Arquivos Diários: 10 agosto, 2011

Pierre Seghers : uma aventura chamada poesia – por manoel de andrade ] paris

  

         

                                                                       “Si la poésie ne vous aide pas à vivre, faites autre chose.

                                                                       Je la tiens pour essentielle à l’homme autant que les battements de son cœur »

                                                                                                                             Le Temps des merveilles

                                    Pierre Seghers

          Neste verão, em Paris, entre tantos encantos e recantos vistos e revistos, destaco aqui apenas o que mais me interessou como poeta: uma exposição no Museu Montparnasse sobre o grande poeta e editor Pierre Seghers, denominada “Pierre Seghers – Poésie, la vie entière”

Seghers não foi somente o mais célebre editor de poesia do século XX, mas sobretudo  um combatente da liberdade. Nascido em Paris em 1906, onde morreu aos 81 anos, Seghers  em 1938, solidariza-se com a causa libertária da Guerra Civil Espanhola juntando-se a  escritores e artistas que, sob a tutela editorial de Paul Éluard, divulgam seus poemas nas edições clandestinas da revista “Commune”. É  a época em que ele conhece o editor espanhol Louis Jou, o amigo e mestre que o inspira a fundar sua primeira editora, a “Edición de la Tour”, em Villeneuve-les-Avignon.

Ainda em 1938 publica “Bonne  Espérance”, seus primeiros poemas reunidos. Com a França invadida pelo exército alemão  ele compreende que  guerra e  poesia são duas faces da mesma moeda e que um poema pode ser uma forma de resistir e de lutar, um grito de liberdade, uma lírica bandeira que resolveu desfraldar naquele primeiro ano da guerra publicando a revista dos Poetas-Soldados, chamada  “PC-39” ou “Poètes casqués”, direcionada para a poesia engajada na resistência, apesar da censura imposta pela ocupação alemã. No ano seguinte, seguindo  os passos de Louis Aragon e apoiado por Éluard, lança uma nova revista chamada “Poésie 40”, e depois, 41 e 42.

Em 1944, Seghers dá seu nome à Editora ao transferi-la para Paris. Em 1945 publica “Le Domaine Public” e adere ao Partido Comunista. Nesta nova fase ele revoluciona  a  arte editorial lançando os primeiros modelos de livros de bolso e, sonhando tornar a poesia acessível a todos, lança  sua grande obra como editor-poeta, a série “Poètes d’aujourd’hui”, cujo primeiro título, dedicado a Paul Élouard, consagra-o como precursor na edição  de poetas contemporâneos. Desta célebre coleção, com 256 títulos de poetas de todo o mundo, 147 obras  são mostradas na Exposição de Montparnasse. É  emocionante para um poeta e para os amantes da poesia ver o nome de tantos e tão grandes  poetas ali reunidos, lado a lado,  “vivos” através da obra que deixaram. A maioria são franceses e são muitos para citá-los nos limites deste texto, mesmo aqueles que inspiraram nossos versos da juventude. Lá estavam também Walt Whitman, Federico García Lorca e Fernando Pessoa que desde  sempre viveram na aldeia de minh’alma.  Encontrei nossos Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes e os hispanoamericanos Marti, Neruda, Vallejo, Asturias, Guillén, Ruben Dario, Carrera Andrade, Octavio Paz. Entre  tantos espanhóis estive diante de António Machado, Rafael Alberti, Miguel Hernandez, Juan Ramón Jimenez e Luiz Cernuda e segue com poetas consagrados  do mundo inteiro.

Entre manuscritos, cartas, fotografias e obras inéditas, vê-se livros abertos em páginas autografadas para Pierre Seghers, reconhecendo a grandeza incomparável de sua dedicação à poesia e expressa em frases  comoventes de poetas como Paul Élouard, Pierre Reverdy, Leopold Sédar Senghor e outros.

A poesia e a música, como as mais elevadas expressões da alma humana, foram compeendidas pela grande sensibilidade do poeta Seghers, quando disse que a canção e a poesia são irmãs e eis porque publica a biografia de grandes cantores como Aznavour, Brassens, Ferré, como também uma coleção inédita chamada “Poesia e Música” e obras com partituras de  Chopin, Vivaldi, Schubert, Beethoven, Bach, etc.

