Auto retrato – de omar de la roca /são paulo

 

Certa fim de tarde,quando o vento já havia feito a curva e o sol bocejava de sono, reuniram-se no barzinho da esquina. O Sergio, o Omar e o Kevin. Só para facilitar a visualização, o Sergio era alto, com olhos da cor do mar do Nordeste e cabelos já grisalhos. O Kevin tinha cabelos de fogo e olhos da cor do mar da Irlanda,era tão alto quanto o Omar.O Omar tinha olhos escuros e insondáveis como o Mar da Tranquilidade e por pouco não batia a cabeça ao passar pela porta.O Sergio pediu leite já que seu estomago não estava bom. Imaginem a risada dos outros. O Omar queria uma bebida exótica, que não havia no local. Mas ele era assim mesmo, gostava de coisas diferentes e não hesitava em mostrar suas vontades e querer que elas prevalecessem. Mas se contentou com uma dose de arak com água e bastante gelo. Já o Kevin , brincalhão e sacana como ele só, seguia fiel a suas origens e pediu logo uma dose dupla de licor Baileys e uma cerveja Guinness. Pobre dele, se sentia na Irlanda mesmo. Era a defesa dele querer se cercar de coisas da velha Erin. Acabou tomando Caracú e dispensou o licor de ovos que o garçom achou escondido no fundo da estante. Mas riram todos  das escolhas uns dos outros. O Omar começou a falar umas coisas difíceis, com palavras que poucos conheciam. O Sergio quis falar sobre os livros que lia ( de preferência em Inglês,para manter contato com a língua ele dizia, e sempre aprendia alguma palavra ou expressão nova).Mas o Kevin interrompeu para mostrar um par de pernas que passava. Ele não perdia a piada.Na verdade era uma outra defesa dele. Na verdade ele gostava das duas pernas. O Sergio, em voz baixa, quis protestar,mas o Kevin continuava rindo. O Omar achou mais prudente ficar só olhando. O garçom veio perguntar se iriam comer alguma coisa ou se iam ficar só na conversa mole. Kevin parou de rir por um momento e caiu na gargalhada.O Sergio sorriu discreto e o Omar disse que estava com fome. Pediu um kebab,que o bar não tinha e acabou se agradando de um churrasquinho de gato que girava solitário na porta. Sergio pediu uma salada (só tinha alface ), já era de noite e se ele comesse algo pesado iria roncar ainda mais a noite toda. O Kevin queria um frango tandoori com bastante curry,que vira numa revista e achara chique. Mas o bar não tinha e ele pediu frango a passarinho mesmo. Não importava a ninguém se ele roncasse a noite toda com bafo de alho. Bom, com todas as diferenças, se davam bem. Concordavam que a loira da contabilidade era uma gostosa. Que o sistema estava melhor depois da mudança para um escritório na Paulista. O Omar fazia visitas constantes, com sua simpatia inata. O Kevin, se pudesse, encostava o corpo e ficava na Internet o dia todo,com duas paginas abertas no computador, abrindo a página da tabela de Excell assim que alguém se aproximasse.O Sergio mantinha seus registros na mais estrita ordem ,o que ocasionava comentários sobre sua organização.Achavam até estranho.Torciam para  o Timão , que ia ser campeão este ano           ( como sempre ). E combinavam em muitas coisas. Mas tinham também suas diferenças. O Sergio era caladão e sua voz era muito baixa.O Omar falava alto como um italiano e gesticulava também. Já o Kevin falava arrastado, simulando um sotaque inglês que não tinha,mas que só desaparecia quando ele estava nervoso. E todos riam. O Sergio vinha trabalhar de ônibus e metro ( o que exigia uma tremenda condição física ) , o Kevin de moto ( que dirigia como um cachorro louco ) e o Omar morava perto e, ora vinha caminhando ( quando não chovia) ora pegava um ônibus que subia a Consolação ( e pegava um trânsito danado). Um dia, apesar de toda a amizade, brigaram feio. Até hoje não sabem exatamente porque. O Sergio achava que era sobre uma borboleta amarela que passara voando rente e só ele tinha visto.O Kevin achava que era sobre uma diferença de opinião sobre o valor artístico da Spire de Dublin.O Omar achava que era sobre a interpretação de uma pintura renascentista,que haviam visto no MASP numa terça feira que a entrada é grátis. Mas continuavam a se respeitar. Se cumprimentavam, marcavam um almoço ao qual não iam dando as desculpas mais inverossímeis ( palavra que o Omar adorava ), ou esfarrapadas ( coisas do Kevin ) ou a verdade ( que o Sergio cultivava, embora o prejudicasse as vezes). Mas estavam sempre atentos um