calvários de sua “via sacra” revolucionária, do significado de sua luta inabalável pelo movimento indígena e de sua crença no advento de um mundo novo. As duas cartas de Hugo Blanco e a resposta de Arguedas estão entre os mais belos documentos indigenistas que tenho lido.[1] Contudo transcrevei aqui apenas a resposta de Arguedas:

Irmão Hugo, querido coração de pedra e de pomba

 

Talvez já tenhas lido o meu romance “Os Rios Profundos”. Lembra, irmão, o mais forte, lembra. Nesse livro não falo apenas de como chorei lágrimas ardentes; com mais lágrimas e com mais arrebatamento falo dos pongos, (arrendários indígenas) dos colonos de fazenda, de sua escondida e imensa força, da raiva que no âmago de seu coração arde, em fogo que não se apaga. Esses piolhentos, diariamente flagelados, obrigados a lamber a terra com suas línguas, seres desprezados pelas mesmas comunidades, esses, na novela, invadem a cidade de Abancay sem temer a metralha e as balas, vencendo-as. Assim obrigavam o grande pregador da cidade, o padre que os olhava como se fossem pulgas; vencendo as balas, os servos obrigam o padre a rezar missa, a que cante na igreja: impuseram-lhe pela força. Na novela imaginei esta invasão com um pressentimento: somente os homens que estudam os tempos vindouros,  os que entendem de lutas sociais e de política, compreendem o que significa  esta sublevação na tomada da cidade como imaginei. Como, com o sangue ainda mais quente se levantariam esses homens, não para perseguir apenas a morte da mãe da peste, do tifo, mas aos gamonales, (caciques mestiços que esploram os indígenas) no dia em que vençam o medo e o horror que têm deles! “ Quem há de superar esse terror formado e alimentado durante séculos, quem? Em algum lugar do mundo existe esse homem que os ilumine e salve? Existe ou não existe? Caralho, merda!”, digo isto porque tu choravas fogo, esperando sozinho. Os críticos da literatura, os mais ilustrados, não descobriram a princípio o objetivo final da novela, aquele que coloquei em seu miolo, no meio mesmo de sua corrente. Felizmente um, um somente, descobriu e o proclamou abertamente.

 

E depois, irmãos? Não foste tu, tu mesmo quem encabeçaste a esses “pulguentos” índios de fazenda, dos pisoteados o mais pisoteado homem do nosso povo; dos asnos e os cachorros o mais enxotado, o cuspido com o mais sujo escarro? Convertendo esses no mais valoroso dos valentes, não os fortaleceste? Não te aproximaste de sua alma? Ergueste a alma, a alma de pedra e de pomba que tinham, que estava esperando na mais pura semente do coração desses homens. Não tomaste Cusco como me dizes em tua carta, e da mesma porta da catedral, bradando e denunciando em quéchua, não espantaste os gamonales, não fizeste que se escondessem em seus buracos como se fossem periquitos muito doentes das tripas? Fizeste correr a esses filhos e protegidos do antigo Cristo, do Cristo de chumbo. Irmão, querido irmão, como eu, de rosto algo branco, do mais intenso coração índio, lágrima, canto, dança, ódio.  

 

Eu irmão, somente sei chorar lágrimas de fogo; mas com esse fogo tenho purificado a cabeça e o coração de Lima, a grande cidade que negava, que não conhecia bem seu pai e sua mãe; abri um pouco seus olhos, os próprios olhos dos homens do nosso povo, limpei-os um pouco para que vejam melhor. E nos povos que chamam estrangeiros, creio que levantei nossa verdadeira imagem, seu valor, seu valor verdadeiro, creio que a levantei bem alto e com luz suficiente para que nos estimem, para que saibam e possam esperar nossa parceria e nossa força; para que se apiedem de nós como do mais órfão dos órfãos; para que não sintam vergonha de nós, e de ninguém.