Mas não é somente isso. Há densas antologias sobre a poesia chinesa, sobre a arte poética e dramática. Seghers publicou o teatro de Lorca, Ionesco, Pirandelo, Arrabal. A filosofia de Buda, Hegel, Heráclito, Garaudy, Marcuse, Heidegger. O pensamento de sábios como Freud, Oppenheimer, Leonardo da Vinci, Weisenberg, Teilhard de Chardin  e Newton.  Seghers foi  um embaixador da criação lírica do seu tempo  e da  memória da cultura universal,  publicando edições preciosas  sobre a arte na Música, na Literatura, na Pintura e na Política. Não esqueceu de contar a vida de cineastas como Antonioni, Buñuel, Godard, Fellini, Kurosawa, Hitchcock, Polanski e de revolucionários como Mao Tse Tung  e Che Guevara.

Em 1969, Pierre Serghers cede sua parte na Editora para Robert Laffont e dedica-se exclusivamente a escrever, nascendo daí obras como “La Résistance et ses Poètes 1939-1945”,  “Le Livre d’Or de la Poésie Française”  e  “Anthologie des Poètes Maudits du XX siècle”. E contudo, apesar da importância de sua obra como poeta e ensaísta, é pela incondicional atenção que deu à poesia, como editor, que neste verão sua memória é  reverenciada em importantes  jornais franceses , relembrada por intelectuais de toda a França e, com justiça, consagrada nesta exposição em Paris.

Creio que esta exposição, aberta até 7 de outubro,  será para muitos, como foi para mim, uma grata e misteriosa descoberta. É como se, pela primeira vez, alguém nos revelasse a real importância da poesia. Seus segredos, sua transcendência,  seu luminoso itinerário na história, seu mágico significado no coração dos homens. Foram mais de dois mil poetas publicados  em seus cinquenta anos de editor. É  como se naquelas salas tudo estivesse impregnado do seu amor pela poesia, porque sua vida foi tão somente  uma aventura chamada “poesia”. E é dessa palavra que nascem as raízes  do combatente, do editor e do escritor. Num país com um Panteão com tantos heróis, uma glória singular: a glória de uma vida inteira dedicada à poesia.

                                                                                                          Paris, 6 de agosto de 2011

 

o poeta MANOEL DE ANDRADE na exposição em PARIS . (4/8/2011)

Comando da Aeronáutica repudia reportagem do Fantástico sobre voar no Brasil

Nota Oficial 

Esclarecimentos sobre reportagem do Fantástico exibida em 07/08/2011

O Comando da Aeronáutica repudia veementemente o teor da reportagem do jornalista Walmir Salaro, levada ao ar no Fantástico deste domingo, sete de agosto, e no Bom Dia Brasil desta segunda-feira, oito de agosto.

A matéria em questão parte de princípios incorretos e de denúncias infundadas para passar à população brasileira a falsa impressão de que voar no Brasil não é seguro. A reportagem contradiz os princípios editoriais da própria Rede Globo ao apresentar argumentos com falta de Correção e falta de Isenção, itens considerados pela própria emissora como sendo atributos da informação de qualidade.

O jornalista embarcou em uma aeronave de pequeno porte (aviação geral), que tem características como nível de voo, rota, classificação e regras de controle aéreo diferentes dos voos comerciais. A matéria trata os voos sob condições visuais e instrumentos como se obedecessem as mesmas regras de controle de tráfego aéreo, levando o espectador a uma percepção errada.

O piloto demonstra espanto ao avistar outras aeronaves sobre o Rio de Janeiro e São Paulo, dando um tom sensacionalista a uma situação perfeitamente normal e controlada que ocorre sobre qualquer grande cidade do mundo. Nesse sentido, causa estranheza que a reportagem tenha mostrado a proximidade dos aviões como algo perigoso para os passageiros no Brasil. As próprias imagens revelam níveis de voo diferenciados, além de rotas distintas.

Além disto, o piloto que opta por regras de voo visual, só terá seu voo autorizado se estiver em condições de observar as demais aeronaves em sua rota, de acordo com as regras de tráfego aéreo que deveriam ser de seu pleno conhecimento. Mesmo assim, o piloto receberá, ainda, avisos sobre outros voos em áreas próximas.

Foi exatamente o que ocorreu durante a reportagem, que mostra o contato constante dos controladores de tráfego aéreo com o piloto. Desde a decolagem foram passadas informações detalhadas sobre os demais tráfegos aéreos na região, sem que houvesse qualquer perigo para as aeronaves envolvidas.

