DIANTE DA TESTEMUNHA – por zuleika dos reis / são paulo


 

 

É verdade que, todos os dias, Ana fica em frente dele alguns minutos, mas, o tempo urge para o feijão no fogo, o preparo das misturas, o rearranjo dos desarranjos diários, a lavagem das sujeiras que intrépidas se renovam, a supervisão dos exercícios dos filhos, o preparo de suas mochilas, o embarque dos meninos na perua escolar, o elevador que demora, a ladeira para os passos já cansados desde a planície, o ônibus, as esperas no Banco, o pagamento das contas, as compras no supermercado, as multidões nas calçadas, o suor, os faróis sempre muito vermelhos, as buzinas sempre mais barulhentas, as palavras por dentro gastas como as solas dos sapatos, o silêncio cada vez maior diante da TV, das músicas, dos retratos, dos livros, das ideias, do futuro. O silêncio, à mesa, na sala, na cama.

É verdade que Ana jamais fica diante dele o tempo suficiente, mas nem se dá mais conta. Os minutos galopam, a noite todas as noites chega. As novelas sempre adiam para a noite seguinte a cena decisiva na qual a personagem revela ao marido que há outro homem, a cena em que o marido a expulsará de casa ou a perdoará, desde que ela abandone o outro. Depois do jantar, a louça é lavada e os utensílios guardados cada qual em seu respectivo lugar.

A água corre pelo corpo, o corpo se enxuga, veste o roupão. Planejam-se as sequências do dia seguinte. Os corpos se envolvem nos lençóis, as crianças dormem, o sono chega para todos, com os sonhos dos quais Ana jamais se lembra na manhã seguinte.

É verdade que quando Ana olha para ele, os gestos são sempre meio inconscientes, o olhar não se detém e já se lança para o corredor, a mão abre a mesma porta com a mesma chave de todos os dias, os pés repetem os mesmos passos para o sol lá fora, que também caminha com a regularidade cotidiana, assim como a lua e as estrelas. Nenhum cataclismo à vista.

É verdade que houve um tempo em que Ana olhava para ele e havia muito o que ver. Os olhos vivenciavam a transparência, as mãos se erguiam para lhe acariciarem os cabelos, a curva do queixo, a suavidade dos ombros, a sensualidade ereta dos seios. Os sorrisos brilhavam como um Sol. Nesse tempo a vida era um Novo Continente à espera dos navios de sonho que aportavam todas as noites, no eterno presente de palavras sempre renovadas, recém-emergidas do Jardim Primordial.

Ana não se lembra bem da vez primeira em que,  olhando para ele, percebeu a pequenina fenda, quase imperceptível fenda, alteração levíssima a modificar algo na forma e na expressão do olhar, culminando neste rosto de hoje. Irreversível.

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