Arquivos Mensais: julho \31\UTC 2011

A nova era na roda do chope – por joão ubaldo ribeiro / rio de janeiro

Tou te achando muito quietinho, ultimamente, muito caladinho… Não pode ser só o Botafogo. Todo caladinho, sem dar palpite em nada…

– Não tem nada disso, cara, tu tá querendo é me provocar, eu estou a mesma coisa de sempre. É que aqui nessa mesa só sai besteira e não é sempre que eu estou disposto a dar palpite em besteira.

– Deixa de ser cara de pau, aqui nesta mesa um dos que mais falam é você, os outros tu pode enganar, a mim tu não engana. Responde com toda a honestidade, sem subterfúgio nem meias palavras, é a presidenta, não é? Só dá pra falar bem dela e aí tu cala a boca. Eu te manjo, cara.

– Você quer dizer “a presidente”. Eu me recuso a usar esse barbarismo.

– Já está no dicionário e é como ela prefere, até nisso tu tem má vontade. Mas eu não quero discutir gramática, quero discutir fatos concretos. A faxina que ela está fazendo no Ministério dos Transportes, somente isso.

– Ela demitiu uns caras, eu li.

– Demitiu uns caras? Já rodaram bem uns 20 e você diz “uns caras”? Uma faxina desse porte?

– Não sei o que é que você quer dizer com “desse porte”. Nesse ritmo cata-piolho, ela não dá conta nem de uma ala do ministério antes do fim do mandato. Tinha que fazer era fumigação total e na máquina toda, ministério por ministério, repartição por repartição. O governo ia ficar bastante desfalcado, mas só fumigar é que dá jeito, catar piolho não vai levar a nada.

– É impressionante como os caras como você ficam insatisfeitos, por mais que se faça.

– Já eu acho impressionante como os caras como você ficam satisfeitos, por menos que se faça. Houve as demissões e está tudo bem, não é isso? Ela fez as demissões por quê?

– Ora, por quê. Porque todo mundo sabe que os caras estão envolvidos com os esquemas de corrupção do ministério. Aliás supostamente envolvidos, hoje a gente tem que ter cuidado com o que fala. Sim, os caras são suspeitos disso. E então? Ela foi lá e demitiu.

– Era pra condecorar? Se ela demitiu, foi porque sabia de alguma coisa. Ou de muitas coisas, senão não ia demitir. E aí eles, castigados pela demissão, vão ter que ficar mais ricos montando consultorias, triste exílio para quem trabalhou no governo. Eu tenho a impressão de que até o homem do cafezinho dos palácios vai abrir consultoria para futuros homens do cafezinho, muitos deles ganham bem mais que um professor, você sabia?

– Bem, eu não li nada sobre o assunto, mas é claro que, se houver indícios de irregularidades contra os demitidos, eles serão investigados e…

– …E, se considerados culpados, serão condenados, devolverão o que ganharam ilicitamente e assim por diante. É isso que você quer que eu comente, não é? Não era melhor a gente comentar o enredo completo da Bela Adormecida, não? Ninguém merece. O cara chega aqui no domingo, para beber um chope sossegado com os amigos e esfriar a cabeça e aparece logo um mané que quer ser enrolado novamente e não se cansa nunca de ser enrolado. Vê se te manca, cara, qual é a tua, com esses papos que são sempre a mesma coisa, embora querendo mostrar outra cara. Não mudou nada! Aliás, minto. Manda a honestidade eu reconhecer que ela demite e ele não demitia. Ele deixava estatizado mesmo, ela prefere privatizar. Bonita diferença. Fica tudo como era antes, com essa diferença de estilo, que sem dúvida marcará a história da República: um não demitia, a outra demitia; e ambos permitiam.

– Você está sendo sarcástico, assim não dá para conversar. Você é desses caras que se recusa a ver que as coisas estão melhorando. Isso não é bom, acaba se voltando contra a própria pessoa. Eu não, eu observo tudo com otimismo. Otimismo equilibrado, mas otimismo. Você não tem acompanhado esse movimento da busca da felicidade, tem? Agora tem um movimento da busca da felicidade. Já era estabelecido na Declaração da Independência americana, vai ser estabelecido entre os direitos humanos nas Nações Unidas e na nossa Constituição. De agora em diante, todo ser humano tem direito nato à busca pela felicidade.

– Vai estar na lei?

– No Brasil, provavelmente.

– Ah, então será criada a Agência Nacional da Felicidade, com delegacias em todo o território brasileiro. E aí, depois de muita discussão, se estabelece o Padrão Nacional de Felicidade, em que se tentará enquadrar todos os cidadãos, sem distinção. E fazer o teste da felicidade será como o voto atualmente: é um direito, mas também uma obrigação, todo mundo vai ter que fazer. Quem for reprovado no teste, recebe uma Bolsa Felicidade de seis meses, após o que faz novo teste. Se reprovado outra vez, será incluído no Cadastro Nacional de Brasileiros e Brasileiras Infelizes, tido como doente e obrigado a submeter-se a tratamento em clínicas públicas ou credenciadas. E, enquanto não dispuserem de seus atestados de felicidade, o brasileiro e a brasileira não poderão tirar passaporte, candidatar-se a cargo eletivo, comprar casa própria e assim por diante.

– Você sempre vê tudo dessa maneira descrente e debochada.

– É o hábito, eu moro aqui há mais de 60 anos.

– Mas não vai ser nada como você está pensando.

– Eu sei, vai ser pior. Eu também sou otimista.

S E L E N E – por jorge lescano / são paulo

Navegamos o dia todo. No crepúsculo fomos sobressaltados por vozes que pareciam surgir do fundo do rio. Luzes ao longe: festa em algum clube à beira do Tigre. Nosso destino era outro.

Juanito, meu guia, cansado de remar, dormia na barraca no limite da floresta. Ele confiava em mim, que optara por fazer a primeira guarda, eu confiava na minha arma.

Noite clara; céu liso; estrelas nítidas, distantes.

A água batia na costa embalando o bote. Para um peixe pequeno, a ribanceira seria uma falésia. Meus olhos acompanharam (por quanto tempo?) o vaivém do rio, compreendi que fogo e água são duas faces do mesmo sentimento de nossa espécie.

O vazio.

Esfericidade do planeta na cavidade do espaço. Cada coisa existe isolada sem ofuscar o conjunto. Ausência do tempo: vida quieta em sua essência. Mesmo o  balanço das ondas era (foi) algo estático: moto perpetuo. Sensação brevíssima. Senti o universo sem desviar os olhos da água aos meus pés. Não foi a enumeração sucessiva do inventário, mas o viver a quantidade e a qualidade do todo sem antes nem depois. Apesar dos meus vinte anos poderia ter morrido naquele instante de plenitude. Senti o peso e o volume do revólver na cintura; soube que seria fácil apontá-lo ao coração e soube também que agora (então) teria sido inútil, o tempo havia retornado.

Monotonia das ondas, silêncio da noite.

Solitário nesta ilha ignorada pelos mapas contemplo teu corpo branco no escuro lençol d’água.

Crianças, quantas maravilhas! – por alceu sperança / cascavel.pr

Os mais experimentados astrônomos de todo o mundo, com anos e até décadas de observação do espaço, não haviam percebido a existência daquele objeto espacial.

Essa estrutura celeste passou completamente despercebida por eles, até aparecer uma jovem professora holandesa, motivada a se interessar pela astronomia por ser fã do roqueiro inglês Brian May, do conjunto Queen. Brian May se formou em astronomia e numa entrevista à TV contou porque se interessava tanto pelas coisas do espaço.

Foi assim que a professora Hanny Van Arkel, ao navegar por uma página de astronomia, deparou-se com uma estranha bolha gasosa que não se enquadrava em nenhum dos padrões espaciais estabelecidos. Ao manifestar a estranheza ao organizador da página, ele encaminhou o problema aos astrônomos.

Descobriram que o objeto gasoso verde era realmente único e teria captado energia a partir da luz emitida por um quasar − uma radiação poderosa proveniente de um buraco negro gigante.

Estava assim descoberto um novo objeto cósmico, que, não poderia deixar de ser, recebeu o nome de Objeto da Hanny, em homenagem à sua jovem descobridora, em seu primeiro contato com o universo espacial.

O objeto, segundo os astrônomos, deve fazer parte de uma galáxia que ainda não havia produzido estrelas brilhantes o suficiente para serem vistas da Terra.

Diante disso, podemos concluir que a pesquisa deve ser feita com dedicação por todos, principalmente pelos iniciantes, que têm maior capacidade de concentração e sede de conhecimento que os pesquisadores já calejados.

É espetacular ver que a cada dia mais jovens se destacam num mundo que os adultos e experientes já acreditavam dominar completamente

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Você acredita em promessas? A maioria da população não acredita muito em promessas de políticos, mas caem como patinhos na propaganda de produtos anunciados na TV.

A empresa de consultoria ambiental TerraChoice fez uma pesquisa com mais de mil produtos nos Estados Unidos e no Canadá para avaliar a veracidade daquilo que estava prometido nos rótulos ou na propaganda.

Por incrível que pareça, dos mil e 18 produtos analisados, apenas um produto (um papel higiênico) cumpriu tudo o que prometia. É triste ver até em países que se dizem desenvolvidos a prática de prejudicar o ser humano e a natureza para ganhar dinheiro.

Há, por exemplo, produtos eletroeletrônicos que realmente apresentam baixo consumo de energia, mas têm altos teores de metais pesados. Há papéis que realmente são reciclados, mas foram branqueados com cloro, altamente nocivo.

Há promessas absurdas, como as seguintes: “livres de substâncias químicas”. Ora, o que é feito sem substância química? “Produto natural”. Mas chumbo também é natural. Nenhum produto, realmente, é “sobrenatural”…

Por isso, é bom não acreditar em promessas. Só mediante uma avaliação criteriosa é possível checar se realmente cumprem o que prometem.

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Há coisas estranhas e maravilhosas neste mundo de uma natureza tão variada. Estamos acostumados a pensar que as pessoas ficam gripadas por causa do frio. Nesse caso, no Pólo Norte, todos andam gripados, certo?

Errado: é impossível alguém apanhar uma constipação por lá. O vírus da gripe não gosta de ambientes frios demais. Por isso, ninguém pega gripe no Pólo Norte.

Mas não existe na Natureza um pedaço de mundo melhor que o Brasil. A natureza brasileira é rica e deslumbrante. A mais velha árvore do Brasil, por exemplo, é um jequitibá-rosa que fica no Parque Estadual de Vassununga, no Estado de São Paulo, e tem 3 mil e vinte anos.

Um ser vivo com mais de três mil anos em nosso chão é algo absolutamente incrível. No rio Amazonas já foram descobertas até agora mais de 1.500 espécies de peixes – quinze vezes mais do que a soma de todas as espécies dos rios europeus.

Apenas o rio Negro, um dos afluentes do rio Amazonas, possui mais água doce do que toda a Europa.

O Brasil é um país fantástico. Um dia seu povo, e não os interesses estrangeiros, vão governar esta nação tão bela. Teremos ainda mais orgulho do Brasil quando a justiça e os direitos humanos valerem mais que as ambições e a ganância dos destruidores da Natureza.

FUNARTE recebe MANIFESTO DOS TRABALHADORES DA CULTURA / brasilia

Manifesto dos Trabalhadores da Cultura

Trabalhadores da Cultura, é hora de perder a paciência!

O Movimento de Trabalhadores da Cultura, aprofundando e reafirmando as posições defendidas desde 1999, em diversos movimentos como o Arte Contra Bárbarie, torna pública sua indignação e recusa ao tratamento que vem sendo dado à cultura deste país. A arte é um elemento insubstituível para um país por registrar, difundir e refletir o imaginário de seu povo. Cultura é prioridade de Estado, por fundamentar o exercício crítico do ser-humano na construção de uma sociedade mais justa.
A produção artística vive uma situação de estrangulamento que é resultado da mercantilização imposta à cultura e à sociedade brasileiras. O Estado prioriza o capital e os governos municipais, estaduais e federal teimam em privatizar a cultura, a saúde e a educação. É esse discurso que confunde política para a agricultura com dinheiro para o agronegócio; educação pública com transferência de recursos públicos para faculdades privadas; incentivo à cultura com Imposto de Renda doado para o marketing, servindo a propaganda de grandes corporações. Por meio da renúncia fiscal – em leis como a Lei Rouanet – os governos transferiram a administração de dinheiro público destinado à produção cultural, para as mãos das empresas. Dinheiro público, utilizado com critérios de interesses privados. Política que não amplia o acesso aos bens culturais e principalmente não garante a produção continuada de projetos culturais.
Em 2011 a cultura sofreu mais um ataque: um corte de 2/3 de sua verba anual. De 0,2% ou 2,2 bilhões de reais, foi para 0,06% ou 800 milhões de reais do orçamento geral da União em um momento de prosperidade da economia brasileira. Esta regressão implicou na suspensão de todos os editais federais de incentivo à Cultura no país, num processo claro de destruição das poucas conquistas da categoria. Enquanto isso, a renúncia fiscal da Lei Rouanet não sofreu qualquer alteração apesar das inúmeras críticas de toda a sociedade.
          Trabalhadores da Cultura é HORA DE PERDER A PACIÊNCIA: Exigimos dinheiro público para arte pública!
Arte pública é aquela financiada por dinheiro público, oferecida gratuitamente, acessível a amplas camadas da população – arte feita para o povo. Arte pública é aquela que oferece condições para que qualquer trabalhador possa escolhê-la como seu ofício e, escolhendo-a, possa viver dela – arte feita pelo povo.   Por uma arte pública, tanto nós, trabalhadores da cultura, como toda a população em seu direito ao acesso irrestrito aos bens culturais, exigimos programas – e não programa único – estabelecidos em leis com orçamentos próprios. Exigimos programas que estruturem uma política cultural contínua e independente – como é o caso do Prêmio Teatro Brasileiro, um modelo de lei proposto pela categoria após mais de 10 anos de discussões.  Por uma arte pública exigimos Fundos de Cultura, também estabelecidos em lei, com regras e orçamentos próprios a serem obedecidos pelos governos e executados por meio de editais públicos, reelaborados constantemente com a participação da sociedade civil organizada e não dentro dos gabinetes. Por uma arte pública, exigimos a imediata aprovação da PEC 236, que prevê a cultura como direito social, e também imediata aprovação da PEC 150, que garante que o mínimo de 2% ( hoje, 40 bilhões de reais) do orçamento geral da União seja destinado à Cultura, para que assim tenhamos verbas que possibilitem o início de um tratamento devido à cultura brasileira.
Por uma arte pública, exigimos a imediata publicação dos editais de incentivo cultural que foram suspensos, e odescontingenciamento imediato da já pequena verba destinada à Cultura. Por uma arte pública, exigimos o fim da política de privatizações e sucateamentos dos equipamentos culturaiso fim das leis de incentivo fiscalo fim da burocratização dos espaços públicos e das contínuas repressões e proibições que os trabalhadores da cultura têm diariamente sofrido em sua luta pela sobrevivência. Por uma arte pública queremos ter representatividade dentro das comissões dos editais, ter representatividade nas decisões e deliberações sobre a cultura, que estão nas mãos de produtores e dos interesses do mercado.
Por uma arte pública, hoje nos dirigimos a Senhora Presidenta da República, Dilma Rousseff, ao Senhor Ministro da Fazenda e às Senhoras Ministras do Planejamento e Casa Civil, já que o Ministério da Cultura, devido seu baixo orçamento encontra-se moribundo e impotente. Exigimos a criação de uma política pública e não mercantil de cultura, uma política de investimento direto do Estado, que não pode se restringir às ações e oscilações dos governos de plantão. O Movimento de Trabalhadores da Cultura chama toda a população a se unir a nós nesta luta.

ESPAÇO CULTURAL E GASTRONÔMICO “ALBERTO MASSUDA” apresenta: “TRIO D FAVETTI” / curitiba

Sarney e o torturador, Ustra e o presidente – por luiz cláudio cunha / são paulo

“Acreditando no inacreditável e defendendo o indefensável, José Sarney encontrou, enfim, o roteiro e o personagem que podem levá-lo definitivamente ao brejal da desmemória, da inverdade e da injustiça”

O próximo desatino de José Sarney já tem hora, dia e local definidos: às 14h30 desta quarta-feira, dia 27, no Fórum João Mendes do Tribunal de Justiça de São Paulo, no centro da capital paulista.

Ali, na inesperada condição de testemunha de defesa, o senador Sarney, presidente do Congresso Nacional, vai louvar e enaltecer o maior ícone vivo da repressão mais feroz da mais longa (1964-1985) ditadura da história brasileira — o coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra.

É o homem que montou e comandou, na fase mais sangrenta do Governo Médici (1970-1974), o centro de tortura mais notório do regime, o DOI-CODI do II Exército, na rua Tutóia, a cinco quadras do ginásio do Ibirapuera, no coração de São Paulo. Sarney vai tentar livrar Ustra de uma nova condenação como torturador (a primeira foi em 2008), agora acusado pelo assassinato em 1971 do jornalista Luiz Eduardo Merlino, que sucumbiu após quatro dias de tortura brutal no DOI-CODI paulista.

As unidades de Destacamento de Operações de Informações (DOI) do Centro de Operações de Defesa Interna (CODI) instaladas nos principais comandos da força terrestre no país se converteram em sinônimo de morte e terror. Poucos saíam vivos dali. Quem sobrevivia carregava na carne e na memória as marcas do suplício. José Sarney sempre soube disso, na comprometedora condição de um dos caciques nacionais da Arena, o partido inventado pelos militares para apoiar politicamente a ditadura sustentada pelo terror metódico das masmorras de Ustra e seus comparsas.

Sarney será o único civil no banco de defesa, que ele vai dividir com um coronel e três generais da reserva. Serão confrontados, pelo lado da acusação, com o testemunho de cinco ex-presos políticos e ex-militantes — como Merlino — do Partido Operário Comunista (POC), e de dois ex-torturados do DOI-CODI: o ex-ministro de Direitos Humanos do Governo Lula, Paulo Vanucchi, e o historiador e escritor Joel Rufino dos Santos.

É sempre saudável reavivar a mambembe memória de Sarney para a sórdida natureza do ofício de Ustra e para a macabra sina de seu local de trabalho. No Rio de Janeiro, o DOI-CODI do I Exército operava no sinistro endereço da rua Barão de Mesquita, sob a direção do major Adyr Fiúza de Castro, versão carioca de Ustra. O comandante do I Exército era o general Sylvio Frota, que dizia não tolerar a tortura. Mas, nos 21 meses em que exerceu seu comando, entre julho de 1972 e março de 1974, Frota teve o dissabor de lamentar a morte de 29 presos no seu DOI.

No DOI-CODI paulista — o maior do país, que chegou a ter 400 beleguins selecionados por Ustra na barra mais pesada da PM paulista, da polícia e do Exército —, o ar também era insalubre. Nos 40 meses em que ali reinou sob o codinome de ‘Major Tibiriçá’, Ustra amargou 40 mortes e uma denúncia de tortura a cada 60 horas, segundo a Comissão de Justiça e Paz do cardeal Paulo Evaristo Arns. Em depoimento oficial ao Exército, o major camarada de Sarney contabiliza em São Paulo, no período de 100 meses entre janeiro de 1969 e maio de 1977, a prisão de 2.541 “subversivos” e o fim violento de 51 “terroristas” — como sempre, “mortos em combate” contra as equipes carcará de Ustra.

Luiz Eduardo Merlino, repórter do Jornal da Tarde, entrou como preso no DOI-CODI e, quatro dias depois, estava irremediavelmente morto, antes de completar 23 anos.  Na noite de 15 de julho de 1971, ele dormia na casa da mãe, em Santos, quando foi despertado por três homens em trajes civis, armados com metralhadoras. “Logo estarei de volta”, disse Merlino, tentando tranquilizar a mãe e a irmã. Nunca mais voltou.

Merlino passou a madrugada e o dia seguinte na sala de tortura. Ao lado ficava a solitária, conhecida como “X-Zero”, uma cela quase totalmente escura, com chão de cimento, um colchão manchado de sangue e uma privada turca. O único preso do lugar, Guido Rocha, ouvia os gritos e gemidos de Merlino, submetido a sessões continuadas de tortura pelas três turmas de agentes que se revezavam em turnos de oito horas no DOI-CODI para preservar o ritmo da pancadaria ao longo do dia. Horas depois, arrastado pelos torturadores, ele foi jogado na “X-Zero”. Estava muito machucado, as duas pernas dormentes pelas horas pendurado no pau-de-arara. Para ir à privada, Merlino precisava ser carregado por Guido. Estava tão debilitado que, no lugar da usual acareação com outro preso na sala de tortura ao lado, Merlino teve o ‘privilégio’ de ser acareado na própria “X-Zero”.

