N O T A S D E C O M P I L A D O R – por jorge lescano / são paulo


¿Cómo explicar la existencia de obras en colaboración?

  Borges afirma que se trata de un prodigio inverso

 al de Jeckyll y Mr. Hyde: dos se convierten en uno.

 El resultado artístico expresa una tercera entidad.

 

El último colaborador, tal vez el decisivo, es el lector. 

Alejandro Dolina

 

 

[…] numa esquina do bairro de Flores, espaço quase mítico apesar de adjacente, no sentido leste-oeste, do meu Floresta.

 

Primeira nota: escrevi a frase de cima antes de ler Crónicas del Angel Gris. Alejandro Dolina, seu autor (vide Nota à nota), era o meu colaborador secreto, presumivelmente anterior e a longa distância. Alternativa mais interessante a meu ver é a de que eu fosse o seu colaborador, deste modo ficaria na posição de duplo, não de original, satisfazendo a minha vocação de Eminência Parda. De todo o caso sobra um aporte à sua Arte en Colaboración: nenhum dos dois sabia nada de nossa parceria.

Na minha história recente (de leitor) a mais notória colaboração deste tipo foi protagonizada – a revelia, poderíamos dizer – pelo escritor argentino Jorge Luis Borges, falecido em 18 de junho de 1986 na terra do lendário Guilherme Tell e seus despojos descansam no cemitério de Painpalais, em Genebra.

 No início da década de 1990 entrou em circulação Instantes, um poema, digamos assim, com a assinatura de Borges. O texto percorreu o mundo com sucesso inédito. O nome deste escritor considerado difícil atingiu todas as camadas sociais dos cinco continentes. Sei de pessoas que diligente e impensadamente dilapidaram seus tostões xerocando o texto e o distribuindo por ruas e vielas dos mais distantes vilarejos deste novo mundo, para não falar das praças e avenidas das grandes metrópoles do velho mundo. Fontes fidedignas noticiam que foi impresso em toalhas de mesa, guardanapos, lenços e outras superfícies portáteis além de ser pregado em cardápios e vitrines para o seu melhor e maior consumo.

 O monstrinho chegou-me às mãos por um conhecido, consuetudinário leitor de poesia. Foram inúteis as minhas arrazoadas argumentações visando demonstrar que a obra não era de autoria do consagrado vate cisplatino, Instantes já se havia incorporado ao repertório das massas. Tal popularidade, aliás, valeu-lhe inclusão na Antologia Apologética do Apócrifo, inédito de minha modesta autoria.  

Das mãos de um poeta de cordel, réu confesso de haver xerocado e distribuído Instantes e conhecedor dos meus pendores de resenhista (valha o neologismo), recebi um recorte do jornal Folha de São Paulo do domingo 17 de dezembro de 1995. O escritor brasileiro Moacyr Scliar, recentemente falecido, retornando do México e baseado em confidências de Maria Kodama, viúva do escritor argentino, revelava a autora do pasticho. Trata-se da norte-americana Nadine Stair. Estampamos-lhe o nome para escárnio público e regozijo dos colecionadores de fiascos literários, antes que para lhe fornecer subsídios para os quinze minutos de fama vaticinados pelo seu compatriota Andy Warhol, fama à qual todo habitante deste planeta em extinção tem direito. Com a melhor boa vontade quero acreditar que a autora teve a generosa intenção de aumentar, se não enriquecer, a obra do festejado bardo portenho doando-lhe fruto de sua seara.

Pareceu-me suspeito tal desprendimento. Acostumados que estamos ao lucro pessoal em toda atividade, como o santo do ditado desconfiamos quando a dádiva é abundosa em demasia. Por que alguém formado na cultura que cunhou a sentença Tempo é dinheiro cederia gratuitamente o árduo produto dos seus neurônios, se não da sua emoção candente, à memória de outrem? Confesso: não via no ato propósito legível.

