Arquivos Diários: 11 agosto, 2011

A SEREIAZINHA: MEU CONTO DE FADAS PREDILETO – INTERPRETAÇÃO DE UM ADULTO – por zuleika dos reis / são paulo


 

Desde quando aos oito anos o li pela primeira vez, A SEREIAZINHA tornou-se meu conto de fadas predileto. Calou-me tão fundo e tão misterioso como o signo de um destino, hoje o sei: um dos signos simbólicos, precocemente dados, do meu próprio destino. Eis minha versão – lembrança deste conto magnífico.

A SEREIAZINHA, história “infantil”, já de início subverte a noção clássica das sereias como seres perigosos, aquelas que, com seu canto, levam os homens à perdição, à morte. A heroína de Hans Christian Andersen, não.

A pequena sereia vive no reino subaquático, com a avó, com as irmãs, com as demais companheiras de mesma dupla natureza. Sabe-se destinada a uma vida de trezentos anos, findos os quais seu corpo, como o de todas, se verá transformado em espuma do mar.

Sereiazinha não se conforma com tal destino: sonha com uma alma imortal, como a que possuem os humanos. A avó lhe diz que só há uma forma de obtê-la: conseguir o amor de um desses seres humanos. A fala da avó cria uma fusão, na jovem, do sonho da realização amorosa com o sonho de adquirir a alma imortal.

A princesinha do mar sobe, pela primeira vez, à superfície. As águas estão mansas; ao longe um navio. Aproxima-se e vê, no interior da embarcação, o rosto do mais belo dos príncipes humanos, rosto pelo qual se apaixona, instantaneamente. Queda-se a olhá-lo, as horas passam. Uma borrasca toma conta do céu e do mar, faz soçobrar o navio. Sereiazinha salva o príncipe, leva-o para a praia; ele abre os olhos, olha-a, novamente perde os sentidos. A jovem se oculta quando vê a comitiva real aproximar-se, tomar do príncipe, levá-lo para o palácio.

No reino subaquático, Sereiazinha almeja, fundidos, o sonho do amor humano e o sonho da alma humana. A feiticeira do reino lhe diz que só poderia conquistar o príncipe se tivesse duas pernas e lhe propõe metamorfosear-lhe a cauda, se lhe der em troca a sua voz maviosa, a voz mais maviosa do reino do fundo do mar, quiçá, de todos os reinos. A princesinha cede, torna-se muda e, junto com as perdas ganha, também, atroz sofrimento: ao andar é como se espadas a penetrassem desde a raiz dos pés.

Sereiazinha abandona o reino dos seus ancestrais. No reino dos humanos é admirada por sua beleza, pelo corpo perfeito, pelas pernas belíssimas que todos adivinham por baixo das castas vestes. Ninguém sabe de onde ela veio, não há como sabê-lo. Também o príncipe, por ela amado, queda-se seduzido.

O destino, caprichoso, trama destino diverso do que o deseja a leitora de oito anos (diverso também do que o viria a desejar a leitora adulta): o rei determina uma esposa para o príncipe; quando este conhece a escolhida por seu pai, julga reconhecê-la como aquela que o salvara do naufrágio.

Na festa de núpcias Sereiazinha dança, leve como uma fada. Dança… dança… dança… sufocando na garganta a terrível dor dos pés, sufocando no peito a dor da perda do amor e da perda da esperança por uma alma imortal. Como no início, as cenas finais se passam em um navio. A ex-princesinha do mar sabe que, ao amanhecer, deverá jogar-se ao mar, virar espuma, para todo o sempre. Olha pela janela do convés e vê suas irmãs se aproximarem, aflitas. Portam um punhal, entregam-no a ela, pedem-lhe que o enterrem no peito do príncipe: isto a salvará da morte tão precoce; isto a livrará do precoce destino de espuma.

Sereiazinha, com o punhal nas mãos, entra no quarto onde os noivos dormem, serenos; queda-se por longo tempo a olhá-los, chega mais perto, beija o príncipe amado na fronte.

O dia amanhece. A jovem sereia dirige-se à proa, lança o límpido e intacto punhal ao mar e, em seguida, joga-se também.  Sente-se dissolver; sabe-se, agora, espuma do mar. Em seguida, sente que se eleva e se percebe em presença de seres, estes sim alados, que lhe dizem: “Estavas entre dois caminhos, poderias ter escolhido o mais fácil: não o fizeste. Viemos para dizer-te que foi dado o passo inicial para a obtenção da alma imortal a que tanto aspiras. Teu amor pelo príncipe foi maior do que teu amor pela própria preservação. Tal renúncia suprema te confere o direito de ir em busca de tua alma, por mérito, por tuas ações. Já não dependes, como nós também não mais dependemos, dos seres do reino humano para nos tornarmos imortais.”

