A nova era na roda do chope – por joão ubaldo ribeiro / rio de janeiro

Tou te achando muito quietinho, ultimamente, muito caladinho… Não pode ser só o Botafogo. Todo caladinho, sem dar palpite em nada…

– Não tem nada disso, cara, tu tá querendo é me provocar, eu estou a mesma coisa de sempre. É que aqui nessa mesa só sai besteira e não é sempre que eu estou disposto a dar palpite em besteira.

– Deixa de ser cara de pau, aqui nesta mesa um dos que mais falam é você, os outros tu pode enganar, a mim tu não engana. Responde com toda a honestidade, sem subterfúgio nem meias palavras, é a presidenta, não é? Só dá pra falar bem dela e aí tu cala a boca. Eu te manjo, cara.

– Você quer dizer “a presidente”. Eu me recuso a usar esse barbarismo.

– Já está no dicionário e é como ela prefere, até nisso tu tem má vontade. Mas eu não quero discutir gramática, quero discutir fatos concretos. A faxina que ela está fazendo no Ministério dos Transportes, somente isso.

– Ela demitiu uns caras, eu li.

– Demitiu uns caras? Já rodaram bem uns 20 e você diz “uns caras”? Uma faxina desse porte?

– Não sei o que é que você quer dizer com “desse porte”. Nesse ritmo cata-piolho, ela não dá conta nem de uma ala do ministério antes do fim do mandato. Tinha que fazer era fumigação total e na máquina toda, ministério por ministério, repartição por repartição. O governo ia ficar bastante desfalcado, mas só fumigar é que dá jeito, catar piolho não vai levar a nada.

– É impressionante como os caras como você ficam insatisfeitos, por mais que se faça.

– Já eu acho impressionante como os caras como você ficam satisfeitos, por menos que se faça. Houve as demissões e está tudo bem, não é isso? Ela fez as demissões por quê?

– Ora, por quê. Porque todo mundo sabe que os caras estão envolvidos com os esquemas de corrupção do ministério. Aliás supostamente envolvidos, hoje a gente tem que ter cuidado com o que fala. Sim, os caras são suspeitos disso. E então? Ela foi lá e demitiu.

– Era pra condecorar? Se ela demitiu, foi porque sabia de alguma coisa. Ou de muitas coisas, senão não ia demitir. E aí eles, castigados pela demissão, vão ter que ficar mais ricos montando consultorias, triste exílio para quem trabalhou no governo. Eu tenho a impressão de que até o homem do cafezinho dos palácios vai abrir consultoria para futuros homens do cafezinho, muitos deles ganham bem mais que um professor, você sabia?

– Bem, eu não li nada sobre o assunto, mas é claro que, se houver indícios de irregularidades contra os demitidos, eles serão investigados e…

– …E, se considerados culpados, serão condenados, devolverão o que ganharam ilicitamente e assim por diante. É isso que você quer que eu comente, não é? Não era melhor a gente comentar o enredo completo da Bela Adormecida, não? Ninguém merece. O cara chega aqui no domingo, para beber um chope sossegado com os amigos e esfriar a cabeça e aparece logo um mané que quer ser enrolado novamente e não se cansa nunca de ser enrolado. Vê se te manca, cara, qual é a tua, com esses papos que são sempre a mesma coisa, embora querendo mostrar outra cara. Não mudou nada! Aliás, minto. Manda a honestidade eu reconhecer que ela demite e ele não demitia. Ele deixava estatizado mesmo, ela prefere privatizar. Bonita diferença. Fica tudo como era antes, com essa diferença de estilo, que sem dúvida marcará a história da República: um não demitia, a outra demitia; e ambos permitiam.

– Você está sendo sarcástico, assim não dá para conversar. Você é desses caras que se recusa a ver que as coisas estão melhorando. Isso não é bom, acaba se voltando contra a própria pessoa. Eu não, eu observo tudo com otimismo. Otimismo equilibrado, mas otimismo. Você não tem acompanhado esse movimento da busca da felicidade, tem? Agora tem um movimento da busca da felicidade. Já era estabelecido na Declaração da Independência americana, vai ser estabelecido entre os direitos humanos nas Nações Unidas e na nossa Constituição. De agora em diante, todo ser humano tem direito nato à busca pela felicidade.

– Vai estar na lei?

– No Brasil, provavelmente.

– Ah, então será criada a Agência Nacional da Felicidade, com delegacias em todo o território brasileiro. E aí, depois de muita discussão, se estabelece o Padrão Nacional de Felicidade, em que se tentará enquadrar todos os cidadãos, sem distinção. E fazer o teste da felicidade será como o voto atualmente: é um direito, mas também uma obrigação, todo mundo vai ter que fazer. Quem for reprovado no teste, recebe uma Bolsa Felicidade de seis meses, após o que faz novo teste. Se reprovado outra vez, será incluído no Cadastro Nacional de Brasileiros e Brasileiras Infelizes, tido como doente e obrigado a submeter-se a tratamento em clínicas públicas ou credenciadas. E, enquanto não dispuserem de seus atestados de felicidade, o brasileiro e a brasileira não poderão tirar passaporte, candidatar-se a cargo eletivo, comprar casa própria e assim por diante.

– Você sempre vê tudo dessa maneira descrente e debochada.

– É o hábito, eu moro aqui há mais de 60 anos.

– Mas não vai ser nada como você está pensando.

– Eu sei, vai ser pior. Eu também sou otimista.

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