A respeito da dificuldade demonstrada em conseguir contato com o serviço meteorológico, é interessante lembrar que há várias frequências disponíveis para contato com o Serviço de Informações Meteorológicas para Aeronaves em Voo (VOLMET), que está disponível 24 horas por dia em todo o país. Além destas, há frequências de ATIS (Serviço Automático de Informação em Terminal) que fornecem continuamente, por meio de mensagem gravada e constantemente atualizada, entre outros dados, as condições meteorológicas reinantes em determinada Área Terminal, bem como em seus aeroportos. Como, aliás, é o caso da Terminal de Belo Horizonte, incluindo os aeroportos da Pampulha e de Confins.

Ressalte-se que, a despeito da operação de tais serviços, todos os pilotos têm a obrigação de obter informações meteorológicas antes do voo pessoalmente nas Salas de Informações Aeronáuticas dos aeroportos, por telefone ou até pela internet.

Ao realizar o voo sem, possivelmente, ter acessado previamente informações meteorológicas, o piloto expôs a equipe de reportagem a uma situação de risco desnecessário. Tratou-se, obviamente, de mais um traço sensacionalista e sem conteúdo informativo.

A respeito do momento da reportagem em que o controle do espaço aéreo diz que não tem visualização da aeronave, cabe esclarecer que o voo realizado pela equipe do Fantástico ocorreu à baixa altitude, em regras de voos visuais, uma situação diferente dos voos comerciais regulares.

Na faixa de altitude utilizada por aeronaves como das empresas TAM e GOL, extensamente mostradas durante a reportagem, há cobertura radar sobre todo o território brasileiro. Para isso, existem hoje 170 radares de controle do espaço aéreo no país. Como dito acima, é feita uma confusão entre perfis de voos completamente diferentes. Dessa forma, o telespectador do Fantástico ficou privado de ter acesso a informações que certamente contribuem para a melhor apresentação dos fatos.

No último trecho de voo da reportagem, o órgão de controle determinou a espera para pouso no Aeroporto Santos-Dumont. O que foi retratado na matéria como algo absurdo, na realidade seguiu rigorosamente as normas em vigor para garantir a segurança e fluidez do tráfego aéreo. Os voos de linhas regulares, na maioria das vezes regidos por regras de voo por instrumentos, gozam de precedência sobre os não regulares, visando a minimizar quaisquer problemas de fluxo que possam afetar a grande massa de usuários.

A reportagem também errou ao mostrar que Traffic Collision Avoidance System (TCAS) é acionado somente em caso de acidente iminente. O fato do TCAS emitir um aviso não significa uma quase-colisão, e sim que uma aeronave invadiu a “bolha de segurança” de outra. Essa bolha é uma área que mede 8 km na horizontal (raio) e 300 metros na vertical (raio).

Cabe ressaltar ainda que a invasão da bolha de segurança não significa sequer uma rota de colisão, pois as aeronaves podem estar em rumos paralelos ou divergentes, ou ainda com separação de altitude, em ambiente tridimensional.

A situação pode ser corrigida pelo controle do espaço aéreo ou por sistemas de segurança instalados nos aviões, como o TCAS. Nem toda ocorrência, portanto, consiste em risco à operação. O TCAS, por exemplo, pode emitir avisos indesejados, pois o equipamento lê as trajetórias das aeronaves, mas não tem conhecimento das restrições impostas pelo controlador.

Todas as ocorrências, no entanto, dão início a uma investigação para apurar os seus fatores contribuintes e geram recomendações de segurança para todos os envolvidos, sejam controladores, pessoal técnico ou tripulantes. É esse o caso dos 24 relatórios citados na reportagem. A existência desses documentos não significa a ocorrência de 24 incidentes de tráfego aéreo, e sim uma consequência direta da cultura operacional de registrar todas as situações diferentes da normalidade com foco na busca da segurança.

A investigação tem como objetivo manter um elevado nível de atenção e melhorar os procedimentos de tráfego aéreo no Brasil, pois é política do Comando da Aeronáutica buscar ao máximo a segurança de todos os passageiros e tripulantes que voam sobre o país. Incidentes e acidentes não são aceitáveis em nenhum número, em qualquer escala.

