Arquivos Diários: 22 julho, 2011

A bandalheira fardada – por mauricio dias / são paulo

Apesar da faxina que promove em alguns organismos do governo, a presidenta Dilma Rousseff ainda está longe de ter se livrado das dores de cabeça provocadas por denúncias e indícios de corrupção no Departamento de Infraestrutura de Transportes (Dnit), a árvore das mais frondosas bandalheiras no Ministério.

Na sexta-feira 15, Dilma demitiu José Henrique Sadok de Sá, mais uma cabeça coroada do Dnit. Além de diretor-geral, ele era o substituto imediato do já afastado Luiz Antonio Pagot. Sá foi afastado após denúncia de que a empresa da mulher dele tinha contratos da ordem de 18 milhões de reais com aquele departamento.

A tormenta de Dilma nessa área pode piorar. Sadok de Sá é o fio de uma meada que leva à sempre sensível área militar. Mais precisamente ao Instituto Militar de Engenharia (IME), subordinado ao Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército e considerado um centro de referência do ensino de engenharia nas Américas.

Um Inquérito Policial Militar (IPM), aberto em maio de 2010 na Justiça Militar, no Rio de Janeiro, e concluído agora, denuncia por crime de peculato seis militares do Exército e nove civis “por desvio de recursos públicos em licitações realizadas pelo Instituto Militar de Engenharia, nos anos 2004 e 2005” referentes a convênios celebrados com o Dnit. O prejuízo aos cofres públicos está calculado em 11 milhões de reais.

Um dos vínculos entre os militares (IME) e Sadok de Sá (Dnit) está no fato de Fábia Sadok de Sá, filha do diretor do Dnit, constar como contratada da empresa WMW ANKAR.

Havia oito empresas participantes do esquema. A maioria delas formada por sócios, amigos e parentes.

O nome da WMW ANKAR é de uma evidência gritante. Soma o W de Washington (major Washington Luiz de Paula, um dos denunciados); o M de Marcelo; W de William; o AN de Antonio (sogro de Washington); o KA de Khaterine (esposa de Washington) e o R de Roberto (coronel Paulo Roberto Dias Morales, outro oficial denunciado), registrada em nome de Antonio da Cruz Fonseca (sogro de Washington-), da cunhada dele Edilania Fonseca- Froufe (empregada do Dnit) e de Wilson- Agostinho (pai de William).

Entre setembro de 2004 e julho de 2005, apenas dois meses após ter sido criada, ela teria desviado dos cofres públicos quase 2 milhões de reais (tabela).

Nos depoimentos, militares e civis, irmanados, argumentam que agiram dentro da lei. A denúncia contra eles, no entanto, derruba facilmente a tese, principalmente pela forma com que conduziram a homologação das licitações, a fase de liquidação das despesas e, enfim, o pagamento. Um simples exemplo:

No convite 43/2004, cuja execução seria de até 30 dias, foi pago 90,4% em cinco horas. Tempo decorrido entre a emissão da Nota de Empenho e da Ordem Bancária. O restante em dez dias.

Tudo, como se vê, a tempo e a hora. Uma eficiência que não ocorre em qualquer outro órgão público que não tenha esquemas ilegais alternativos.

Há um fato extremamente relevante na trajetória do processo. Os autos foram enviados à Procuradoria da Justiça Militar “em razão da atribuição específica” desse órgão. Isso ocorre quando a denúncia envolve generais. E há três deles denunciados.

A granada que vai explodir nas mãos do ministro da Defesa, Nelson Jobim.

Tabuleiro político I

A presidenta Dilma Rousseff partiu para o enfrentamento com o Partido da República (PR), que conta com 41 deputados e 7 senadores no Congresso.

Ela faz um movimento necessário para mudar as regras do jogo sujo, no qual se troca apoio político por benefícios ilegítimos na administração federal.

Essa decisão, corajosa e arriscada, em princípio enfraquece Dilma no Congresso, onde é necessária uma base governista sólida para governar.

FHC e Lula não tiveram tanta ousadia.

Tabuleiro político II

O saldo parece ser o seguinte: Dilma perde força no Congresso, mas ganha força na sociedade. Com isso, tira da oposição a bandeira da ética, perdida em 2005 com o episódio do chamado “mensalão”.

Com isso, os adversários ficam diante do dilema: apoiar a cruzada virtuosa de Dilma ou conquistar
a dissidência punida por ela?

Os tempos são outros, mas não custa lembrar que, em 1964, a oposição ao presidente João Goulart resgatou a bandeira da legalidade perdida quando apoiou a reação contra a posse dele em 1961.

Dilma retoma a bandeira da ética que estava nas mãos da oposição.

Sensibilidade política

O deputado Luciano de Castro, do PR de Roraima, reagiu, assim, às demissões do pessoal
do partido dele no Dnit:

“Atingiram o PR na cabeça e no coração”, reclamou Castro.