O surgimento de páginas póstumas sempre me deixa perplexo. Penso no mágico baú de Fernando Pessoa, cornucópia literária que não deixa de expelir textos. O português, ao dotar de vida, pela obra, os heterônimos, povoou o universo com poetas tão reais quanto Ele Mesmo. Se a importância de um escritor é sua obra, eles têm essa consistência acrescida dos dados biográficos fornecidos pelo seu criador; desse modo, hoje que Fernando Pessoa não figura mais entre os vivos, tornou-se igual às suas criaturas. Existem fotografias e documentos escritos que atestam a existência de Fernando Pessoa, dirão os adeptos do inquérito policial, tais documentos apenas se autenticam reciprocamente, respondo. O universo ficcional criado por ele autoriza a dúvida. Como dramaturgo, Pessoa incrustou seus apócrifos na realidade a ponto de competir com Ele Mesmo e nos fazer duvidar de nossa existência. Não custa muito imaginar Fernando Pessoa Ele Mesmo como criação de Álvaro de Campos ou qualquer outra de suas criaturas, ou ainda de um colaborador que por astúcia ou ironia preferiu não deixar rastro. O próprio sobrenome estimula a incredulidade, é sorte grande que ele derive da máscara latina. Se Pessoa for pseudônimo, ele sugeriu os duplos ou estes originaram o pseudônimo? Estas especulações serão ociosas para os que confundem a história com o jornalismo e a chamada ciência histórica, categoria literária enriquecida pelo gênero biografia, porém, Fernando Pessoa era adepto de diversos esoterismos que permitem estas conjecturas. O assunto é tentador, mas excede nosso tema.     

Em agosto de 1999, para comemorar o centenário de nascimento do suposto autor de Instantes, realizaram-se em São Paulo variados eventos. Foi então que tive a oportunidade de conversar rapidamente sobre o assunto com a senhora Maria Kodama. No breve colóquio, a ilustre dama participou-me que no início do infausto acontecimento – a publicação, distribuição e reprodução de Instantes –, ela optou por ignorá-lo. Porém, o jurista que trata dos seus negócios bem como do memorial que eterniza o nome do vate de quem estamos a falar, advertiu-a que a autora da obra aqui focada estaria habilitada, se assim o desejasse, a reivindicar a autoria do poema, por assim dizer, cabendo processo judicial por apropriação indébita de direitos autorais, visto a citada senhora, herdeira do espólio do supracitado Jorge Luis Borges, haver permitido a circulação da referida obra como se de autoria do seu cônjuge fosse, alternativa de todo deplorável para vossa senhoria, como é fácil coligir. Tal o motivo que a decidiu a tornar pública a falácia, esclarecendo-me, de lambuja, sobre o provável objetivo da empreitada.

 Tenho para mim que a colaboradora (ora) explícita enriquece a biografia do autor argentino. Moto-próprio resolveu acrescer menos a obra que o fato à(s) biografia(s) póstuma(s) (como deveria ser toda biografia), tanto as autorizadas quanto as outras. De algum modo este plágio por movimento contrário ilustra a teoria literária de Borges segundo a qual é o leitor quem faz a obra. Opinião mais severa ou mordaz diz que ele foi vítima póstuma do apócrifo, modalidade literária por ele mesmo praticada durante toda a vida. Se não, vejamos um exemplo, apenas um, para não fatigar nosso leitor.

Em ensaio fartamente documentado, como é do seu feitio, o autor de Evaristo Carriego, biografia dúbia deste poeta popular (no sentido político, não comercial, do epíteto) aponta os avatares sofridos pelo livro d’As mil e uma noites, obra mágica para os europeus (não para os árabes, acostumados aos prodígios) mesmo à custa de omissões e acréscimos de relatos dos tradutores (aos quais aplica, com ressalvas, o famigerado trocadilho italiano), circunstância esta que não deixa de aproveitar para impingir ao leitor displicente (categoria que incluiria Tzvetan Todorov, segundo Mariza Werneck in O livro das Noites, apud Júlio Pimentel Pinto: Uma memória do mundo) a portentosa noite 602 em que o rei Shahriar ouve da boca da rainha sua própria história (in Os tradutores d’As Mil e uma noites).

Sempre atribuí o fracasso das minhas pesquisas a respeito à deficiência das edições consultadas, mas não havia tal, Borges inventa sutilmente uma noite a mais, nos revela a mesma Mariza Werneck, ibidem. Se Kafka funda uma Novayorque pelo grafismo em sua Amérika (ortografia mais próxima do som original pré-colombiano: amerik, segundo os estudiosos) e O Marinheiro de Pessoa cria todo um país para sua origem, a noite 602 só passa a existir depois da “citação” de Borges. Deveríamos falar d’ As mil e duas noites? Deixo a solução deste enigma literário aos mestrandos de plantão.

O insigne cego revelava em entrevistas que seus últimos poemas eram escritos em colaboração, se ele os inventava (e voltava à rima para melhor lembrá-los), outro devia redigi-los. Creio que assim deveriam agir os antigos rapsodos. É de se supor que embora clássico, Homero (cego, na língua da Trácia, afirma algum acadêmico) fosse iletrado. Antes de perder totalmente a visão o argentino já havia cometido várias obras em parceria. Três colaboradores vêm-me à memória, sem que esgotem o elenco de parceiros nem a lista de obras: María Esther Vázquez (Literaturas Germánicas Medievales), Margarita Guerrero (El Martín Fierro) e o mais conhecido, Adolfo Bioy Casares (Crônicas de Bustos Domecq). 