 

Essas coisas, irmão, esperadas pelos mais escarnecidos de nossas gentes, essas coisas nós fizemos; uma a fizeste tu e eu fiz a outra, irmão Hugo, homem de ferro que chora sem lágrimas; tu, tão semelhante, tão igual a um comunero, (habitantes indígenas das comunidades camponesas) lágrima e aço. Eu vi teu retrato numa livraria do bairro latino de Paris; enchi-me de alegria, vendo-te junto a Camilo Torres e a “Che” Guevara. Ouça, vou confessar-te algo em nome de nossa amizade recém-começada: ouça, irmão, somente ao ler tua carta senti, soube que teu coração era terno, é flor, tanto como o de um comunero de Puquio, meus mais semelhantes. Ontem recebi tua carta: passei a noite inteira, primeiro andando, e depois me inquietando com a força da alegria e da revelação.

 

Eu não estou bem, não estou bem; minhas forças anoitecem. Mas se agora morro, morrerei mais tranquilo. Esse formoso dia que virá e de que falas, aquele em que nossos povos voltarão a nascer, vem, sinto-o, sinto na menina dos meus olhos sua aurora, nessa luz está caindo gota por gota a tua dor ardente, gota por gota sem se acabar jamais. Temo que esse amanhecer custe sangue, muito sangue. Tu sabes e por isso denuncias, bradas da prisão, aconselhas, cresces. Como no coração dos runas (índios peruanos de fala quéchua) que me cuidaram quando era menino, que me criaram, existe ódio e fogo contra os gamonales de toda laia; e para os que sofrem, para os que não têm casa nem terra, os wakchas, (comunidade indígena na província de Cusco) tens peito de cotovia; e como a água  de alguns mananciais muito puros, amor que fortalece até regozijar os céus.  E todo o teu sangue soube chorar, irmão. Quem não sabe chorar, sobretudo em nossos tempos, não sabe do amor, não o conhece. Teu sangue já está no meu, como o sangue de Don Victo Pusa, de Don Felipe Maywa, Don Victo e Don Felipe me falam dia e noite, choram sem cessar dentro de minh’alma, me censuram em sua língua, com sua grande sabedoria, com seu pranto que alcança distâncias  que não podemos calcular, que chega mais longe que a luz do sol. Eles, ouça Hugo, me criaram, amando-me muito, porque sabendo que eu era filho de misti, (homem branco) viam que me tratavam com desprezo, como a índio. Em nome deles, recordando-os em minha própria carne, escrevi o que tenho escrito, aprendi tudo o que tenho aprendido e feito, vencendo barreiras que às vezes pareciam inacreditáveis. Conheci o mundo. E tu também, creio que em nome de runas semelhantes a eles dois, sabes ser irmão do que sabe ser irmão, semelhante a teu semelhante, ao que sabe amar. Até quando e até onde hei de te escrever? Já não poderás esquecer-me. Ainda que a morte me agarre, ouça, homem peruano, forte como nossas montanhas onde a neve não se derrete, a quem a prisão fortalece como a pedra e como a pomba. Eis aqui que te escrevo, feliz, em meio da grande sombra de meu mortal sofrimento. A nós não nos atingem a tristeza dos mistis, dos egoístas; chega-nos a tristeza forte do povo, do mundo, dos que conhecem e sentem o amanhecer. Assim a morte e a tristeza não são nem morrer nem sofrer. Não é verdade, irmão?

Recebe meu coração

José María 

 

Naquele fins de 1969 o nome de Arguedas e de Hugo Blanco eram lembrados nos encontros com gente de esquerda com quem eu conversavaem Lima. Traduzidasdo quéchua as três cartas foram publicadas e eram lidas e comentadas sobretudo por intelectuais comprometidos com o indigenismo. Não somente se lamentava a morte do escritor mas se rememorava a saga do famoso guerrilheiro peruano, então cumprindo a pena de 25 anos na ilha penal de “El Frontón”, onde chegou em 1966 transferido da prisão de Arequipa. Arguedas, como romancista, poeta, antropólogo e professor já era um escritor reconhecido nacionalmente, com muitos prêmios,altos cargos universitários e distinções acadêmicas.