Mas o ilustre parlamentar sabe que a parte mais sensível no corpo de alguns políticos não é a cabeça ou o coração. É o bolso.

Eike no pedaço

A Refinaria de Manguinhos que, recentemente, levantou a recuperação judicial, está em negociações com o grupo de Eike Batista.

É negócio para mais de 100 milhões de dólares.

Nos últimos dois meses, as ações da empresa com direito a voto subiram quase 70%.

Onde fica a saída?

De olho no Brasil, o ex-ministro Dias Leite, professor emérito da UFRJ, está debruçado sobre as contradições da economia política com o objetivo de mostrar as dificuldades para se sair do subdesenvolvimento.

Em busca da clareza de linguagem e de conceitos, quer fazer um livro de, no máximo, cem páginas para alcançar um leitor além daquele que gosta de economia.

Dias Leite trabalha duro, mas se permite a pequenas provocações sobre o embate entre economistas
da estabilidade “de curto prazo” e os do desenvolvimento “de longo prazo”.

Ele ironiza: “Separa-os uma medida de tempo que ninguém sabe o que é”.

Eleição carioca I

A oposição carioca ao prefeito Eduardo Paes, do DEM ao PSOL, busca uma solução para disputar com chances a prefeitura do Rio, em 2012.

Os opositores pretendem lançar vários candidatos para tentar levar a disputa para o 2º turno. Paes, do PMDB, deve contar com o apoio do PT que, provavelmente, indicará o candidato a vice-prefeito.

Eleição carioca II

Embora qualquer pesquisa, distante da eleição, seja uma indicação capaz de provocar ilusão antecipada de vitória, o Ibope, em abril, apontava a vitória folgada de Paes (tabela) no primeiro turno.

Ele faz boa administração e recebe reflexo do apoio do governador Sérgio Cabral, bafejado pelo sucesso na luta contra o tráfico.

É preciso considerar que, neste momento, o total de eleitores representa somente 75% do total, porque 25% expressam a intenção de votos brancos e nulos (tabela).

EUA: Saga Kennedy

O canal por assinatura A&E exibe no Brasil, em dublagem, a minissérie The Kennedys. É fruto, mais uma vez, da obsessão dos conservadores americanos de destruir o mito dos Kennedy a partir da seleção do que há de pior na saga da família: sexo e trapaças políticas.

Ganhou forma um roteiro composto de fatos e boatos que não distingue o fim da verdade do começo da ficção e vice-versa.

Segundo especialistas, o contrato de transmissão estava armado com o History Channel, que teria rompido o compromisso ao avaliar os riscos de uma veiculação danosa à sisuda imagem do canal. Sobrou para a A&E, que tem nome na área de entretenimento e não no setor documental.

Há uma grande indignação, principalmente, entre os Kennedys e os intelectuais ligados ao clã Kennedy onde pontifica Ted Sorensen, do staff de JFK na Casa Branca. Eles criaram um website denunciando o ataque. O assunto ganha corpo na internet.

Há avaliações de que a minissérie resulta, também, da explosão de ódio dos direitistas com as mais recentes e desqualificantes reavaliações do governo Ronald Reagan.

Mauricio Dias

Maurício Dias é jornalista, editor especial e colunista da edição impressa de CartaCapital. A versão completa de sua coluna é publicada semanalmente na revista.

Z – por wagner oliveira mello / curitiba

Z

 

Z senta no banco da praça, à distância uma trupe de teatro de rua representa uma comédia num italiano tosco, o povo gargalhante não tem tempo de reparar o seu sapato roto, nem suas roupas desbotadas ou a cicatriz que o faz lembrar-se de tudo aquilo que esqueceu outro dia. Sente fome, Pensa no sanduiche de mortadela com tomate que carrega na mochila, mas prefere fumar um cigarro, embora não faça nem dez minutos que tenha apagado o último. Logo o maço estará vazio mesmo, assim como o seu estomago. Decide alimentar os pombos com suas migalhas. Retira o sanduiche da mochila e lentamente vai esfarelando o pão para em seguida jogá-lo em pequenas quantias no chão.  Sabe-se lá de onde, pouco a pouco vão surgindo mais e mais pombos para a disputa, em instantes Z forma sua própria platéia, que ávida de pão acotovela-se para garantir o melhor lugar. Um verdadeiro espetáculo! Ele se diverte com a disputa instintiva das aves enquanto rumina sua comédia interior. O pão nunca é de graça! “é tudo que eu sempre quis: O direito de peidar, cagar e mijar, um lugar pra dormir e ter dinheiro pra comer. O pão nunca é de graça! Quem somos nós além do por que somos nós?”  Assim a comédia começa, assim ela termina…  E não há milagre nenhum nisso. Milagre? Milagre é o que Z terá de operar amanhã! Ele joga a ultima migalha do seu pão aos pássaros e se levanta; ao fundo as pessoas aplaudem o elenco da comédia enquanto um deles passa o seu chapéu pra receber as ofertas. A noite era fria e granulada de estrelas quando Z entrou no albergue do FAS.

