Arquivos Diários: 15 maio, 2011

SILPHIS, UM HÍBRIDO ENTRE NÓS – por jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

Híbrido, demiurgo, espacial… o ser viveu anos entre nós. Nunca deu pra conhece-lo completamente. Onde nasceu, viveu, cresceu, formou-se.  Sabia de pesca, caça, poesia, artesem geral. Em filosofia, avançava muito. Nós o tratávamos por Silphis, quase carinhosamente.

Não haviam trevas para ele, nós, enliados do tempo. Só desvelo, luz, clareanças do pensamento. As pedras silenciam, as águas cantam, os céus estalam sagrações novas.

Numa pescaria no rio Iguaçu. Noite alta. A luz por trás da mata, aureolada, previa chuva intensa. Meu amigo Sete. O sete varas (Sr. Orlando) pediu que Silphis cuidasse do acampamento, enquanto armávamos uns anzóis de galho pra pegar traíra. Silphis, subiu numa árvore e lá ficou horas a fio. Não quis falar nada, mas vi que uma luz tênue, contornava o rapazinho. A velha canafístula, balançava ao vento e ele lá trepado, como um macaco prego. Horas mortas. A urutu em que quase pisamos encima. A carpa grande que saltou sob os sarandis. O grito do urutago no pau podre. Urutago. Urutau. Preguiça. Mão da lua. Manda lua. Abijaí-guaçu… Alguns peixes pescados e o retorno ao acampamento. Silphis ainda pairava na meia altura da árvore centenária. Ao nos ver chegar ao barraco, desceu, esgueirando-se por entre os cipós. Não sei, se o Sr. Orlando via, mas eu nitidamente enxergava o contorno de luz no garoto esguio, de aproximadamente 13 anos. Nos deixaram mais de ano a criança, com a alegação de que seus pais foram trabalhar numa barragem ou parque de diversões em Goiás. Oguri. Limpava peixe, capinava, lavava cavalo, cortava lenha, ajudava matar e pelar porcos. Sempre solícito, não negava mando. Nunca procuramos saber de seus pais, mais do que o necessário a justificar sua estada entre nós. Um pouco lá em casa, outro tanto com meu companheirão Sete, o guri foi luzindo e vivendo entre nós. Por mais de ano, ou dois, ou três… Tudo se confunde em nossa mente quando lembramos de Silphis e seus mergulhos longos no Iguaçu. Nadava, entrava em toca de tateto, subia em árvores altas. Esculturava com cipós, as mais lindas mulheres. Tinha conhecimento profundo das coisas terrenas, muito além do que se podia esperar de um garoto de 13 anos. Fazia flautas de taquarinha do mato e chamava pássaros. O sobrevivente surucuá, era sua companhia predileta. No rio, mergulhava fundo entre os peixes maiores e custava emergir. No espaço, elevava-se a mais de quatro metros de altura, num simples pular de cerca. A gente via, aquilo, só nós (eu e o Sr. Orlando, o Sete) e ficávamos quietos, só pra nós. Abestalhados. Com o tempo algumas pessoas mais observadoras, notavam algo diferente no guri. Disfarçávamos, o talento da criança, com uma história de circo. De que era egresso dum circo que há tempos atrás o esqueceu com os pais em Guarapuava. Ea vida ia correndo e Silphis, conosco aventurando pescarias, cavalgadas, construções artísticas e pensamentos filosóficos. Certa vez me disse que o espaço é um só, a substância universal a mesma, o sonho, o mesmo terreno e de todas as tribos do Cosmo. Num grão de areia da beira do rio, via o transfinito. Sinalizava aos orbes, estrelas… e parece recebia respostas. Em cavalos, tanto os adorava, andava quase deitado em cima, em galopes cancha reta. A luz em noites, de longas andadas tomava todo o dorso do animal e elevava-se também um pouco acima da cabeça. Eu só ficava vendo aquilo, abduzido, no lombo do meu Tigre paint. Minhas crianças, observavam que o piá era esquisitinho, dormia em qualquer lugar, a qualquer hora do dia ou da noite. Bastava, afastar-se um pouco das companhias e no encosto de um móvel, sobre um soalho, ou mesmo embaixo de uma cama, dormia. Uma noite o peguei, mentalizando algo, olhar fixo pela janela do sobrado de minha casa. A luz transpassava as árvores exóticas lá fora, e perdia-se no espaço. Percebi que havia um retorno de focos luminosos. Estabelecia-se ali comunicação entre seres de espaços diversos. Silphis jamais tocou no assunto de ter qualquer comunicação com o desconhecido. Seres cósmicos, ele mesmo podendo ser um híbrido, coisas assim… nunca fora sequer cogitado. Apenas eu e Sr. Orlando (o Sete) admitíamos, no nosso pobre entendimento dos transmundos a possibilidade do guri ser extraterreno, ou meio. Contava milhões de estrelas de cabeça, conjugava palavras novas, signos, símbolos. Eram vários guris num só. Várias cabeças pensantes. A gente via um e falava com outro, outro ser, outra psique na dialética cotidiana de horaem hora. Acostumamos assim na sadia relação. Aquela vez que trepou no jaracatiá, ficou três dias, no encosto com o monjoleiro vermelho. A boca amarela da polpa do fruto carnudo. Só desceu da árvore quando uma tempestade estalou madeira na mata.

