FAMILIAS de omar de la roca / são paulo

Ele cresceu cercado de tias velhas. Na verdade quando era pequeno, não eram tão velhas. Mas os valores  da época o faziam acreditar. Elas queriam ser a favorita dele. E se esmeravam. Ele, dividido, ora pendia para cá ora para lá. Ele ainda se recorda de um dia, em torno dos oito anos quando estavam todos voltando de um passeio a noitinha.Estava frio. E uma delas perguntou, depois de um agrado, de qual delas ele gostava mais. Ele ficou quieto e uma outra respondeu por ele, “ de quem o colocar num taxi quentinho e o levar pra casa”. Ao que ele teve que concordar. Na época as três eram solteiras.Uma delas trabalhava em um hospital e sempre dava a ele alguma coisa,até se casar e ter filhos. Ela tinha feito bastante coisa a ele, mas a mãe dele também tinha feito muita coisa por ela. Quando engravidara ela coava a sopa,para que a não tivesse fibras e a tia não perdesse o filho, e o marido dizia que na terra dele as mulheres grávidas carregavam potes de água na cabeça. A mais velha também trabalhava num consultório médico. Ela preparava um rocambole recheado com creme que era irretocável. Infelizmente havia carregado a receita com ela, após uma longa doença que foi paralizando seu corpo aos poucos, mas não seu cérebro, que usava os olhos para perscrutar tudo, até a total imobilidade. A outra trabalhava como secretária. Esta sim o levava para todos os lugares. E ele gostava mesmo dela. Costumavam conversar.E ela havia inclusive dado a ele seu primeiro kit de pintura. Até que alguns incidentes aconteceram e o tempo achou melhor que se separassem. Ainda se lembra que quando pequeno, havia pouco para comer. Quase sempre feijão com farinha. E ele acabava sempre colocando farinha demais, apesar dos conselhos, e o feijão ficava duro e ele não conseguia comer. A noite, com freqüência, a tia vinha e trazia um doce. Uma tortinha de morango com creme. Ou uma barrinha de chocolate. Anos depois numa visita, ele havia levado as mesmas tortinhas para a tia. Só queria dizer que se lembrava. Apesar de tudo. Há poucos meses, sua mãe partiu. E esta mesma tia, veio falar com ele.  “ Preciso te contar uma coisa “ ela disse. “ Pode falar “. “ Há muitos anos atrás, seus pais se conheceram num teatro.” . “ Sim, me contaram “. “ Mas o que  você não sabe, é que ela estava no palco, e ele na platéia.”” Ah é ?”. “ Sim, ela era vedete e estava meio despida para o show.” “ Entendi.” “ E a reputação dela não era nada boa. Diziam até que…” “ Era isso ? “ ele disse com um sorriso. “ Sim, mas não quero te ofender.” “ Bom, semanas atrás, minha mãe disse que eu deveria te perdoar,caso  você me contasse, já que você prometeu guardar segredo.Ela me contou tudo e muito mais.” “ O que ? “ “ E é só por isso que te perdôo.Porque ela me pediu.Ela sabia que você ia querer se chegar. E desde que eu era criança ( se alguma vez o fui ) ela  tinha medo cada vez que você chegava perto de mim. Foram anos de agonia.

” Pelo menos, mesmo tendo falhado com ela, pedi que tocassem a musica clássica favorita dela na cerimônia fúnebre.” Viu mãe, não me esqueci de sua ária de Bach.Mesmo sem ter certeza de que você estava ouvindo.”

Se você tem filhos, nunca se esqueça de que eles estão sempre prestando atenção. Sempre ouvindo. Na verdade ela nunca me disse nada.E eu deixei que ela pensasse que eu não sabia. Mas eu cresci ao lado dela e  de muita coisa ainda me lembro. Embora preferisse esquecer. Como aquele episódio de sexo oral, a que fui forçado pelo primo “querido”  e que só voltou a tona quando completei  cinquenta anos. E ainda ouvia em casa : “ Esquece,esquece, nada aconteceu, esquece.”E só então entendeu porque o tal primo sempre que o visitava, punha algum dinheiro na mão dele e até o ajudara a conseguir emprego. Culpa ? Tudo que ele fizera depois havia compensado aquele momento sexual, que completei na mais absoluta inocência do que fazia ? Tias, primos. Ele também já se foi. Sem me dar a chance de chama-lo de traste,pelo menos. Mas sempre me refiro a ele assim, no alem.Também se foram pai e mãe. E uma filhinha abortada . Meus mortos. Descansem em paz. Me permitam esquecer e descansar também. Eu ainda tenho o choro preso por não conseguir chorar por vocês. Por quase todos pelo menos.Quase.Quase todos.

Uma resposta

  1. Ah, Omar! Você é, deveras, um homem corajoso e, também, um dos homens mais sensíveis e gentis que já conheci.
    Beijo
    Zu.

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