Na manhã do dia 17, o enfermeiro da Equipe A de Ustra arrastou uma mesa até o pátio para onde se abriam sete celas. O carcereiro carregou Merlino até a mesa improvisada, onde o enfermeiro, com bata branca, calças e botas militares, colocou-o de bruços para massagear as pernas. Quando lhe tiraram o calção, os presos viram que as nádegas de Merlino estavam esfoladas. Os presos das celas 2 e 3 o ouviram dizer que fora torturado toda a noite e que suas pernas não o obedeciam mais. Um dos detidos, Rui Coelho, seria anos depois vice-diretor da Faculdade de Filosofia da USP. De volta ao “X-Zero”, Merlino foi submetido pelo enfermeiro ao teste de reflexo no joelho e na planta do pé. Nenhum respondeu.

Tudo o que ele comia, vomitava. Havia sangue no vômito. Guido deu uma pêra a Merlino, que lhe fez um apelo: “Chame o enfermeiro, rápido! Eu estou muito mal”, disse Merlino, agora com os braços também dormentes. O companheiro bateu na porta, gritou por socorro.  O enfermeiro voltou, com outras pessoas, identificadas por Guido como torturadores. Merlino foi transferido para o Hospital Geral do Exército. No dia 20, pela manhã, o PM Gabriel contou aos presos do DOI-CODI de Ustra que Merlino morrera na véspera. “Problemas de coração”, disse.  Às 20h daquele mesmo dia, dona Iracema Merlino recebeu um telefonema de um delegado do DOPS com uma versão menos caridosa: seu filho, contou o policial, matou-se ao se jogar embaixo de um carro na BR-116, ao escapar da escolta que o levava a Porto Alegre. O corpo do jornalista foi entregue à família num caixão fechado.

Dois anos depois, ainda preso no DOI-CODI, o historiador Joel Rufino dos Santos ouviu de um de seus torturadores, o agente Oberdan, esta versão: “O Merlino não morreu como vocês pensam. Ele foi para o hospital passando mal. Telefonaram de lá para dizer: ‘Ou cortamos suas pernas ou ele morre’. Fizemos uma votação. Ganhou ‘deixar morrer’. Eu era contra. Estou contando porque sei que vocês eram amigos”.

O laudo do IML, assinado por dois médicos legistas, apontava como causa da morte “anemia aguda traumática por ruptura da artéria ilíaca direita”, e finalizava com uma suposição nada científica: “Segundo consta, foi vítima de atropelamento”. Amigos de Merlino acorreram ao local do suposto atropelamento, e não encontraram nenhum vestígio do acidente. Não houve registro policial, o atropelador não deixou pistas. A censura impediu a notícia da morte de Merlino. Só no dia 26 de agosto de 1971 é que O Estado de S.Paulo conseguiu vencer a barreira, publicando o anúncio fúnebre para a missa de 30⁰ dia na Catedral da Sé. Quase 800 jornalistas compareceram ao culto na Sé, cercada por forte aparato policial, que incluía agentes com metralhadoras infiltrados até no coro da igreja.

Esta é a história que José Sarney vai ouvir no tribunal. A estória que o coronel Ustra contará é a mesma de sempre e foi antecipada por ele, no início do mês, num site de ex-agentes da repressão e nostálgicos da treva, o Ternuma, abreviatura de ‘Terrorismo Nunca Mais’.

Esta é a delirante, cândida versão de Ustra: “Ao voltar [da França, Merlino] foi preso e, depois de interrogatórios, foi transportado em um automóvel para o Rio Grande do Sul, a fim de ali proceder ao reconhecimento de alguns contatos que mantinha com militantes. Na rodovia BR-116, na altura da cidade de Jacupiranga, a equipe de agentes que o transportou parou para um lanche ou um café. Aproveitando uma distração da equipe, Merlino, na tentativa de fuga, lançou-se na frente de um veículo que trafegava pela rodovia. Se bem me lembro, não foi possível a identificação que o atropelou. Faleceu no dia 19/7/1971, às 19h30, na rodovia BR-116, vítima de atropelamento”. Um parágrafo adiante, Ustra concede: “Hoje, quarenta anos depois, se houve ou não tortura, é impossível comprovar”.

Assim, só cuspindo marimbondos de fogo para confiar na versão de uma equipe tão distraída do mais temido DOI-CODI do país e para acreditar na repentina agilidade física de um preso capaz de correr para uma rodovia federal e incapaz de alcançar a privada da masmorra pela paralisia das pernas destroçadas no pau-de-arara.  Nem o imortal José Sarney, autor de 22 livros, três deles romances, conseguiria produzir ficção tão ordinária, tão sórdida, tão indecente.

No Tribunal de Justiça de São Paulo, a partir desta semana, um ex-presidente da República poderá apressar (ou não) o seu melancólico final de carreira. Acreditando no inacreditável e defendendo o indefensável, José Sarney encontrou, enfim, o roteiro e o personagem que podem levá-lo definitivamente ao brejal da desmemória, da inverdade e da injustiça.

Pensando bem — pensando no presidente e no torturador, no ‘coronel’ e no coronel —, Sarney e Ustra bem que se merecem!

O Brasil e os brasileiros é que não mereciam isso.

*Luiz Cláudio Cunha é jornalista

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EM 27/7/2011

Coronel Ustra não comparece ao julgamento do processo em que é acusado de torturar e matar na ditadura

Publicada em 27/07/2011 às 15h21m

Flávio Freire 

 

Manifestantes fazem protesto em frente ao Fórum João Mendes contra os crimes na ditadura. Foto: Marcos Alves

SÃO PAULO – O coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra não compareceu, nesta quarta-feira, ao julgamento do processo em que testemunhas o acusam de torturar e matar, em julho de 1971, o jornalista Luiz Eduardo Merlino. Na época, Ustra comandava o Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Por conta de uma ação movida pela família do jornalista, uma audiência acontece nesta tarde no Fórum João Mendes, no centro da capital paulista.

Apenas um advogado de Ustra acompanha os depoimentos. Do lado de fora, cerca de 30 manifestantes protestam segurando cartazes contra a ditadura e fotos de desaparecidos políticos do período. O ex-secretário de Direitos Humanos da Presidência, Paulo Vannhuci, é uma das testemunhas de acusação. A imprensa foi proibida de acompanhar os depoimentos.

Pouco antes da sessão, a integrante da Comissão dos Familiares dos Mortos e Desaparecidos Políticos, Maria Amélia Teles, disse que a condenação de Ustra seria também uma “condenação política histórica e moral da Ditadura Militar”. Maria Amélia, torturada durante o regime, também move uma ação contra o coronel.

Além de Vannuchi, também são testemunhas de acusação Laurindo Martins Junqueira, Leane Ferreira de Almeida, Otacílio Guimarães Cecchini, Joel Rufino dos Santos e Leonora Memiccuci de Oliveira.

A defesa arrolou no processo como testemunhas a favor de Ustra o presidente do Senado, José Sarney, e o ex-ministro Jarbas Passarinho. Por meio de assessoria, Sarney informou que não será testemunha de defesa do coronel reformado.

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o globo.

UMA DESCOMPOSTURA EM DIÓGENES – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

 Uma descompostura em Diógenes

Útil, a arte não deve ser útil,

são os utensílios que deveriam ter inutilidades.

Que se faça em tudo que é útil,

belas inutilidades.

Um caixa eletrônico aonde o extrato venha dobrado em origamis em forma de peixe

e  talheres com lente de aumento para examinarmos

com mais riqueza de detalhes como é belo o azeite

sobre a salada.

Que façam

estradas com aquelas descidas que causam inércia

e dão um friozinho na barriga

que as crianças gostam tanto .

E os navios cargueiros em formato de patinho de banheira,

ou contêineres em legos gigantes.

Tirem das prisões,

o minimalista reto e objetivo das grades,

que sejam substituídas por grades barrocas e exageradas,

grades cinzeladas, folheadas a ouro,

reproduzindo querubins com safiras nos olhos, grades que elevem.

Porque o útil é uma mentira.

É uma mentira.

A utilidade das fábricas, é uma mentira,

e do aço da máquinas,

das precisas correntes, dos processos, da estrutura das linhas de produção,

é uma mentira a utilidade da automação.

Útil é a água, transformá-la em refrigerante, dar sabores, uma doce inutilidade.

Útil e a água, transformá-la em cerveja, dar-lhe o reconfortante álcool

é uma inutilidade prazerosa.

São inúteis as grandes fábricas de tecidos,

o que move a indústria de roupas não é a utilidade, mas a criativa moda.

E a utilidade das colheitadeiras,

também  é uma mentira.

A utilidade das plantações, dos rebanhos,

a utilidade da soja é uma mentira, a utilidade do trigo é uma mentira.

Útil é o trigo, mas em donuts, em brioches e croissant,

são todos uma gostosa inutilidade.

É uma mentira a utilidade da medicina, uma mentira.

Mas com que coragem

enfrentam com suas insignificantes armas,

seus avanços postergadores, com suas  máquinas

ineficazes, seus pequenos bisturis e analgésicos,

o inevitável.

Como é bonito

ver um corpo  em uma oferenda inversa

e os ritos das operações,dos tratamentos,das quimioterapias,

tentando retirar o homem da morte.

É uma mentira a medicina,

mas como são destemidas,

como são renitentes  e sábias

suas utópicas e caras  tentativas heróicas de vencer  o inevitável

sem nunca ter conseguido, uma só vitória.

É uma mentira a utilidade

das minas de aço, da extração do petróleo,do cobre, do ouro,

todos retirados para fazer mover a magnífica futilidade dos homens.

Sim, Sim.

É a inutilidade que move os trens, os caminhões, os aviões,os navios

que abre novas rodovias,

e nos trazem e levam ao lixo,

os  magníficos eletrodomésticos descartáveis, os lindos sapatos fúteis,

os supermercados cheios de alimentos tão saborosos

com seus indispensáveis

e atávicos sais e calorias,

os computadores

com sua grande quantidade de espaço para a deliciosa pornografia,

sexo virtual e música,

As televisões e seus jogos de futebol e filmes violentos, panis et circus virtuais,

notícias quase sempre irrelevantes e entediantes novelas.

E o concreto,

o concreto

que constrói as casas,os edifícios, os shoppings

todos valorizados se excessivos e luxuosos

e desvalorizados se essencial.

É Verdade,é verdade  existe o útil

Mas o útil é sempre  primitivo e  rude,

existe ou existiu,

é seu pé e sua mão, seus instintos,

a fruta colhida,

a carne crua.

Já a inutilidade foi descoberta junto com fogo, com a primeira semente plantada

com as lanças.

nasceu junto com a inteligência ,

com a  inteligência,

que é a única inutilidade da natureza

e evoluíram juntos

descobriram metais, impérios ,calendários

e foram à lua.

Sim, foram à lua, a mais obscena loucura, a mais linda loucura da humanidade,

que magnífico excesso

bilhões e bilhões para nos trazerem uma dúzia de pedras.

E as religiões desde os primórdios tão desnecessárias e ricas,

com seus sempre poderosos sacerdotes,seus deuses e ritos surreais.

Oh!   A inútil fé, obrigado ,muito obrigado

por decoraram cavernas e fazerem monólitos,

por  construírem  as  ociosas pirâmides

e catedrais com vitrais.

Ah, o inútil, a quem devemos toda a civilização,

Todos os avanços,

dói,mas é

preciso desmascará-lo

quando  pedante e pretensioso,

quando  finge-se necessário,

e  engana os crentes há tantos milênios.

e  se auto-engana há tantos milênios,

que acredita-se imprescindível

e legisla,cria países e exércitos, veste togas e crenças

é cheia de funcionários,de parques industriais, de salas comerciais,

de ritos de poder

mostra-se arrogante

com a leveza delicada da arte,

que é puramente desnecessária,

quando é áspera com o sorriso,com as férias e os jogos eletrônicos.

Mas o inútil, o verdadeiro inútil, como é poderoso,

é mais indispensável que o útil.

Sim.Sim. Mais imprescindível que o útil.

Diógenes!

Diógenes!

Diógenes!

Como  estava enganado Diógenes!

Quando menosprezou o belo, o exuberante inútil

e se voltou para o tão primitivo necessário.

Devia ter acumulado inutilidades,

devia  ter feito muitas inutilidades,

estátuas, por exemplo ou mesmo poemas.

Acharia com mais facilidades os

verdadeiros homens  que com sua ineficaz lanterna.

Porque estátuas,

porque poemas,

são mais eficazes armas que lanternas.

Há em frente aos quadros, em frente aos livros

mais homens bons ,que na frente dos cofres e agências bancárias.

LUCAS PAOLO comenta em “WOODY ALLEN, PARIS E O DILEMA DA CORAGEM – por enio squeff / são paulo”

Comentário:
“A menos que se esteja pessoalmente envolvido nela, a guerra é um estado de espírito contrário ao pensamento”. (Trecho de carte de Debussy a Igor Stravisnki)

Resta refletir o que é estar envolvido em tal situação de guerra. No caso de Borges, talvez mais que suas entrevistas, o “Elogio da Sombra” pode inferir a questão.

Elogio da Sombra – Jorge Luis Borges (trad. josely vianna baptista)

A velhice (este é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal está morto ou quase morto.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são, ainda, a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se desgarrava em subúrbios
rumo à planície incessante,
voltou a ser a Recoleta, o Retiro,
as apagadas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos de Sur.
Em minha vida as coisas sempre foram excessivas;
Demócrito de Abdera arrancou seus olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece com a eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são o que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria me dar medo,
mas é um deleite, um regresso.
Das gerações dos textos que há na terra
terei lido alguns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Logo saberei quem sou.

Manifesto cultural para o Senhor Prefeito Luciano Ducci – por ana cláudia decker / curitiba

Caríssimo Senhor Prefeito Luciano Ducci:

É com muita tristeza em meu coração que venho pedir um pouco mais de cuidado e atenção com os artistas, músicos curitibanos.

É absolutamente revoltante a forma como somos tratados na “cidade modelo”, acredito que a propaganda que a prefeitura faz em Curitiba seja no mínimo hipócrita.

Uma cidade cujas estatísticas de violência, poluição e abuso de poder estão entre as mais altas no país, não vai ser nunca uma capital modelo para ninguém. Acredito que para ser considerada uma cidade civilizada e moderna a Cultura e a Educação devem vir em primeiríssimo lugar, o que não é ocaso de Curitiba.

Como curitibana, cidadã que paga em dia seus impostos e leva multa no trânsito sem ao menos sair de casa, acho que tenho mais do que direito de questionar a conduta da prefeitura da capital paranaense e me manifesto contra sua atitude, seu abuso de poder em relação a todos os artistas dessa cidade fria e violenta.

Como pode a Guarda Municipal, o DIRETRAN, a Polícia Militar, a Polícia Civil entre outros oficiais, serem tão eficazes no fechamento dos bares e casas de cultura da “cidade modelo?”

É realmente um absurdo ver existe tanta eficiência na interdição de uma casa de tradição como a Sociedade 13 de Maio em pleno domingo, às 3h da manhã, privando os cidadãos curitibanos de se divertirem com música, dança e alegria, tirando, com essa atitude, o emprego de inúmeros e bons músicos. Já não basta o que foi feito com o Beto Batata? Quem mais vocês vão “pegar”??!!

Senhor prefeito, Curitiba é uma vergonha para nós curitibanos, pois enganar aos que estão de fora dizendo-lhes  que esta é uma cidade de primeiro mundo, é fácil, mas só nós que moramos aqui sabemos que tudo isso é uma grande mentira, e isso me faz sentir muita vergonha de ser filha de uma cidade tão bela,  mas com governantes que não passam de “mãe  desnaturada”  para com seus filhos.

Sim, senhor prefeito, somos órfãos, pois mais importante do que fechar as casas noturnas de Curitiba e tirar o emprego de tantos músicos, é olhar para o consumo absurdo de craque no centro da cidade, é arrumar ruas importantes da Capital e completamente esburacadas, símbolos de vergonha para quem mora aqui. Exemplos? R. Visconde do Rio Branco, R. Engenheiro Rebouças, R. Brigadeiro Franco, sem contar as ruas dos bairros mais afastados como o Tarumã,  Parolim, Boqueirão, Mossunguê, além das inúmeras ruas da periferia.

Acho também que é mais do que necessário usar de toda essa eficiência para a violência em nossa cidade que a cada dia cresce mais, as pessoas são assaltadas e agredidas o tempo todo. O trânsito está cada vez pior. E o trem, no meio da cidade modelo, produzindo poluição sonora e ambiental,  infernizando a vida das pessoas que moram próximas à linha férrea, além de atrapalhar mais ainda esse trânsito caótico…

Outro aspecto importante é que quando somos assaltados, agredidos ou algo parecido: não temos nenhuma proteção, às vezes a polícia nem chega ou chega quando a tragédia já aconteceu.

Senhor prefeito, não adianta nada organizar uma “Virada Cultural” uma vez ao ano ou arquitetar projetos pela Fundação Cultural, onde só entra quem faz parte da “panela”.

Nós, músicos, precisamos comer, pagar as contas, cuidar de nossos filhos e necessitamos trabalhar nos bares dessa cidade. Somos nós que levamos um pouco de alegria e diversão para os curitibanos, para os que vem de fora, para os turistas. São os curitibanos que se matam de trabalhar, pagar contas, impostos e tudo o mais para manter essa “cidade modelo” de que tanto o senhor se orgulha.

Por favor, senhor prefeito, chega de hipocrisia, chega de mentira e de tanta falação. Aja de verdade e como político sério nas questões que realmente são fundamentais para nossa civilização. A atitude da Prefeitura é feia, incoerente, vergonhosa para uma cidade que se diz  modelo, capital de primeiro mundo, entre tantas outras mentiras.

O senhor e toda a sua equipe estão tirando o emprego de muitos músicos. E com isso estão tirando a comida das mesas de muitas pessoas, dentre as quais, crianças. Vossa excelência está acabando com a vida cultural da cidade. Nós, músicos, estudamos muito, trabalhamos muito para levar um pouco de Arte às pessoas e em pleno século XXI ainda existem políticos que não nos valorizam.

Curitiba só valoriza seus artistas quando eles saem daqui e vão para outras cidades e lá são reconhecidos e isso, senhor prefeito, é uma VERGONHA para uma cidade que se denomina cultural, moderna, modelo de primeiro mundo. Em cidade de primeiro mundo, senhor prefeito, os artistas são realmente respeitados, principalmente por seus governantes.

Agindo dessa forma, senhor prefeito, o senhor pode até tirar nosso emprego, mas não pode nos calar, pois nós, da classe artística, somos muitos e temos vozes e, mais do que isso:  temos um público imenso ao nosso lado!

Por favor, Senhor Prefeito, faça jus ao nome e à fama que Curitiba tem lá fora, agindo com justiça com os filhos dela, aqui de dentro!!!!!!!!!!

Lamentavelmente,

Ana Cláudia Decker.

A obsessão e o complexo de vira-lata – por celso amorim / são paulo

A elite dos Estados Unidos reconhece a importância do Brasil. Só falta a brasileira


Até os jornais brasileiros tiveram de noticiar. Uma força-tarefa criada pelo Conselho de Relações Exteriores, organização estreitamente ligada ao establishment político/intelectual/empresarial dos Estados Unidos, acaba de publicar um relatório exclusivamente dedicado ao Brasil, -pontuado de elogios e manifestações de respeito e consideração. Fizeram parte da força-tarefa um ex-ministro da Energia, um ex-subsecretário de Estado e personalidades destacadas do mundo acadêmico e empresarial, além de integrantes de think tanks, homens e mulheres de alto conceito, muitos dos quais estiveram em governos norte-americanos, tanto democratas quanto republicanos. O texto do relatório abarca cerca de 80 páginas, se descontarmos as notas biográficas dos integrantes da comissão, o índice, agradecimentos etc. Nelas são analisados vários aspectos da economia, da evolução sociopolítica e do relacionamento externo do Brasil, com natural ênfase nas relações com os EUA. Vou ater-me aqui apenas àqueles aspectos que dizem respeito fundamentalmente ao nosso relacionamento internacional.

Logo na introdução, ao justificar a escolha do Brasil como foco do considerável esforço de pesquisa e reflexão colocado no empreendimento, os autores assinalam: “O Brasil é e será uma força integral na evolução de um mundo multipolar”. E segue, no resumo das conclusões, que vêm detalhadas nos capítulos subsequentes: “A Força Tarefa (em maiúscula no original) recomenda que os responsáveis pelas políticas (policy makers) dos Estados Unidos reconheçam a posição do Brasil como um ator global”. Em virtude da ascensão do Brasil, os autores consideram que é preciso que os EUA alterem sua visão da região como um todo e busquem uma relação conosco que seja “mais ampla e mais madura”. Em recomendação dirigida aos dois países, pregam que a cooperação e “as inevitáveis discordâncias sejam tratadas com respeito e tolerância”. Chegam mesmo a dizer, para provável espanto dos nossos “especialistas” – aqueles que são geralmente convocados pela grande mídia para “explicar” os fracassos da política externa brasileira dos últimos anos – que os EUA deverão ajustar-se (sic) a um Brasil mais afirmativo e independente.

