Arquivos Diários: 9 maio, 2011

O RASTRO DUMA ESTRELA – de vera lucia kalahari / portugal

Como as ondas que nunca param,

Como as flores que sempre nascem,

Os anos rolaram, passaram e mataram

Esses dias, essas horas da minha infância.

Meu cavalinho de pau que voava rasgando os céus

Entre rosas e açucenas, onde estás?

Já não vejo as tuas crinas, revoltas,

Voando o vento.

Meus cabelos soltos, como nuvens esvoaçantes,

Que vos fizeram?

Porque cortaram os meus cabelos?

Porque cortaram as minhas asas

E não deixaram a menina, continuar a ser menina?

Despiram minhas vestes rotas, sujas de menina,

E envolveram-me em roupas de senhora.

Deceparam minhas asas que me levavam para o Além

E deixaram-me de rastos, como tantos vermes.

Já não sou eu mesma…

Eu fiquei no jardim ensolarado com buganvílias  de sangue.

Eu, fiquei nas margens do rio,

Na Ilha do Tesouru,

Na Terra da Fada Bela,

Na cozinha da Cinderela.

Esta que por aqui erra, amortalhada

Em vestes enriquecidas,

É a sombra daquela que lá ficou.

Era pura como a rola que cantava no alto das  romanzeiras…

Era livre como o rio que corria no mangueiral verdejante

Minhas tranças negras saltavam, saltavam mais…

E eu pulava ao sol ardente nesses dias quentes d’estio selvagem.

-‘’Abram alas, a mim. Eu quero espaço… Espaço…’’

E corria como uma flecha a subir ao céu, rasgando um traço.

E um pássaro na romanzeira:-‘’Voa, menina, voa mais alto que hás-de cair…’’

Mas eu corria, voava mais, sem o auxílio de nenhum braço,

Rompendo o azul dos espaços, os pés descalços brilhando…

-Que triste é esta chuva caindo no telhado…-

Ah…Não. Não queiram que eu deixe de ser Eu…

Não queiram roubar-me ao mundo do meu passado.

A estrada é só uma, cheia de escombros e ruínas.

O princípio, já não se avista.

O fim? É mais além, para lá…

Mas seja qual for a magia, seja qual for a beleza,

Deste dia do presente, eu volto sempre ao princípio,

Ao dia do meu passado.

E por muito que rebusque, por muita força que faça,

Não consigo esquecer o mundo dos dias d’ontem.

Lá, há oásis verdejantes onde eu tinha a minha casa.

Era um palácio divino com amor por todo o lado

E estrelas a cintilar.

O vento trazia odores de rosas e maresia.

Os criados eram gnomos e as cortinas de luar.

Que horas de fantasia em noites de lua cheia…

Do palácio encantado que em sonhos construí

Fiz uma linda guarida para os sonhos que teci.

– E esta chuva tão triste a gotejar do telhado-

Mar imenso rugindo ao longe, risos de crianças em correria louca…

E no meio de verdes ondas, a Ilha maravilhosa do Tesouro.

Um tesouro de ouro e prata que procurei e nunca achei.

-Nele me falara a velha Jaja numa noite de lua cheia-.

Tesouro que povoou as minhas noites com sonhos de grandeza e majestade…

Um tesouro…Muito ouro…Muita prata…Que bom, Deus, será achá-lo.

Daria um barco pesqueiro, uma rede resistente, ao velho Manuel do Forte.

E uma blusa de chita, à Maria, que era doida,

E que toda a garotada  afugentava à pedrada.

À minha avó, coitadinha, dava-lhe um lindo rosário,

Com contas lindas de prata e uma cruz de marfim.

E àquele menino pobre que chorava pelas ruas

Dava-lhe um carro de corda e um soberbo pião.

À Joana a pobre noiva que perdera o seu amor,

Um valente pescador, dava-lhe um vestido de renda,

Alvo como a espuma do mar.

A Ilha do Tesouro… Até hoje, nunca a achei.