Insensata opção – por heitor scalabrini costa / recife

Muito se tem falado e escrito pró e contra a opção do governo Lula/Dilma em reativar o Programa Nuclear, implicando assim na instalação de centrais nucleares no território brasileiro.

Os defensores desta tecnologia, identificados com setores da burocracia estatal, militares, membros da academia, grupos empresariais (empreiteiras e construtores de equipamentos), julgam que o Brasil não deve prescindir desta fonte de energia elétrica para atender a demanda futura, alegam ser vantajosa por ser barata e “limpa” por não emitir gases de efeito estufa. Afirmam não ser possível acompanhar o desenvolvimento científico-tecnológico, caso não se construa usinas nucleares. E por outro lado, minimizam o recente desastre ocorrido no complexo de Fukushima Daiichi, garantindo riscos mínimos, e mesmo a ausência deles, nas instalações brasileiras.

A primeira vista tais argumentos pareceria convincente, e poderiam até confundir os mais neófitos e menos desavisados cidadãos e cidadãs, que desejam o melhor para o país e para sua população. Mas a verdade dos fatos tem revelado que a opção pela energia nuclear atende somente a interesses inconfessáveis de alguns, em detrimento dos interesses da ampla maioria, resultando em mais problemas do que soluções.

É preciso entender de uma vez por todas, a grande vantagem comparativa do Brasil por possuir uma diversidade e abundância de fontes energéticas renováveis que não são encontradas em nenhuma parte do mundo, e que podem pela tecnologia atual, atender as necessidades energéticas atuais e futuras do país. Estas sim, desde que utilizadas de forma sustentável, podem contribuir para uma sociedade descarbonizada.

Afirmar que as usinas nucleares não emitem gases de efeito estufa é uma meia verdade. É certo que quando em funcionamento as usinas núcleo elétricas emitem desprezíveis quantidades destes gases. Mas lembremos que as centrais não funcionam sem o combustível nuclear. E este para ser obtido, passa por etapas e operações que são conhecidas como “ciclo do combustível nuclear”, que vão desde a extração do minério radioativo, sua concentração, enriquecimento, preparação das pastilhas de combustível, seu uso na usina na geração de eletricidade, armazenagem do lixo radioativo produzido e o descomissionamento da usina, depois de atender sua vida útil. Em todas estas etapas e operações a produção de gases de efeito estufa é importante, e a quantidade varia muito em função da metodologia empregada para calcular, de 60 a 400 gCO2/kWh, como relatado por inúmeras publicações científicas. Por si só esta grande variação merece explicações e estudos mais conclusivos.

Relacionar a necessidade de instalação de usinas nucleares no país como sendo fundamental e imprescindível para acompanhar o desenvolvimento científico tecnológico na área nuclear é uma justificativa completamente fantasiosa, irreal e agride o bom senso. Ao invés de investir 10 bilhões de reais na construção de uma única usina, com baixo índice de nacionalização de seus componentes, poderia se construir reatores multi-propósito por 1 bilhão de reais cada unidade. Seriam muito mais úteis ao desenvolvimento e a soberania do país.

Minimizar os riscos das instalações nucleares é um atentado a inteligência de qualquer pessoa. Mesmo não divulgados são freqüentes os vazamentos de materiais radioativos e problemas que ocorrem nos 442 usinas nucleares espalhadas em 29 países. Os desastres mais significativos nos últimos 20 anos, de Thernobyl, Three Mille Island e de Fukushima Daiichi, foram suficientes para alertar o mundo de quão é perigosa e dos riscos à vida que oferecem estas instalações.

E finalmente, os custos da energia elétrica produzida pelas usinas nucleares são mais caros que outras fontes, como a eólica e a hidráulica, e comparados ao das termoelétricas. Além de necessitarem de subsídios públicos, ou seja, repasse de enormes recursos financeiros do tesouro nacional disponibilizados para esta tecnologia; que acabam dificultando que investimentos sejam realizados em outras fontes energéticas como a solar, eólica, biomassa, pequenas centrais hidroelétricas, e no aproveitamento dos recursos energéticos encontrados nos oceanos. É certo também que com as novas regras de segurança impostas pós Fukushima, ainda mais caro ficará o custo da eletricidade nuclear.