Todos esses raciocínios e constatações desembocam em duas recomendações práticas. Por um lado, o relatório sugere que tanto no Departamento de Estado quanto no poderoso Conselho de Segurança Nacional se proceda a reformas institucionais que deem mais foco ao Brasil, distinguindo-o do contexto regional. Por outro (que surpresa para os céticos de plantão!), a força-tarefa “recomenda que a administração Obama endosse plenamente o Brasil como um membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. É curioso notar que mesmo aqueles que expressaram uma opinião discordante e defenderam o apoio morno que Obama estendeu ao Brasil durante sua recente visita sentiram necessidade de justificar essa posição de uma forma peculiar. Talvez de modo não totalmente sincero, mas de qualquer forma significativo (a hipocrisia, segundo a lição de La Rochefoucault, é a homenagem que o vício paga à virtude), alegam que seria necessária uma preparação prévia ao anúncio de apoio tanto junto a países da região quanto junto ao Congresso. Esse argumento foi, aliás, demolido por David Rothkopf na versão eletrônica da revista Foreign Policy um dia depois da divulgação do relatório. E o empenho em não parecerem meros espíritos de porco leva essas vozes discordantes a afirmar que “a ausência de uma preparação prévia adequada pode prejudicar o êxito do apoio norte-americano ao pleito do Brasil de um posto permanente (no Conselho de Segurança)”.

Seguem-se, ao longo do texto, comentários detalhados sobre a atuação do Brasil em foros multilaterais, da OMC à Conferência do Clima, passando pela criação da Unasul, com referências bem embasadas sobre o Ibas, o BRICS, iniciativas em relação à África e aos países árabes. Mesmo em relação ao Oriente Médio, questão em que a força dos lobbies se faz sentir mesmo no mais independente dos think tanks, as reservas quanto à atuação do Brasil são apresentadas do ponto de vista de um suposto interesse em evitar diluir nossas credenciais para negociar outros itens da agenda internacional. Também nesse caso houve uma “opinião discordante”, que defendeu maior proatividade do Brasil na conturbada região.

Em resumo, mesmo assinalando algumas diferenças que o relatório recomenda sejam tratadas com respeito e tolerância, que abismo entre a visão dos insuspeitos membros da comissão do conselho norte-americanos- e aquela defendida por parte da nossa elite, que insiste em ver o Brasil como um país pequeno (ou, no máximo, para usar o conceito empregado por alguns especialistas, “médio”), que não deve se atrever a contrariar a superpotência remanescente ou se meter em assuntos que não são de sua alçada ou estão além da sua capacidade. Como se a Paz mundial não fosse do nosso interesse ou nada pudéssemos fazer para ajudar a mantê-la ou obtê-la.

Celso Amorim

Celso Amorim é ex-ministro das Relações Exteriores do governo Lula. Formado em 1965 pelo Instituto Rio Branco, fez pós-graduação em Relações Internacionais na Academia Diplomática de Viena, em 1967. Entre inúmeros outros cargos públicos, Amorim foi ministro das Relações Exteriores no governo Itamar Franco entre 1993 e 1995. Depois, no governo Fernando Henrique, assumiu a Chefia da Missão Permanente do Brasil nas Nações Unidas e em seguida foi o chefe da missão brasileira na Organização Mundial do Comércio. Em 2001, foi embaixador em Londres.

Amy Winehouse entregou hoje as “moedas para o barqueiro” / londres

Como Joplin, Hendrix, Morrison e Cobain, música perde Amy Winehouse aos 27 anos
A cantora britânica Amy Winehouse foi encontrada morta neste sábado (23/07) em sua casa, em Londres. Ainda não foi divulgada a razão oficial de seu falecimento. A notícia foi divulgada inicialmente pelo canal de britânico TV Sky News. Segundo o canal, a polícia confirmou a morte da cantora. As informações são de agências de notícias internacionais. 

Aos 27 anos, Amy repete o histórico de outros grandes astros da música pop e do rock que morreram, coincidentemente, na mesma idade. A este grupo pertencem Jimi Hendrix, Kurt Cobain (líder do Nirvanna), Jim Morrison (vocalista do The Doors), Brian Jones (ex-Rolling Stones) e Janis Joplin.

Efe

A cantora britânica Amy Winehouse, encontrada morta em Londres 

Assim como eles, a cantora tinha um histórico de graves envolvimento com álcool e drogas. Seu maior sucesso, Rehab, trata exatamente de sua relação com entorpecentes.

A polícia londrina informou em comunicado ter recebido uma chamada à casa da cantora por volta das 16h (12h no horário de Brasília), respondendo a um chamado para atender uma mulher desmaiada. Ao chegar à residência, seu corpo foi encontrado no chão. Amy foi declarada morta no local.

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PREFIRO – de omar de la roca / são paulo

Coisas

Não quero me acostumar a certas coisas

a ficar sob constante anestesia.

Não sentir na carne a dor das coisas,

o sabor agridoce da poesia

das coisas.

Coisas demais.

Quero a luminosidade, a luz

e sua súbita cegueira.

Que dure um momento, ou a vida inteira.

Sem me poupar de mim mesmo.

Sem me acostumar com a rotina.

Sem que a violência seja banal, carnal, bem-vinda.

Assumida ou disfarçada, delicada, infinda.

Prefiro a dor da claridade na retina.

Prefiro escolher a cor viva sem ansiedade.

Nada de cantos escondidos, de maldade.

A dor sofrida da solidão.

Que todos saibam que prefiro a luz.

Que as vezes só me resta escolher

Entre a sombra e a escuridão.

Que me protege,

De mim mesmo e dos outros.

Que me sufoca, aperta,seduz.

Na área cinzenta, a qual pertenço,

aspiro ao ar transparente, iluminado.

Roto de cansaço.

Juntando os pedaços,

Ainda íntegro, uma coisa só.

Peregrino de incontáveis sóis,

Que a lua vem iluminar.

Pessoa ou coisa,

Ainda não sei.

Morde e assopra nuclear – por heitor scalabrini costa / pernambuco

Após o trágico acidente nuclear na central japonesa de Fukushima com considerável vazamento de material radioativo, o mundo rediscute os projetos de novas usinas nucleares, e o que fazer com as já existentes. No Brasil, o governo federal age no sentido oposto.

Defensores das usinas nucleares se contradizem, apelando que o momento é de cautela, e que governo vai analisar a entrada de projetos de energia nuclear na discussão do Plano Nacional Energético 2035. Ao mesmo tempo defendem a qualquer custo, que o País não abandone os projetos nucleares com o argumento de não ficar defasado desta tecnologia no futuro, e que a construção de Angra 3 vai continuar, sem alteração do seu cronograma.

Esta nova posição (estratégia?) pode ser considerada mais moderada, se comparar com as declarações do Ministro de Minas e Energia, que chegou a anunciar publicamente que o País teria dezenas de (cerca de 50) usinas nucleares até 2050.

De fato, ocorre que mensagens estão sendo enviadas à sociedade pelo lobby nuclear, no sentido de apontar certo recuo e bom senso, tendo em vista a grandiosidade e as reais conseqüências do acidente nuclear ocorrido no Japão, com enormes prejuízos econômicos, sociais, ambientais. O objetivo é amenizar e mesmo tentar calar o movimento anti nuclear que se organiza e cresce em todo território nacional, se opondo a instalação de novas usinas, defendendo o fechamento das já existentes e a interrupção da construção de Angra 3.

Enquanto ocorrem estas declarações de técnicos funcionários públicos e representantes da indústria nuclear, permanecem as propostas contidas no Plano Nacional de Energia, e definidas pelo Conselho Nacional de Política Energética, composto por apenas 10 membros. Os dirigentes desse setor continuam priorizando a energia nuclear como fonte energética. Desconsideram todas as potencialidades e vantagens das fontes renováveis de energias abundantes no País, quando não aprovam o Projeto de Lei – PL 630/2003, denominado “Lei das Renováveis”, adormecido nas gavetas do Congresso Nacional. Também pouco se investe na conservação de energia, bastando verificar os orçamentos destinados para o Programa de Conservação de Energia Elétrica (PROCEL) e suas metas pífias.

O discurso oficial atual é para amainar amplos setores da sociedade contrários ao uso da energia nuclear para produção de eletricidade. Enquanto na prática deixa claro que sua política energética prioriza as mega hidroelétricas na região Amazônica, as termoelétricas (com combustíveis fósseis), além das usinas nucleares. Prova cabal desta conduta foi à aprovação pelo BNDES, nos últimos dias de dezembro de 2010, de um financiamento de R$ 6,1 bilhões para a Eletrobrás Termonuclear S/A construir Angra III. Este valor corresponde a 55% do investimento total.

 

Enquanto o Banco abre “as burras” para o setor nuclear, acaba de divulgar na véspera da festa junina de São João a criação de um fundo de investimento de R$ 150 milhões, voltado exclusivamente a empresas que desenvolvem projetos de tecnologias “limpas” e estão em estágio nascente ou inicial de atividades. Ou seja, uma soma 40 vezes inferior a que foi destinada ao setor nuclear.

 

Também recentemente (25/05/2011), o Congresso Nacional aprovou a Medida Provisória – MP 517/2010 editada no final do ano passado, nos últimos dias do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que concedeu incentivos fiscais a áreas consideradas estratégicas pelo governo federal, como infra-estrutura, além de tratar de outros assuntos ligados ao setor elétrico.

Um dos assuntos que fez parte do texto da MP foi à criação do Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento de Usinas Nucleares (Renuclear), concedendo isenção de impostos para usinas atômicas. Segundo a Eletrobras Eletronuclear, o regime reduzirá em R$ 700 milhões o custo de Angra 3 – orçada em R$ 9,9 bilhões. Portanto é o Tesouro Nacional, ou seja, nós os cidadãos e cidadãs que pagamos impostos, que continuamos financiando através do BNDES, e da isenção de impostos, a usina nuclear de Angra 3 e o Programa Nuclear.

 

Logo, a estratégia do governo é clara; enquanto a “poeira radioativa” da catástrofe de Fukushima não assenta, e não sai do foco da mídia nacional e internacional; atua no sentido de realizar um grande esforço de convencimento da população que ele tem cautela quanto aos destinos do projeto nuclear no Brasil. Mas nos bastidores continua priorizando esta tecnologia. Por quê? Sabe lá os motivos. Talvez tenhamos uma resposta perguntando ao “bispo de Itu”, pois os defensores das usinas nucleares continuam “enrolando” a sociedade.

 

Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de Pernambuco

A bandalheira fardada – por mauricio dias / são paulo

Apesar da faxina que promove em alguns organismos do governo, a presidenta Dilma Rousseff ainda está longe de ter se livrado das dores de cabeça provocadas por denúncias e indícios de corrupção no Departamento de Infraestrutura de Transportes (Dnit), a árvore das mais frondosas bandalheiras no Ministério.

Na sexta-feira 15, Dilma demitiu José Henrique Sadok de Sá, mais uma cabeça coroada do Dnit. Além de diretor-geral, ele era o substituto imediato do já afastado Luiz Antonio Pagot. Sá foi afastado após denúncia de que a empresa da mulher dele tinha contratos da ordem de 18 milhões de reais com aquele departamento.

A tormenta de Dilma nessa área pode piorar. Sadok de Sá é o fio de uma meada que leva à sempre sensível área militar. Mais precisamente ao Instituto Militar de Engenharia (IME), subordinado ao Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército e considerado um centro de referência do ensino de engenharia nas Américas.

Um Inquérito Policial Militar (IPM), aberto em maio de 2010 na Justiça Militar, no Rio de Janeiro, e concluído agora, denuncia por crime de peculato seis militares do Exército e nove civis “por desvio de recursos públicos em licitações realizadas pelo Instituto Militar de Engenharia, nos anos 2004 e 2005” referentes a convênios celebrados com o Dnit. O prejuízo aos cofres públicos está calculado em 11 milhões de reais.

Um dos vínculos entre os militares (IME) e Sadok de Sá (Dnit) está no fato de Fábia Sadok de Sá, filha do diretor do Dnit, constar como contratada da empresa WMW ANKAR.

Havia oito empresas participantes do esquema. A maioria delas formada por sócios, amigos e parentes.

O nome da WMW ANKAR é de uma evidência gritante. Soma o W de Washington (major Washington Luiz de Paula, um dos denunciados); o M de Marcelo; W de William; o AN de Antonio (sogro de Washington); o KA de Khaterine (esposa de Washington) e o R de Roberto (coronel Paulo Roberto Dias Morales, outro oficial denunciado), registrada em nome de Antonio da Cruz Fonseca (sogro de Washington-), da cunhada dele Edilania Fonseca- Froufe (empregada do Dnit) e de Wilson- Agostinho (pai de William).

Entre setembro de 2004 e julho de 2005, apenas dois meses após ter sido criada, ela teria desviado dos cofres públicos quase 2 milhões de reais (tabela).

Nos depoimentos, militares e civis, irmanados, argumentam que agiram dentro da lei. A denúncia contra eles, no entanto, derruba facilmente a tese, principalmente pela forma com que conduziram a homologação das licitações, a fase de liquidação das despesas e, enfim, o pagamento. Um simples exemplo:

No convite 43/2004, cuja execução seria de até 30 dias, foi pago 90,4% em cinco horas. Tempo decorrido entre a emissão da Nota de Empenho e da Ordem Bancária. O restante em dez dias.

Tudo, como se vê, a tempo e a hora. Uma eficiência que não ocorre em qualquer outro órgão público que não tenha esquemas ilegais alternativos.

Há um fato extremamente relevante na trajetória do processo. Os autos foram enviados à Procuradoria da Justiça Militar “em razão da atribuição específica” desse órgão. Isso ocorre quando a denúncia envolve generais. E há três deles denunciados.

A granada que vai explodir nas mãos do ministro da Defesa, Nelson Jobim.

Tabuleiro político I

A presidenta Dilma Rousseff partiu para o enfrentamento com o Partido da República (PR), que conta com 41 deputados e 7 senadores no Congresso.

Ela faz um movimento necessário para mudar as regras do jogo sujo, no qual se troca apoio político por benefícios ilegítimos na administração federal.

Essa decisão, corajosa e arriscada, em princípio enfraquece Dilma no Congresso, onde é necessária uma base governista sólida para governar.

FHC e Lula não tiveram tanta ousadia.

Tabuleiro político II

O saldo parece ser o seguinte: Dilma perde força no Congresso, mas ganha força na sociedade. Com isso, tira da oposição a bandeira da ética, perdida em 2005 com o episódio do chamado “mensalão”.

Com isso, os adversários ficam diante do dilema: apoiar a cruzada virtuosa de Dilma ou conquistar
a dissidência punida por ela?

Os tempos são outros, mas não custa lembrar que, em 1964, a oposição ao presidente João Goulart resgatou a bandeira da legalidade perdida quando apoiou a reação contra a posse dele em 1961.

Dilma retoma a bandeira da ética que estava nas mãos da oposição.

Sensibilidade política

O deputado Luciano de Castro, do PR de Roraima, reagiu, assim, às demissões do pessoal
do partido dele no Dnit:

“Atingiram o PR na cabeça e no coração”, reclamou Castro.

Mas o ilustre parlamentar sabe que a parte mais sensível no corpo de alguns políticos não é a cabeça ou o coração. É o bolso.

Eike no pedaço

A Refinaria de Manguinhos que, recentemente, levantou a recuperação judicial, está em negociações com o grupo de Eike Batista.

É negócio para mais de 100 milhões de dólares.

Nos últimos dois meses, as ações da empresa com direito a voto subiram quase 70%.

Onde fica a saída?

De olho no Brasil, o ex-ministro Dias Leite, professor emérito da UFRJ, está debruçado sobre as contradições da economia política com o objetivo de mostrar as dificuldades para se sair do subdesenvolvimento.

Em busca da clareza de linguagem e de conceitos, quer fazer um livro de, no máximo, cem páginas para alcançar um leitor além daquele que gosta de economia.

Dias Leite trabalha duro, mas se permite a pequenas provocações sobre o embate entre economistas
da estabilidade “de curto prazo” e os do desenvolvimento “de longo prazo”.

Ele ironiza: “Separa-os uma medida de tempo que ninguém sabe o que é”.

Eleição carioca I

A oposição carioca ao prefeito Eduardo Paes, do DEM ao PSOL, busca uma solução para disputar com chances a prefeitura do Rio, em 2012.

Os opositores pretendem lançar vários candidatos para tentar levar a disputa para o 2º turno. Paes, do PMDB, deve contar com o apoio do PT que, provavelmente, indicará o candidato a vice-prefeito.

Eleição carioca II

Embora qualquer pesquisa, distante da eleição, seja uma indicação capaz de provocar ilusão antecipada de vitória, o Ibope, em abril, apontava a vitória folgada de Paes (tabela) no primeiro turno.

Ele faz boa administração e recebe reflexo do apoio do governador Sérgio Cabral, bafejado pelo sucesso na luta contra o tráfico.

É preciso considerar que, neste momento, o total de eleitores representa somente 75% do total, porque 25% expressam a intenção de votos brancos e nulos (tabela).

EUA: Saga Kennedy

O canal por assinatura A&E exibe no Brasil, em dublagem, a minissérie The Kennedys. É fruto, mais uma vez, da obsessão dos conservadores americanos de destruir o mito dos Kennedy a partir da seleção do que há de pior na saga da família: sexo e trapaças políticas.

Ganhou forma um roteiro composto de fatos e boatos que não distingue o fim da verdade do começo da ficção e vice-versa.

Segundo especialistas, o contrato de transmissão estava armado com o History Channel, que teria rompido o compromisso ao avaliar os riscos de uma veiculação danosa à sisuda imagem do canal. Sobrou para a A&E, que tem nome na área de entretenimento e não no setor documental.

Há uma grande indignação, principalmente, entre os Kennedys e os intelectuais ligados ao clã Kennedy onde pontifica Ted Sorensen, do staff de JFK na Casa Branca. Eles criaram um website denunciando o ataque. O assunto ganha corpo na internet.

Há avaliações de que a minissérie resulta, também, da explosão de ódio dos direitistas com as mais recentes e desqualificantes reavaliações do governo Ronald Reagan.

Mauricio Dias

Maurício Dias é jornalista, editor especial e colunista da edição impressa de CartaCapital. A versão completa de sua coluna é publicada semanalmente na revista.

Z – por wagner oliveira mello / curitiba

Z

 

Z senta no banco da praça, à distância uma trupe de teatro de rua representa uma comédia num italiano tosco, o povo gargalhante não tem tempo de reparar o seu sapato roto, nem suas roupas desbotadas ou a cicatriz que o faz lembrar-se de tudo aquilo que esqueceu outro dia. Sente fome, Pensa no sanduiche de mortadela com tomate que carrega na mochila, mas prefere fumar um cigarro, embora não faça nem dez minutos que tenha apagado o último. Logo o maço estará vazio mesmo, assim como o seu estomago. Decide alimentar os pombos com suas migalhas. Retira o sanduiche da mochila e lentamente vai esfarelando o pão para em seguida jogá-lo em pequenas quantias no chão.  Sabe-se lá de onde, pouco a pouco vão surgindo mais e mais pombos para a disputa, em instantes Z forma sua própria platéia, que ávida de pão acotovela-se para garantir o melhor lugar. Um verdadeiro espetáculo! Ele se diverte com a disputa instintiva das aves enquanto rumina sua comédia interior. O pão nunca é de graça! “é tudo que eu sempre quis: O direito de peidar, cagar e mijar, um lugar pra dormir e ter dinheiro pra comer. O pão nunca é de graça! Quem somos nós além do por que somos nós?”  Assim a comédia começa, assim ela termina…  E não há milagre nenhum nisso. Milagre? Milagre é o que Z terá de operar amanhã! Ele joga a ultima migalha do seu pão aos pássaros e se levanta; ao fundo as pessoas aplaudem o elenco da comédia enquanto um deles passa o seu chapéu pra receber as ofertas. A noite era fria e granulada de estrelas quando Z entrou no albergue do FAS.

 

RUDI BODANESE e LIRIA PORTO em fotopoema / ilha de santa catarina

A SAÚDE ALÉM DOS PLANOS – por ana castro / salvador.ba


Bastava ter um amigo médico e a gente se sentia protegido. Agora, nem com os planos de saúde mais caros, os idosos conseguem marcar uma consulta médica. Eles são necessários apenas para exames e internação hospitalar.

Geriatras são poucos no Brasil. Especialmente na rede pública. Se o médico é bom, tem agenda cheia, integra equipes de grandes hospitais, lidera pesquisas e dá aulas. Pode dispensar a burocracia dos convênios.

Cuidando de meu pai, do meu padrasto e de minha mãe, descobri como as doenças depois dos 65 são difíceis de diagnosticar. São inúmeras as patologias, como da minha mãe: Alzheimer, diabetes, pressão e colesterol altos, osteoporose, artrose, depressão, entre outras.

Consulta de idoso é demorada mesmo. Como a ida ao pediatra. Exige uma entrevista, a tal anamnse (do grego ana, trazer de novo e mnesis, memória). O médico precisa de técnica e muita paciência para investigar o passado, as cirurgias, uso de medicamentos e rotinas do paciente. Descobri que minha mãe tinha D. A. porque uma atenta geriatra, Sonia Cury, fez as perguntas certas e observou suas reações. E nem era ela a paciente. Estava como acompanhante do marido na consulta.

