QUIRERA COM POESIA de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


O milho amareliz amarelizarino sempre presente na minha vida de poeta do mato. Ontem colhemos duas carroçadas. O milho fica agora no galpão em espiga até secar bem, pra só após alguns dias ser quirerado. O milho novo pode dar garrotilho nos cavalos e é bom evitar o trato equino, nesses dias. As espigas tombadas no interior do galpão, pálidas estruturas envolvidas em palha, parecem corpos de seres de outro mundo. Amareliz amarelizarino o milho. Visitantes alienígenas vez por outra comparecem pra conhecer re-conhecer o milho, provar do seu amarelíssimo amido, sentir a textura de seus grãos como pepitas de ouro enchendo baldes, cestos trançados de taquara, carroças e caminhões no granel. Vi alguns seres refestelados no milho em noites altas de inverno. A luz forte da navemãe alumbrava a paisagem no entorno do velho galpão de madeira, onde o milho fica estocado. Os olhos do dono do milharal deixam o milho mais bonito, hígido nos grãos, pujante nas espigas. Nas colheitas, chego a deitar no meio do milho. Sentir o tépido e áspero das espigas dispostas irregularmente em montículos pelo chão da terra fresca. O milho amareliz amarelizarino milhante felizino cálido. Lanço poemas novos de cabeça. Eclipsemas fáceis de se entender e arranjar significação. Fugi da escola, me desinteressei pela gramática. Um poeta livre é de tecer sua própria linguagem/linguagens, regras de bem dizer e assim fiz, faço. A multidão de vozes prometida de vir não veio, não vem. A multidão de interlocutores que iria conhecer o meu verbo, debater contemporâneo e futuro da arte que penso, acho domino. As espigas vão sendo tombadas da carroça para o piso de cimento do galpão. Os corpos rolam pelo chão, amontoam-se, em composições aleatórias. Os corpos pálidos na tez pálida da palha seca do milho recém colhido. Entro pra dentro dos grãos amarelizes amarelizarinos do milho e sinto o protéico de sua razão de ser-estar no mundo como alimento primordial. O milho escorre pelas canaletas, distribui-se no recinto. Seus grãos de ouro indo pra maquininha de quirerar, saltitantes, felizarinos, amarelizarinos. A máquina quirera os grãos chegantes, como manda a peneira, se fina ou grossa. A quirera fumaceia, pó de milho no ar. A quirera quentinha saída da máquina, fumaceando o pó do milho, solar, solaríssimo. Na enteléquia da proselitílica conheci você. Ainda não existia o milharal o milho milho moído cangicado moído farinhado em minha vida de poeta. Vagava por avenidas de grandes cidades. E muitas vias passei, estrelas, estrelários conquistei e perdi. Muitas viagens interplanetárias no meu destino de tricoteiro de nuvens. Nem só de milho se vive vivo poemeio eclipsemo. Podia ter feito um colar de milho na safra passada com aqueles grãos maiores. Perfurar grão por grão até atingir as cento e tantas contas/miçangas de um razoável colar. Poemas fiz mais de setenta e manuscritos com caneta Pilot. Meus Ergochãs Espaciais saíram assim correndo da toca, como roedores espantados por algum animal perigoso. Em garranchos fui colocando as formigas pra fora do formigueiro. As formigas vinham manchadas de sol e espaço sideral, crispadas de musgos e alentadas de terra. Sei que isso nada tem a ver com o milho. Sei. Não sei. Também traziam uma carapaça de luz espelhar dourada. Não precisa ninguém vituperar vituperino nas minhas obsessões. Gosto disso dos grãos caídos ao chão, rolando despenhadeiros. Os grãos amareliz amarelizarinos do milho. Como da sua carne fresca ainda no pé, milho verde, ou em casa, pamonhado, ou mais tarde de colhido e seco quirerado na panela de ferro. O pó do milho em polenta, em broa, sempre servido na minha vida, como consagração da vida rural que levamos. Certo dia pisei no farelo de milho e saí pelo chão escuro do pátio, em noite minguante, deixando marcas douradas pelo caminho. O milho, esquenta parece, a quem se aproxima, seja homem, criação, cobra, rato, cães e gatos. No meu galpão uma vez um gato foi achado preso dentro duma bolsa de juta, quase meia de milho. O gato amareliz amarelizarino sobreviveu no dourado de sua pele, olhos, boca, patas. Noutra vez uma urutu preta daquelas encardidas e fétidas, saiu do paiol amarelizarina de pó do ouro de minha terrinha. O milho aquece as criaturas. Escreva aí. O milho sacia a fome e rebate o frio da vida. Meus cavalos babam o ouro do milho que os alimenta. Meus cavalos famintos de grãos amareliz amarelizarinos. No choque contra os dentes, os grãos de milho transformam-se milagrosamente, em líquido dourado. Meus cavalos que reverentes ou nem tanto, escutam meus longos monólogos sobre semiótica, philosophia, esthética principalmente e poesia. Meus cavalos diante de um louco milharante milharino comendo potes de cangica e operariando construções abstratas. Um louco-bom atirado na poeira amarela do milho. O milho entra pelas narinas, amarela os cabelos, os pés, os olhos, o milho, e numa mijada qualquer comparece também no sexo, o pó finíssimo do seu esmerilado, o milho entrando pelos poros, sujando de amarelo amareliz amarelizarino os pelos do corpo. O milho. mIlHo milhAnTE milHaRiNO. O milho já vi isso não se mistura com sangue. Certa vez tivemos que sacrificar uma galinha preta presa nuns ferros dentro do galpão. O pobre bicho entre a vida e a morte sangrava sangrava num membro dilacerado. O sangue escorria pelo chão mas não maculava o milho milharino que alimentou aquele bicho por tanto tempo. O sangue escorria sobre a quirera e a farinha de milho mas não incrustava não colava não adstringia de vermelho o amarelo vivatriz vivalhino do milho. Aquele poema que fiz aquela vez prenunciava minha vivência no pó amarelo vegetal. Minha vivência de verdes e amarelos, manchados de terra. Minha vivência de mato, jaracatiás, uvaias e guavirovas, pés nos chão e olhos/sentidos nas estrelas, pensamento no criado, criante e incriado. Os pirilampos lembram do milho, voante brilharino, pisquepiscante em noites de verão. Cogito, terço, enveredo agora pra eclipsemas difíceis de se entender e arranjar significação. Assim foi que no simplório orei ao milho milharino milhoz milhante milhoardeluzerino:

