Arquivos Diários: 7 maio, 2011

Mãe portadora de síndrome de down revela detalhes de seu dia a dia

Três anos após dar à luz, mãe portadora de síndrome de down revela detalhes de seu dia a dia

Tatiane Moreno

Fábio e Gabriela oficializaram a união em 2009 e a filha do casal foi a dama de honra

Foto: Arquivo PessoalAmpliar +

“Calma gente, não está doendo, está tudo bem”. Era dessa forma que Maria Gabriela Andrade Demate, portadora de síndrome de down, tentava acalmar os pais e os dois irmãos ao seguir para uma maternidade em Campinas, no interior de São Paulo, onde daria à luz sua primeira filha.

Com 27 anos, ela engravidou do marido, o estudante Fábio Marchete de Moraes, com quem já mantinha um relacionamento há 3 anos e meio.

Os dois se conheceram na APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), por volta dos 7 anos de idade, mas logo Fábio, que tem retardo intelectual devido a um acidente vascular pós-parto, saiu da escola. Anos depois, quando retornou, Gabriela já namorava outro rapaz que também tinha síndrome de down, porém ela se lembrou dos presentinhos que ganhava do colega de infância e ficou balançada. “Ele me dava caixa de bombom, correntinha, dava tudo”, relembra Gabriela.

Durante algum tempo, a estudante se viu em um triângulo amoroso, mas logo que se deu conta da situação a comerciante Laurinda Ferreira de Andrade, de 55 anos, disse que a filha precisava se decidir com quem realmente queria manter um relacionamento. ”Ela ficou levando o Erick e o Fábio no banho-maria, mas chegou uma hora que falei: você pode até namorar, mas só um, porque desse jeito você já está exagerando. Foi aí que ela optou pelo Fábio, com quem está até hoje”, revela a mãe da moça.

A decisão não foi muito difícil, já que a aluna cobiçada usou um critério muito simples que não deixou qualquer dúvida na hora da escolha. “O Fábio saía à noite para comer lanche, ia na praça, fazia tudo, e o outro não”, conta Gabriela.

Com o apoio dos pais, o casal reatou o romance e, passado algum tempo, não conseguia mais se desgrudar.

“Quando começaram a namorar os dois não queriam mais se separar, ficavam juntos o tempo todo. Com seis meses de namoro ninguém segurava mais. Foi ai que resolvemos colocar uma cama na minha casa e uma cama na casa da sogra dela e os dois passavam um tempo em cada lugar até que não se desgrudaram mesmo. Como o Fábio tem mais dificuldade de largar a mãe dele, os dois mudaram para lá”, diz Laurinda.

Como qualquer outro casal, Fábio e Gabriela mantinham relações sexuais frequentes, porém não imaginavam que poderiam gerar um filho. Na época em que descobriu a gravidez, a jovem já tinha passado por pelo menos três médicos que garantiram que ela não tinha chances de ter um bebê. Porém, um geneticista alertou que isso poderia ocorrer, sim, sem esperar que ela já estivesse grávida.

“Lembro que fiquei encantada com a ideia, mas a Gabriela foi categórica ao dizer que não queria ser mãe porque filho dava muito trabalho. Como ela tomava anticoncepcional e começou a sentir umas dores de estômago, a levei ao médico para colocar um método contraceptivo intra-pele e nesse ir e voltar ela já estava grávida”, afirma a comerciante.

A surpresa da gravidez

Laurinda, mãe de Gabriela, percebeu que a filha estava mais “cheinha”, mas nunca imaginou que ela pudesse estar esperando um filho. “Eu sempre chamava a atenção dela por estar comendo muito e achei estranho o tamanho da barriga, porém não liguei muito. Foi quando o Fábio contou para um amigo que a barriga dela estava dando socos. Ao levá-la ao médico descobrimos que a Gabriela estava de seis meses. A Valentina nasceu com oito meses e alguns dias, o que quer dizer que eu soube da gravidez e exatamente dois meses depois minha neta já tinha nascido”, recorda.

A maior preocupação dos familiares foi em relação ao fato da estudante não ter feito o pré-natal e não ter acompanhado a gestação. “Durante a gravidez ela fez natação, equitação, musculação e estava fazendo balé, então era um ritmo de exercício físico imenso”, afirma Laurinda.