É mole lembrar que doenças você teve aos 78, 90 anos anos? Na Doença de Alzheimer, então, tudo se complica. Demorei anos para saber que minha mãe havia feito sete implantes dentários. Mas não colocou as próteses, que certamente pagou. Por acaso, descobri numa festa que ela e uma amiga tinham a mesma cardiologista. Marquei consulta para recuperar o histórico. Portadora de um stent, ela havia abandonado o controle da pressão arterial e do colesterol.

Homens retardam ao máximo a ida ao médico. As mulheres é que traduzem os sintomas do marido. Essas, aproveitam a consulta para falar da dores do corpo e da alma. Escondem escapadas da dieta. Confundem receitas, se automedicam e devoram bulas. Durante anos, uma querida empregada colocou diariamente sob a língua um Isordil, usado em emergências cardíacas. Minha tia dividia a dose do remédio caro com o marido: meio comprimido para cada um. Prática conhecida pelas enfermeiras da rede pública. Muitos pacientes alegam que o remédio de uso contínuo precisa durar todo o mês e tomam dia sim, dia não, Aliás, alguém explica como medicamento para tomar todo dia vem em embalagem de 28 comprimidos, quando sete meses têm 31 dias e quatro têm trinta?

Minha mãe chegou a ter cardiologista, endocrinologista, dermatologista, oftalmologista, gastro, proctologista, psicóloga, dentista e fisioterapeuta. Todos particulares. A conta da farmácia, há anos, passa dos R$ 1.200 mensais por 14 remédios, em média. E com descontos! A equipe de enfermagem tem quatro profissionais que cuidam dela 24h por dia, 7 dias por semana, 365 dias por mês. Os gastos até cabiam na aposentadoria confortável dela. Mas consegui reunir o acompanhamento a uma consulta a cada três meses com uma competente geriatra, revisão semestral da endocrinologista, ida quase semanal à dentista e fisio três vezes por semana.

Para controlar tanta informação criei planilhas, formulários, quadros de aviso e um sistema de-mail diário que circula entre a equipe. Registramos tudo: alimentação, pressão, glicemia, banho, higiene bucal e todas as rotinas adotadas. Essas informações têm sido úteis para as médicas adaptarem as dosagens de remédios e recomendarem exames necessários.

Fiz  um histórico para levar às consultas. É uma forma de ajudar o médico, pois o doente de Alzheimer fica ansioso com o interrogatório. Se você cuida da mãe, do pai, ou acompanha a avó na consulta, vá construindo um relatório e compartilhando com a família. Em alguns anos, ninguém mais irá lembrar da alergia do papai a camarão ou que vovô já não tem um rim.

Se fosse depender de convênios médicos, minha mãe jamais teria a qualidade de vida que desfruta. Na verdade, os planos são de doença, porque pouco contribuem para a preservação da saúde. Dão é muita dor de cabeça e nos tiram o sono. Após os 65, a mensalidade chega perto dos R$ 1.000. A minha já está bem salgada. Todo mês, fico em dúvida se pago ou cancelo meu plano. E a cada aniversário, a conta fica mais alta: punição por continuar viva.

ANA CASTRO é jornalista.

JORGE LESCANO em “Sem Título e Sem Título II” / são paulo

(Sem título)

 Vi a entrevista de um ator que, ao falar, lembrava filmes dublados. Seu rosto “original” também parecia estrangeiro.Todo ele dava a sensação de não ser real, antes, um personagem de seriado de televisão.

A segunda vez que o vi, ele andava pela rua como qualquer cidadão. Contudo, eu, que conhecia sua voz, sabia que era diferente das outras pessoas. Tratava-se de um dublador fora do serviço andando como “ele mesmo” (no sentido pessoano).

Depois de alguns anos, passei a vê-lo com bastante freqüência. Ele havia mudado, estava mais magro e mais velho, naturalmente, porém, aquela primeira imagem persistia. Este indivíduo era, de algum modo, o duplo de outros graças à voz que eu guardava na memória.

Somente ao vê-los simultaneamente, um passando ao lado do outro sem se olhar (não se conheciam), entendi que se tratava de duas pessoas diferentes. Por alguma razão desconhecida eu havia incorporado um ao outro, criara uma terceira personagem.

Há décadas não vejo o dublador, embora sua voz continue presente na televisão. O segundo atravessa de vez em quando o meu caminho. Sua presença enganosa me incomoda: cada vez que o vejo sinto a ausência do outro como vítima de um homicídio.

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(Sem título II)

 A minha memória é fotográfica. Ela ficou mais apurada pelos estudos de pintura que realizei na juventude. Boa memória é qualidade desejável, no entanto, com o passar dos anos, pode nos provocar incômodo.

É comum hoje “reconhecer” na rua pessoas que devo ter visto antes num lugar indefinido. De fato, sei que “conheço” a pessoa, mas sem conseguir situá-la no seu ambiente a sensação é estranha, quase onírica. Conheci quando? Onde?

O “arquivo” mental guarda tais imagens intactas, sem situações adjacentes que ajudem a incorporá-las à memória rotineira, cotidiana.

Conversei com muitas destas pessoas. Guardo delas inclusive a lembrança da voz, o timbre, ritmo, volume. Se conseguisse trazer à tona o assunto conversado certamente completaria o reconhecimento.

Já aconteceu: esta pessoa que me parece lembrança de outra, acaba se revelando lembrança de si mesma. O que tomava por referência ou reprodução era o próprio original.

A esta altura da vida, cada indivíduo é réplica de outro com quem tratei em algum tempo e lugar. Vivo num mundo de simulacros.

Serei eu, também, o duplo de alguém que não conheço?

O MEDO QUE NÃO OUSAVA DIZER O NOME – por timothy garton ash / eua

Do escândalo dos grampos pelos tabloides britânicos surge algo positivo: o bom jornalismo expôs o pior e a maré virou contra Murdoch

O drama da Grã-Bretanha penetrou até na carapaça de egocentrismo americano. O lendário repórter Carl Bernstein o compara a Watergate. Na TV, Hugh Grant conclama os americanos a acordarem para a influência perniciosa de Rupert Murdoch em sua mídia. O senador John D. Rockefeller pede uma investigação das atividades da companhia controladora de Murdoch, News Corp., preocupado com a possibilidade de grampo de telefones americanos. Se for verificado que parentes das vítimas do 11/9 foram visadas, como sugeriu o parlamentar britânico Tom Watson nos questionamentos dessa semana ao premiê na Câmara dos Comuns, esta não será mais apenas uma história estrangeira. Só na Fox News, que pertence a Murdoch, é como se nada disso houvesse realmente acontecido. Um clipe do Fox News Watch mostra os comentaristas brincando com a única história que eles não vão discutir. Vigilância da notícia, com certeza…

Mas o que isso tudo significa? “Uma espécie de primavera britânica está a caminho”, escreve o colunista de mídia David Carr no New York Times. “A democracia, ajudada pela luz do sol, brotou na Grã-Bretanha.” Hipérbole, é claro, mas ele tem alguma razão.

Eu colocaria a coisa da seguinte maneira: a debacle de Murdoch revela uma doença que vem obstruindo lentamente o coração do Estado britânico nos últimos 30 anos. É o enfarte que previne a pessoa que ela está doente, mas também lhe dá a chance de sair mais saudável do que estava. A causa fundamental dessa doença britânica tem sido o poder exacerbado, implacável e fora de controle da mídia; seu principal sintoma é o medo.

A conversa sobre uma primavera britânica por analogia com a árabe é obviamente uma licença poética. Comparada com a maioria dos outros lugares do mundo, a Grã-Bretanha é um país livre. De muitas maneiras, é um país melhor agora do que quando Murdoch comprou The Times (of London, como os jornais americanos sentem necessário acrescentar) em 1981. Mas no alto da vida pública britânica circulam homens e mulheres com pequenos pingentes de medo nos corações, e o medo é inimigo da liberdade.

Esse era um medo que não ousava dizer o seu nome; uma covardia autocomplacente que se ocultava em silêncio, eufemismo e desculpa. Intimamente, políticos, consultores de imagem, relações públicas, figuras públicas e, agora se sabe, até quadros superiores da polícia disseram a si mesmos: não ataque Murdoch. Jamais vá contra os tabloides. Murdoch & Co. usaram intromissões vergonhosas, inescrupulosas e ilegais na privacidade tanto para vender jornais, excitando um público faminto por celebridades com detalhes íntimos, como para angariar influência política.

Mesmo se os tabloides não fossem atrás de você, a ameaça estava sempre presente, contudo. Na Rússia, eles chamam isso de kompromat – material comprometedor, pronto para ser usado se a pessoa sair muito da linha. Agora sabemos que os grampos e os grampeadores não se detiveram diante de ninguém nem de nada. A família real, famílias de soldados britânicos mortos em ação, crianças sequestradas – todos foram alvo de intromissão e exposição.

O poder arrogante da mídia moldou a política britânica de maneiras importantes. Contemplando as ruínas da tentativa bem-intencionada de Tony Blair de resolver a crônica esquizofrenia da Grã-Bretanha sobre seu lugar na União Europeia, tentativa destruída pela imprensa eurocética do país, certa vez concluí que Rupert Murdoch era o segundo homem mais poderoso na Grã-Bretanha. Mas, se a medida final de poder relativo é “quem tem mais medo de quem”, então seria o caso de dizer que Murdoch foi – no sentido estrito, básico – mais poderoso que os últimos três premiês da Grã-Bretanha. Eles tinham mais medo dele do que ele deles.

Considerem as evidências. Blair vira seu antecessor no cargo, John Major, e um líder trabalhista, Neil Kinnock, serem destruídos por uma imprensa hostil. Ele aprendeu a lição. Cortejou o mais que pôde esses barões da imprensa. Só quando estava prestes a deixar o cargo, após dez anos, ousou denunciar a mídia britânica por se comportar “como uma besta feroz”.

Na semana retrasada, soubemos que o sucessor de Blair como primeiro-ministro, Gordon Brown, acredita que registros médicos, bancários e, talvez, fiscais de sua família foram invadidos. Brown conta que foi levado às lágrimas quando Rebekah Wade, então editora do Sun, outro tabloide de Murdoch, lhe telefonou para dizer que o jornal ia revelar que Fraser, filho de Brown de 4 anos, tinha fibrose cística. Apesar disso, alguns anos depois Brown foi ao casamento de Rebekah – que, no momento em que isto é escrito, é Rebekah Brooks, ex-braço direito de Murdoch na News International, o ramo britânico da News Corp. A Feiticeira Morgana do jornalismo britânico era simplesmente poderosa demais para um primeiro-ministro em busca de reeleição esnobar.

David Cameron superou Blair na paparicação aos barões da imprensa em geral e de Murdoch em particular. Pior, ele contratou Andy Coulson, ex-editor do News of the World, como seu assessor de comunicações. Não me lembro de ter encontrado algum jornalista britânico que acreditasse que o ex-editor fosse tão inocentemente desinformado, como alega, sobre o que seus repórteres estavam para fazer. Mas Cameron ignorou todas as advertências.

O mais chocante foi a polícia metropolitana de Londres ter engavetado uma investigação que devia ter feito com o maior empenho. Ela não contou a milhares de pessoas, cujos nomes apareceram nas anotações de um detetive particular usadas pelo News of the World, que seus telefones tinham sido grampeados. Somente uma tenaz reportagem investigativa do Guardian e do New York Times forçou a reabertura da investigação policial.

O primeiro-ministro Cameron agora promete um inquérito público, presidido por um juiz conceituado. Talvez a coisa mais importante que ele terá de determinar é por que a polícia agiu como agiu. De novo, a explicação mais provável se resume a medo. A polícia tinha medo de pôr em risco sua confortável relação com os jornais de Murdoch, que a ajudaram em seus inquéritos e a elogiavam pelos esforços de combate à criminalidade. Alguns policiais eram pagos pela imprensa de Murdoch. Autoridades de peso agora dizem que seus próprios telefones foram grampeados. Na falta de evidências fortes em contrário, a única conclusão razoável é que a polícia temia ser malhada, em vez de incensada, pela besta feroz. De modo que ela também dobrou os joelhos.

Só nos falta descobrir que um juiz conceituado foi espionado, vencido ou intimidado. Seguramente que não, gritamos. Isso não! Mas quantas vezes antes não acreditamos ter chegado ao fundo e depois ouvimos batidas vindas de baixo?

Entretanto, mesmo que surjam revelações ainda piores do passado, o futuro parece mais luminoso. O melhor do jornalismo britânico expôs o pior. No Parlamento, a maré virou. Líderes partidários e parlamentares comuns estão, enfim, reafirmando a supremacia de políticos eleitos sobre barões da mídia não eleitos. A barreira do medo foi vencida.

Desse atoleiro pútrido deveria surgir todo um novo arranjo: no equilíbrio entre política, mídia, polícia e lei; na autorregulação da imprensa; e na prática do jornalismo. O perigo é que, passada a indignação inicial, a Grã-Bretanha novamente se acomode com meias medidas, meio implementadas, como já ocorreu com o impulso de reforma constitucional que decorreu dos escândalo das despesas parlamentares. Por enquanto, porém, uma das crises mais importantes do sistema político britânico em 30 anos criou uma oportunidade. Neste outono, voltarei a uma Grã-Bretanha levemente mais livre.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

TIMOTHY GARTON ASH É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS DA UNIVERSIDADE OXFORD, SÊNIOR FELLOW DA HOOVER INSTITUTION, DA UNIVERSIDADE STANFORD, E AUTOR DE FACTS ARE SUBVERSIVE: POLITICAL WRITING FROM A DECADE WITHOUT A NAME (YALE UNIVERSITY PRESS)

estadão.

A poeta Marilda Confortin entrevista o poeta J B Vidal / ilha de santa catarina

ENTREVISTA PUBLICADA INICIALMENTE NA:

Revista ContemporARTES – semanal

PEQUENA ENTREVISTA COM O POETA JB VIDAL


por Marilda Confortin

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Conheci João Bosco Vidal em Curitiba, no Café & Cultura, onde nasceu um movimento batizado de “Quinta dos Infernos” que reunia poetas, músicos, jornalistas, artistas plásticos e outros bichos grilos. Tanto o café quanto o movimento foram devorados em menos de três anos pela massa antropofágica curitibana que insiste em contradizer Lavoisier: Aqui, nada se cria, nada se transforma.

Gaucho  de Bagé, administrador por profissão, JB Vidal atuou no meio empresarial, político e artístico cultural da cidade de Curitiba e do estado do Paraná.  Muitos dos poetas jovens que freqüentam a noite curitibana, foram influenciados pelo seu jeito irreverente de ser. Irrequieto, questionador, dono de um texto contundente e de uma língua ferina, sua mãe costumava aconselhar “cuidado com as más companhias, Joãozinho”. Pessoalmente acho que o Vidal  conviveu consigo mesmo por um tempo muito longo e só recentemente compreendeu o que sua mãe dizia.

Tratou de se reinventar. Mudou de residência para Santa Catarina, sem avisar ninguém e agora vive com sua mulher Rosangela numa acolhedora casa em Florianópolis, na praia dos Ingleses, onde tem a piscina mais quente e a cerveja mais gelada do sul do Brasil.

Dedica-se ao seu blog cultural Palavras todas Palavras, escreve diariamente, está com o livro de poesias “Ofertório” no prelo e realiza uma pesquisa sobre personalidades catarinenses que resultará num documentário a  ser lançado ainda este ano.

Estou passando o carnaval em sua casa. Coisa que nunca pensei acontecer. Em outros tempos, já teríamos nos “matado”. Entre uma cerveja e outra, um amigo que chega outro que sai, uma música interpretada pelo violonista GG Felix, Vidal acaricia uma costela que assa na brasa “e não é de boi nelore”, previne ele, enquanto fala sobre as raças de gado mais indicadas para um legítimo churrasco gaucho e conversa sobre literatura, arte, vida.

Pegando emprestado um comentário do amigo escritor Ewaldo Scheleder que disse “ O Vidal está insuportavelmente melhor”, inicio a inquisição perguntando:

M: – Qual foi o motivo dessa transformação?

JB: – Não sei o que ele quis dizer com isso,eu era pior? Sob que ponto de vista? Melhorei, sob que ângulo? Criei barriga? Fiquei careca? me pareceu mais uma piada do que um pensamento filosófico. O homem nasce para evoluir em todos os sentidos. Nasce bebê e torna-se adulto. Nasce totalmente ignorante e torna-se culto. Evidentemente que é uma minoria, na questão do conhecimento…claro! a maioria continua como se fossem bebês, em razão dos sistemas em que vivem, “maria vai com as outras”, vaca de presépio. Arrastam-se pela vida sem saber do que se trata. Votam em ladrões e acham que eles são muito espertos, cultuam a beleza física como se isso fosse levar a algo mais que uma trepada. Enfim, a humanidade é uma lama que só serve ao banho de alguns poucos. Então, essa evolução do homem é que está me reinventando, me refazendo, imagino. Abandonando as carcaças do percurso, me afastando do que ou quem não me acrescenta nada, e aproximando-se mais de mim mesmo, agora, não antes como você afirmou na sua apresentação. Por fim, te digo que não foi a Ilha de Santa Catarina, foi a vida mesmo. Fiz um balanço muito dolorido, por longo tempo, acho que por três anos de crítica e autocrítica, e o resultado foi mais dolorido ainda, aí você tira lições e muda, ao mudar evolui. Nem toda mudança é crescimento, óbvio. Não foi amadurecimento, não, foi constatação da necessidade de dar um salto à frente, ascender na escala, tentar pelo menos. É mais ou menos isso, em resumo, para não ser chato. Aliás, acho que a maioria dos teus leitores, a esta altura, já clicaram noutros links rs rs

M: – Pode até ser, Vidal. Mas não vou fazer apresentação acadêmica dos poetas. Não sou crítica literária e nem escrevo para adoradores de poetas mortos. Escrevo sobre poetas vivos para pessoas que querem saber o que está acontecendo agora, nesse exato momento. Por falar nisso, como está indo o seu livro Ofertório? Conte-nos.

JB:- Esse conjunto de poemas que chamo de OFERTÓRIO, é, bem provável, o início dessa mudança. Marca um período de reflexões sobre o homem e seu mundo atual. E a partir do meu olhar, tento oferecer o que me vai na alma, ou seja ofereço as experiências dos meus sentidos e de alguns sentimentos. Sendo o mais honesto possível, ofereço-me, poeticamente é claro rs rs.

Do livro Ofertório, vou antecipar para os leitores, um poema visceral, sobre o qual o escritor João Batista do Lago teceu uma longa e rica análise:

OFERTÓRIO-DOR
.
a dor que ofereço não foi provocada
nem apascentada por mim e a solidão
veio com a chuva, c’os raios
com os anéis de saturno, na cauda do meteoro
fez poeira de lágrimas
e instalou-se nesta podridão
.
soube então da dor de parir
e parido fui,
da dor da fome e fome senti
da dor do sangue e o sangue correu
em minha’lma gnóstica
a dor assumiu e sobreviveu
.
quero então oferecer
esta dor maior que o corpo
mais que desprezo e humilhação
mais que guerras e exploração
mais que almas aleijadas
mais que humanos em farrapas degradação
.
ofereço a dor do amor que amei
da partida sem adeus
da saudade sem sentir
da espera inquietante
do futuro irrelevante
da ânsia divina de morrer
.
Poema de JB Vidal
.
(…) “em qual casa eles se encarna para construir o equilíbrio para poder deblaterar sua dor? Eis aqui a questão central: antes de ser “jogado no mundo”, somos “abrigados” na “casa”. Ou seja: antes de tudo – de tudo mesmo – somos “encarnados” na mundanidade das casas. Somente a “casa”, e em especial a “casa natal”, nos fornece os elementos essenciais para o processo de aprendizagem e de apreendidade do mundo. Que imagem fenomenal, caro leitor! Ao ponto de me fazer lembrar da Alegoria da Caverna, de Platão (e traçar uma analogia, aqui e agora, sobre isso tornaria este artigo muito extenso). Quem de nós, porventura, por um instante sequer, não já projetou ou projeta a “sua” casa como “campo de concentração de segurança”? Com certeza todos! Mas, qual é a “casa” dos “sujeitos” que falam nas poesias? É a casa primeira: o corpo. É no corpo que habita a poesia. É no corpo que habita o poeta. É no corpo que a poesia é encarnada. É no corpo que o poeta é encarnado.”
Trecho da análise de João Batista do Lago, publicada originalmente no site do poeta Vidal: https://palavrastodaspalavras.wordpress.com

Lá pelos idos de 2004, participei de um encontro de poesias no Uruguai. Levei comigo vários livros e poemas avulsos de escritores brasileiros para distribuir entre os poetas estrangeiros. Um deles foi um folder de poesias do JB Vidal, impresso especialmente para o evento e muito bem ilustrado pelo artista visual RETTA. Foi disputadíssimo. O poema COMA causou arrepios entre os participantes:

COMA

nasço e inauguro em mim a trajetória da morte,
início e fim, siameses do útero à campa,
como fonte, me insurjo, resisto,
consciente de sua presença, prossigo
sepultado vivo na matéria,
com a alma esgarçada na miséria
de um momento que ela mesma desconhece,

.

não há passado para o início não haverá futuro para o fim,

.
o que será dos meus pensares?
da razão? o que ficará dos sentidos?
das agonias, dos sofreres,
dos sentimentos, penso profundos,
o que será dos meus saberes?
não me falem de exemplos,
experiências, conhecimentos,
como óbolos para quem vem a seguir,
para eles há futuro, esquecer
.
não me venham com alegorias cenobitas,
relações de fé-imagem, palavras-reveladoras,
crenças obtusas oferecidas em sacras mansões, não!
.
digam apenas que estou louco,
que me debato em trevas,
que abreviei a trajetória,
que vivo morto por querer viver depois.
.
Poema de JB Vidal
.
M:- Vidal, me conte como foi escrito este poema?
JB:- Teria minha cara Marilda que contar minha vida, o que seria muito monótono e sem graça. Mas, para matar um pouco da curiosidade, foi escrito numa madrugada fria (curitibana) e não levou mais que 3 minutos. Não houve correções. Como nasceu ficou. Para sua composição não houve uma razão explícita.
É… Vidal é assim. Tem hora que não se consegue arrancar mais nenhuma palavra dele, exceto uma frase como essa que define sua personalidade: ”Me odeie e eu respondo. Me ame e eu me calo”.