Ele era a mais honrosa referência intelectual do indigenismo e neste sentido uma referência nas reuniões literárias daqueles dias que sucederam o suicídio do escritor. Toda a obra de Arguedas e sobretudo Todas las sangres – que motivou a primeira carta de Hugo ao autor, depois de receber o livro na prisão —  é um exemplo de compromisso com a história do povo indígena, seja como  receptor secular de inomináveis injustiças e de vítima encurralada pelos longos conflitos agrários entre o “feudalismo” colonial e o capitalismo, seja pela sua dimensão nacional discutindo o destacado papel do índio nas transformações da sociedade peruana, cuja causa Arguedas sempre defendeu, seja alimentando, como escritor, o sonho de uma comunidade indígena modernizada e integrada na sociedade peruana.

3. O centenário de Arguedas.

 

Congratulo-me com o escritor e amigo Enrique Rosas Paravicino pela excelência e precisão com que traçou, — no estrato de sua conferência sobre o primeiro centenário de nascimento de Arguedas, publicada neste site — o justo perfil do grande narrador peruano: “cuya estatura intelectual, moral y estética se halla al nivel de los más insignes exponentes de la cultura latinoamericana del siglo XX.”. A essa belíssima imagem literária eu acrescento a do abnegado militante pela causa indígena,  dedicando-lhe sua imensa alma de poeta, explícita no lirismo de sua carta a Hugo Blanco, bem como de seu incansável trabalho como antropólogo, numa luta obstinada para preservar a cultura dos seus antepassados incas e que, num gesto trágico, meteu uma bala na cabeça indignado pelo desprezo com que se tratava a cultura quéchua no Peru.

      Quantas homenagens está fazendo o Peru nesta oportunidade a um de seus filhos mais queridos e ilustres, mas também tão incompreendido nos últimos anos de sua vida! Por certo não foi o gatilho que ele acionou em novembro de 1969 que o matou. Arguedas “foi morto” lentamente pela indiferença ou pela inveja de alguns “grandes intelectuais” peruanos que não quiseram ver a sua genialidade. Sua mais importante novela Todas las sangres, de 1964, que tanto sensibilizou Hugo Blanco, é um vigoroso enredo indigenista que traça o perfil moral e cultural do homem andino ante os conflitantes interesses trazidos pelo progresso e pela voracidade e crueldade da ambição. Contudo foi tratada com desprezo pelos “sábios” do Instituto de Estúdios Peruanos e rejeitada como texto de estudos sociológicos, em 1965. O reconhecimento posterior da grandeza cultural dessa obra provou que eles estavam errados, contudo o justo ressentimento de Arguedas, explicitado em sua carta de despedida, foi por certo o primeiro tiro que atingiu seu coração:

Creio que hoje minha vida deixou, completamente, de ter razão de ser. Destroçado meu lar pela influência lenta e progressiva da incompatibilidade entre minha esposa e eu:  convencido da inutilidade ou impraticabilidade de formar um novo lar com uma jovem a quem peço perdão; quase demonstrado por dois sábios sociólogos  e um economista, também hoje, que o meu livro “Todas las sangres”  é negativo para o país, não tenho mais nada para fazer neste mundo.


Creio que minhas forças declinam irremediavelmente.

 

Peço perdão aos que me estimaram por tudo de incorreto que tenha feito contra alguém, ainda que não me lembre nada disso. Tentei viver para servir aos outros. Eu vou ou irei para a terra em que nasci e procurarei morrer ali de imediato. Que me cantem em quíchua de vez em quando, onde quer que seja enterrado em Andahuaylas, e ainda que os sociólogos encarem como piada esse apelo  — e com razão  — acredito que o canto me chegará não sei onde nem como.