 

RUDI BODANESE e LIRIA PORTO em fotopoema / ilha de santa catarina

A SAÚDE ALÉM DOS PLANOS – por ana castro / salvador.ba


Bastava ter um amigo médico e a gente se sentia protegido. Agora, nem com os planos de saúde mais caros, os idosos conseguem marcar uma consulta médica. Eles são necessários apenas para exames e internação hospitalar.

Geriatras são poucos no Brasil. Especialmente na rede pública. Se o médico é bom, tem agenda cheia, integra equipes de grandes hospitais, lidera pesquisas e dá aulas. Pode dispensar a burocracia dos convênios.

Cuidando de meu pai, do meu padrasto e de minha mãe, descobri como as doenças depois dos 65 são difíceis de diagnosticar. São inúmeras as patologias, como da minha mãe: Alzheimer, diabetes, pressão e colesterol altos, osteoporose, artrose, depressão, entre outras.

Consulta de idoso é demorada mesmo. Como a ida ao pediatra. Exige uma entrevista, a tal anamnse (do grego ana, trazer de novo e mnesis, memória). O médico precisa de técnica e muita paciência para investigar o passado, as cirurgias, uso de medicamentos e rotinas do paciente. Descobri que minha mãe tinha D. A. porque uma atenta geriatra, Sonia Cury, fez as perguntas certas e observou suas reações. E nem era ela a paciente. Estava como acompanhante do marido na consulta.

É mole lembrar que doenças você teve aos 78, 90 anos anos? Na Doença de Alzheimer, então, tudo se complica. Demorei anos para saber que minha mãe havia feito sete implantes dentários. Mas não colocou as próteses, que certamente pagou. Por acaso, descobri numa festa que ela e uma amiga tinham a mesma cardiologista. Marquei consulta para recuperar o histórico. Portadora de um stent, ela havia abandonado o controle da pressão arterial e do colesterol.

Homens retardam ao máximo a ida ao médico. As mulheres é que traduzem os sintomas do marido. Essas, aproveitam a consulta para falar da dores do corpo e da alma. Escondem escapadas da dieta. Confundem receitas, se automedicam e devoram bulas. Durante anos, uma querida empregada colocou diariamente sob a língua um Isordil, usado em emergências cardíacas. Minha tia dividia a dose do remédio caro com o marido: meio comprimido para cada um. Prática conhecida pelas enfermeiras da rede pública. Muitos pacientes alegam que o remédio de uso contínuo precisa durar todo o mês e tomam dia sim, dia não, Aliás, alguém explica como medicamento para tomar todo dia vem em embalagem de 28 comprimidos, quando sete meses têm 31 dias e quatro têm trinta?

Minha mãe chegou a ter cardiologista, endocrinologista, dermatologista, oftalmologista, gastro, proctologista, psicóloga, dentista e fisioterapeuta. Todos particulares. A conta da farmácia, há anos, passa dos R$ 1.200 mensais por 14 remédios, em média. E com descontos! A equipe de enfermagem tem quatro profissionais que cuidam dela 24h por dia, 7 dias por semana, 365 dias por mês. Os gastos até cabiam na aposentadoria confortável dela. Mas consegui reunir o acompanhamento a uma consulta a cada três meses com uma competente geriatra, revisão semestral da endocrinologista, ida quase semanal à dentista e fisio três vezes por semana.

Para controlar tanta informação criei planilhas, formulários, quadros de aviso e um sistema de-mail diário que circula entre a equipe. Registramos tudo: alimentação, pressão, glicemia, banho, higiene bucal e todas as rotinas adotadas. Essas informações têm sido úteis para as médicas adaptarem as dosagens de remédios e recomendarem exames necessários.

Fiz  um histórico para levar às consultas. É uma forma de ajudar o médico, pois o doente de Alzheimer fica ansioso com o interrogatório. Se você cuida da mãe, do pai, ou acompanha a avó na consulta, vá construindo um relatório e compartilhando com a família. Em alguns anos, ninguém mais irá lembrar da alergia do papai a camarão ou que vovô já não tem um rim.

Se fosse depender de convênios médicos, minha mãe jamais teria a qualidade de vida que desfruta. Na verdade, os planos são de doença, porque pouco contribuem para a preservação da saúde. Dão é muita dor de cabeça e nos tiram o sono. Após os 65, a mensalidade chega perto dos R$ 1.000. A minha já está bem salgada. Todo mês, fico em dúvida se pago ou cancelo meu plano. E a cada aniversário, a conta fica mais alta: punição por continuar viva.

ANA CASTRO é jornalista.