Já meio incomodado com minha conversa, pergunta se estou com fome, se quero mais uma cerveja, se não quero dar um mergulho, se… Brinca com Lenon – seu enorme cão akita branco e simpático – que se debruça no parapeito da janela da cozinha com as patas uma sobre a outra, igual um bêbado pedindo uma pinga no balcão.

Lanço um osso para o Lenon e arrisco uma pergunta final.

M:- E agora, Vidal? Que tipo de poesia essa nova fase nos reserva? Pode mostrar pelo menos uma?

JB: – Ainda está cedo. Nem sei se já existe uma nova fase e se escrevo sob o império dela, mas realmente tenho escrito muito até porque, agora, tenho todo o tempo disponível para fazê-lo. De qualquer maneira o ambiente da Ilha me entusiasma para novas incursões, como você se referiu estou na fase de pesquisa sobre personalidades catarinenses que tenham sido, realmente, fundamentais para o desenvolvimento político, econômico e cultural do estado a partir de 1960 até os dias atuais. Penso, também, editar e jogar pelas praças e feiras, no chão evidentemente, meus 5 livros de poesia, 3 de contos e crônicas e um romance que pretendo finalizar aqui depois de 4 anos escrevendo…é pouco, mas já dá para os críticos se divertirem e manterem seus salários das editoras que compõem o famigerado “mercado editorial”.

Insisto para que me mostre uma poesia nova. Não mostra. É hora de parar com essa conversa. Convida-me para conhecer a poesia que salta aos olhos nos mares do sul de Florianópolis.

Depois, gentilmente manda-me alguns textos por email, dizendo que achou nossa conversa um tanto pobre. Deixo esses últimos textos aqui para que degustem e espero que discordem dele quanto a pobreza. Oxalá todos os poetas fossem tão ricos quanto você, Vidal.

era o tempo…

era o tempo em que eu voava, de folha para galho, sobre oceanos, rochedos, e os rochedos eram moles, era gelatina os mares, as árvores, eram de papel e o papel não se deixava escrever, a tinta só no mundo, na pata não, meus irmãos corriam, de uma sombra para outra, no solo, e o solo era de nuvens, brancas, e não faziam sombras, as sombras brincavam entre elas, e elas me assustavam quando caiam no precipício, de brincadeira, que susto, e o susto era bom e eu assustava também, e o também, também se repetia, e a repetição era voar no mesmo lugar, brincar na mesma nuvem, e as nuvens subiam e desciam, e descer era subir, subir no mais baixo possível, quando subiam, era descer no mais alto possível, e os que viviam nos mares andavam sobre fogo, e o fogo era bom, bom e frio, e o frio, bem não sei, nunca estive na gelatina, mas não era ruim, segundo sei, e saber era sentir, sentir era mudar de rumo, e o rumo voltava, e eu ia e voltava, quando voltava era outra paisagem, e a paisagem mudava e voltava, e eu ia só para a que mudava, e não era mais, mas não voltava, voltava voando para a frente, e para frente era atrás, e atrás não existia, existia o vento, e o vento era meu, e meu era de ninguém, mas era meu, e eu voava nele, e ele deixava, e eu dominava ele, ele sorria, e sorrir era também chorar, e chorava de alegria, e alegria era tristeza, e a tristeza era boa, porque era boa a gente sofria, e sofrer era ruim, mas o ruim pode ser bom, e o bom pode ser mau, e o mau, não sei nunca fui mau, mas eu voava sobre o mau e o mal, e o mal não existia, como o bem também não, e o não era perfume, e o perfume, bem…o perfume…era eu, e eu era o próximo, e o próximo era todos, e todos brincavam, e brincar era trabalhar, e trabalhar era fazer, e fazer era destruir, e destruir era preto, e preto era verde, e verde não tinha cor, porque a cor era o nada, e o nada era branco e tudo, como esta folha de papel.

ETERNO     

meu corpo no teu
acende a dúvida

ser ou estar

eu!? nós!?
gozo cósmico!?

prazer em deixar-me ir
onde estás ou sejas

sou inteiro em ti

estou metade

PRISIONEIRO

nas mãos
cartas
datas
tempos
épocas
coração rítmico
arritmico
desritmico

meus lábios esmagam versos.

SANTA BOEMIA

Deus!

és o mais sábio dos poetas
pois fizestes morada no cosmos
onde é sempre madrugada!

Poemas de J B Vidal

1 comentários:

Altair disse…
Grandioso feito, dona Marilda! Este JB Vidal é ótimo. Tenho visto-o impressionar profundamente aqueles que ouvem suas declamações, sobretudo os poemas desta peça intitulada “Ofertório”. Já ler seus textos é bem mais raro, o poeta parece um pouco avesso às publicações. Então conseguir esta entrevista, ainda que pequena e de viés, é uma coisa grande! Nunca soube que ele tivesse concedido entrevista a ninguém. Parabéns aos dois, pois!Os poemas são definitivos!Altair de Oliveira.

DOR QUE DÓI MAIS – por martha medeiros / porto alegre

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

CLAREIRAS – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

O sol estilhaçou-se em estrelas

     houve um cheiro de cio

naquele início de noite quente, embalsamada.

Os grilos retiniam cios

   pavoneavam suas orgulhosas caudas sonoras.

  E eu

  estava todo concentrado nos meus olhos

    eles escutavam os sons

      e tocavam as bromélias.

Estes meus pássaros castanhos

porque o resto de mim

é casulo.

A única parte visível do meu corpo

        meus braços brancos

                      eram objetos cruzados

por sobre a cerca de velhas tábuas cinzentas.

E acima deles via

os cimos com poucas folhas do outono

    os galhos negros como sombra

transpassados por estrelas

pareciam ter floração de estrelas.

A íris

passeava dos cimos à clareira,

   ia de uma constelação à outra

   (um beija-flor de estrelas).

Aspirava à movimentação silenciosa de

                                      Ursas, Zodíacos, Cruzeiro

quase sem quebrá-la com o mastigar das pálpebras.

Essas imagens eram musicadas por

                                       sentimentos

em uma composição que misturava em meu interior

antagônicas emoções

de paz, angústia, alegria, comunhão e solidão.

Bárbara Heliodora: a função da crítica – entrevista – por ana paula conde

Contra o paternalismo da crítica teatral


“Passar a mão na cabeça não é positivo para o teatro”, afirma a crítica Barbara Heliodora

Barbara Heliodora é considerada uma crítica severa. Para os que a questionam, ela é ferina e até sarcástica; para os que a admiram, ela é uma espécie de guardiã das montagens nacionais. Aos 80 anos, Heliodora divide seus dias entre escrever críticas para o jornal “O Globo”, as viagens para realizar palestras sobre William Shakespeare e a tradução de peças teatrais, a maior parte escritas pelo dramaturgo inglês. “Estou trabalhando agora em ‘Muito barulho por nada’. Ano que vem deve sair o volume com as dez tragédias do autor pela Nova Aguilar”, diz a crítica, que ainda encontrou tempo para escrever um dos capítulos do livro “O teatro no Brasil no século XX”, organizado por Leonel Kaz e ainda sem previsão de lançamento. Desde que começou a exercer a atividade de crítica, em 1958, a qualidade das encenações é o único fator que importa em suas análises. Não interessa se o ator, o diretor e o autor são conceituados. “O crítico não pode viver de fé do ofício. Procuro avaliar cada espetáculo separadamente”, explica Heliodora. “Elogiar uma peça ruim é estimular o ruim a se perpetuar”, diz. Ela nasceu no Rio de Janeiro, em 1923, estudou literatura inglesa na Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, e foi professora de teoria teatral na Universidade do Rio de Janeiro (UniRio), entre 1964 e 1985, período em que esteve afastada da tarefa de escrever críticas para a imprensa. O interesse pela obra Shakespeare começou na infância e a acompanha até hoje. Heliodora é doutora em artes pela Universidade de São Paulo (USP), com a tese “A expressão dramática do homem político em Shakespeare”, lançada, em 1978, pela editora Paz e Terra. Também é de sua autoria o livro “Falando de Shakespeare” (Perspectiva, 1998). A seguir, ela fala sobre o paternalismo da crítica, da falta de espaço para a reflexão na imprensa e indica livros para quem deseja entender mais sobre teatro brasileiro.

A senhora é considerada uma crítica severa. Qual a razão desse rótulo?

Barbara Heliodora: Talvez seja pelo fato de respeitar o teatro, por achar que ninguém tem direito de fazer espetáculos mal acabados. A auto-indulgência é muito negativa. Sempre disse isso, desde que comecei a mexer com teatro. Acho que ver uma coisa ruim e elogiar é estimular o ruim a se perpetuar. Um grupo jovem pode não ficar satisfeito com uma crítica, mas espero que pelo menos seus integrantes pensem: “Espera aí, talvez tenha alguma coisa errada”.Todo mundo fala que só gosto de determinado repertório. Não é verdade. O que gosto é de teatro bem feito. Fazer de qualquer modo é o que não pode acontecer. O problema do Brasil é que em tudo nós precisamos deixar de ser amadores para ser profissionais. Passar a mão na cabeça do que é ruim não é positivo para o teatro.

Em artigo publicado nos “Cadernos de teatro”, editado pelo Tablado, Yan Michalski afirma que, com algumas exceções, a crítica no Brasil sempre foi marcada pelo paternalismo. A senhora acha que é chamada de severa em razão dessa tradição?


Heliodora: Acho que é exatamente isso. No Brasil, dizem que sou severa, mas as pessoas precisam ver como é a crítica no exterior. É de uma severidade de arrasar. Um ator da categoria do Raul Julia, que infelizmente morreu cedo, recebeu a seguinte crítica ao fazer “Othelo”, de Shakespeare: “É preciso que o senhor Júlia e fulano, o outro ator, que agora não lembro o nome, sejam apresentados antes de subirem ao palco”. Lembro de outra crítica a um ator francês famosíssimo que dizia: “Não há nada em cena que seja válido”. Como o Yan disse, a crítica brasileira sempre foi muito paternalista. Tenho a impressão de que pensam assim: “Ah, falar mal prejudica o emprego das pessoas”. Não concordo. O que acaba com os empregos na área são os maus espetáculos. O espectador que paga o que se paga para ir ao teatro e vê uma coisa abominável faz um voto de castidade por pelo menos dois anos. O mau espetáculo é o que afasta o espectador, não a crítica.
A crítica de teatro no Brasil só começa a mudar nos anos 50, com Décio de Almeida Prado e Sabato Magaldi?


Heliodora: Dizem, e ouvi isso mais de uma vez, que até a primeira metade do século passado o crítico era a pessoa responsável por conseguir para o jornal anúncios das companhias teatrais. Como é possível falar mal e depois pedir anúncio? São coisas incompatíveis. Enquanto durou esse esquema, foi impossível escrever de verdade. O grande divisor de águas foi o Décio de Almeida Prado, em São Paulo, que é a referência de todos nós.O Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) foi inaugurado em 1948 e ele estava nessa. Daí em diante, a crítica ganhou vida nova. Logo em seguida, nos anos 50, fundamos o Círculo Independente de Críticos Teatrais (CICT). Isso ocorreu porque a Associação Brasileira de Críticos Teatrais (ABCT) tinha uma postura muito questionável. Se uma pessoa escrevesse sobre teatro amador no interior do Piauí, já podia ser aceita como membro permanente, mesmo que nunca mais publicasse nada. O CICT foi fundado pelos críticos atuantes. Para fazer parte dele era preciso estar assinando efetivamente uma coluna. Se a pessoa ficasse desempregada podia continuar sócia, mas não podia votar. Criamos também o prêmio Padre Ventura. O Gustavo Dória, o Henrique Oscar e o Paulo Francis faziam parte do CICT. Éramos um grupo pequeno, mas todos nós acreditávamos que a crítica tinha que ser responsável.
Vários jornais acabaram, e o espaço para a reflexão foi reduzido. A senhora sente falta da discussão com outros críticos?


Heliodora: Se tivéssemos mais críticos teríamos outros pontos de vista. Na realidade, acho que o leitor escolhe seu crítico. Quando alguém diz que fulano é ótimo crítico é porque a opinião daquela pessoa coincide com a do leitor. Se tivéssemos mais críticos, o público teria maior escolha.
Cria-se também um debate entre os próprios críticos.


Heliodora: Claro. E o CICT era ótimo. A gente se encontrava, debatia e promovia eventos. Organizamos cursos para formação de platéias no antigo Teatro Maison de France, no Rio, em 1962, na época da Copa do Mundo. Fizemos dois cursos: um sobre história do teatro universal, com mais de 20 conferências, e outro sobre teatro brasileiro. O lugar ficou lotado. Lembro que dei uma palestra sobre a obra de Silveira Sampaio. Não dá para fazer isso sozinha.
Quais os novos dramaturgos brasileiros que a senhora destacaria?
Heliodora: O Mauro Rasi era a maior promessa, mas, infelizmente, morreu cedo. Ele começou no besteirol e foi amadurecendo. Eu não gosto muito de citar nomes, mas acho que há vários autores promissores. O Miguel Falabella é muito talentoso. O Bosco Brasil escreveu um texto magistral, chamado “Novas diretrizes em tempos de paz”, depois escreveu um desastre, ”Corcovado”, e agora fez uma outra bastante interessante. Ele é muito montado em São Paulo. É um autor que tem talento e pode encontrar seu caminho.
É preciso dar mais espaço para os novos autores?


Heliodora: Quanto mais se montar mais eles vão melhorar. Pelo menos é o que se espera. O pintor e o poeta podem ser descobertos um século depois da morte, mas com o autor de teatro é diferente. Ele precisa de um palco, ver sua obra testada, perceber a reação do público. É a única forma de dominar cada vez mais a técnica teatral.

Fora os autores novos, qual dramaturgo brasileiro a senhora acha que deveria ser mais montado?


Heliodora: É uma pena que as peças de Silveira Sampaio sejam tão pouco vistas. O texto dele é de uma originalidade total, mas as raras montagens têm sido desastradas. As pessoas não conseguem perceber o estilo de representação dele.
Por outro lado, há autores que são sempre montados. Nelson Rodrigues é um exemplo. Isso não é empobrecedor?
Heliodora: O Nelson precisava tirar umas férias de vez em quando. Acho que a coisa mais criativa que vi nos últimos anos da obra do Nelson foi “A falecida”, do Gabriel Villela. Ele fez uma montagem maravilhosa, altamente imaginativa. Teve uma outra boa encenação recentemente no teatro Nelson Rodrigues, mas esqueci agora. Montam tanto que a gente acaba esquecendo. Um das melhores montagens que vi de “Beijo no asfalto” foi em 1961, com direção de Fernando Torres, no Teatro dos Sete. Um senhor espetáculo!
O ator Paulo Betti afirmou numa entrevista que considera problemático o crítico ir ao teatro na estréia do espetáculo, quando ele ainda não engrenou. A montagem deve estar pronta no dia da estréia, não?


Heliodora: Essa defesa não é válida. Por que o público pode pagar e o crítico não pode ver? Todo o mundo diz que a peça amadurece com o tempo, mas se ela é ruim pode amadurecer à vontade que não melhora. Se é boa, pode até ficar melhor, mas é boa de saída, não tem essa bobagem. O que me choca é o fato de acharem que podem cobrar entrada, mas o crítico não pode ver. Ou não está pronta, e o público não deve pagar; ou está pronta, e todo mundo pode ver.
Qual é a sua avaliação sobre atores, dramaturgos e diretores que levam a crítica para o lado pessoal?
Heliodora: Minha intenção não é ofender ninguém. Não podem dizer que persigo fulano ou ciclano. Tento avaliar cada trabalho individualmente. Não posso fazer nada se alguns pensam assim, mas não entendo o porquê dessa indignação. É muito chato saber que a pessoa ficou ofendida.
A senhora procura ver todas as peças em cartaz?


Heliodora: Às vezes não há nada para assistir, às vezes há tanta coisa que a gente não sabe para onde se virar. No final, a gente acaba vendo o que pode. As pessoas acham que o crítico gosta de falar mal. Não é verdade. Por que vou querer assistir a espetáculos ruins? Eu adoraria que tudo fosse maravilhoso, mas nem sempre é assim. Por isso, talvez eu prefira ver aquilo que mais promete, o trabalho mais ambicioso. Outra coisa que atrapalha é esse negócio de não ter mais teatro de terça a domingo. Em São Paulo, só há sessões sextas, sábados e domingos. É uma humilhação para o teatro.
A diminuição do número de sessões não seria um dos reflexos da falta de público?


Heliodora: Então tratem de fazer o que é bom para atrair mais gente. O público começou a se afastar do teatro na década de 60, quando havia aquele negócio de agredir a platéia. A censura também foi muito prejudicial. Vários autores interessantes deixaram de escrever porque seus textos não podiam ser apresentados. Os iniciantes não tinham chance de ver suas obras encenadas. Isso foi terrível. Todo o processo do teatro brasileiro recomeçou com o besteirol, que eu achava ótimo, porque era uma coisa imediata. Foi uma maneira muito boa de atrair gente. A partir dessa experiência os autores foram aprendendo e escrevendo coisas mais interessantes.

O preço do ingresso também contribui para afastar o público?
Heliodora: Nunca atribuo isso exatamente ao preço. No tempo em que o ingresso custava oito cruzeiros, e todo mundo dizia que o teatro não tinha público porque era caro, o Chico Anísio fazia um show por dez cruzeiros. Ele ficou quase um ano em cartaz. A questão é o medo de encontrar o ruim.A desigualdade das produções faz as pessoas ficarem meio temerosas. Se elas tivessem certeza que iriam ver algo bom, frequentariam mais o teatro. E o boca-a-boca é fundamental nesse processo. A “Ópera do malandro”, em cartaz no teatro Carlos Gomes, na praça Tiradentes, no Rio, é um bom exemplo. O espetáculo está lotando todos os dias e a temporada foi estendida até junho. Peças boas atraem público.
A senhora gostou da “Ópera do malandro”? Alguns críticos desaprovaram a montagem de Cláudio Botelho e Charles Möeller.

Heliodora: Gostei muito. O texto não tem uma estrutura muito boa, mas as músicas, maravilhosas, são muito bem cantadas no espetáculo. Acho que as pessoas ficam ofendidas com o sucesso dos outros. É claro que não foi a melhor coisa que vi na vida, mas a reação do público era uma coisa fantástica. Disseram que nos domingos de promoção (quando se cobrava R$ 1 pela entrada) foi uma loucura total. O público ficava desatinado de entusiasmo. Isso não é um depoimento a favor do espetáculo?
O sucesso dos programas de venda de ingressos a preços populares não é prova de que muita gente não vai ao teatro por falta de dinheiro?


Heliodora: Depende. O Sesc de São Paulo, por exemplo, promove teatro de graça. Algumas coisas são um sucesso louco, mas já houve ocasiões de o público não comparecer porque a peça era muito chata. O boca-a-boca acabou com a história. O primeiro que foi lá disse: “É um horror. Nem de graça!”. Ninguém tem prazer de ver coisas ruins, nem de graça.
O projeto das lonas culturais da RioArte, espalhadas pelos subúrbios da cidade, é uma forma eficaz de popularizar o teatro?


Heliodora: É preciso levar muita coisa boa para as lonas culturais. Muitas vezes, o público é novo, e se ele começar a ver coisas ruins, não vai acreditar que ir ao teatro seja bom. É preciso respeitar a platéia e deixar de lado essa conversa de que o público não vai entender certas peças. Se a montagem for boa vai entender muito bem. Se for ruim, será ruim em qualquer lugar, na Zona Sul ou na Zona Norte. Uma coisa que faria o maior sucesso em qualquer lona seriam as peças de um ato de Molière. Elas são deliciosas e têm um conteúdo bom. Agora, tem que fazer bem feito, não pode deixar cair na chanchada. Todo mundo precisa lembrar da famosa frase do Charles Chaplin: “Não faça graça quando o material é engraçado”.

Ainda persiste a idéia de que o povo é incapaz de entender determinados autores?

