Arquivos Diários: 7 agosto, 2011

O TRATADO DE ZUGUEIB / curitiba


Jamil se pergunta o que leva os homens a se matarem por uma terra ou mesmo por um time de futebol. Para responder, subiu montanhas, cruzou oceanos e vasculhou a própria memória. Nela encontrou a “Guerra do Pente”, uma história curitibana que comoveu

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O fim do conflito entre árabes e judeus está longe de acabar. Mas na casa número 1 de uma pequena rua do Abranches, atrás da Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, a paz é possível. E não é de hoje. Ali mesmo, no quintal, debaixo de uma cerejeira e do latido da cachorrada, o psicólogo social Jamil Zugueib, 62 anos, já promoveu uns tantos colóquios sobre o Oriente Médio e outros embates da hora.

“Sou um libertário”, gaba-se entre baforadas de Marlboro o homem calvo de cabelos longos, em golas de padre, sotaque indecifrável – uma figura que parece saída dos livros de Milton Hatoum ou Raduan Nassar. É meio Che Guevara, meio monge João Maria, mas tão familiar quanto nosso vizinho árabe mais próximo, e não são poucos. O “turco” Jamil, como é chamado – sem se importar com o erro que costuma deixar sírios e libaneses a três palmos do chão – tem de fato um deserto e mais 1.001 histórias no currículo.

Professor do curso de Psi­co­logia da UFPR, pesquisador de comportamento em situações de conflito social, fez trabalhos em hospitais psiquiátricos e no Instituto Médi­co-Legal. Nos anos 90, iniciou um intercâmbio de estudos no Líbano, o que lhe permitiu proezas como subir a montanha e ter com os “drusos”, etnia “nada confiável” da qual tanto seu pai falava.

À moda árabe, em 2010 devolveu a hospitalidade brindando os conterrâneos com seus estudos sobre uma história que presenciou na infância, ocorrida em 1959, na Praça Tiradentes – a Guerra do Pente. “Foi uma manifestação de xenofobia, sim”, afirma, sobre o quebra-quebra iniciado num bazar libanês, mobilizando cerca de 2 mil manifestantes. Foram 181 casas comerciais. E um exemplo da bestialidade das massas.

Você já sofreu discriminação por ser árabe?

Não. Mas por ser um pouco diferente dos curitibocas, sim. [risos] A culpa de algum curitibano ser tão arredio deve ser do pinhão. Só pode ser isso. Tem alguma coisa ali…

O que significa seu nome em árabe?

Jamil quer dizer “bonito”, “gente boa”. Zugueib se refere às penas de um passarinho. Mas aqui sou o turco Jamil, o Turquinho. Acho carinhoso.

Já rolou algum conflito com as origens?

Bom, já fiz de tudo na vida. Fui, inclusive, jornalista em uma revista de turismo. Corria atrás de anúncios e falava com gente de todas as etnias. O árabe me parecia o mais pão-duro. Foi quando comecei a idealizar. Gostaria que fossem mais graduados. Acho que a gente podia ter representatividade cultural mais forte. Por exemplo, o nosso vice-presidente, Michel Temer. Ele é filho de libanês, mas o que ele tem de árabe? De quem mais dá para falar? Do Maluf? Nem pensar.

Como é uma casa libanesa?

A principal marca é a “anfitrionice”. As famílias são muito alegres e gostam de receber bem. A mulher, pelo menos em países como Síria, Egito e Jordânia, é muito forte e tem orgulho dos filhos. É parecida com a mãe italiana – histriônica, berra, chora, mas sempre está ali. Mas a família árabe, quando é um pouco mais intelectualizada, tem um quê de melancolia. Acho que é porque muitos vivem no sonho do despontar da cultura do ano 1000. O grande Salah Ad-Din [1138-1193] ainda é o paradigma do guerreiro valoroso e honrado. Foi um grande líder na luta contra os cruzados, retomou Jerusalém dos cristãos, sem matar ninguém por vingança, inclusive defendendo os judeus.

Como os árabes veem o Brasil?

Acham que é o Éden. Carnaval, caipirinha, churrasco e dinheiro para ganhar. Além do futebol. Na Copa do Mundo torciam pelo Brasil. Mas sempre criamos estereótipos, principalmente quando estamos muito longe. Aqui estamos no bairro Abranches, longe de tudo [risos].

Como seu pai reagiu ao saber que você iria estudar Psicologia?