Colaboração involuntária notória é Kafka, de Max Brod. Nesta obra, o autor de Os falsários (teatro) narra que só depois de oito anos de convivência e amizade cotidiana o autor da sátira O processo atreveu-se a revelar que escrevia. Na época Max Brod já era um escritor conhecido em Praga, Kafka apenas seu amigo. A celebridade internacional, contudo, só lhe adveio precisamente pela publicação da obra e da biografia daquele escritor oculto por modéstia ou respeito às letras (bem diverso de nós, verbi gratia). Como é de domínio público graças ao biógrafo, o autor d’ O castelo teria escrito dois bilhetes nos quais delegava ao amigo a ingrata tarefa de confiar ao fogo (mais radical que Virgílio, que Gógol, que Artaud, êmulos de Eróstrato) sua Obra (hoje) Completa. Segundo a versão de Brod é possível afirmar que a colaboração do biografado foi totalmente aleatória. Por toda sua vida Kafka teria se limitado a ser somente Franz Kafka.

Não falta quem aventure a hipótese de que Franz Kafka seja heterônimo de Max Brod. Como no caso de Fernando Pessoa, a iconografia de Kafka apenas ilustra a existência de um senhor com certas características atribuídas ao personagem em questão. Acreditamos tratar-se do autor do Informe para uma academia porque a legenda que acompanha a fotografia afirma isto. Não é impossível que o nome corresponda ao do original retratado. Ainda assim, como saber que ele é o autor da obra de Franz Kafka? Talvez não seja excessivo afirmar que Max Brod obteve a permanência nas letras pelo registro explícito da ausência do seu (suposto?) biografado.  

Gustav Janouch, filho de um colega de escritório de Kafka, escreveu o ameno Conversas com Kafka com a colaboração direta do autor de Cartas a Milena, primeira colaboradora do seu correspondente ao traduzir para o tcheco algumas de suas narrativas.

Caso pitoresco do gênero biografia é o do crítico uruguaio Emir Rodriguez Monegal, primeiro biógrafo de Jorge Luís Borges. Monegal faleceu antes de Borges, este paradoxo extra literário remata com humor macabro a biografia do argentino.

Em tempo: a colaboração do personagem tema da biografia é devidamente apontada pelo escritor de Flores.

Citei três autores sobre os quais existe vasta bibliografia que, como a poluição nas cidades, não deixará de crescer enquanto houver mundo. São três colaboradores de multidão de ensaístas, ficcionistas, cronistas e jornalistas dos mais diversos calibres e pontaria, com os quais pego carona para não perder a viagem.

No Brasil, o divertimento policial O mistério dos três MMM foi escrito por dez autores, dentre os quais, salvo lapso de minha memória, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Jorge Amado. Constata-se aqui que o anonimato nem sempre quer ser preservado.

Creio que estes exemplos ilustram o meu ponto de vista sobre a colaboração narrativa. Deixo de fora a “colaboração” dos editores para melhorar os originais a ser publicados, uma vez que esta participação diz menos à estética que à embalagem. Adequação do produto ao mercado desculpam-se os autores.

 

Nota à nota: Alejandro Dolina, escritor argentino inédito no Brasil (re)criou o bairro portenho de Flores como nação autônoma que cumpre a função narrativa e mítica da aldeia de Tolstoi. Em Arte en Colaboración, Dolina trata, sempre de forma bem humorada, da quase impossibilidade da criação literária em duplas. O texto também aconselha que se pratique a amizade por alguns anos antes de iniciar a colaboração. Isto vale especialmente para a biografia. Kafka, numa espécie de colaboração antecipada com Dolina, que não se esqueceu de relacionar esta categoria, valeu-se cautelosamente do conselho.

 

Nota às duas notas supra: Deseja-se constar que a publicação deste texto, sem pretender criar gêneros literários (nota ao texto inédito, colaboração involuntária), ora que os gêneros agonizam, se não estiverem mortos (tudo acontece tão rápido, sêo Aquiles, é algo que nunca diria o eleata) almeja sim o objetivo de ser auto-suficiente.

 

Nota final: saiba o prezado leitor que a crônica de nossa lavra na qual aproximamos o bairro de Flores, pelo uso poético, aos paulistanos Brás, Bexiga e Barra Funda, permanecerá inédita, trata de fatos excessivamente locais de difícil acesso ao leitor estrangeiro. O texto tem razões que nem Tolstoi compreenderia. E por ser verdade quase tudo o aqui narrado, assino embaixo.

 

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