Heliodora: Sim, ela continua a existir. O pior preconceito que já existiu era a esquerda achar que favelado tinha que ver peças sobre favela. De favela eles entendem muito mais do que os autores que escrevem sobre ela. Em vez de estreitar o horizonte do favelado é preciso dar a possibilidade dele experimentar outras coisas, que são perfeitamente capazes de apreciar. Isso é que me dá raiva. É achar que eles não são capazes de entender. O trabalho que Guci Fraga está fazendo com o grupo Nós do Morro, no Vidigal, é fantástico. Eu fui ao teatro deles ver Machado de Assis e foi uma gostosura. Todos na comunidade conhecem agora o autor. É uma coisa de grande mérito. Eles respeitam o público, não oferecem bobagens.

Qual sua opinião sobre o atual sistema de patrocínio. A Lei Rouanet é eficaz?

Heliodora: O esquema deveria ser diferente. Vi recentemente uma peça muito ruim, uma comédia barata, com aquela malícia que beira a obscenidade. Quando olhei o programa estava lá: patrocínio do Ministério da Cultura. Fiquei profundamente chocada e, depois, conversando com um cara da Funarte, perguntei: “Como o governo pode patrocinar uma coisa dessas?”. E o cara me disse assim: “Mas o Ministério da Cultura não pode escolher por qualidade, é inconstitucional”. Quase desmaiei. Espero que ele esteja enganado.

Dizem que não pode haver julgamento de valores. Por que não patrocinar um filme da Xuxa e apoiar uma produção do Nelson Pereira dos Santos?


Heliodora: Acho que não se deve, por princípio, patrocinar nem o filme da Xuxa nem o do Nelson. Todos os roteiros deveriam ser lidos e avaliados, independentemente de quem sejam seus autores. Depois, é claro, seria preciso verificar se as pessoas envolvidas teriam possibilidade de realizar o projeto tecnicamente. Acontece que para captar pela Lei Rouanet basta entrar com os papeizinhos certos. As firmas que dão dinheiro partem do princípio de que, se entrou o seu fulano ou a dona fulana no esquema, o espetáculo vai ser bom. Não há critério por parte dos patrocinadores.As empresas deveriam ter pessoas especializadas, capazes de avaliar os pedidos. O projeto não pode ir para as mãos de quem não entende nada. É preciso estimular o que é bom. Se uma peça é difícil de ser encenada, mas tem categoria, ela deve ser apoiada. Muitas vezes o dinheiro de estatal é usado para oferecer coisas lastimáveis.
A exigência de titulação para professores de teatro prejudica a formação de atores e diretores nas universidades?


Heliodora: Isso é um terror. Lutei muito para a regulamentação da profissão e, hoje em dia, me arrependo de ter feito o teatro entrar para a universidade. As escolas de teatro deveriam ter ficado como conservatório. Assim, poderíamos aproveitar a experiência de atores e diretores. O que pesa atualmente é a titulação. Toda a legislação do MEC é feita para as ciências exatas. Eles não vêem que ensinar arte é diferente. Em razão disso, aulas de interpretação são muitas vezes dadas por gente que nunca pisou no palco. O professor tem o título e nenhuma experiência de interpretação. Isso é muito ruim.
A senhora é uma das maiores estudiosas da obra de Shakespeare no país. Como surgiu essa paixão?


Heliodora: Você já leu? Basta ler para achar maravilhoso. Comecei a aprender inglês no jardim de infância. Quando tinha 12 anos, minha mãe me deu um volume completo de Shakespeare. É claro que não lia quase nada, mas já entendia alguma coisa. Sempre gostei muito de teatro, e para quem gosta de teatro nada melhor do que Shakespeare. Ele, Molière e Tchecov são minha trinca divina.

Mas há preferência pela obra do dramaturgo inglês?
Heliodora: Eu o leio muito mais, mas já li muito Molière também. A diferença é que Molière é bom só na comédia. Shakespeare não tem limite de gênero. Tchecov é diferente de tudo. Suas peças não são grandes tragédias. Ele retrata o desgaste cotidiano, o medo da mudança, as pessoas que não querem, ou não sabem, encarar os fatos. Gosto muito de Brecht, mas ele é diferente, é muito mais preocupado com ideologia. Para mostrar que o capitalista é condenável, ele põe em cena um sujeito horrível, barrigudo, fumando um charuto… Tchecov é diferente. Aquelas pessoas são encantadoras, o que não impede que sejam totalmente condenáveis.
Cerca de 5.000 títulos sobre Shakespeare são publicados a cada ano. Há tanto assim a ser dito sobre ele?


Heliodora: Engraçado, li recentemente o artigo “King Lear: a retrospect, 1980-2000”, publicado por Kiernan Ryan no número 55 do “Shakespeare survey”, uma revista anual sobre a obra do dramaturgo. O autor fala justamente dessa imensa produção sobre Shakespeare. Ele afirma que desde 1980 não se publica nada que valha a pena ler sobre “Rei Lear”. Ou ele aparece como homossexual, ou como esquerdista, ou como feminista… De acordo com o autor, essas posturas momentâneas não trazem nada de novo. Todos querem provar seu ponto de vista, impor sua posição.

As peças de Shakespeare estão servindo como base para todo o tipo de estudo.

Heliodora: Sim. E se a média de títulos continuar sendo essa vai sair muita besteira. Não é possível publicar um tal número de títulos por ano sobre 37 peças. É aquele negócio, a imposição de publicar e publicar acaba resultando num monte de asneiras.

A senhora está traduzindo alguma coisa nesse momento?


Heliodora: Estou traduzindo todas as peças de Shakespeare para a Nova Aguilar. Ano que vem deve sair o volume com as dez tragédias. Agora estou trabalhando em “Muito barulho por nada”. Também escrevi um artigo para um livro chamado “O teatro no Brasil no século XX”, organizado pelo Leonel Kaz. Acabei de entregar à Record o primeiro volume de “As histórias que Shakespeare contou”. São resumos das peças do dramaturgo.

Traduzir peças é mais difícil?


Heliodora: É preciso ter sempre em mente que aquilo foi escrito para o palco. É preciso parar e ouvir. Isso foi, fora tudo mais, uma contribuição fantástica do Nelson Rodrigues para o teatro brasileiro. Antes dele, a maioria dos autores escrevia o português corretamente. O texto no palco soava falso. Ele era ótimo repórter e quando escrevia o público se sentia em casa. A linguagem é fundamental. Agora, o que é maravilhoso em Shakespeare é que ele usa o verso, mas cada personagem fala a sua linguagem.
Quais livros não podem faltar na biblioteca de quem que se interessa por teatro brasileiro?
Heliodora: “O teatro brasileiro moderno”, de Décio de Almeida Prado (Perspectiva, 2001); “Panorama do teatro brasileiro”, de Sabato Malgadi (Difel, 1962); “Moderno teatro brasileiro”, do Gustavo Dória (SNT/MEC, 1975); “Depois do espetáculo”, de Sabato Magaldi (Perspectiva, 2003); e “Cem anos de teatro em São Paulo”, de Maria Thereza Vargas e Magali Sabato (Senac, 2001).

A senhora já teve vontade de escrever uma peça?

Heliodora: Nunca, jamais, em tempo algum. Eu não tenho o menor talento para escrever para teatro. Eu sou crítica, não criadora. Para que eu vou gastar meu tempo e o dos outros com bobagens?

Para terminar, o que é preciso para ser um bom crítico?

Heliodora: Em primeiro lugar, adorar teatro. Senão, a pessoa desiste em duas semanas. O percentual de espetáculos ruins que vejo a cada ano é tão alto que, se eu não adorasse teatro, já teria largado a profissão há muito tempo. Às vezes, é um sacrifício ficar sentada na cadeira, e eu não posso sair no meio do espetáculo, que é o que muitas vezes dá vontade fazer.O segundo ponto é procurar conhecer o máximo que puder, sobre autores e escolas de interpretação, e ir muito ao teatro. Quando estudei literatura inglesa nos Estados Unidos costumava ir aos teatros de Nova York nos fins de semana. Lá também tem coisas ruins, mas assisti a muita coisa boa. Ver Elia Kazan dirigindo é algo que a gente não esquece. Isso tudo faz com que você estabeleça referências. Não quero dizer com isso que o teatro brasileiro tenha que ser igual ao realizado no exterior, mas há um nível de estrutura que a gente reconhece como de excelência.
Ana Paula Conde É jornalista e mestre em ciência política pela Universidade Federal Fluminense.

 

Carlos Eduardo Novaes e o “Minestério da Educassão”

Confeço qui to morrendo de enveja da fessora Heloisa Ramos que escrevinhou um livro cheio de erros de Português e vendeu 485 mil ezemplares para o Minestério da Educassão. Eu dou um duro danado para não tropesssar na Gramática e nunca tive nenhum dos meus 42 livros comprados pelo Pograma Naçional do Livro Didáctico. Vai ver que é por isso: escrevo para quem sabe Portugues!

A fessora se ex-plica dizendo que previlegiou a linguagem horal sobre a escrevida. Só qui no meu modexto entender a linguajem horal é para sair pela boca e não para ser botada no papel. A palavra impreça deve obedecer o que manda a Gramática. Ou então a nossa língua vai virar um vale-tudo sem normas nem regras e agente nem precisamos ir a escola para aprender Português.
A fessora dice também que escreveu desse jeito para subestituir a nossão de “certo e errado” pela de “adequado e inadequado”. Vai ver que quis livrar a cara do Lula que agora vive dando palestas e fala muita coisa inadequada. Só que a Gramatica eziste para encinar agente como falar e escrever corretamente no idioma portugues. A Gramática é uma espéce de Constituissão do edioma pátrio e para ela não existe essa coisa de adequado e inadequado. Ou você segue direitinho a Constituição ou você está fora da lei – como se diz? – magna.
Diante do pobrema um acessor do Minestério declarou que “o ministro Fernando Adade não faz análise dos livros didáticos”. E quem pediu a ele pra fazer? Ele é um homem muito ocupado, mas deve ter alguém que fassa por ele e esse alguém com certesa só conhece a linguajem horal. O asceçor afirmou ainda que o Minestério não é dono da Verdade e o ministro seria um tirano se disseçe o que está certo e o que está errado. Que arjumento absurdo! Ele não tem que dizer nada. Tem é que ficar caladinho por causa que quem dis o que está certo é a Gramática. Até segunda ordem a Gramática é que é a dona da verdade e o Minestério que é da Educassão deve ser o primeiro a respeitar.

SETE CENÁRIOS DO BAILE DE MÁSCARAS – de zuleika dos reis / são paulo


                                             

1.

Se tivesses tido

com as mulheres

comigo

a mesma coragem

com que caminhas

nos outros todos campos

da tua vida

a minha vida

não se teria tornado

esta Mascarada

esta Inexistência.

2.

No baile de máscaras

eu, com a cara limpa,

sou uma aberração.

3.

Vesti também

as máscaras obrigatórias.

Como Fernando Pessoa

na Tabacaria

“Quando quis tirar a máscara

estava pegada à cara.”

 

4.

A velhice

nos chegou a todos

de chofre

no meio do baile.

Fomos para a praça

nesta quarta-feira de cinzas

para sempre.

5.

Em verdade

quem aprendeu com quem

a Mascarada

a Inexistência

o Teatro de Sombras?

6.

No meio da noite

o espelho do sonho

nos assombra a todos

mascarados

a dormir no vestiário.

7.

Assombrada

vagueio pelas salas

na procura inútil

do Mascarado que amo

com a sua eterna fala em meus ouvidos:

“Eu não te conheço.”

WOODY ALLEN, PARIS E O DILEMA DA CORAGEM – por enio squeff / são paulo


No filme “Meia Noite em Paris”, o cineasta Woody Allen põe na boca do ator que interpreta o escritor norte-americano Ernest Hemingway uma série de considerações sobre a coragem que, no fundo, pode ser estendido não apenas aos artistas, mas ao comum dos mortais.

 

No filme “Meia Noite em Paris”, em cartaz em São Paulo, o cineasta Woody Allen põe na boca do ator que interpreta o escritor norte-americano Ernest Hemingway uma série de considerações sobre a coragem que, no fundo, pode ser estendido não apenas aos artistas, mas ao comum dos mortais.

Hemingway (Premio Nobel de 1954), pessoalmente, nunca admitiu que exagerava. Ao contrário do argentino Jorge Luis Borges que passou maior parte da vida entre livros, a inventar – e a inventariar – valentias e histórias fantásticas, Hemingway foi um realista que, não raro, imitou a si mesmo em sua ficção. Era, como Borges, um leitor compulsivo e um estilista severo com seus textos (escoimava-os impiedosamente) – mas, ao relatar combates e guerras, sabia do que falava. Foi soldado condecorado, por valentia, na Primeira Guerra, correspondente na Guerra Civil Espanhola, acompanhou, como jornalista, a Segunda Guerra Mundial e quando se viu tolhido pela velhice precoce com seus achaques inescapáveis – tinha apenas 62 anos – não hesitou em meter uma bala na cabeça. Era dado a depressões mas, enquanto Borges se calou diante do assassínio de mais de 30 mil argentinos pela ditadura militar, Hemingway, denunciou publicamente o senador proto-fascista Joseph McCarthy que, na década de 50, fazia campanha contra os intelectuais de esquerda de seu país, com o apoio da grande mídia. Hemingway fez o que seria, inclusive, inconcebível para o argentino, sempre enfronhado em lutas inventadas de heróis paradoxais: desafiou o senador para um duelo.

Não houve confronto algum. À parte seu oportunismo populista, o senador era um covarde de “pés de barro”. Quando Lillian Hellman, escritora de esquerda, invocou a Constituição americana para se posicionar como bem entendesse, livremente – a própria imprensa conservadora viu-se, de repente, sem argumentos para apoiar McCarthy. Que morreu obscuramente, no esquecimento merecido de seus compatriotas.

No belo filme de Woody Allen a idéia da coragem é apenas uma dentre as muitas que o diretor suscita – mas uma das mais instigantes, é mesmo a questão da valentia. O próprio diretor não regateia suas posições na contramão da “Era Bush”, com alusões diretas ao tempo do ex-presidente americano. No entanto, parece repor o ponto de interrogação a que somos levados nos limites da coragem. Ou da covardia.

A questão não se afigura simples, de fato. Aparentemente, em seu tempo, ninguém mais merecedor do Prêmio Nobel que Jorge Luis Borges. Como se sabe, Borges não foi apenas um escritor de sucesso. Tanto à esquerda quanto à direita, a crítica jamais fez qualquer restrição aos méritos do escritor argentino – talvez um dos mais originais da literatura universal em todos os tempos. Mas ao ser posta em questão a sua eleição para o ambicionado premio, a Academia Sueca – com a pusilanimidade de todas as instituições do gênero – não se atreveu a arrostar a opinião pública mundial. Se Borges não se mostrou intimorato à altura de seus personagens – como conceder-lhe o mais ambicionado galardão literário que, bem ou mal representaria também o humanitarismo contido na literatura? Para muitos, foi a resposta contraditoriamente também medrosa a um desafio talvez maior que se pôs à Academia: o de premiar a grande literatura, a despeito do homem que a fez.

O caso de Borges, realmente, parece conduzir ao que Woody Allen – ele mesmo, na sua filmografia e na sua vida pessoal, insistiu em nunca tergiversar. A vida seria curta demais para os atos vis de complacência ou a covardia perante matanças, como se fizeram nas ditaduras militares da América Latina. Para dizer tudo: Borges, um gênio, não parece ter-se comportado à altura da sua condição de homem; ou mesmo de escritor. Não deixa, porém, de ser um enigma, principalmente para os artistas.

Não que os artistas sejam diferentes do restante dos homens. Cervantes, o grande autor de Dom Quixote, distinguiu-se na batalha de Lepanto contra os turcos. O ferimento que recebeu na ocasião, tornou-o maneta. Sua mão esquerda ficou inutilizada para o resto da vida. Assim também com Lord Byron (George Gordon, 1788-1824) – o grande poeta romântico inglês. Como Hemingway, teve uma vida aventurosa que culminou com a sua morte – de peste – na guerra de independência da Grécia, a favor da qual, aliás, ele aderiu como combatente voluntário. Camões, o português, foi um guerreiro persistente; Puchkin – o mais festejado poeta russo – morreu num duelo. Os exemplos são muitos – mas a covardia, ou a pusilanimidade ( digamos que sejam duas coisas distintas) ainda que pouco mencionadas, também não foram nenhuma raridade entre poetas, músicos e pintores. Cézanne fugiu de Paris quando da guerra franco-prussiana. Com a razão que a história da pintura talvez lhe dê, preferiu não correr riscos de vida. Monet, de sua parte, logrou escafeder-se quando se viu na contingência de ser alistado no exército francês no mesmo período. Assim também anos mais tarde, com o compositor alemão Richard Strauss que só rompeu com o hitlerismo quando muitos dos cometimentos do regime nazista já tinham sido cometidos.

Artistas não parecem, enfim, menos ou mais que homens e mulheres comuns. Quanto a essas, porém, tidas como representantes do “sexo frágil” – a coragem ou mesmo o heroísmo não foram menos freqüentes, porque menos conhecidos. As mulheres submetidas às torturas pelo regime militar brasileiro, mas que nem por isso delataram seus companheiros, são por demais conhecidas para que se façam maiores comentários. Há, porém, os casos anônimos como o que mereceu uma gravura de Goya. Durante a guerra franco-espanhola, uma jovem espanhola, ao ver seu noivo abatido por um tiro, assumiu seu lugar no canhão que ele dirigia, fulminando os franceses atacantes. O título da gravura diz por si, do espanto, não apenas dos espanhóis: “Que coragem!”, assinalou o artista abaixo de seu trabalho.

Na verdade, se a covardia não conviesse mais – a coragem – “Que coragem!” – nem mereceria qualquer menção. Parece não ser ocioso, porém, que se a registre. Como fica do filme de Woody Allen, temos a impressão de que a era do heroísmo é sempre a do passado que idealizamos, nunca do presente que vivemos – o que nos dispensaria do gesto mais digno. Ou mais valente. Mas não é bem assim.

Napoleão Bonaparte, que sabia do que falava, comentava, com seus generais que, de todos os membros da família real austríaca, o mais valente era a rainha. Dizia, derrisoriamente, contrariando, quem sabe, sua experiência com sua mãe – a qual sempre dedicou uma admiração imorredoura, justamente por sua coragem – que a tal dama, “era o único homem da casa “.

Ser homem, finalmente, não parece se constituir na condição para a covardia ou para a coragem.. Como assevera Hemingway na fita de Woody Allen, a possibilidade do medo pode assaltar um homem ( e uma mulher ) em qualquer situação. Mas se persistir durante o ato de fazer amor – então restaria ao candidato a romancista desistir de seu empenho. São palavras fortes, condicionais, que talvez pudessem ser endereçadas a Borges. Seria provável, então, que o grande escritor argentino respondesse, paradoxalmente, que justamente durante o ato de amor, aí mesmo é que lhe dava medo. Não é impossível. Borges gostava de chocar. Sua resposta, porém, não indicaria que seria menos genial por causa disso. Medroso ou não, Borges foi um dos maiores escritores de todos os tempos. Essa a contradição insolúvel dos artistas: eles acedem fazer amor com outros medos do que só o da impotência.

 

Enio Squeff é artista plástico e jornalista.

Todo Mundo devia escrever!* – por joca oeiras / teresina

Com este título, acrescido do esclarecedor subtítulo “a escrita como disciplina do pensamento” adquiri, em Teresina, um livro em formato de bolso e contendo 151 páginas, escrito pelo jornalista e escritor parisiense, de formação filosófica, Georges Picard.
O impulso que me levou a adquirí-lo veio, basicamente, de reflexões que, já há algum tempo, venho fazendo e que, grosso modo, se resumem na constatação de que a escolaridade básica, pelo menos a brasileira, embora afirmem o contrário – isto é, embora digam que almeja ensinar os estudantes a ler e escrever – não contempla, minimamente, a intenção de ensinar a escritura. Impossível esquecer, nesta questão, o exemplo da escrava Esperança Garcia que entrou para a História por ter “sabido escrever” em 1770. uma carta narrando os sofrimentos porque passava nas mãos do feitor da Fazenda Algodões.
Os mais realistas, diante da precariedade do ensino fundamental como um todo, dirão: –Não se trata da escrita, apenas,  mas do ensino como um todo”. Em certo sentido é verdade, mas, não falo, aqui, de resultados,e sim de intenções.  E reafirmo: o Ensino Fundamental brasileiro é estruturalmente não vocacionadopara o aprendizado da escrita, embora afirmem o contrário os documentos oficiais.
Fala-se em “analfabetos funcionais”, isto é, daquelas pessoas que conseguem ler as palavras mas não captar-lhes o sentido. Estes existem, sim, e não são poucos. Mas não é deles que falo e, sim, daqueles que, terminado o ensino fundamental são capazes de ler e entender um texto simples. Mesmo para esta parcela privilegiada do estudantado pergunte quantos escrevem, melhor, quantos consideram que “sabem escrever”.
Claro que não se trata, aqui, de uma tese acadêmica, mas acho, embora possa estar enganado, que os pedagogos quase nada produzem a respeito desta questão. Parece correto, mas não é, absolutamente, colocar no mesmo saco o aprendizado da  leitura  e o da escritura. É significativo: são feitas, anualmente, dezenas de campanhas cujo escopo é “Leia Mais” o tal “incentivo ao hábito da leitura”. Alguém sabe de alguma campanha propondo que se “Escreva mais”. No entanto eu posso afirmar, sem medo de errar: numa sociedade de “escritores”, isto é, numa sociedade que incentive a escrita, a leitura será colocada num patamar privilegiado. É socialmente vergonhoso não saber ler. Já viu alguém envergonhar-se de “não saber” escrever? Já ouvi esta alegação até por parte de professores universitários.
Cria-se, desta forma, uma casta elitista constituída pelos que escrevem (ou “sabem escrever”) enquanto os demais, pobres mortais, não escrevem (ou não “sabem escrever”). E esse fosso, desculpem dizer, é reforçado pelas atitudes dos que “pensam” a educação no país, e, inclusive por isso, só tende a aumentar. Não sou pedagogo mas gostarei muito de ouvir de algum deles uma resposta convincente  a estas minhas inquietações.
Para mim, a gente só aprende a escrever, escrevendo, isto é, colocando no papel, da forma a mais coerente possível, o que se passa em nossa mente.  Não consigo encontrar nos currículos escolares nenhuma estratégia articulada de real incentivo pedagógico ao exercício da escrita.
Quanto ao livro citado no primeiro parágrafo, não é verdade que ele me tenha decepcionado. Ele trata do assunto por outro viés, bastante interessante, até, mas que foge  do objeto das preocupações que externei.
Alguém pode achar que ele é a pedra da minha sopa. Não lhe tiro a razão.
*PICARD, Georges. Todo mundo devia escrever- a escrita como disciplina do pensamento. Trad. MARCIONILO, Marcos. São Paulo. Parábola.

CANTO DE SEREIA – de joão felinto neto / mossoró

 

 

Como um canto de sereia

de belíssima harmonia,

letra correta, verdadeira poesia

e melodia

que eterniza nossa alma.

Por onde anda

a sereia encantada

nas profundezas desse mar de ignorância?

Letra incorreta com falta de concordância

e melodia

que nos faz perder a calma.

Só na lembrança,

o teu canto nos enleva

na emoção que tua voz nos faz sentir

e na saudade, o nosso coração desperta

pra realidade,

não há nada mais pra ouvir.

 

“MEIA NOITE EM PARIS” – por monica benavides / curitiba

 minhas sensações depois de uma dose de Woody Allen na veia (cuidado esse homem vicia…rs)…

 

Cheguei outro dia e havia recebido pelo correio ingressos de cortesia da Livraria Cultura para assistir Meia-noite em Paris (já é a quarta vez que ganho, e continuo afirmando, essa é a melhor livraria do país com o melhor programa de fidelidade), bem mas não é sobre isso que quero comentar, quero expressar o prazer que o filme me proporcionou.

Woody Allen dessa vez leva o público para uma viagem na cidade luz (que clichê adequado), mas não uma viagem no sentido figurado apenas. Quem já foi a Paris, sentirá nos primeiros 5 minutos de filme uma sensação incrível de reconhecimento. Para os que não foram… considerem o ingresso um carimbo no passaporte. A Paris de Allen é realmente uma viagem real e proporciona a sensação da visita.

Eu na minha ignorância de apreciadora e não de crítica formada em Cinema, divido os filmes de Allen em dois tipos: aqueles onde existe uma trama genial com desfecho memorável ( aqui Sofia Getê coloco, como vc bem lembrou, o Match Point, o Scoop, O Sonho de Cassandra, enfim….) e os filmes escritos para expressar e servir de catalisador a neurose de Woody Allen.

Pois bem, se vc gosta, esse filme se enquadra na minha segunda categoria. É um filme escrito pelo Woody Allen onde o protagonista é ou deveria ser o próprio. Como ele não teria idade para o papel, escalou Owen Wilson, que sinceramente me surpreendeu. Não é o próprio Allen mas chegou bem perto e deve ser parabenizado pela excelente imitação do original.

Aqui começam os spoilers, quem não assistiu leia por sua conta e risco. (rs)

O filme antes de mais nada, exige uma cultura ou um conhecimento mínimo sobre o que era a vida artística e cultural da chamada Idade do Ouro, a famosa Paris dos anos 20.

Por exemplo, quem não sabe que a Alice que abre a porta da casa de Gertrude Stein é na verdade sua amante, e que Stein é a maior crítica de arte da época e talvez a maior crítica de arte que já existiu; que Dalí casa com a Gala em Paris e que ele era um grande Surrealista; que Picasso odiava Hemingway, Modigliani, Braque, enfim todo mundo (rs); ou que Buñuel fez um filme chamado “O discreto charme da burguesia”, que ganhou com ele, já no fim da carreira, um Oscar e que no roteiro três amigos se reúnem para jantar e não conseguem mais ir embora pela porta, (a idéia dada pelo protagonista para Buñuel em uma das suas andanças ao passado), perderá alguns insights geniais de Allen. Lógico que entenderá o filme mas não terá o mesmo sabor.

Para mim, o que ficou foi a vontade de chegar em casa e passar essa noite em claro, lendo um conto de Fitzgerald e ouvindo um disco de Cole Porter…

Que sonho, que vertigem… maravilhosa!!! Poder conversar, namorar passar uma noite com o viril e obcecado Hemingway… rs…

Mas como tudo na vida, nada é perfeito. Para mim dois pecados foram cometidos por Titio Allen: o primeiro foi a escolha da Rachel Adams. Gosto muito dela mas, diferente de Wilson, não conseguiu estar a altura de Mia Farrow ou Diane Keaton, mulheres icônicas para um filme do mestre. A outra foi a concessão feita a beleza de Carla Bruni e a facilidade que colocar a namoradinha da França, daria a alguém tão novaiorquino como Allen, ao querer filmar um longa em Paris. Acho que ele não precisava ter se prestado a esse papel nessa altura da carreira. Diria que ela está linda mas… no mínimo medíocre…

De qualquer forma o filme é brilhante e prova que Paris ainda é e sempre será UMA FESTA!!!!! Assistam e me digam o que acharam…

Bjs… até uma próxima….e já fui que o Hemingway me espera nos meus sonhos ou dentro de um carro da década de 20….

Criminosos do poder, alegrai-vos – por wálter maierovitch / são paulo

No século passado, muito se discutiu sobre a prisão preventiva. Pela sua natureza acautelatória, a custódia preventiva não se confunde com a prisão imposta como pena em decisão judicial definitiva. Portanto, ocorre desvirtuamento quando a custódia preventiva é decretada como antecipação da condenação. Por outro lado, a prisão preventiva representa um mal necessário, ou melhor, uma medida de segurança social. A sua imposição, em países civilizados, está condicionada ao princípio da necessidade.

Um exemplo muito usado pelos processualistas europeus ilustra a natureza cautelar da prisão preventiva. É a do suspeito que respondeu ao processo preso e foi absolvido por não ter sido o autor do crime. No curso do processo, no entanto, este suspeito, sentindo-se injuriado, ameaça testemunhas inconformado com os relatos colhidos na fase investigativa. A prisão preventiva, no exemplo, justificava-se pela necessidade.

Sobre reformulações e modernização das medidas de cautela e de contracautela, a legislação brasileiras estava ressentindo-se de mudanças. O nosso Código de Processo Penal é de 1941 e inspirou-se no chamado código de mármore de Mussolini. As emendas nele feitas também envelheceram. Com efeito, acaba de entrar em vigor, depois de dez anos de tramitação no Congresso, uma nova reforma (Lei 12.403/2011) sobre medidas cautelares. Dourou-se a pílula, com novas, modernas e necessárias medidas a substituir o encarceramento provisório desnecessário. Mas, com base numa lógica de ocasião, beneficiou-se a chamada criminalidade dos poderosos (detentores de parcela do poder do Estado) e dos potentes (endinheirados prontos a corromper). Em outras palavras, houve um laxismo em favor do crime organizado elitizado e voltado a dilapidar o patrimônio público.

Uma vez mais, beneficiou os quadrilheiros da elite do crime. Aqueles que já estavam proibidos de ser algemados por direito sumular, pelo qual o Supremo Tribunal Federal, com base em um único julgado, invadiu e subtraiu, ilegitimamente, a competência do Legislativo. Segundo a nova lei, o juiz só pode decretar a prisão preventiva quando ocorre imputação de crime doloso, cuja pena máxima seja superior a quatro anos. Como se percebe, não se rege a decretação da prisão preventiva, como era antes, pelo princípio da necessidade.

Em tempo de criminalidade, interna e transnacional, de poderosos e de potentes, que não atuam de forma escoteira, mas formam quadrilhas ou bandos, essa nova lei era o que faltava para o Brasil tornar-se a capital mundial da insegurança pública.

Por formação de quadrilha ou bando, enquadramento usual para o delegado de polícia representar ou o Ministério Público requerer a prisão preventiva, os poderosos e os potentes podem sossegar. Aguardarão em liberdade a morosa tramitação processual. E a prescrição poderá fechar com chave de ouro a blindagem cautelar.

Para o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, em artigo recente publicado no jornal Folha de S.Paulo, a inovação dos quatro anos “faz todo sentido”, pois “os condenados por esse tempo de prisão não vão presos ao final do processo. Sua pena, pela lei, é substituída por restrições de direito”. Ora, Bastos esquece o consagrado exemplo dos europeus, acima recordado. E confunde pena de prisão com prisão cautelar, cujas naturezas são diversas.

Um quadrilheiro potente ou poderoso, no sistema anterior e substituído, estaria sujeito à prisão preventivamente por corromper testemunhas, por exemplo. No rumoroso caso Daniel Dantas, recentemente anulado em razão da participação de agentes requisitados de um órgão do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (Abin), houve corrupção consumada e induvidosamente provada no curso de apurações. E formou-se uma associação delinquencial, segundo a acusação, para corromper a fim de brecar as investigações. Bastos afirma ainda que o uso da prisão preventiva terá seu uso “limitado aos casos mais sérios”. Os quadrilheiros de alto coturno, ou melhor, as elites criminosas, quer no mundo das empreiteiras, quer no das consultorias, quer do mercado financeiro, também acham que a limitação a casos mais sérios representa o ideal.

Pano rápido. O Brasil vive de ciclos. Quando das tragédias, vale o discurso do endurecimento. Quando aparecem as justas pressões internacionais em face de prisões lotadas e trato desumano, ou quando um figurão é preso preventivamente, passa-se ao laxismo disfarçado. À predadora elite do crime organizado, que já contava com prisão especial, agradecem os quadrilheiros violentos dos morros e favelas, pois ambas as estirpes não poderão mais ser presas preventivamente. A nova lei, frise-se, teve o mérito de criar novas medidas de contracautela, do controle eletrônico à prisão domiciliar, a lembrar o benefício concedido a Dominique Strauss-Kahn, o novo Conde de Monte Cristo entregue à destruição da negra Geni. A qual, embora prostituta, pode ter sido estuprada.

c.c.

O Centésimo Macaco

O macaco japonês Macaca Fuscata vinha sendo observado há mais de trinta anos em estado natural.

Em 1952, os cientistas jogaram batatas-doces cruas nas praias da ilha de Kochima para os macacos.

Eles apreciaram o sabor das batatas-doces, mas acharam desagradável o da areia.

Uma fêmea de um ano e meio, chamada Imo, descobriu que lavar as batatas num rio próximo resolvia o problema. E ensinou o truque à sua mãe.

Seus companheiros também aprenderam a novidade e a ensinaram às respectivas mães.

Aos olhos dos cientistas, essa inovação cultural foi gradualmente assimilada por vários macacos.

Entre 1952 e 1958 todos os macacos jovens aprenderam a lavar a areia das batatas-doces para torná-las mais gostosas.

Só os adultos que imitaram os filhos aprenderam este avanço social.

Outros adultos continuaram comendo batata-doce com areia. Foi então que aconteceu uma coisa surpreendente.

No outono de 1958, na ilha de Kochima, alguns macacos ? não se sabe ao certo quantos ? lavavam suas batatas-doces.

Vamos supor que, um dia, ao nascer do sol, noventa e nove macacos da ilha de Kochima já tivessem aprendido a lavar as batatas-doces. Vamos continuar supondo que, ainda nessa manhã,

Um centésimo macaco tivesse feito uso dessa prática.

Então aconteceu!

Nessa tarde, quase todo o bando já lavava as batatas-doces antes de comer.

O acréscimo de energia desse centésimo macaco rompeu, de alguma forma, uma barreira ideológica!

Mas veja só:
Os cientistas observaram uma coisa deveras surpreendente:

O hábito de lavar as batatas-doces havia atravessado o mar. Bandos de macacos de outras ilhas, além dos grupos do continente, em Takasakiyama, também começaram a lavar suas batatas-doces. Assim, quando um certo número crítico atinge a consciência,

Essa nova consciência pode ser comunicada de uma mente a outra.

O número exato pode variar, mas o Fenômeno do Centésimo Macaco significa que, quando só um número limitado de pessoas conhece um caminho novo, ele permanece como patrimônio da consciência dessas pessoas. Mas há um ponto em que, se mais uma pessoa se sintoniza com a nova percepção, o campo se alarga de modo que essa percepção é captada por quase todos!

Você pode ser o centésimo macaco!

Essa experiência nos proporciona uma reflexão sobre a direção de nossos pensamentos.

De certo modo, já sabemos que para onde vai o nosso pensamento segue a nossa energia.

Grupos pensando e agindo numa mesma freqüência em várias partes do Planeta têm as mesmas sensações e acabam fazendo as mesmas coisas sem nunca terem se comunicado.

Isso vale tanto para aqueles que praticam o bem como para aqueles que usam de suas faculdades para o mal.

O acréscimo de energia, neste caso, pode ser aquela que você está enviando com o seu pensamento sintonizado na freqüência do crime noticiado que gera comoção geral.

Parece coincidência, mas sempre que um crime choca e comove multidões, de imediato outros fatos semelhantes pipocam em diversos lugares.

Será isso o efeito do centésimo macaco às avessas?

Ao invés de indignar-se diante do crime noticiado, direcionando inconscientemente seu pensamento e sua energia para essas pessoas ou grupos que se aproveitam dessa energia toda para materializar mais crimes, neutralize com pensamentos conscientes de amor e perdão.

Mude de canal na TV, vire a página do jornal, saia da freqüência e não alimente ainda mais a insanidade daqueles que tendem para o crime, e, também, daqueles que lucram com as desgraças alheias.

São todos igualmente insanos, tanto aquele que pratica o crime quanto aquele esbraveja palavrões de indignação por horas diante das câmeras, criando comoção e levantando a energia que se materializará nas mãos daquele que está com a arma já engatilhada.

Gerar material para construir um mundo melhor não requer tanto de grandes ações, quanto essencialmente grandes blocos de consciência.

É preciso que mais gente se sintonize na freqüência e coloque aquele acréscimo de energia que pode gerar uma nova consciência em outros grupos, em outras partes do Planeta.

Se cada um de nós dedicarmos alguns minutos todos os dias para meditar, entrando em sintonia com a freqüência do amor, basta para mudar muitas coisas desagradáveis acontecendo em nosso Planeta e criar uma nova consciência.

Seja você também um macaco para o bem!
O centésimo, aquele que faz a diferença.

Paz !

Nota: Para pesquisar o assunto, consulte a

obra do biólogo inglês Rupert Sheldrake sobre campos morfogenéticos

FOI NECESSÁRIO PARA QUE COUBESSE – de jorge lescano / são paulo


folga na repartição e O Poeta folhe

ava seu jornal cotidiano ligeiramen

te enfastiado, como era praxe entr

e os Poetas fin de siècle e de mille

naire, quando nada mais poderia a

contecer e no entanto os encargos soci

ais obrigavam as personalidad

es a. E naquele sofisticado estado

de espírito chegou ao Caderno de V

ariedades. Sentiu um soco no peit

o e o rosto afogueado e tremores n

as pernas e uma repentina dilataçã

o das pupilas e do espaço circunda

nte e que o chão fugia sob seus pé

s, expressões estas caras aO. Ali n

aquele momento prosaico, preto no

branco: seu nome literário, a capa d

o seu livro, o logotipo da editora e u

ma resenha. E no primeiro instante n

ao acertou a. O impacto foi mais con

tundente ao perceber que a assinatu

ra não era a do seu compadre jornali

sta, mas a de um crítico renomado, d

o qual todos queriam uma. E passad

a a surpresa, admitiu que aquilo era

O. E abandonou a mesa da cozinha e foi até a sala e se espalhou no sofá d

e três lugares. Apanhou o Cachimbo d

as Grandes   Cerimônias e o  encheu com seu melhor tabaco e de esguelha contemplava-se no espelho. Foi c

om voz grave que solicitou à esposa que lhe trouxesse os sapatos, pois o

s chinelos. A mulher disse que as sol as dos pés no cocuruto lembravam uma postura ioga, mas ela estava ca

n sada  de saber  que O  Poeta nu

nca. (Amava a Tradição, a Forma, a Pureza e a Higiene na Poesia, dir

ia seu epitáfio.) E disse que seu olhar expressava textualmente (sic) a vontade de ficar de pé sobre aqu

ele pedestal. A fratura o pescoço, co

m seqüelas anatômico-lingüísticas, teria sido a causa mortis, segundo d

eu a entender o. Foi necessário r

etalhá-lo para que coub

PALOMA SAN BASILIO interpreta ” NO LLORES POR MI ARGENTINA” / madri

UM clique no centro do vídeo:

PLÁCIDO DOMINGO interpreta “EL CÓNDOR PASA” / madri

Yaw kuntur (El Cóndor Pasa – Kuntur phawan)
El Cóndor Pasa is a wonderful song from the zarzuela El Cóndor Pasa by the Peruvian composer Daniel Alomía Robles written in 1913 and based on traditional Andean folk tunes.

Guajira Guantanamera – de joseito fernandez e jose marti / havana

GUANTANAMERA Original music by Jose Fernandez Diaz Music adaptation by Pete Seeger & Julian Orbon Lyric adaptation by Julian Orbon, based on a poem by Jose Marti

Estribillo:
Guantanamera,
guajira guantanamera
Guantanamera,
guajira guantanamera

Con los pobres de la tierra
quiero yo mi suerte echar:
el arroyo de la sierra
me complace más que el mar.
Denle al vano el oro tierno
que arde y brilla en el crisol:
A mí denme el bosque eterno
cuando rompe en él el sol.
Estribillo:

Yo quiero salir del mundo
por la puerta natural:
en un carro de hojas verdes
a morir me han de llevar.
No me pongan en lo oscuro
a morir como un traidor:
yo soy bueno y como bueno
moriré de cara al sol.
Estribillo:

Tiene el leopardo un abrigo
en su monte seco y pardo:
yo tengo más que el leopardo
porque tengo un buen amigo.

Estribillo y fin

UM clique no centro do vídeo:

JOHN LENNON in “IMAGINE” / nova iorque

John Lennon and Yoko Ono Playing “Imagine” In Madison Square Garden.

 

UM clique no centro do vídeo:

 

MORRIS ALBERT in FEELINGS / são paulo

MORRIS ALBERT, fez parte de um fenômeno dos anos 70, brasileiros compondo e cantando em inglês usando pseudônimos, foram vários que participaram dessa fase.

UM clique no centro do vídeo:

Liberdade para mentir – por izaías almada / são paulo

A liberdade de opinião e a liberdade de imprensa que se defende no Brasil, essas que continuam a favorecer umas tantas “famiglias”, trazem hipócrita e cinicamente escondidas em sua defesa um único e insofismável propósito: a liberdade para mentir.

 

Naquilo que foi considerada a primeira crise política do governo Dilma Roussef, com o defenestramento de um ministro, muito se discutiu sobre moral e ética. Opiniões, as mais diversas e desencontradas, pipocaram por quase três semanas em jornais, revistas, televisões e boa parte da blogosfera.

Para uma sociedade que, pelo menos na aparência, se mostra paradoxalmente mais preocupada com a corrupção e ao mesmo tempo mais corrupta a cada dia que passa, ativa ou passivamente, não importa, a proporção do debate quase atingiu as raias do paroxismo.

Contudo, e não estamos apontando nenhuma novidade, no quesito corrupção, a volúpia acusatória tem pendido sempre mais para um lado da balança do que para outro, sendo o Partido dos Trabalhadores o alvo preferencial da mídia. Entende-se: é a luta pelo poder político, dirão muitos.

Não só, ouso dizer, é também a luta de classes. E é também o entendimento atual daquilo que muitos brasileiros conhecem ou mesmo aprenderam sobre o pensar e o fazer político. É provável que muitos até já se esqueceram, é verdade, seja pelo vazio de ideias e pela repressão causada pelo golpe de 64, seja pelo canto do cisne das políticas neoliberais dos anos 80/90 ou mesmo do emblemático desaparecimento da União Soviética, onde muitos acreditaram que uma ideologia e um modelo de organização econômico social haviam chegado ao fim.

Lembrei-me, em meio a essas calorosas discussões sobre ética e moral, da leitura que fiz já há alguns bons anos de um livro intitulado “Marxismo e Moral”, de autoria do professor William Ash, norte americano que se mudou para a Inglaterra, cujo original foi publicado na Monthly Review Press em 1964 e editado no Brasil em 1965.

O livro, de linguagem fluente e fácil, procura discutir os conceitos morais dentro das condições materiais em que vivemos em sociedade ou, em outras palavras, o que nos leva a emitir juízos de valores morais numa sociedade capitalista, por exemplo, como essa que nos é dado viver.

Nos quatro longos capítulos em que procura sistematizar o seu pensamento, o autor faz referências a algumas obras e pensamentos de Marx, alguns dos quais nunca é demais lembrar. Por exemplo: “As ideias da classe dominante são, em qualquer época, as ideias predominantes”. Simples e cristalino. Só não entende quem não quer ou não se dá ao trabalho de pensar.

Na atual situação política brasileira, a ética tem sido usada como arma de combate entre adversários políticos de quase todos os partidos, sem exceção, sendo que os representantes desses partidos, seja no âmbito federal, estadual ou mesmo municipal, em sua grande maioria, representam interesses em sua maior parte, da classe dominante, mesmo que seus programas partidários e sua militância, quando ela existe, apontem noutra direção.

Contudo, nessa troca de acusações, muitas delas sem provas, o que tem vergonhosamente caracterizado uma quebra do princípio jurídico da inocência presumida, a quase totalidade da imprensa tem – sempre que pode – tentado fazer a balança pender para um dos lados.

Diz William Ash em sua obra acima citada: “Os moralistas que se identificam com uma classe que tenha desfrutado o poder e é ameaçada pelas bases têm uma compreensível tendência para ressaltar a obediência ou o dever como de primordial significação ética.”

Como já surgem indícios aqui e ali de que se torna cada vez mais tênue a linha que divide situação e a oposição no Brasil atual, pelo menos essa que coloca de um lado partidos como o PT e o PMDB, e de outro legendas como o DEM, o PSDB e o PPS, começa haver um vácuo de representatividade no país. Pergunta-se: obediência a quem? Dever para com quem?

A reforma política adquire cada vez mais importância e urgência, pois o poder político não admite o vácuo. Em momentos de indecisões, recuos ou mesmo de reflexões para novos avanços, há sempre alguém (grupos eu diria) que se aproveita para reconquistar ou manter posições conservadoras ou mesmo inibidoras de políticas econômicas menos ortodoxas. E nisso, contam com o apoio de uma imprensa que defende a sua liberdade ou a liberdade de opinião (a sua) sempre em proveito próprio ou de grupos a quem tradicionalmente se alia.

E nesse jogo de interesses, as ideias predominantes continuam sendo as ideias da classe dominante, dos que detêm o poder econômico, porque a liberdade por esses defendida é a liberdade de continuarem no poder a qualquer custo, mesmo que para isso usem da chantagem, da mentira, dos fatos sem comprovação, da intriga.

Diz William Ash, lembrando Marx mais uma vez: “A ‘livre empresa’, não é senão a liberdade de explorar o trabalho dos outros. Tal como a ‘liberdade de imprensa’ é a liberdade que os capitalistas têm de comprar jornais e jornalistas no interesse de criar uma opinião pública favorável à burguesia”.

Palavras que ainda encontram ressonância nos dias em que vivemos. A burguesia brasileira, que se formou logo ao receber da Coroa portuguesa as capitanias hereditárias, até hoje não as devolveu. E continua a agir como se estivéssemos no século XIX.

Basta acompanhar o que acontece no setor agropecuário, onde a violência tem mão única. Quantos trabalhadores rurais foram assassinados no Brasil nos últimos anos? E quantos donos de terras? Ou acompanhar a vergonhosa defesa do crime de colarinho branco pelo poder judiciário. A justiça brasileira é uma justiça de classe. E quanto à mídia? O que dizer das inúmeras denúncias irresponsáveis ou matérias fabricadas, manipuladas, para servirem a interesses particulares e não aos interesses do país?

A liberdade de opinião e a liberdade de imprensa que se defende no Brasil, essas que continuam a favorecer umas tantas “famiglias”, trazem hipócrita e cinicamente escondidas em sua defesa um único e insofismável propósito: a liberdade para mentir.

 

Escritor e dramaturgo. Autor da peça “Uma Questão de Imagem” (Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos) e do livro “Teatro de Arena: Uma Estética de Resistência”, Editora Boitempo.

Alimentação e gasolina barateiam, e inflação é a menor em dez meses / brasilia

Inflação oficial do país despenca de maio para junho, graças à queda no preço de alimentos e combustíveis, e termina em 0,15%, o patamar mais baixo desde agosto do ano passado. Os dois grupos de produtos são, porém, os vilões da inflação no ano, que terminou o semestre no nível mais alto desde 2003, 3,87%. Limite máximo aceito pelo governo até dezembro é de 6,5%.

 

A inflação despencou de maio para junho e fechou o mês no patamar mais baixo dos últimos dez, 0,15%, informou nesta quinta-feira (07/07) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que calcula o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Em maio, tinha sido de 0,47%.

A remarcação desacelerou de um mês para o outro graças ao barateamento dos alimentos e dos combustíveis. Os dois grupos são, no entanto, os grandes responsáveis pela inflação de 3,87% no acumulado do primeiro semestre, a mais alta desde 2003.

O baixo resultado de junho já era esperado pelo governo e pelo “mercado” que o Banco Central (BC) consulta toda semana sobre uma série de indicadores. Até o fim do ano, a expectativa oficial e do setor privado é de que a inflação mensal se situará em níveis inferiores aos do primeiro semestre.

Para o BC, isso será suficiente para o número final ficar abaixo do limite autoimposto pelo governo, que é de 6,5%. A última previsão do banco, divulgada em seu relatório trimestral de inflação, aponta variação de preços de 5,8% em 2011.

Nos últimos doze meses encerrados em junho, a inflação bateu em 6,71%, o maior valor em seis anos. O índice deve subir pelo menos até setembro, na medida em que os meses de julho e agosto do ano passado, em que a inflação foi quase zero, saírem da conta.

Este cenário preocupa o Banco Central porque se revelará bem no meio de um ciclo de reajustes salariais a ser negociados por diversas categorias de trabalhadores. E os sindicatos vão usar este índice mais elevadio para calcular o aumento que vão pedir.

Nos últimos dias, o presidente do BC, Alexandre Tombini, sugeriu que os trabalhadores não usassem a inflação passada para negociar aumentos, mas que olhassem para a frente.

O presidente da Central Única dos Trabalhadores, Artur Henrique da Silva Santos, acha a proposta “absurda” porque negociação de salário é exatamente para proporcionar ganhos reais com base em inflação passada.

c.maior.

ARTISTA VISUAL faz escultura no grafite (ponta do lápis) – alemanha

A conceituada revista alemã Cicero contratou a artista plástica Ragna Reusch Klinkenberg para esculpir três cabeças de políticos famosos da nossa atualidade. O detalhe importante é que eles foram esculpidos na ponta do grafite de alguns lápis. O resultado é fantástico, confira:

“ESTÂNCIA DA POESIA CRIOULA” a Academia Xucra do Rio Grande, lançou sua “ANTOLOGIA 2011”, está nas livrarias / porto alegre

PELE – de edu hoffmann / curitiba

Pele

 

 

 

 

 

a pele dorme sua derme

a pele colhe a que nos demos

 

igual se fosse vela

que vacila

à sombra dos Anjos

desvendando véus

das faces veladas

 

mas agora, aqui

parece até coisa de novela

nós debaixo desse céu

numa imensa azulada umbrela

 

nosssa mãos

haicai

feito uma luva

 

nossos pelos

a   flor

da pele

 

ESTRELA LEMINSKI lança o livro “POESIAÉNÃO” na livraria Realejo / santos.sp

Hoje não acordei encontado – por omar de la roca / são paulo

 

O despertador me acordou  perverso e pontual as 6 em ponto.”Esta chovendo”.Eu quis ficar mais um pouco.Mas era hora.Levantei,tirei a camiseta fui ao banheiro e voltei ao quarto.A cama piscou um olho para mim e eu cedi.E me estirei seminu sobre ela.Olhei o relógio.Seis e doze.Só mais um minuto.E fechei os olhos.Que que é isso?Pelo menos mais três minutos , penso.E a vida corre pelos meus olhos.De que falarei hoje ? Que palavras irão transbordar sem que eu pense nelas ?Hoje não acordei encontado.Se quiseres vire a folha.Vou te enrolar pelas próximas linhas até chegar ao fim da página.Seis e treze,nem um minuto passou e já estou de pé.Roupa,café,guarda chuva ( com ou sem hífen).Rua.Chuva que insiste em cair mas agora mais fraca.Vou caminhando e pensando.Pena que o Wilson não respondeu ao e mail que enviei.Tentei um caminho engraçado,como eu sou.Como se uma piada pudesse encobrir uma multidão de anos passados em silêncio.Devia ter ido por um caminho mais normal.Perguntar da vida dele, casamento, emprego,filha.Mas sou assim mesmo,precipitado.As vezes tenho ataques de “ como teria sido se…”.Como teria sido se eu escolhesse o azul em vez do vermelho? Na certa não muito diferente,já que descobri que os dois nos decepcionam com a mesma intensidade,de maneiras diferentes.Como teria sido de eu optasse por estudar um pouco mais as cores e percebesse que a cor escolhida tem nuances mais escuras e sombrias do que a cor original? Alias,por que somos forçados a colocar um fatídico X nas opções que fazemos e entregamos ao professor para obter boas notas,sem chance de muda-las depois? Porque não podemos simplesmente marcar com X “todas as opções anteriores estão corretas”?Mas hoje não acordei  encontado.Acordei cheio de interrogações,que vão desfilando elegantes mostrando suas roupas de moda.Algum dia terei as respostas?”Mas isso acontece comigo  todos os dias” você dirá. Na verdade acontece com todos nós,mas não sabemos ou não nos damos conta ou não aceitamos.A dúvida bate na porta e nos mostra o catálogo da vida como poderia ter sido,como uma vendedora da Avon.Se vivi ? “ Confesso que…” Mas não que este é outro conto,outro livro que ainda não li.Mas não acordei encontado.Que bom que a chuva não está forte,tenho o que fazer na rua hoje.Não vou precisar nadar até o metro.E me parece que ,como sempre digo, as lições estão em todos os lugares,basta ter olhos para ver, ao sentar no vagão do metro me vem brilhante a lição do sabão em pó,no quadro a minha frente.” Sua vida não é feita de uma cor só.” Eu que brinco com cores até ter as mãos sujas delas e vou limpando na cortina,no sofá,na calça,aonde der.Não me lembro a marca do sabão.Nem diria se lembrasse.A lição é meio emblemática e extremamente clara.Como o branco.Com uma sacudida o metro sai.Com uma sacudida inicio minha meditação diária.Empurro para o fundo da memória a lição do sabão em pó e a lição da vendedora da Avon.E esqueço tudo.Já tinha pensado em dois contos,que acabaram se fundindo num só.Com a meditação esqueci muita coisa que pensara.Mas precisava ordenar as idéias.Que hoje não acordei encontado.Voltando a cama,que importância tem um minuto,porque não fiquei pelo menos um minuto inteiro ? Num minuto penso num conto.E tenho que correr para segurar seus bracinhos enquanto ensaia uns passos incertos sobre o papel.Um conto.Mas hoje não quero saber de contos,crônicas ou crontos ou formas geométricas.Que hoje não acordei.E não precisa contar que eu te conto,não acordei encontado hoje  cinco vezes.Mas se contares serão seis.Ou sete,que hoje…

Lançamento do livro “Fazer Falar a Pintura” – na UNIVERSIDADE DO PORTO / portugal

“Fazer Falar a Pintura”, o novo livro editado pela U.Porto editorial, organizado por António Quadros Ferreira, será lançado no próximo dia 7 de Julho, na Fundação de Serralves, no Porto. A apresentação da obra será feita por João Fernandes, Director do Museu de Serralves.

 

O livro apresenta testemunhos de 58 professores-pintores de Portugal, Espanha, França e Bélgica, nos quais a produção artística se alia ao discurso na primeira pessoa. Cada autor apresenta uma imagem e um texto que incide sobre a especificidade do objecto da pintura, descrevendo-o. Fazer Falar a Pintura é um projecto de discurso académico sobre a arte, sobre o ensino da arte, sobre a pintura, e o ensino da pintura em particular.

 

A sessão de apresentação realiza-se pelas 18h30, no foyer do auditório da Fundação de Serralves, sita na Rua Dom João de Castro, n.º 210, no Porto. A entrada é livre.

 

O livro está disponível para compra em: http://www.wook.pt/ficha/fazer-falar-a-pintura/a/id/10984463

 

 

U.Porto editorial

Reitoria da Universidade do Porto

Praça Gomes Teixeira, 4099-002 PORTO

Tel.: 220 408 196  Fax: 220 408 186

URL: editorial.up.pt/

Sampa é uma festa (auto)móvel. Sumpa, uma festa junina. – ewaldo schleder / ilha de santa catarina

Sampa é uma festa (auto)móvel.

Sumpa, uma festa junina.

 

Presente célere: passado. Instala-se o inverno, 24 de junho, dia de São João.

Mas faz calor de primavera em São Paulo – posso ficar em casa

de camiseta e bermudas (acostumado com Florianópolis).

Na rua venta um pouco e deixa o sábado especialmente agradável.

Tati descansa de nosso percurso solo: ônibus urbano e demorada espera

pós-aeroporto, depois da viagem tranquila desde Curitiba.

Incongruências no transporte, na interação entre ar e terra =

uma hora de avião + 40 minutos no desembarque e bagagens

+ uma hora e dez de espera do ônibus urbano + 35 minutos

entre aeroporto e Tatuapé + 15 minutos de táxi até a Mooca.

Sampa, sumpa – o que vim fazer aqui?, além de acompanhar a Tati

em sua transição de trabalho daqui a curita.

Moro em floripa e lá eu deveria estar, em minha casa, sossegado.

Arrependimento não se aprende, ouso concluir.

Noutro dia faz frio e chove. Gelam os pés, a alma, as cobertas.

Só Tati, minha namorada, é preciso, somos precisos.

As atrações culturais e boêmias da metrópole não compensam

as aberrações da sub-urbe densa de gente. Os apelos da famosa

movida paulista não valem o impacto poluente

(som, imagem, movimento, detritos) de lata e borracha, do ar chumbado,

proporcional à escala automobilística: e o consumo estimulado

nas classes sócio-econômicas ascendentes, sofisticado nas elites,

consagrado nas camadas compactadas pela vox media, vox populi.

Emergente realidade no País novo-rico e mal-educado;

grande por fora e pequeno por dentro – como a Casa Feres, lá dos pinheirais.

Domingo na paulicéia – a desvairada, a airosa. Garoa. Mudo de assunto, mas nem tanto.

Penso nos brasis: dos pinheiros, das palmeiras, da soja, das matas,

das águas doces e salgadas. A fartura natural incomoda a tecnologia e o capital;

ainda que, respectivamente, a sirva e o sustente. Escassez, finitude, nem pensar.

Aceleramos a demolição: tijolos partidos, madeira aos retalhos, vidros trincados,

 ferros retorcidos, cimento rachado, pedras lascadas, entulhos;

a energia motriz da industrialização a recortar a natureza, a extinguir espécies;

os cálculos estruturais superam a sensibilidade, a sabedoria popular,

o instinto animal dos trópicos. Nada de novo debaixo do sol.

De janeiro a janeiro corre o rio Tietê.

Repartimos o que há no horizonte mais próximo. Buscamos e nos acomodamos,

enfim, aos nossos dois metros quadrados de felicidade. Ou de possibilidade.

De segurança? Locamos e assistimos filmes, lemos livros, revistas e jornais,

Ouvimos músicas. Bebemos. Mastigamos. Ruminamos. Mergulhamos na internet.

Bate o pânico, síndrome planetária.

Tati, paixão hibernal, colo! Teu colo. Sou hóspede da centenária

Mooca (tupi: fazer oca), bairro do clube ítalo-brasileiro Juventus.

Vila adotada por imigrantes lituanos e iuguslavos. Espaço histórico,

do Cine Santo Antonio, anarquista e comunista, berço da pizza tropical.

Pedimos uma de 2 sabores: nota dez. Durmo até achando que aqui mesmo

terminam os descasos brasileiros: a velha, a boa, a cúmplice pizza.

Nostalgia do futuro: – éramos cordiais aqui, Tati, minha paixão transcendental!

Germano Rigotto lança livro na Capital – porto alegre


Convidados do ex-governador Germano Rigotto se enfileiraram por autógrafos no lançamento do livro Para Além do Berço Esplêndido, na Livraria Cultura do Bourbon Country.

Tarso Genro e Olívio Dutra estiveram na sessão de autógrafos da publicação na qual o autor faz uma reflexão sobre os rumos que o Brasil deve seguir para se tornar uma potência.

Legisla, poeta! – por alceu sperança / cascavel

Em meio a tantas angústias causadas pela cascata de crises ou crises em cascata do absurdo sistema que nos rege, há motivos para acreditar que o mundo pode e vai melhorar.

O Equador ofereceu um maravilhoso exemplo ao planeta, ao aprovar por 94 votos a 32, em sua Assembleia Nacional Constituinte, a nova Carta Magna do País, da qual foram riscados alguns princípios neoliberais e inscritos outros, em benefício do ser humano e da natureza.

Com a omissão do presidente da ANC, coube à vice-presidente, Aminta Buenaño, fazer a entrega do texto da Constituição, que foi a referendo popular, como toda boa Carta Magna.

Ela entregou o texto a um grupo de crianças vindas das mais diferentes regiões do País, que receberam também cadernos em branco, lápis e borrachas para escrever neles uma nova história para o Equador, advinda de uma Constituição, finalmente, democrática e popular.

“Nós construímos o caminho, mas vocês darão os primeiros passos”, disse às crianças a congressista Aminta Buenaño, jornalista e escritora. “Nós construímos a moldura, mas vocês têm os pincéis. Escrevemos uma Constituição, mas vocês a tornarão realidade”.

Um trechinho: “A Natureza ou Pachamama, onde se reproduz e realiza vida, tem direito a que se respeite integralmente sua existência, a manutenção e regeneração dos seus ciclos vitais, estrutura, funções e processos evolutivos”. Cáspite! A Natureza passa a ter direitos.

Na capa dos cadernos em branco figura a inscrição: “Escreva aqui a história do novo Equador”. Ingênuo, não é? Em Cuba as crianças vigiam as urnas para que os adultos não as burlem. Quanto abuso do trabalho infantil…

Aminta convocou as crianças a usar os lápis para escrever “a mais bela história do País” e as borrachas para que apaguem “os erros do passado”, tais como “partidocracia, corrupção, ineficiência, desigualdade e a perversa distribuição da riqueza, assim como os erros próprios e alheios”.

As crianças e os jovens, para ela, “são água transparente, fontes cristalinas, esperança, força, vida, coragem, garra e valentia, mas, sobretudo, são promessas de um futuro possível, de um novo País, onde a justiça, a paz e a igualdade sejam possíveis”. “Esta Constituição é de vocês, mas para que vocês a continuem, para que escrevam a poesia da verdade, da justiça, da igualdade”.

Deve fazer bem para a alma de um povo ter uma deputada que escreve poesia enquanto legisla. Por aqui, temos deputada que dança animada quando a corrupção prevalece.

O que houve com o Equador? Houve que o eleito não traiu seus compromissos. Logo no dia da vitória nas eleições presidenciais, Rafael Correa colocou o mandato até diante da possibilidade de ser extinto, ao propor ao povo um plebiscito sobre se queria uma nova Constituição ou preferia manter a velha, com suas regras neoliberais. Em abril de 2007, a população foi às urnas e aprovou a Constituinte com mais de 80 por cento dos votos.

Mas o que diz essa bendita Constituição? Diz que o Equador é um “território de paz” e não permitirá “o estabelecimento de bases militares estrangeiras nem de instalações militares estrangeiras com propósitos militares”.

Diz que as emissoras de rádio e TV terão que cumprir sua finalidade de educação popular. Institui, veja só, “o regime do bem viver”. A soberania alimentar, muito além do BigMac.

A declaração de que o Estado equatoriano é plurinacional, e que também o idioma dos índios vale (ao contrário do nosso pobre Guarani). E que, enfim, somos latino-americanos. Arriba!

EDU HOFFMANN faz poesia para o artista visual HÉLIO LEITES / curitiba

Hélio Leites

Pega o pinhão pra Cristo

e faz da latinha de sardinha

um presépio

faz dos ramos rimas

da colher de pau um remo

que conduz pássaros, peixes

serra-acima

caixinha de fósforo sua alma anima

liliputiando sua imensa ternura

criador, criatura – única pantomima

Hélio faz em seu mundo de miniaturas

o anjo dormir no avesso das coisas

do material inútil nasce a beleza

Helioterapia faz dançar a periquita

na poesia de mais uma Heliogravura

Hélio e a sua sustentável leveza

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HÉLIO LEITES trabalhando.

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A CASA

fotos de BRUNA BAZZO.