Arquivos Diários: 9 agosto, 2011

Rodrigo Vianna: Jornalista da Globo denuncia que emissora vai atacar Amorim / são paulo


Acabo de receber a informação, de uma fonte que trabalha na TV Globo: a ordem da direção da emissora é partir para cima de Celso Amorim, novo ministro da Defesa.

O jornalista, com quem conversei há pouco por telefone, estava indignado: “é cada vez mais desanimador fazer jornalismo aqui”.Disse-me que a orientação é muito clara: os pauteiros devem buscar entrevistados – para o JN, Jornal da Globo e Bom dia Brasil – que comprovem a tese de que a escolha de Celso Amorim vai gerar “turbulência” no meio militar. Os repórteres já recebem a pauta assim, direcionada: o texto final das reportagens deve seguir essa linha. Não há escolha.

Trata-se do velho jornalismo praticado na gestão de Ali Kamel: as “reportagens” devem comprovar as teses que partem da direção.

Foi assim em 2005, quando Kamel queria provar que o “Mensalão” era “o maior escândalo da história republicana”. Quem, a exemplo do então comentarista Franklin Martins, dizia que o “mensalão” era algo a ser provado foi riscado do mapa. Franklin acabou demitido no início de 2006, pouco antes de a campanha eleitoral começar.

No episódio dos “aloprados” e do delegado Bruno, em 2006, foi a mesma coisa. Quem, a exemplo desse escrevinhador e de outros colegas na redação da Globo em São Paulo, ousou questionar (“ok, vamos cobrir a história dos aloprados, mas seria interessante mostrar ao público o outro lado – afinal, o que havia contra Serra no tal dossiê que os aloprados queriam comprar dos Vedoin?”) foi colocado na geladeira. Pior que isso: Ali Kamel e os amigos dele queriam que os jornalistas aderissem a um abaixo-assinado escrito pela direção da emissora, para “defender” a cobertura eleitoral feita pela Globo. Esse escrevinhador, Azenha e o editor Marco Aurélio (que hoje mantem o blog “Doladodelá”) recusamo-nos a assinar. O resultado: demissão.

Agora, passada a lua-de-mel com Dilma, a ordem na Globo é partir pra cima. Eliane Cantanhêde também vai ajudar, com os comentários na “Globo News”. É o que me avisa a fonte. “Fique atento aos comentários dela; está ali para provar a tese de que Amorim gera instabilidade militar, e de que o governo Dilma não tem comando”.

Detalhe: eu não liguei para o colega jornalista. Foi ele quem me telefonou: “rapaz, eu não tenho blog para contar o que estou vendo aqui, está cada vez pior o clima na Globo.”

A questão é: esses ataques vão dar certo? Creio que não. Dilma saiu-se muito bem nas trocas de ministros. A velha mídia está desesperada porque Dilma agora parece encaminhar seu governo para uma agenda mais próxima do lulismo (por mais que, pra isso, tenha tido que se livrar de nomes que Lula deixou pra ela – contradições da vida real).

Nada disso surpreende, na verdade.

O que surprendeu foi ver Dilma na tentativa de se aproximar dessa gente no primeiro semestre. Alguém vendeu à presidenta a idéia de que “era chegada a hora da distensão”. Faltou combinar com os russos.

A realidade, essa danada, com suas contradições, encarregou-se de livrar Dilma de Palocci, Jobim e de certa turma do PR. Acho que aos poucos a realidade também vai indicar à presidenta quem são os verdadeiros aliados. Os “pragmáticos” da esquerda enxergam nas demissões de ministros um “risco” para o governo. Risco de turbulência, risco de Dilma sofrer ataques cada vez mais violentos sem contar agora com as “pontes” (Palocci e Jobim eram parte dessas pontes) com a velha mídia (que comanda a oposição).

Vejo de outra forma. Turbulência e ataques não são risco. São parte da política.

Ao livrar-se de Jobim (que vai mudar para São Paulo, e deve ter o papel de alinhar parcela do PMDB com o demo-tucanismo)  e nomear Celso Amorim, Dilma fez uma escolha. Será atacada por isso. Atacada por quem? Pela direita, que detesta Amorim.

Amorim foi a prova – bem-sucedida – de que a política subserviente de FHC estava errada. O Brasil, com Amorim, abandonou a ALCA, alinhou-se com o sul, e só cresceu no Mundo por causa disso.

Amorim é detestado pelos méritos dele. Ou seja: apanhar porque nomeou Amorim é ótimo!

Como disse um leitor no twitter: “Demóstenes, Álvaro Dias e Reinaldo Azevedo atacam o Celso Amorim; isso prova que Dilma acertou na escolha”.