O sonho do meu pai era que eu fosse para a Aeronáutica. Mas a leitura de Monteiro Lobato fez com que eu me interessasse pelo mundo grego, e, já no ginásio, pela Filosofia. Um dia falei com o padre Emir Calluf para saber a diferença entre Psicologia e Psiquiatria. Escolhi. Meu pai ficou triste: “O que é esse troço? Que coisa horrorosa. Vai ficar pobre” [risos]. Meu pai viveu 94 anos. Aos 90 ainda dirigia e batia o carro para burro.

Seu pai, enfim, foi determinante, como nos livros do Milton Hatoum e Raduan Nassar…

Tenho passaporte libanês, mas sou brasileiro. Meus pés estão aqui, nas várzeas do Rio Iguaçu. Tal qual o Caetano Veloso falou: pus os meus pés no riacho e acho que nunca os tirei. Meu pai colocava discos de música árabe aos domingos, comíamos kibe e ele se lembrava do Líbano. Falava muito da etnia drusa, que realmente era muito perigosa. Isso ficou gravado na minha memória. Mais tarde, para saber quem eram os drusos, fui até o Líbano e subi a montanha. Mas há um ditado: “Para comer, vá na casa de um druso. Para dormir, na casa de um cristão.” Um druso te trata muito bem, mas pode te matar à noite.

Você virou objeto da sua própria pesquisa?

Fiquei emocionado com minha pesquisa. Eu nem imaginava chegar lá. Depois, na Síria, onde tudo é esturricado, eu estava louco para vir embora. Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá. As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá. Gosto muito de pássaros, e lá tinha só dois ou três passarinhos vagabundinhos.

Qual o lugar da loucura e da histeria no estudo?

Eu trabalhei muito em hospital psiquiátrico. Agora, pesquiso a resistência psíquica em tempos de guerra. O que faz alguém gostar tanto de uma terra a ponto de defendê-la com a própria vida? Sei lá: é como um torcedor do Coritiba e um atleticano. A camisa rubro-negra só se veste por amor. Atlético até morrer [risos]. Comecei essa história com o Lampião, lá na infância…

Conte para nós…

Minha avó materna, uma russa-prussiana, contava muitas aventuras do Lampião. Foi sobre ele o primeiro livro que comprei, aos 14 anos. Sempre fui fascinado por figuras marginais, na linha dos “rebeldes primitivos”, dos quais fala o historiador Eric Hobsbawm. São os bandidos de honra, como o Lampião e o Robin Hood.

Como você vê as revoltas da Primavera Árabe?

Formidável. Em Damasco floresceu porque o povo não aguentava mais o Bashar Assad. Claro que saem na imprensa mentiras sobre o mundo árabe, como na execrável Veja. Tem gente que manda dinheiro para o Hezbollah, claro, mas não há quem, morando aqui, vá servir o Exército em Israel?

Alguma rusga com os judeus?

Tenho amigos judeus, trabalho, estudo com eles. O que faz o homem é a palavra dele, a conduta. Em Jerusalém pedi informação na rua para um hassídico, que é bem radical. Ele não respondeu, cutuquei com o dedo. Ele quase cuspiu na minha cara. Se me desse um tapa, eu revidaria. Seria uma briga feia…

Seria uma Guerra do Pente em Israel…

[risos] Sim, mas lá o clima é muito mais pesado. As feridas estão abertas desde as Cruzadas…

Você pesquisou a Guerra do Pente. Essa história lhe pertence?

Lá pelas tantas, comecei a relembrar da minha infância no Uberaba, no meio de ucranianos. Eu escutava: “Ei, turquinho, veio roubar o Brasil?” A recordação da Guerra do Pente veio junto. Eu tinha uns 11 anos e estava na casa de uma tia. Lá pelas 6 horas da tarde, meu tio falou que estava comendo o pau na Tiradentes porque um turco vendeu um pente e o cara pediu a nota.

Como foi o conflito?

A Tiradentes era a Turcolândia [risos]. Havia a campanha “seu talão vale um milhão”. O pessoal pedia nota fiscal, valia uma fortuna. O cara pediu para o árabe, o Hajj, por causa de um pente, eles se estranharam e o sujeito falou um palavrão. Foi por causa disso que tudo começou. Mas tinha xenofobia. Tanto é que, no segundo dia da guerra, os manifestantes desceram a Praça Tiradentes, assustando os árabes da Casa 3 Irmãos. Um deles deu um tiro no chão. Foram dando murro no sujeito até a Praça Zacarias. Ele foi parar no hospital, em estado grave. Depois virou bagunça. Só parou quando a garoa veio [risos]. A massa não tem forma, vai pelo impulso.

O que mais surpreendeu na pesquisa?