Porém, enquanto a mãe se descabelava, Gabriela mantinha a calma e o otimismo. “Ela nunca teve medo de nada porque sempre foi muito conversado esse tipo de coisa em casa. Só ficou um pouco com receio da cesárea porque queria tentar o parto normal, mas expliquei que era muito mais difícil e ela aceitou numa boa”.

Laurinda acabou dando todo o apoio que ela mesma não teve quando a filha nasceu. Há 30 anos, não se tinha nenhuma informação sobre o que era a síndrome de down. “O meu sonho era ter uma menina, porque eu já tinha um menino de quatro anos, e você espera sair de um parto com um filho lindo, maravilhoso e perfeito, de preferência o mais lindo da maternidade. Foi um choque quando um dos médicos disse que ela iria andar, falar, teria problemas cardíacos e iria morrer”, relata.

A notícia caiu como uma bomba. Desorientada, a comerciante procurou um geneticista para saber detalhes da enfermidade e chegou a passar dias trancada dentro de casa, chorando, sem querer mostrar a filha para ninguém. “Um dia uma amiga minha chegou e falou: não tem o que fazer, é para sempre. Não é uma coisa que tenha cura, mas se você estiver mal e quiser ficar trancada dentro de casa será uma opção de vida sua. Agora, se você quiser sair com ela e enfrentar o povo, que com certeza vai ‘cair matando’, é outra opção sua. Nisso me deu um estalo, me questionei por quanto tempo ia ficar ali chorando e decidi encarar o mundo. Vesti minha filha com a melhor roupa, a embonequei mesmo, e fui para a rua”, lembra.

A chegada de Valentina

Laurinda lembra que durante a gravidez de Gabriela ficou bastante perdida por conta da rapidez em que os fatos aconteceram. ”Costumo dizer que fiquei cega, surda e muda neste período. No dia em que a bolsa estourou, eu estava na maior correria, com pedreiros em casa construindo o quarto que seria da Valentina, e não percebi que ela estava prestes a ter a criança. Por volta das 7h da manhã, a Gabriela me disse que tinha feito xixi na cama, mas só na hora do almoço é que eu fui descobrir que na verdade a bolsa tinha rompido, mesmo porque ainda não estava no tempo do parto. Foi uma loucura, fomos voando para Campinas e ela tranquilizando a gente. Eu quase morri”, diverte-se.

Valentina chegou ao mundo um mês antes do previsto sem herdar a síndrome de down da mãe e a deficiência intelectual do pai. “Minha neta é uma verdadeira benção, linda, maravilhosa, inteligente e meiga. É a consequência da vida que a Gabriela sempre levou. Eu fiz questão de que ela tivesse uma vida normal, que conseguisse o máximo que quisesse na vida e sempre procurei realizar todos os seus sonhos na medida do possível. As pessoas acham que os deficientes não têm sonhos, só precisam de cuidados, mas isso não é verdade. Eles têm muitos sonhos”, alerta.

Papeis invertidos

Embora não more com a filha, que hoje tem 3 anos, Gabriela orgulha-se ao falar de Valentina e lamenta quando sua mãe, que é quem cria a menina, precisa dar algumas broncas. “Ela passa mal sempre que vê a gente chamando a atenção da Valentina e diz que não gosta porque sente um aperto no peito. É o instinto materno mesmo”, afirma Laurinda.

Valentina foi registrada pelos pais biológicos após a avó enfrentar algumas dificuldades no Cartório de Registro Civil da cidade de Socorro, onde moram. “Eu não tinha dúvidas de que isso seria possível, só gostaria que tivesse sido com mais respeito”, conta ela que passou cerca de dois meses lutando para que o local aceitasse o pedido depois de alegarem que Fábio não conseguia declarar a paternidade, nem dizer seu endereço residencial.

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No dia a dia, Gabriela costuma levar a filha à escola com a mãe e adora brincar com a menina. “Ela me chama de mãe, a gente pula na cama elástica, assiste televisão. Ela é bem boazinha comigo”, diz a jovem que também não poupa elogios à mãe. “Ela [Laurinda] me leva até café na cama e eu ajudo a arrumar a cozinha”, ressalta.

Segundo a avó, Valentina é bastante apegada à mãe. “Ela é completamente apaixonada pela Gabriela e a chama de minha mamãe gorducha (risos). Quando ela chega, a Valentina já fica cheia de manha, faz birra. Acabei meio que assumindo o papel de mãe e ela o de avó, que deixa fazer tudo”, confessa.