Sobre a questão dos controladores de tráfego aéreo, ao contrário da informação veiculada, o Brasil tem atualmente mais de 4.100 controladores em atividade, entre civis e militares. No total, são mais de 6.900 profissionais envolvidos diretamente no tráfego aéreo, entre controladores e especialistas em comunicação, operação de estações, meteorologia e informações aeronáuticas.

Para garantir a segurança do controle do espaço aéreo no futuro, o Comando da Aeronáutica investe na formação de controladores de tráfego aéreo. A Escola de Especialistas de Aeronáutica forma anualmente 300 profissionais da área. Todos seguem depois para o Centro de Simulação do Instituto de Controle do Espaço Aéreo (ICEA), inaugurado em 2007 em São José dos Campos (SP). Com sistemas de última geração e tecnologia 100% nacional, o ICEA ampliou de 160 para 512 controladores-alunos por ano, triplicando a capacidade de formação e reciclagem.

Vale salientar que a ascensão operacional dos profissionais de controle de tráfego aéreo ocorre por meio de um conselho do qual fazem parte, dentre outros, os supervisores mais experientes de cada órgão de controle de tráfego aéreo. Desse modo, nenhum controlador de tráfego aéreo exerce atividades para as quais não estejam plenamente capacitados.

A qualidade desses profissionais se comprova por meio de relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA). De acordo com o Panorama Estatístico da Aviação Civil Brasileira, dos 26 tipos de fatores contribuintes para ocorrência de acidentes no país entre 2000 e 2009, o controle de tráfego aéreo ocupa a 24° posição, com 0,9%. O documento está disponível no link:
http://www.cenipa.aer.mil.br/cenipa/Anexos/article/19/PANORAMA_2000_2009.pdf

A capacitação dos recursos humanos faz parte dos investimentos feitos pelo DECEA ao longo da década. Entre 2000 e 2010, foram R$ 3,3 bilhões, sendo R$ 1,5 bilhão somente a partir de 2008. O montante também envolve compra de equipamentos e a adoção do Sistema Avançado de Gerenciamento de Informações de Tráfego Aéreo e Relatórios de Interesse Operacional (SAGITÁRIO), um novo software nacional que representou um salto tecnológico na interface dos controladores de tráfego aéreo com as estações de trabalho. O sistema tem novas funcionalidades que permitem uma melhor consciência situacional por parte dos controladores. Sua interface é mais intuitiva, facilitando o trabalho de seus usuários.

Os resultados desses investimentos foram demonstrados pela auditoria realizada em 2009 pela International Civil Aviation Organization (ICAO), organização máxima da aviação civil, ligada às Nações Unidas, com 190 países signatários. A ICAO classificou o Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro entre os cinco melhores no mundo. De acordo com a ICAO, o Brasil atingiu 95% de conformidade em procedimentos operacionais e de segurança.

Sem citar quaisquer dessas informações, para realizar sua reportagem, a equipe do Fantástico exibe depoimentos sem ao menos pesquisar qual a motivação dessas fontes. O Sr. Edileuzo Cavalcante, por exemplo, apresentado como um importante dirigente de uma associação de controladores, é acusado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, motim e incitação à indisciplina, e responde por essas acusações na Justiça Militar.

O Sr. Edileuzo Cavalcante foi afastado da função de controlador de tráfego aéreo em 2007 e recentemente excluído das fileiras da Força Aérea Brasileira. Em 2010, também teve uma candidatura impugnada pela Justiça Eleitoral.

Quanto à informação sobre as tentativas de chamada por parte do controlador de tráfego aéreo, Sargento Lucivando Tibúrcio de Alencar, no caso do acidente ocorrido com a aeronave da Gol (PR-GTD) e a aeronave da empresa Excel Aire (N600XL) em 29 de setembro de 2006, cabe reforçar que elas não obtiveram sucesso devido à aeronave da Excel Aire não ter sido instruída oportunamente a trocar de frequência e não a qualquer deficiência no equipamento, conforme verificado em voo de inspeção. Durante as tentativas de contato, a última frequência que havia sido atribuída à aeronave estava fora de alcance, impossibilitando o estabelecimento das comunicações bilaterais.

Já quando foi consultar o Departamento de Controle do Espaço Aéreo, a equipe de reportagem omitiu o fato que trataria de problemas de tráfego aéreo. Foi informado que se tratava unicamente sobre a evolução do tráfego aéreo de 2006 a 2011.