Uma pergunta que não quer calar, diz respeito à negativa de muitas seguradoras em cobrir os acidentes nucleares, que em muitos países essa cobertura é atribuída ao Governo Federal. Se as companhias de seguro, especialistas em estimar os perigos de acidentes, não desejam arriscar seu dinheiro, por que se devem obrigar as pessoas a arriscarem suas vidas?

No mínimo é insensata esta opção energética adotada pelo governo brasileiro, que deve ser mais discutida com transparência. Daí estar junto à imensa maioria da população que tem se manifestado contrária a construção de usinas nucleares em território nacional, fortalecendo o coro: Energia nuclear? Não obrigado.

 

Heitor Scalambrini Costa é  Professor da Universidade Federal de Pernambuco

Jorge, um saudoso farmacêutico – por alceu sperança / cascavel.pr

Quando Jorge Pereira do Valle nasceu, há 91 anos, estava sendo proclamada a República Portuguesa e começava a Revolução Mexicana. No Brasil, piorava a briga entre Paraná e Santa Catarina, que iria dar no conflito sangrento do Contestado, e acontecia o vergonhoso massacre da Chibata. Como sempre, o mundo mudava e o Brasil continuava o mesmo por muito mais tempo.

Mas em 1910, ano de tantos avanços no mundo e muita sacanagem governamental no Brasil, nascia esse farmacêutico ao qual muitas famílias estabelecidas no Oeste paranaense devem uma dica preciosa: “Cascavel será uma grande cidade, invista aqui”.

Jorge Pereira do Valle morreu há pouco, no Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, durante uma cirurgia que deveria lhe recompor a bacia fraturada.

Não se pode dizer que o Brasil tenha vivido muito bem esses 91 anos, mas Jorge viveu. Foi uma vida de trabalho e a serviço da família e de suas amizades.

Sua figura amiga e voz suave brotam da gravação em que saúda os 50 anos da Acic, da qual foi um dos fundadores. Nela, conta que foi para Cascavel em 1946, integrando a equipe médica de apoio aos militares e operários encarregados de construir a atual BR-277, e recorda as famílias com as quais mais teve amizade, especialmente os Galafassi, Pompeu e Tolentino.

Participou da formação da cidade e da criação do Município. Mesmo depois de ter seguido adiante acompanhou sempre Cascavel e a terra vermelha ficou marcada em sua memória. No vídeo, a mana Regina lhe pergunta: “Do que o sr. sente saudades em Cascavel?” “De tudo! De todas as amizades que deixei lá”.

Nascido em Tijucas do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba, em 27 de março de 1910, filho dos agricultores Tobias Pereira do Valle e Ana Isabel do Valle, depois de completar o curso primário ele já começou a trabalhar.

Jorge foi indicado por um parente para trabalhar na Comissão de Estradas de Rodagem (CER-1), que construía a rodovia federal Estratégica. Auxiliava os seis enfermeiros destacados para prestar atendimento aos operários ao longo das obras.

Chegou a Cascavel e já não o deixaram mais sair para continuar o serviço médico da Comissão de Estradas. Convidado pela Madeireira M. Lupion a prestar atendimento de saúde aos operários como enfermeiro, passou a atender na Serraria Central, que depois passaria à Industrial Madeireira do Paraná.

Na época, os enfermeiros conseguiam se habilitar ou se provisionar como farmacêuticos e montavam seu próprio negócio. Comprando a farmacinha pioneira de Antônio Massaneiro, instalou-se com sua Farmácia São Jorge onde hoje é a loja Bigolin, na antiga rua Moysés Lupion, atual Sete de Setembro.

Em 1964 retornou a Curitiba, atitude da qual depois iria se arrepender, abrindo uma farmácia em Colombo. Em seus dois casamentos, teve nove filhos: Ivete, Alceu, Fernando, Osmar, Luiz, Ana, Josiane, Edson e Roberto.

Mesmo sendo fundador de uma associação comercial, não era um dos comerciantes mais espertos deste mundo: vendeu seu estoque para a Farmácia Santa Cruz e foi para São José dos Pinhais. Na RM de Curitiba, perdeu tudo o que havia conseguido em vinte anos de Cascavel, precisando recomeçar a vida. E foi o que fez.

Não apenas por isso, mas sobretudo porque os seis filhos do primeiro casamento nasceram todos em Cascavel, a lembrança da cidade oestina paranaense batia sempre.

Sentir saudades de Cascavel com tantos filhos cascavelenses era obrigatório. E agora a saudade fica por nossa conta, seu Jorge!

**

Alceu A. Sperança – escritor

alceusperanca@ig.com.br