Achava que o Hajj tinha ficado marcado. Imagine o que significou para um turco ter loja toda quebrada, ainda mais nas vésperas do Natal. Mas em três dias ele já estava trabalhando. O Ali, um dos filhos do Hajj, fala que havia inveja porque a loja estava crescendo, pagava caminhonete para fazer propaganda nos bairros. Outra hipótese é que o cliente do pente teria dito que foi na Casa da Pechincha, de um judeu, e que lá fora bem atendido. Uma provocação. Chegaram a dizer que tudo nasceu de uma orquestração do Partido Comunista.

Loucura…

Outra condicionante é que havia gente saindo do trabalho naquela hora. E um boteco do lado da loja. É o lúmpen proletariado de qual falo. Atrás vieram os desocupados, os loucos pirados de tudo que é espécie. Os abilolados são atraídos pela massa. A Maria do Cavaquinho estava lá. O Sacarrolha. O Chupeta.

Que interesse esse episódio despertou no Líbano?

Em 1959 saiu no jornal do Líbano algo como “quebra-quebra contra os libaneses em Curitiba”. Quando eu fui, contei a história para doutorandos. Falei da vontade de vencer, o que para o libanês é muito forte. Hajj partiu para frente, assimilou o Brasil, isso agradou muito, porque é um valor para os libaneses.

Estamos sempre à espre­i­­ta de uma guerra do pente…

A etnização do mundo está perigosa. O mundo está caminhando para uma agudização de sentimentos. E tem o individualismo. Hoje mesmo [dia 12 de julho] na CBN ouvia sobre o Dnit. Como o povo aceita isso, cadê a UNE? Os diretórios acadêmicos não fazem nada. No meu tempo era filme, debate, hoje fazem gincana. São crianças. Acho que estou velho.

por ROSANA FÉLIX E JOSÉ CARLOS FERNANDES.

MONIZ BANDEIRA: “Legalidade foi o primeiro levante civil a impedir um golpe”

Entrevista concedida a Eleonora de Lucena. /SÃO PAULO

 

A Campanha da Legalidade não deixou nenhum legado, pois o golpe frustrado em 1961 aconteceu em 1964. A avaliação é de Luiz Alberto Moniz Bandeira, 75. Como repórter, ele testemunhou, de Brasília, a crise da renúncia de Jânio Quadros e os debates para a implantação do parlamentarismo.

Historiador e cientista político, ele é autor de livros como “A Renúncia de Jânio Quadros e a Crise Pré-64” [Brasiliense, 1989] e “O Governo João Goulart – As Lutas Sociais no Brasil (1961-1964)” [Civilização Brasileira, 1977].

Nesta entrevista, Moniz Bandeira analisa a crise militar desencadeada pela Campanha da Legalidade e a adesão do Terceiro Exército ao movimento contra o golpe.

Folha – Qual o significado político e militar da Campanha da Legalidade? Qual o seu legado?

Luiz Alberto Moniz Bandeira – A Campanha da Legalidade possibilitou que, pela primeira vez na história do Brasil, um levante civil, ao qual 3º Exército aderiu, impedisse um golpe de Estado. Não creio que tenha deixado nenhum legado pois o golpe militar, frustrado em agosto/setembro de 1961, foi consumado em 1° de abril de 1964.

O sr. concorda com a avaliação de que a campanha causou uma cisão inédita nas Forças Armadas brasileiras?

Sempre houve distintas tendências políticas nas Forças Armadas, porém os militares, na sua imensa maioria, tinham formação legalista e de respeito à hierarquia e à disciplina. Um dos pressupostos da Aliança para o Progresso, lançada pelos EUA há 50 anos, era não reconhecer governos que resultassem de golpes de Estado ou revoluções e não obedecessem às normas do regime democrático-representativo. Esse pressuposto colidia com a diretriz do Pentágono, que, considerando as Forças Armadas como a organização social mais estável e modernizadora na América Latina, promoveu a mutação na estratégia de segurança continental, com a doutrina da Civic Action (Ação Cívica). Essa doutrina incentivou os militares a participarem da política interna em seus respectivos países, a fim de conter um suposto avanço do comunismo.

Como explicar a conduta do comandante do Terceiro Exército naquele momento?

O general Machado Lopes, comandante do 3º Exército, relutou a princípio em aderir ao movimento. Disse que era um soldado e que cumpriria ordens. Porém, tinha formação legalista e, com o levante popular promovido pelo governador Leonel Brizola e com a mobilização da Brigada, ele deve ter percebido a justa causa da campanha.

Jango e Brizola divergiram naqueles dias. Quem tinha razão? Como o sr. os define?