Ao ser questionada pelo eBand se gostaria de ter outro filho, Gabriela é categórica. “Não, eu operei, um já está bom”.

Enfim, casados

Um ano após o nascimento de Valentina, Gabriela e Fábio oficializaram a união com direito a uma festança que movimentou a pacata cidade de Socorro. “Fizemos uma cerimônia religiosa no melhor clube no dia 19 de março de 2009, quando minha neta completou 1 ano. A Gabriela casou de branco e a Valentina entrou de daminha”, conta a avó.

Gabriela também lembra a data com carinho. “Foi muita gente, estava tudo lotado, minhas tias, meus tios, meu pai”.

Durante a entrevista, ela estava passando alguns dias na casa da mãe, perto da filha e longe do marido. “Eu estou doentinha e a Valentina também. O Fábio está lá na nossa casa, cuidando, mas ele liga todo dia porque está com saudade”, diz envaidecida.

eband.

CÂMARA APROVA PLEBISCITO SOBRE CRIAÇÃO DE DOIS NOVOS ESTADOS NO BRASIL

A Câmara dos Deputados aprovou nesta quinta-feira (5) um plebiscito para a população decidir se concorda com a criação de dois novos Estados no Brasil: o Estado do Carajás e o do Tapajós, ambos como desmembramento do Pará.

Conforme o texto, Carajás terá 39 municípios, no Sul e Sudeste do Pará, com área equivalente a 25% do território atual do Estado e Tapajós terá 27 cidades e ficará localizado a oeste do Estado, ocupando 58% de sua área atual.

As duas propostas voltam agora para o Senado, onde também precisam ser aprovados para que o plebiscito seja realizado.

A Constituição determina que a criação de novos Estados só aconteça depois de um plebiscito em que a população diretamente interessada participe.

Em seguida, um projeto de lei complementar é enviado ao Congresso que, depois de aprovado e assinado pela presidente, permite a criação do novo Estado.

O Gruyère suíço: Como é feito o melhor queijo do mundo / por haroldo de castro / são paulo

A panela de esmalte vermelho apareceu sob ovações. Dentro, uma massa de queijo derretido exalava um aroma embriagante. Como a receita da fondue inclui vinho branco e como eu era um pirralho de sete anos, só tive autorização para comer dois pedacinhos de pão banhados nessa mistura mágica. Foi durante esse jantar nos Alpes que escutei a palavra Gruyère pela primeira vez. A partir daquele noite, para mim, passaram a existir muitos queijos, mas apenas um seria o soberano: o meu Gruyère.

O ancestral do Gruyère tem provavelmente 900 anos. A primeira menção de sua preparação na região data de 1115, quando Guilherme, o primeiro Conde de Gruyères (o nome do vilarejo leva um “s” no final), fundou um monastério em Rougemont para apoiar os camponeses na fabricação do produto local.

Vaca leiteira no pasto natural, ao pé do castelo de Gruyères e da torre da igreja.

Mas por que preparar queijo? Em uma época sem geladeiras, conservantes e Tetra Paks, como faziam os antigos europeus para que um alimento tão nutritivo como o leite pudesse ter uma vida mais longa? As frutas estão para a compota, assim como o leite está para o queijo. O queijo foi criado como uma “conserva” do leite, para evitar o desperdício de seus sais minerais e proteínas.

Com suas tradicionais bochechas rosadas, Joseph Doutaz parece ter bem menos de 80 anos de idade.Forte e bem disposto, ele aprendeu a fabricar esse manjar aos 16 anos, quando passou o verão em um chalé nas montanhas, ajudando o pai com seu rebanho. Isolados nas alturas e sem comercializar o leite diariamente, produziram dezenas de peças do Gruyère chamado Alpage.

Ele revelou alguns de seus segredos. “Para fazer um bom queijo, preciso de um leite de excelente qualidade, sem impurezas. As vacas devem comer bem – 120 quilos de pasto por dia – e beber 100 litros de água”, explicou Joseph. “Bem alimentado, cada animal pode produzir 25 litros de leite”.

