JORGE LESCANO em “Sem Título e Sem Título II” / são paulo

(Sem título)

 Vi a entrevista de um ator que, ao falar, lembrava filmes dublados. Seu rosto “original” também parecia estrangeiro.Todo ele dava a sensação de não ser real, antes, um personagem de seriado de televisão.

A segunda vez que o vi, ele andava pela rua como qualquer cidadão. Contudo, eu, que conhecia sua voz, sabia que era diferente das outras pessoas. Tratava-se de um dublador fora do serviço andando como “ele mesmo” (no sentido pessoano).

Depois de alguns anos, passei a vê-lo com bastante freqüência. Ele havia mudado, estava mais magro e mais velho, naturalmente, porém, aquela primeira imagem persistia. Este indivíduo era, de algum modo, o duplo de outros graças à voz que eu guardava na memória.

Somente ao vê-los simultaneamente, um passando ao lado do outro sem se olhar (não se conheciam), entendi que se tratava de duas pessoas diferentes. Por alguma razão desconhecida eu havia incorporado um ao outro, criara uma terceira personagem.

Há décadas não vejo o dublador, embora sua voz continue presente na televisão. O segundo atravessa de vez em quando o meu caminho. Sua presença enganosa me incomoda: cada vez que o vejo sinto a ausência do outro como vítima de um homicídio.

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(Sem título II)

 A minha memória é fotográfica. Ela ficou mais apurada pelos estudos de pintura que realizei na juventude. Boa memória é qualidade desejável, no entanto, com o passar dos anos, pode nos provocar incômodo.

É comum hoje “reconhecer” na rua pessoas que devo ter visto antes num lugar indefinido. De fato, sei que “conheço” a pessoa, mas sem conseguir situá-la no seu ambiente a sensação é estranha, quase onírica. Conheci quando? Onde?

O “arquivo” mental guarda tais imagens intactas, sem situações adjacentes que ajudem a incorporá-las à memória rotineira, cotidiana.

Conversei com muitas destas pessoas. Guardo delas inclusive a lembrança da voz, o timbre, ritmo, volume. Se conseguisse trazer à tona o assunto conversado certamente completaria o reconhecimento.

Já aconteceu: esta pessoa que me parece lembrança de outra, acaba se revelando lembrança de si mesma. O que tomava por referência ou reprodução era o próprio original.

A esta altura da vida, cada indivíduo é réplica de outro com quem tratei em algum tempo e lugar. Vivo num mundo de simulacros.

Serei eu, também, o duplo de alguém que não conheço?

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