Divergências entre Jango e Brizola sempre ocorreram. Os dois tinham temperamento e estilo político diferentes. As variáveis são muitas e avaliar a razão de um ou de outro não passaria de especulação. Estou convencido, porém, de que a marcha sobre Brasília defendida por Brizola não seria simples passeata. Haveria luta armada. Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara, tinha apoio militar e estava envolvido na articulação do golpe.

A mobilização, que incluiu a distribuição de armas à população, é comparável a outros episódios da história brasileira?

Brizola não distribuiu armas a toda a população. A Brigada Militar distribuiu apenas 2.000 revólveres, calibre 38, com uma caixa de balas, mediante recibo. E pediu à indústria Taurus que aumentasse sua produção de armas, inclusive metralhadoras leves. Foi um ato heroico, porém não haveria condições para um enfrentamento armado se o 3º Exército não aderisse à campanha.

Como o sr. acompanhou os fatos naquele momento?

Eu estava em La Paz, hospedado na residência do embaixador do Brasil, Mario Antônio de Pimentel Brandão, quando ele me mostrou telegramas do Itamaraty sobre o agravamento da crise política. Decidi regressar imediatamente ao Brasil. No dia 25 de agosto, tomei o avião para Santa Cruz de la Sierra, onde embarquei para o Brasil, em aparelho da companhia Cruzeiro do Sul. E, ao chegar a São Paulo, por volta das 14h, escutei a notícia de que Jânio Quadros renunciara à presidência da República, pois Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara, havia denunciado pela televisão que ele estava a articular um golpe contra as instituições, a fim de adquirir poderes especiais, por meio do ministro da Justiça, Oscar Pedroso d’Horta. Com as informações que possuía, foi-me fácil concluir que Lacerda havia lancetado o tumor. Viajei então para o Rio, e João Dantas, o proprietário do “Diário de Notícias”, onde eu era editor político, mandou que fosse imediatamente para Brasília acompanhar a evolução da crise.

Acompanhei os acontecimentos de dentro da Câmara dos Deputados, pois o deputado Sérgio Magalhães, meu amigo pessoal e em cujo apartamento sempre me hospedava, assumira a presidência do Congresso quando o deputado Ranieri Mazzilli foi investido na presidência da República. Tinha muitas informações de bastidores e cujas fontes (muitas das quais militares) não podia revelar. Assim, dois meses após a renúncia, em novembro, publiquei o livro “O 24 de Agosto de Jânio Quadros”, no qual deslindei o enigma, ao mostrar que ele renunciou à Presidência da República esperando voltar ao governo com o apoio das multidões. O respeitável jornalista Carlos Castelo Branco, seu secretário de imprensa, ouviu-o dizer a Francisco Castro Neves, ministro do Trabalho: “Não farei nada por voltar, mas considero minha volta inevitável. Dentro de três meses, se tanto, estará na rua, espontaneamente, o clamor pela reimplantação do nosso governo”.

Como o sr. acompanhou Jânio Quadros?

Em janeiro de 1960, com 24 anos, eu era redator político do “Diário de Notícias”, e seu diretor determinou que eu acompanhasse Jânio na campanha eleitoral, que ele estava a começar. Nunca fui simpatizante, muito menos partidário de Jânio. Porém, não podia deixar de cumprir a ordem. Viajei com Jânio seis meses, durante todo o primeiro semestre de 1960. Na viagem, escutei diversas vezes Jânio declarar que processaria o Congresso perante o povo, promoveria sua responsabilidade, caso ele não lhe desse as leis que pedia, culpando-o pela situação do país. Jânio manifestava o inconformismo de ter de governar dentro dos marcos constitucionais. Repetia que não poderia governar “com aquele Congresso”.

A Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, Jânio disse que, “com aquele Congresso”, dominado pelos conservadores, não poderia avançar para a esquerda, tomar iniciativas para reformar as instituições e promover a transformação da estrutura econômica e social do país, com a limitação das remessas de lucros para o exterior, a criação de uma lei antitruste e a implantação da reforma agrária. Precisava, portanto, de poderes extraordinários. Seduzido, Brizola comentou com o ex-presidente Juscelino Kubitschek o objetivo de Jânio Quadros e sua disposição de apoiá-lo.

Porém, com Carlos Lacerda, a conversa era diferente, embora a conclusão fosse a mesma. “Com aquele Congresso”, dentro do regime democrático, não poderia governar, sem fazer “concessões às esquerdas e apelar para elas”. Necessitava, em conseqüência, de poderes extraordinários. Percebi que sua pretensão era jogar a opinião pública contra o Legislativo e, provavelmente, dar um golpe de Estado sui generis. A deflagração da crise, portanto, não me surpreendeu.

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