JAIRO PEREIRA: “DA GUSTO VIVER COMO UNO SELVAGEM POETA DESNUDO POR ESTA TERRA BRASILIS” / quedas do iguaçu.pr

Desfiar o cordão dos signos, reflexo de sua indignação, aliado a talento e força de investimento no estético, isso é o que faz Douglas Diegues. Arremeter, o poeta, sem piedade (esse sentimento pífio) contra os fantasmas de suas noites indormidas. A poesia como instrumento de aceleração do processo de discórdia com a época e a vida que a época impõe.

De todos os ímpetos, o mais sublime é o poético. Um estar no mundo das coisas :coisa: sujeito a tudo. Um objeto no objetário-vida. Uma coisa no coisário. Sujeito e objeto da mesma relação. Viver e apreender é mesmo com o agente poético. Senhor de si e de seu ofício. Claro que para haver resultado e boa poesia, é de se ter linguagem. Linguagens, em estado de ossos, esperma, suor, espinhos, esporos espalhados pelo chão. Desse quase-nada, soprado de ventos intrafluxos, é que a poesia se constrói. Viver e aprender, viver e ensinar. Explorar os sistemas de se conduzir, criar, amar, num mundo doido que se recusa ao pensamento/conhecimento, e mais ainda, se recusa à experiência da poesia. No hay de haver poesia sem imaginacion i ato. Explorar os símbolos brutos, repentinos, da verve do artista insurreto. O poeta Douglas Diegues sabe como ninguém o que é andar desnudo por essa imensa geografia da terra brasilis. São trinta sonetos pérfido-encantatórios, a começar com a ciudade morena Campo Grande, num Mato Grosso do Sul de divérsicas associações: inteligência e degredo, indiferença e paixão poética, beleza femilúnica e idiotia político-culturale.

falsa virgem ciudade morena

vas a aprender ahora com quanto esperma se faz um bom

poema

Aproveitar bem as falhas do sistema, um norte a seguir, como reza a sentença do bardo blasfemo em sua quixotesca e solitária luta, numa postura de quem não deve nada e cobra pouco. Cobra só um mínimo espaço pra poesia. Um mínimo espaço para o homem e sua liberdade. É de se cobrar e cobra o bardo alucinado, um lugar no antilugar (os poetas sempre quiseram isso) do aquáriovida. Pôr um pouco de esperma, bosta e algodão-doce no status quo do capital especulativo. Adicionar mais significante e significado nas sentenças que os sonetos transgridem. Dá gusto de ver os golpes pela língua fítria, a espada penetrante na carne da mediocridade oficialesca.

resiste, mano, em la región más desejada

confia en el fogo de la palabra

escribe com tu berga um bom poema

 

Antropológica, antropocênica e visceral a poesia de Dá gusto andar desnudo por estas selvas – Sonetos Salvajes. Construída em empírico terreno, a força das palavras transcende os domínios que o poeta possa ter da língua, seja o português do Brasil ou o Portunhol propriamente. É voz de autor, acelerada, reverberante, plena de intenções transgressoras.

donde mora lo perigo y la loucura

no basta llegar allá – entre los primeros

cuidado com los golpes rasteros

 

A poesia contemporânea, com raríssimas exceções, navega na releitura, conformação lingüística e desapego à vida. Este talvez, o seu maior erro. Douglas ousa, em ser originalíssimo. Bibidor e blasfemo. Sua lira de escárnio e tentações indominadas, aflora tensa e mal-humorada. O poeta não se trai, no que é, e expõe (como mercadoria na feira das intenções) sua indignação existencial. Esses ditos, tempestuosos sobre nossa imensa geografia de conformação i covardia, são fogos cuspidos do céu.

corro el risco de ser diferente

antecipo la invenção del futuro hoje

olvido tudo lo que ouvi sobre la palabra

 

O olhar do poeta filtra a realidade, mas filtra com outra qualidade. Filtra e suja, filtra e mistura. Filtra e desafina o coro dos contentes. Põe bruma no céu azul. Põe sal e esperma na paisagem, com os sujos da alma antropomística de selvagem inspirado. Uno raivoso cão errando pelos chacos das linguagens. Porque não escrever sonetos-sonetos, sonetos corretos, poesia de razão e fineza!? Por que não se faz a vida do poema com uma vida outra do poeta. Vida que nem ele mesmo conhece. Em Douglas Diegues a vida do poema e a vida do poeta são as mesmas, e o verbo vem furioso (selvagem) e nos assalta com as razões inexplicáveis de sua des-razão.

em las brumas de este film real como tu olho

bocê se cree gran cosa mas no passa de um piolho

A revolução da poesia se dá por ação e golpes baixos. O prazer da ofensa tem grande valor. A revolução da poesia ocorre na consciência do poeta. Anti-solipsista, quer se dar a conhecer a todos, ganha a rua, e conquista um leitor aqui outro lá.

Da leitura destes sonetos thurvos e mal-educados, rancorosos até, & de ira-santa, brota uma lição grandiosa, como flor no esterco dos vacuns: poesia é de dizer com sua própria boca, ancha de impurezas do pensar e sentir. De nada nos servem os belos discursos, isentos de vida. Uma flor na lapela da miséria espelha muito mais esses tempos bicudos. Uma flor-matriz pra muitos cantos desesperados, como são os deste livro.

Holístico o entendimento do poeta, concentra numa mônada, extensões de espaço e pensar, como demonstra excerto do soneto 16, pg. 23.:

em los jardins de la mudanza

aprende com la simplicidad del vento

sin que se le pueda notar el movimento

el universo danza

 

A lógica do sistema e a lógica transdeliriológica do poeta, em embate cósmico: dois sistemas contrários, dialéticos, de propulsão da arte e da poesia. Dois comportamentos diametralmente opostos. O poeta não compartilha dos delírios coletivos, mas sim do seu grande e autoideológico transdelírio, que não é só verbal, mas imagético, comportamental & de insurgência no social:

de nada me serve o conforto da lógica aristotélica – penso

lo que digo – corro el risco quando estou em paz comigo

duermo legal até em colchón de vidrio

 

 

Poesia, não é mais espelho da alma romântica. Em nosso tempo é catana, apta aos grandes embates. Política, resistente, imprecativa, transgressora, revolucinária de linguagem. Douglas Diegues sabe disso, e impõe o gesto bruto.

Como um chinês amigo que nos brinda com uma orquídea, Douglas Diegues na sua loucura de criação, nos joga estes Sonetos Salvajes, cuspidos de afetosa. Mostra que a poesia é suja, insubserviente, malvivida, atentatória aos costumes e às tradições do belo pelo belo. Ganha a lira contemporânea, em muitas medidas, ganham os leitores devotados da poesia, os mesmos quinhentos e poucos que erram por aí no inutiliartismo das relações. Para os poetas, fica outra lição mais que singela, selvagem até, como os graxains enfadados de Ponta Porã, non atirar antes de vier la caça.

com esa mescla de bosta e algodon doce este soneto ahora

finda para que estes dias banais no fiquem

mais banales ainda.

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: