Todo Mundo devia escrever!* – por joca oeiras / teresina

Com este título, acrescido do esclarecedor subtítulo “a escrita como disciplina do pensamento” adquiri, em Teresina, um livro em formato de bolso e contendo 151 páginas, escrito pelo jornalista e escritor parisiense, de formação filosófica, Georges Picard.
O impulso que me levou a adquirí-lo veio, basicamente, de reflexões que, já há algum tempo, venho fazendo e que, grosso modo, se resumem na constatação de que a escolaridade básica, pelo menos a brasileira, embora afirmem o contrário – isto é, embora digam que almeja ensinar os estudantes a ler e escrever – não contempla, minimamente, a intenção de ensinar a escritura. Impossível esquecer, nesta questão, o exemplo da escrava Esperança Garcia que entrou para a História por ter “sabido escrever” em 1770. uma carta narrando os sofrimentos porque passava nas mãos do feitor da Fazenda Algodões.
Os mais realistas, diante da precariedade do ensino fundamental como um todo, dirão: –Não se trata da escrita, apenas,  mas do ensino como um todo”. Em certo sentido é verdade, mas, não falo, aqui, de resultados,e sim de intenções.  E reafirmo: o Ensino Fundamental brasileiro é estruturalmente não vocacionadopara o aprendizado da escrita, embora afirmem o contrário os documentos oficiais.
Fala-se em “analfabetos funcionais”, isto é, daquelas pessoas que conseguem ler as palavras mas não captar-lhes o sentido. Estes existem, sim, e não são poucos. Mas não é deles que falo e, sim, daqueles que, terminado o ensino fundamental são capazes de ler e entender um texto simples. Mesmo para esta parcela privilegiada do estudantado pergunte quantos escrevem, melhor, quantos consideram que “sabem escrever”.
Claro que não se trata, aqui, de uma tese acadêmica, mas acho, embora possa estar enganado, que os pedagogos quase nada produzem a respeito desta questão. Parece correto, mas não é, absolutamente, colocar no mesmo saco o aprendizado da  leitura  e o da escritura. É significativo: são feitas, anualmente, dezenas de campanhas cujo escopo é “Leia Mais” o tal “incentivo ao hábito da leitura”. Alguém sabe de alguma campanha propondo que se “Escreva mais”. No entanto eu posso afirmar, sem medo de errar: numa sociedade de “escritores”, isto é, numa sociedade que incentive a escrita, a leitura será colocada num patamar privilegiado. É socialmente vergonhoso não saber ler. Já viu alguém envergonhar-se de “não saber” escrever? Já ouvi esta alegação até por parte de professores universitários.
Cria-se, desta forma, uma casta elitista constituída pelos que escrevem (ou “sabem escrever”) enquanto os demais, pobres mortais, não escrevem (ou não “sabem escrever”). E esse fosso, desculpem dizer, é reforçado pelas atitudes dos que “pensam” a educação no país, e, inclusive por isso, só tende a aumentar. Não sou pedagogo mas gostarei muito de ouvir de algum deles uma resposta convincente  a estas minhas inquietações.
Para mim, a gente só aprende a escrever, escrevendo, isto é, colocando no papel, da forma a mais coerente possível, o que se passa em nossa mente.  Não consigo encontrar nos currículos escolares nenhuma estratégia articulada de real incentivo pedagógico ao exercício da escrita.
Quanto ao livro citado no primeiro parágrafo, não é verdade que ele me tenha decepcionado. Ele trata do assunto por outro viés, bastante interessante, até, mas que foge  do objeto das preocupações que externei.
Alguém pode achar que ele é a pedra da minha sopa. Não lhe tiro a razão.
*PICARD, Georges. Todo mundo devia escrever- a escrita como disciplina do pensamento. Trad. MARCIONILO, Marcos. São Paulo. Parábola.
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Uma resposta

  1. 1- A escrita, no nível em que você a descreve, é sim um prolongamento da leitura: Escreve-se como se lê.
    2- Todas as campanhas para incentivar o “hábito da leitura” erram a partir da própria definição. A LEITURA NÃO É UM HÁBITO, MAS UM TRABALHO INTELECTUAL.
    3 – As tais “campanhas” são para vender livros, não para ensinar a ler.
    4- A preocupação da escola é funcional: habilitar o aluno para o consumo do texto e a manipulação da informação, não para a reflexão.
    5 – NAS SOCIEDADES LETRADAS O ANALFABETISMO É CRIME. Para este, no Brasil, não existem punições, apenas eventos de incentivo ao HÁBITO DA LEITURA, onde as editoras faturam milhões.

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