Vieram noites amenas, noites de estrelas e luar,

Em que o mar era sereno e o deserto crescia em flor.

Mas a minha ilha que havia de encontrar

Em alvorada radiosa, feita de todos os anseios,

Plena de toda a beleza, magnífica,  resplendorosa

Perdeu-se na imensidão do presente e do futuro.

-A chuva continua, chove lá fora-

A minha casa era o mundo, minha família era o mundo,

Todas as estrelas eram minhas e eu morava em cada rua.

Corria por todos os campos, banhava-me em todos os rios,

Sorria à noite p’ra lua, que um dia seria minha.

Cresci e nada tenho…Não tenho casa nem ruas,

Nem campos, rios ou sebes.

Sou irmã de todo o mundo e não sou irmã de ninguém…

Cansada de vaguear, agitada pela vida, sacudida por vendavais,

Quero voltar outra vez, a ser menina, a ser crente.

Deitei às ondas do mar a caravela dos sonhos…

Sem nunca achar o seu porto, perdeu-se no mar revolto.

Mas já voguei num barco negro, dum velho pirata,

Que me levava refém, para a praia da Rocha Verde.

Espada de pau de caixote, chapéu dum velho jornal,

E o meu primo Jajão, um terrível capitão,

Lá partia à disparada, em heróica cavalgada, p’ra salvar à paulada

A princesa Magalona…

E era ver a chegada , estóica e triunfal, entre risos e gritaria,

Numa carroça bizarra em tremenda algazarra.

Que belo calor me prende, nestas asas dum sonho vão…

Que lentas asas me levam p’ra longe, p’rá solidão…

Algemas de medo prendem-me as mãos.

Porque eu quero ser eu… Quero marchar para a vida

E deixar a ilha dos sonhos perdidos…

Quero que as minhas mãos não sejam mais,

Mãos de estrelas mortas, sem terem jamais uma chama de luz…

Quero ser Povo…Quero ser mundo e não mais ser poeta,

Vagando apenas nas nuvens…

Com o choro do meu Povo, construirei a minha lira…

Com a dor e com a fome, cantarei os versos que trago dentro de mim.

Porque da minha infância, não posso, nem poderei fazer um só poema.

Não poderei desvendar tantos sonhos, sem enganar tanta beleza ,tanta imensidão.

Não…Não poderei falar da menina de sacola , de sorriso ingénuo e confiante,

Seguindo para a escola…O seu livro era a Esperança, e o seu sonho, a Felicidade.

Na volta à tardinha, embora suja e rota, pisava as pedras cantando,

Sem pensar por um momento que o Mundo era mais além.

-E esta chuva tão triste que continua a cair-

Eu era rosa resplendorosa, coberta toda de orvalho…

Chorava sempre à vontade e sempre o sol da saudade vinha o orvalho secar…

Tocaram, sem pejo, na rosa e a flor se desfolhou, sangrando o chão de vermelho…

Triste coração duma rosa, desfolhada ao sol do tempo…

Levantava-me com o dia, brilhando como os brilhantes,

Cheirando como os junquilhos, como as flores de laranjeira…

Hortênsias e margaridas eram as minhas companheiras.

O meu mais lindo chapéu era a papoila encarnada.

E sentada ao pé da estrada, esperava a bela fada que me traria de presente,

Felicidade e Bondade…

Triste menina louca, alegre por ser menina,

Com alma toda florida pelos caminhos da vida…

Certa vez, ao despontar do sol, o meu primo Jajão companheiro das folias,

Acordou-me me mansinho: ‘’Anda, vem ver o que vi…Imagina tu, um ninho’’…

Eu era nesse tempo, uma simples garotinha…E vi:

Na bela romanzeira, em botão, toda florida, lá estava pendurado,

Um ninho de sabiás…

-‘’Levamo-los e trancamo-los na minha gaiola nova’’…

E eu, sem ter compaixão, ajudei-o na brincadeira.