Sinto algum terror ao mesmo tempo que uma grande esperança. Os poderes que dirigem aos países monstros, especialmente aos Estados Unidos, que, por sua vez, dispõem o destino dos países pequenos e de todas as pessoas, serão transformados. Talvez haja para o homem em algum tempo a felicidade. A dor existirá para que seja possível reconhecer a felicidade, vivida e transformada em fonte de infinito e triunfante alento.

 

Perdão e adeus. Que Célia e  Sybila  me perdoem. 

 

José María Arguedas.

 

(O quíchua será imortal, amigos desta noite. E isso não se mastiga, só se fala e se escuta.).


[1] Os textos traduzidos, em cursivas, —  exetuando-se o primeiro, já com a referência bibliográfica da edição brasileira,  — esta nota e as anotações em parêntesis, na carta de Arguedas, são do autor. Pelos limites deste artigo deixo de transcrever aqui as duas cartas de Hugo Blanco a Arguedas. Contudo os três documentos foram publicados em 2009 no site peruano “Lucha Indígena”, onde o leitor interessado poderá lê-las comentadas, no link:

http://www.luchaindigena.com/2009/05/cartas-entre-jose-maria-arguedas-y-hugo-blanco/comment-page-1/

Documentário “Inside Job” escancara os podres de Wall Street

Filme revela como agentes econômicos permitiram que nações quebrassem e gerassem um rombo de US$ 20 trilhões

Gravações foram feitas nos Estados Unidos, Inglaterra, Irlanda, França, Cingapura e China

São Paulo – Um documentário que custou 20 trilhões de dólares. Cifra exorbitante? Talvez não para os responsáveis pela quebradeira que ocasionou o tsunami da crise financeira de 2008, quando milhares de pessoas perderam seus empregos e suas moradias.

Indicado ao Oscar como melhor documentário e conduzido pelo diretor Charles Ferguson, “Inside Job” (Trabalho Interno) é mais um filme que retrata os lados obscuros de Wall Street. Narrado por Matt Damon, o documentário revela verdades incômodas da pior crise já vista desde 1929.

Baseado em uma extensa pesquisa e séries de entrevistas com políticos, economistas e jornalistas, o filme revela as corrosivas relações de governantes, agentes reguladores e a Academia. “Inside Job” expõe também uma teia de mentiras e condutas criminosas que prejudicaram seriamente a vida de milhões de pessoas, principalmente por conta de cobiça, cinismo e mentiras.

“Se você não ficar revoltado ao final do filme, você não estava prestando atenção”, diz uma das frases promocionais do documentário. A revolta é clara: a principal economia do mundo mergulhou em uma forte crise, levando consigo diversas nações.

Os causadores de tudo isso já voltaram a dar “conselhos” para governos e sociedades. Ou seja, permanecem dando as cartas na mesa. Algumas das mais novas vítimas são gregos, irlandeses, espanhóis, portugueses e outros povos europeus que estão sendo “convidados” a “aceitar a ajuda do FMI”. E quem será o próximo?

A estreia do documentário no Brasil aconteceu no dia 18 de fevereiro. Confira o trailer do filme a seguir:

http://www.youtube.com/watch?v=FzrBurlJUNk&feature=player_embedded#at=15

revista EXAME.

Aécio Neves com a carteira de motorista VENCIDA se recusa a fazer teste do bafômetro

Aécio Neves tem habilitação apreendida em blitz da Lei Seca no Rio

Assessoria diz que senador não sabia que documento estava vencido.
Tucano também se recusou a fazer teste do bafômetro, diz governo do Rio.

a grande e “séria” imprensa brasileira ( de 6 familias) deram ínfimas notinhas ao MAU EXEMPLO dado pelo senador ao rodar fora da lei e a recusar-se cumpri-la. um pequeno exercício de imaginação: fosse o ex-presidente LULA? como seria o “fantástico”? as manchetes das 6 familias? a edição “extraordinária” do Jornal Nacional? imaginem um pouco.