Os cavalos quando Silphis chegava na Fazenda Poema relinchavam, abusivamente. Os cachorros latiam, os gansos, os patos, alariam. As ovelhas baliam. Uma égua prenha, o seguia pelos aramados por longas distâncias. Parece mantinha comunicação telepática com os bichos. Tinha alto poder de cura. Noutra vez em que um ferrão de mandiguaçu me acertou o peito do pé, num toque Silphis tirou a dor. Noutra, a inflamação na garganta passou, quando ele tocou-me o pescoço, com um ramo de gervão. Quando as abelhas africanas invadiram a casa na fazenda e todos puseram-se a correr, Silphis ergueu a mão (pude ver uma luz nas pontas dos dedos) e as pequenas asadas retornaram à colméia, sem ferir ninguém. Silphis fez muita falta quando partiu. Partiu, desapareceu, saiu pra comprar umas coisas na mercearia da esquina da Guajuvira com a Pinheirais na nossa Kedas do Iguaçu, e nunca mais retornou. Como não tinha família presente, sendo só nós os seus de vida e presença, nada aconteceu, além da imensa saudade que quase nos mata. Olho os céus detidamente, todas as noites. Estrelas sinalizam Silphis, em alguma via intergaláctica, mentalizando seus pobres amigos do Iguaçu. Cipós de pensamentos costuram tecidos de significação, sonhos, amizade. Uma vez Silphis acelerou minha mente, num processo telepático. Alguma coisa travou no desvelo de equações perigosas. Um caso de amor irresolvido!? Ou eram, sonhos sem finalização!? Sei que a solução ocorreu nathuralmente… Gostava de bifes de fígado e cáquis de sobremesa. Ensinou meus filhos a concentrar o tempo, atenção, mentalizar para o bem e o certo. Ensinou-os a expandir o conhecimento das coisas, em observando-as atentamente. Cresceu em nós como ser híbrido, espacial, deixando grandes lições. Há poucos dias um estranho homem, alto e forte, chegou em nossa casa e pediu pra mulher sobre Silphis. Disse que tinha uma mensagem de seus pais pro garoto. Em síntese: que era pro pequeno ir à Porto Alegre, perto de Praia de Belas, que seria encontrado pela família. Havia um brilho diferente nos olhos do homem. Um brilho, uma cor radiante na tez morena. A Mari, disfarçou que não sabia mais do garoto… que eu e o Sr. Orlando já o tínhamos encaminhado aos pais em Goiás… parece que a algum circo. Mal sabia ela, que Silphis partiu quando e como quis, sem nos dizer nada. É (sua passagem) uma fábula que se realizou, uma lenda em ser, que não tem fim e projeta aos tempos futuros. Silphis gostava de me ver escrevendo coisas. Ficava perdido, em noites altas, atento as minhas elaborações do pensamento. Poesia, arte, filosofia, direito, lógica, linguística, semiótica e misticismo. Tudo lhe chamava a atenção. Palavras não dizem tudo. Sentidos podem… mas nem sempre alcançam. Dizia. Senti, que nunca mais fui o mesmo como poeta e escritor, depois que Silphis se foi. Aquela luz, emanada do guri, o olhar atento, a sã comunicação interespacial que operava, deixaram em mim solitude, isolamento involuntário. A essa estrela nova que aqui passou consagro este texto de vento e brasa, saudade, conhecimento, além do terreno e do carnal. mvcxzn,mvn,mnv,mc1v euiondhSHdjjlkjdncxxvczzczcvzzsgzrk Expanda-se essa luz juvenil nos amplos espaços do Cosmo, vivendo e ensinando, o simples de pés no chão, que todos devemos ser. SIMPLES. Fui, sou, serei, à revelia do complexo. JARACATIÁ!