Mas um dia, com piedade, vi que os meigos sabiás,

Ansiosos, a revoar, atiravam-se contra as grades

Tristonhos, dolorosos, para achar a liberdade…

Abri a porta e ei-los voando, contentes, rumo ao céu…

-Que grande tareia me deu o Jajão-

Alma sem alma, irrequieta, assim estou eu agora,

Numa gaiola dourada, a envelhecer, envelhecer…

A Primavera chegava… E a menina em botão,

Crescia, desabrochava, no olhar brilhante os mil anseios de jovem…

Como louca andorinha, girava no turbilhão de róseas visões.

-Tão longe ficou  a saia de chita-

Sob vestes faustosas de fina seda, passava para o mundo,

Rica, formosa, invejada porém mendiga d’amor…

Depois lá vieram os sonhos, as ilusões, o vestido de branca renda,

A capelinha singela…

Quero olhar para trás… Numa curva do caminho, uma casa abandonada,

Pedras, ruínas, tristeza, e uma saudade sem fim.

Mais perto a encruzilhada, que leva ao bem e ao mal…

P’ró mal, estrada florida,  p’ró bem, espinhos e dor.

Agora, mais para a frente, o trilho nunca pisado.

Quando o sino da minha terra tocar às Ave Marias

As seis notas mensageiras da noite que vai chegar,

A rosa já desfolhada virá reverdecer  a terra,

Nascerão novos botões.

As aves cantarão, os campos florescerão…

E o sol espalhará luz por toda a terra.

A morte é vida…

Se o fruto tombou amadurecido,

Dele virão sementes que em breve, serão flores.

Ah…Não…Mil vezes não…

Não creio que a morte será o fim…

E se desta mulher quebrada o Inverno secou as folhas,

A seiva florescerá em botões….

E a alma da menina reencarnará novamente

Noutra menina traquina, que crê ainda em fadas,

Que encerra o mundo nas mãos

E que será muito mais pura

Que a menina que já cresceu.

FAMILIAS de omar de la roca / são paulo

Ele cresceu cercado de tias velhas. Na verdade quando era pequeno, não eram tão velhas. Mas os valores  da época o faziam acreditar. Elas queriam ser a favorita dele. E se esmeravam. Ele, dividido, ora pendia para cá ora para lá. Ele ainda se recorda de um dia, em torno dos oito anos quando estavam todos voltando de um passeio a noitinha.Estava frio. E uma delas perguntou, depois de um agrado, de qual delas ele gostava mais. Ele ficou quieto e uma outra respondeu por ele, “ de quem o colocar num taxi quentinho e o levar pra casa”. Ao que ele teve que concordar. Na época as três eram solteiras.Uma delas trabalhava em um hospital e sempre dava a ele alguma coisa,até se casar e ter filhos. Ela tinha feito bastante coisa a ele, mas a mãe dele também tinha feito muita coisa por ela. Quando engravidara ela coava a sopa,para que a não tivesse fibras e a tia não perdesse o filho, e o marido dizia que na terra dele as mulheres grávidas carregavam potes de água na cabeça. A mais velha também trabalhava num consultório médico. Ela preparava um rocambole recheado com creme que era irretocável. Infelizmente havia carregado a receita com ela, após uma longa doença que foi paralizando seu corpo aos poucos, mas não seu cérebro, que usava os olhos para perscrutar tudo, até a total imobilidade. A outra trabalhava como secretária. Esta sim o levava para todos os lugares. E ele gostava mesmo dela. Costumavam conversar.E ela havia inclusive dado a ele seu primeiro kit de pintura. Até que alguns incidentes aconteceram e o tempo achou melhor que se separassem. Ainda se lembra que quando pequeno, havia pouco para comer. Quase sempre feijão com farinha. E ele acabava sempre colocando farinha demais, apesar dos conselhos, e o feijão ficava duro e ele não conseguia comer. A noite, com freqüência, a tia vinha e trazia um doce. Uma tortinha de morango com creme. Ou uma barrinha de chocolate. Anos depois numa visita, ele havia levado as mesmas tortinhas para a tia. Só queria dizer que se lembrava. Apesar de tudo. Há poucos meses, sua mãe partiu. E esta mesma tia, veio falar com ele.  “ Preciso te contar uma coisa “ ela disse. “ Pode falar “. “ Há muitos anos atrás, seus pais se conheceram num teatro.” . “ Sim, me contaram “. “ Mas o que  você não sabe, é que ela estava no palco, e ele na platéia.”” Ah é ?”. “ Sim, ela era vedete e estava meio despida para o show.” “ Entendi.” “ E a reputação dela não era nada boa. Diziam até que…” “ Era isso ? “ ele disse com um sorriso. “ Sim, mas não quero te ofender.” “ Bom, semanas atrás, minha mãe disse que eu deveria te perdoar,caso  você me contasse, já que você prometeu guardar segredo.Ela me contou tudo e muito mais.” “ O que ? “ “ E é só por isso que te perdôo.Porque ela me pediu.Ela sabia que você ia querer se chegar. E desde que eu era criança ( se alguma vez o fui ) ela  tinha medo cada vez que você chegava perto de mim. Foram anos de agonia.