ELOGIO DO MILHO

 

A primeira vez que te vi:

milho

ouro vegetal em espiga em grão

moído cangicado

moído farinhado

milho ouro vegetal

no prato nosso de cada dia

quirera

teus microgrãos triturados

de mão em mão

brilham na louça

ouro em pó

vegetal na palma de minha mão

um comedor de quirera

vivo na contramão

do tempo e da história

os bolsos cheios do pó dourado

de minhas roças

milho: triturados grãos

falso ouro dos que pedem

consolo dos desolados

na louça branca

na mesa improvisada

na cumbuca do bóia-fria

sob a lona do sem-terra

amo a nathura

onde vivo e trabalho

um comedor de quirera

nasce a cada minuto

:também nasci assim:

um comedor de quirera

minha voz entalou no muro

esse grão que se habilita

a matar todas as fomes

não tem pai nem sobrenome

é milho só em espiga em grão

moído cangicado

moído farinhado

crescido sempre na luta

das mãos que o semeam e colhem

:quirera: teus microgrãos

triturados de mão em mão

brilham na louça branca

ouro em pó

vegetal

na palma de minha mão.

 

Terminei o poema e vi a poeta quituteira que mais que ninguém escreveu sobre o milho o ouro vegetal: Cora Coralina. Estava em brancas vestes adornada de grãos de milho, amareliz amarelizarinos. Uma aura douratriz milhatriz milhante entornava-a. Assim como surgiu a imagem desapareceu, deixando odor de milho quente, passado em tacho, panela de ferro, feito cuizcuz, bijú, pamonha… Os ratos no canto do paiol roíam o resto de grãos que ficaram do transporte. Cora Coralina deixou uma cesta cheia de quitutes de milho encima da velha tulha de madeira de lei. Agradeci, dizendo como meu tio Nenê caboclinho de sepa do Riograndópolis do Sul, não carecia Dona Cora, não carecia. E me fartei dos quitudes amareliz amarelizarinos túmidos do amido de ouro. Evoquei kaingangues roçadas de milho no toco. Fogo e fumaça, naqueles fins de mundos. Verdes sobre verdes esmeraldados com clareiras plantadas de milho milharino. Evoquei tribos nômades transportando lavouras de milho dum lugar para outro. Tribos grandes. Curumins caras amarelas amarelizarinas do milho fresco comido em gula. Os cavalos corriam pensamentos bons pelos meus campos da Fazenda Poema, e furões e iraras adentraram nos montes de milho roendo a palha e os grãos. A terra joga pra fora as pequenas hastes verdes verdeforescentes do milho plantado a poucos dias. Mais tarde os pendões como pênis juvenis estiram-se pra fora do invólucro verde. O milho é valente e floresce, põe barbas de milho pra fora, avoluma-se na maturidade. Ficamos todos (homens e bichos) rondando o milharal anuviado de verdes, maturar o ouro do seu ser. E assim é, sempre será em nossa vida cabocla, quirera com poesia todo santo dia.

 

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