Não se governa sem turbulência. Amorim é um diplomata. Dizer que ele não pode comandar a Defesa porque “diplomatas não sabem fazer a guerra” (como li num jornal hoje) é patético.

O Brasil precisa pensar sua estratégia de Defesa de forma cada vez mais independente. É isso que assusta a velha mídia – acostumada a ver o Brasil como sócio menor e bem-comportado dos EUA. Amorim não é nenhum incediário de esquerda. Mas é um nacionalista. É um homem que fala muitas línguas, conhece o mundo todo. Mas segue a ser profundamente brasileiro. E a gostar do Brasil.

O mundo será, nos próximos anos, cada vez mais turbulento. EUA caminham para crise profunda na economia. Europa também caminha para o colpaso. Para salvar suas economias, precisam inundar nosso crescente mercado consumidor com os produtos que não conseguem vender nos países deles. O Brasil precisa se defender disso.  A defesa começa por medidas cambiais, por política industrial que proteja nosso mercado. Dilma já deu os primeiros passos nessa direção.

Mas o Brasil – com seus aliados do Cone Sul, Argentna à frente – não será respeitado só porque tem mercado consumidor forte, diversidade cultural e instituições democráticas. Precisamos, sim, reequipar nossas forças armadas. Precisamos fabricar aviões, armas. Precisamos terminar o projeto do submarino com propulsão nuclear.

Não se trata de “bravata” militarista. Trata-se do mundo real. A maioria absoluta dos militares brasileiros – que gostam do nosso país – não vai dar ouvidos para Elianes e Alis; vai dar apoio a Celso Amorim na Defesa, assim que perceber que ele é um nacionalista moderado, que pode ajudar a transformar o Brasil em gente grande, também na área de Defesa.

O resto é choro de anões que povoam o parlamento e as redações da velha mídia.

O PALHAÇO SEM GRAÇA – por olsen jr / ilha de santa catarina

 Na casa lotérica perguntei se podia pagar com o cartão. O atendente disse que sim, depois – como se lembrasse de alguma coisa – pediu pelo nome do banco e finalmente concordou. Pego uma senha e fico esperando a minha vez. O lugar vai sendo tomado. Metade da manhã, dia ensolarado de inverno, acredito, todos querem livrar-se logo dos encargos para aproveitar aquela energia solar providencial e necessária.

   A conta, tudo somado (água, luz, internet, telefone fixo e móvel, mais o IPTU) deu pouco menos de R$ 800,00 e a moça que me atendeu afirma que o limite para o pagamento com o cartão é de R$ 500,00… Digo que não tem problema e que eu completo com dinheiro…

Alguém que tinha acabado de chegar e ouviu a conversa vociferou: “Limite com o cartão só de R$ 500,00… A minha conta dá quase mil e eu aqui na fila fazendo o papel de palhaço”… Amarfanha a senha que tinha nas mãos e joga o papel no chão, saindo em seguida, como um touro espumando pelas ventas, diria o gaudério.

Fico pensando na expressão “fazendo o papel de palhaço”… Uma injustiça… Para ser um verdadeiro palhaço o sujeito precisa de talento. Talento este cultivado na observação do cotidiano, um duro aprendizado da vida, isso demanda tempo e muita dedicação. Assim mesmo, com todas as características definidas, o indivíduo corre o risco de não ter graça nenhuma. Um palhaço sem graça é desnecessário e inútil, lembrei do Scott Fitzgerald “Nada mais supérfluo do que uma bíblia no apartamento de um hotel cinco estrelas.”

Há indivíduos (gosto desta categoria sartriana para nomear o Ser que ainda não é, mas pode vir a ser) que gastam demasiada energia, despropositada mesmo, para mostrar que estão vivas. Curioso é que sempre “sobra” para quem não tem nada a ver com isso. Algumas pessoas não deveriam levar-se demasiadamente a sério. A vida é muito curta e custa muito emprestar-lhe um sentido, a consciência do fato já deveria bastar para não se dilapidar energia de maneira inútil.

Manifestações irascíveis, gratuitas, quase sempre carregam vestígios de carência afetiva que, naturalmente não podem ser “curadas” com mais violência, mas é outro papo…

   I pagliacci, como dizem os italianos… Fazer pilhérias, momices, gracejos, trejeitos, malabarismos com graça requer muito talento e ainda por cima fazer rir o que é curioso, porque nos espelhamos no ridículo que todo o humano carrega consigo e quando rimos, de certa maneira, estamos rindo de nós mesmos… Mas é preciso fazê-lo com arte e não com fúria como o indivíduo da casa lotérica, porque com esta, até um touro babão faz melhor.

    olsen jr é jornalista, advogado e membro da Academia Catarinense de Letras