Por fim, o Centro de Comunicação Social da Aeronáutica ressalta que voar no país é seguro, que as ferramentas de prevenção do Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro estão em perfeito funcionamento e que todas as ações implementadas seguem em concordância com o volume de tráfego aéreo e com as normas internacionais de segurança. No entanto, este Centro reitera que a questão da segurança do tráfego aéreo no país exige um tratamento responsável, sem emoção e desvinculado de interesses particulares, pessoais ou políticos.

Brasília, 9 de agosto de 2011.
Brigadeiro-do-Ar Marcelo Kanitz Damasceno
Chefe do Centro de Comunicação Social da Aeronáutica

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blog do Nassif

Esperando Solon – por amilcar neves / ilha de santa catarina

Ligaram várias vezes. Vezes sem parar, quase se poderia dizer. A primeira vez foi mais ou menos assim:

– Solon B. S.! – a voz da moça do televendas é impositiva, imperativa, revestida da autoridade típica das pessoas que têm muita pressa, muitos objetivos a atingir e não podem, portanto, ficar perdendo tempo com conversa fiada, não estão aí para jogar conversa fora, pois, como se diz, tempo é dinheiro; a identificação da circunstância de ser uma ligação de televendas, mais do que pelo tom de voz contrariado, se faz pelo som ambiente do local de onde parte a chamada telefônica, altamente ruidoso e agitado, além do fato característico de o telefone tocar e a pessoa, ao atender, ver-se pendurada na linha por longos segundos até que, do outro lado, a moça (sempre botam uma mulher para te ligar) se digne a falar. E, quando fala, ela o faz dando-te ordens.

– Ah, Solon B. S., claro! – o homem responde. – Que que tem? O que houve com ele? E quem quer saber, por favor?

– É da Cartão de Crédi. Ele se encontra?

– Olhe, pelo tom da sua voz, diria que ele se perdeu. Acho que se trata, o dele, de um caso perdido.

– A que horas ele chega?

– Parece que não chega, meu amor. E não tenho a menor ideia de quem seja a figura, sinto muito – e ouve baterem o telefone em seu ouvido.

Cinco vezes, todo dia, aconteceu assim. No sexto:

– Solon B. S.!

– Olha, moça, já cansei da brincadeira. Não existe nem nunca existiu qualquer Solon B. S. neste número – eles sempre falam o nome completo do sujeito, com sobrenome e tudo, mas aqui, de público, não podemos fazer o mesmo, ou seja, citá-lo nominalmente com todas as letras, sob pena de processos judiciais – geralmente acatados pelos juízes e bem sucedidos nos tribunais – pedindo polpudas indenizações por danos morais e à honra dos nominados. – Peço que tirem meu número dessa lista e não me liguem mais.

– Impossível, senhor. O número está no banco de dados da empresa, não tem como ser removido e nos será apresentado sem parar até que o Solon B. S. Atenda.

– Mas já disse que não há Solon algum por aqui! Vocês têm que tirar o meu telefone da lista.

– Impossível, senhor, já lhe disse.

– Muito bem. Então chame o seu supervisor, quero falar com ele.

– Nossos supervisores não falam ao telefone.

– Perfeito. Então diga-lhe que farei um boletim de ocorrências na delegacia do bairro se vocês me perturbarem de novo. Aí é a Cartão de Crédito mesmo ou alguma terceirizada?

– Não, senhor, a Cartão de Crédi não terceiriza serviços – e desliga.

Continuaram ligando, óbvio. Um bom profissional não se abate com um mísero não, não se intimida com uma vaga ameaça. O bom profissional persiste até o fim.

– Solon B. S.!

– Ele não está no momento. Pode ser com Soloff B. S., o russo?

Duas horas depois:

– Solon B. S.!

– Vou chamar. Solonzinho, telefone pra ti! – e o telefone dorme, ligado, em frente ao aparelho de som, ligado, até a moça desistir.

Passaram a ligar literalmente a toda hora. Só no sábado foram seis ligações, tarde a dentro, a última às 16h15, meia hora depois da penúltima.

– Solon B. S.!

– Claro, espera um pouquinho só. Sol! Solzinho, vem cá!

Nunca, talvez, o pessoal do televendas tenha escutado tanta música, embora não mais do que escutamos quando precisamos falar com uma empresa. Agora, na casa, sempre existe um som ligado para receber a chamada urgente e irremovível para um certo Solon B. S., o procurado.