” Pelo menos, mesmo tendo falhado com ela, pedi que tocassem a musica clássica favorita dela na cerimônia fúnebre.” Viu mãe, não me esqueci de sua ária de Bach.Mesmo sem ter certeza de que você estava ouvindo.”

Se você tem filhos, nunca se esqueça de que eles estão sempre prestando atenção. Sempre ouvindo. Na verdade ela nunca me disse nada.E eu deixei que ela pensasse que eu não sabia. Mas eu cresci ao lado dela e  de muita coisa ainda me lembro. Embora preferisse esquecer. Como aquele episódio de sexo oral, a que fui forçado pelo primo “querido”  e que só voltou a tona quando completei  cinquenta anos. E ainda ouvia em casa : “ Esquece,esquece, nada aconteceu, esquece.”E só então entendeu porque o tal primo sempre que o visitava, punha algum dinheiro na mão dele e até o ajudara a conseguir emprego. Culpa ? Tudo que ele fizera depois havia compensado aquele momento sexual, que completei na mais absoluta inocência do que fazia ? Tias, primos. Ele também já se foi. Sem me dar a chance de chama-lo de traste,pelo menos. Mas sempre me refiro a ele assim, no alem.Também se foram pai e mãe. E uma filhinha abortada . Meus mortos. Descansem em paz. Me permitam esquecer e descansar também. Eu ainda tenho o choro preso por não conseguir chorar por vocês. Por quase todos pelo menos.Quase.Quase todos.

DESPEJO de julio saraiva / são paulo

fogão    fogareiro
geladeira   colchão
papagaio
gaiola    galinha
cachorro    criança
madeira no chão

foto de casamento
lembrança de aparecida
dia santo   folhinha
prato   panela
penico
piolho    piorra
madeira no chão

um poster do time
uma faca sem crime
a ferrugem nos olhos
uma rosa de pano
vela de 7 dias
madeira no chão

uma lata   um luto
uma lua de lama
relógio parado
carrinho de mão
madeira no chão

madeira   madeira
madeira   madeira
madeira   madeira
madeira
no
chão

madeira   madeira
conflito   confronto
comando   comício
polícia    polícia
madeira   madeira
madeira   caixote
caixote    caixão

um rosário  uma reza
vinte salve-rainhas
slve-se-quem-puder
um tiro   outro tiro
cem tiros talvez

um soluço    um silêncio
cinco corpos no chão

chão

CORPOREIDADE SEDENTA – de joão batista do lago / curitiba

Sobre a cidade

E sobre os cálidos dias

Vê-se, hoje, apenas

Nuvens de névoas.

A brisa é fria!

E, a garoa bate gelada

No meu corpo;

Sangrando de agonia

Pelos teus cálidos

Argumentos de amor

Na partitura de uma sinfonia

Eufórica e deslumbrante,

Que me vai desfolhando

Numa prece de primavera.