com o outro. Sempre ouviam a opinião do outro.Mesmo que não seguissem o conselho.Mesmo que achassem ridículo. Mesmo que o fizessem em segredo. O Sergio sentia falta dos dois enquanto ajeitava os óculos e os olhava de esguelha, o Omar só deixava transparecer quando coçava a orelha,num sintoma de Tourette,mas era o mais sensível deles. Já o Kevin era extremamente carente, o que procurava disfarçar fazendo os outros rirem , as vezes com piadas que só ele entendia.As vezes o Sergio e o Omar conversavam sobre o Kevin.Mesmo achando que ele jogava nos dois times, gostavam dele, e o defendiam junto aos outros que queriam tirar sarro.As vezes o Omar e o Kevin conversavam sobre o Sergio,procurando saber o motivo de tanta mutez,mas o defendiam junto aos outros quando queriam chama-lo de gramofone. As vezes o Kevin e o Sergio conversavam, quer dizer, o Kevin falava quase o tempo todo sobre o Omar e seus gostos estranhos.Mas sempre o defendiam junto a aqueles que o chamavam de gringo.Kevin sempre brincava ao passarem por um restaurante japonês dizendo “ Será que o sashimi já esta bem cozido ? E o Omar dizia que peixe cru é coisa de japonês “ E o Sergio, que já experimentara e gostara ria e se perguntava se algum dia eles iriam concordar em comer num restaurante melhorzinho ,aprendendo a experimentar coisas novas. Kevin comia qualquer porcaria. Sergio detestava gordura. Omar preferia assados. Passaram algumas semanas de cara virada. Acharam que deveriam fazer as pazes, afinal nem sabiam o porque da briga. E, por coincidência se encontraram na sala de café.Sergio tomava sem açúcar nem adoçante. Kevin tomava chá bem doce. Omar tomava café com leite e açúcar. E começaram a conversar sobre a loira, pra quebrar o gelo.Marcaram de tomar alguma coisa no barzinho da esquina.A gerência mudara e eles estavam animados para saber se as coisas haviam mesmo mudado. Lá pelas seis e pouco saíram para o bar. O Sergio, com sua mania de organização atrasou um pouco.O Kevin já estava de pasta na mão as cinco e cinquenta e cinco. O Omar não podia sair antes de ir ao banheiro. A chuva tinha passado. Entraram no bar. O garçom era o mesmo. E os recebeu rindo. Mostrou a mesma mesa e eles se sentaram. Ele trouxe a Guinness do Kevin. E a bebida do Omar ( de nome impronunciável ). E o leite de cabra para o Sergio ( que era mais forte ).Os pratos vieram do jeitinho que queriam,sem mesmo terem pedido.A salada do Sergio tinha até endívias que ele adorava.O frango do Kevin veio fervendo e picante de temperos indianos.O Kebab do Omar era de carne de carneiro com tempero suave de hortelã. Estranharam, mas sorriram satisfeitos. Outros pares de pernas, outras músicas, outros perfumes. De repente sorriram e entenderam. E deram as mãos como se fossem os três mosqueteiros separados desde a infância e reunidos como por magia, no bar da esquina.Juraram amizade eterna. Nunca iriam se separar. E nunca mesmo. As vezes os três tinham tonturas, ao mesmo tempo ou dores de cabeça memoráveis ou ficavam resfriados juntos. Como trigêmeos que compartilhassem o mesmo destino.  Sergio sempre oferecia os lenços que comprava. Omar carregava um lenço de tecido perfumado. Kevin assoava num pedaço de papel toalha que surrupiava de todos os banheiros que visitava. E riam. E por muitos anos seguiram com uma amizade de dar inveja aos outros que se aproximavam e queriam participar da sociedade. Sergio dizia que era a sociedade do Trio de um só. Kevin brincava  e chamava de Sociedade do Anel ( com uma dupla referência ao Sr dos anéis e a um Anel que tinha conotações eróticas e os outros dois não gostavam ).Já o Omar referia-se  a uma antiga e inquebrantável  relação cármica ( ele estava lendo Comer Rezar e Amar e , já na parte de Bali tinha ficado influenciado pela sabedoria do guru ) .De qualquer maneira,eram laços que nunca se romperiam. Amigos para sempre. Até que um dia estivessem caminhando juntos pela rua,se apoiando um no outro e um raio de luz os levasse para : o céu , confirmava  Sergio, a Tirnanog pensava Kevin, ao paraíso cogitava Omar.

 

2 Respostas

  1. Cara Zuzu

    O Sergio agradece o seu comentário. O Omar gostaria de fosse mais longo e analítico. O Kevin, o Kevin, bom, melhor deixar pra lá.

    Bjk dos três ( por enquanto )

  2. Pois é: amigos para sempre, e como! Ainda bem!
    Beijo
    Zu…zu.

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