Depois de fermentado, coalhado, cortado e elevado a uma temperatura de 56 graus C, cada 11,5 litros de leite se transforma em um quilo de Gruyère. “É o próprio queijo que decide quando ele está no ponto. O queijeiro precisa saber ouvir”, confessou Joseph, que nunca se distrai durante a preparação. “Podemos perder centenas de litros de leite por um instante de desatenção”.

O processo de fabricação do queijo na Casa do Gruyère é moderno e impecável. Quatro caldeirões de cobre, de 4.800 litros cada, geram diariamente centenas de peças redondas que poderão ser batizadas como Gruyère. Cada uma pesa 35 quilos. Os queijos passam seus primeiros três meses em um quarto a 14 graus C de temperatura. A cava de maturação da Casa do Gruyère pode albergar mais de 7.000 itens, cuidados por um robô. A máquina retira a peça, passa água salgada na crosta e a devolve à prateleira.

Em um dos quatro caldeirões de cobre da “Casa do Gruyère”, 4.800 litros de leite são transformados em centenas de queijos de 35 quilos. Apesar da alta tecnologia, os queijeiros sempre estão atentos ao ponto da massa.

Joseph Doutaz fez questão que eu entrasse com ele na câmara de maturação. Quando abriu a porta, um odor ácido – parecido com uma mistura de amoníaco e coalhada – penetrou pelas narinas. Ele riu da minha reação e foi direto às prateleiras onde os queijos atravessam o período de maturação. “Um Gruyère só é digno do nome quando passa por um mínimo de cinco meses de cura”, esclareceu o queijeiro. “Mas com mais de um ano de idade, seu sabor é ainda mais pronunciado”.

Encontramos nas prateleiras dezenas de Gruyère Alpage. “Eles são produzidos nas montanhas. No verão, quando o rebanho está nas pastagens de altura, ordenhamos as vacas e fazemos o queijo lá mesmo”, revelou Joseph. “O leite tem outro sabor, pois o gado consome grande quantidade de flores e ervas. Os perfumes de violetas, margaridas, trevos, castanhas ou nozes passam para o produto”. Como as peças devem ser transportadas a pé, elas são menores. “Pesam 20 quilos. Utilizamos um pássaro para transportá-los até o vilarejo mais próximo”, explicou Joseph.

Um pássaro? Imediatamente imaginei uma águia amestrada levando em suas garras as peças cilíndricas através dos céus alpinos. Joseph notou minha perplexidade e ignorância. “O pássaro é uma armação de madeira colocada nos ombros. Ela inclui uma plataforma redonda, apoiada sobre a cabeça, onde se empilha os queijos. Quando eu era jovem, conseguia descer das montanhas com quatro”.

O mestre queijeiro Joseph Doutaz, vestido com seu tradicional Bredzon, mostra a utilização do “pássaro”, utensílio de madeira para facilitar o transporte das peças de queijo desde as montanhas até o vilarejo abaixo.

Ao sair da cava de maturação, fomos direto à loja da Casa do Gruyère. Encantado, fui convidado a provar pedacinhos de queijos de diferentes idades. Todos deliciosos, mas quando degustei o Alpage, subi aos céus. Fechei os olhos e pude sentir as flores silvestres e o gostinho de fumaça dentro do chalé. Se eu comesse um pouco mais desta delícia, começaria a ouvir o barulho dos sinos que as vacas suíças levam ao pescoço. 

Na Suíça, para usar uma etiqueta com o nome Gruyère, existe um incorruptível processo de pontuação. 
A organização responsável é a Interprofession du Gruyère e Jean-Louis Andrey é seu mestre queijeiro. Ele avalia uma mostra representativa de toda a produção suíça de queijos Gruyère. “Já provei meio milhão de peças durante os últimos anos. É um trabalho de responsabilidade, pois decidimos quais serão os queijos vendidos ao consumidor e os que serão vetados”, esclareceu Jean-Louis.

E, afinal, o Gruyère possui buracos ou não? Jean-Louis Andrey foi categórico. “Os queijos com orifícios, mesmo se pequenos, são desqualificados. Para ser autêntico, ele não pode apresentar nenhuma abertura”. Traduzindo, o Gruyère suíço não tem buracos! O resto é pura imitação.

Uma das cavas de maturação da “Casa do Gruyère”, onde os queijos passam seus primeiros três meses. Um robô retira a peça, passa água salgada na crosta e devolve o queijo à prateleira.