A SEREIAZINHA: MEU CONTO DE FADAS PREDILETO – INTERPRETAÇÃO DE UM ADULTO – por zuleika dos reis / são paulo


 

Desde quando aos oito anos o li pela primeira vez, A SEREIAZINHA tornou-se meu conto de fadas predileto. Calou-me tão fundo e tão misterioso como o signo de um destino, hoje o sei: um dos signos simbólicos, precocemente dados, do meu próprio destino. Eis minha versão – lembrança deste conto magnífico.

A SEREIAZINHA, história “infantil”, já de início subverte a noção clássica das sereias como seres perigosos, aquelas que, com seu canto, levam os homens à perdição, à morte. A heroína de Hans Christian Andersen, não.

A pequena sereia vive no reino subaquático, com a avó, com as irmãs, com as demais companheiras de mesma dupla natureza. Sabe-se destinada a uma vida de trezentos anos, findos os quais seu corpo, como o de todas, se verá transformado em espuma do mar.

Sereiazinha não se conforma com tal destino: sonha com uma alma imortal, como a que possuem os humanos. A avó lhe diz que só há uma forma de obtê-la: conseguir o amor de um desses seres humanos. A fala da avó cria uma fusão, na jovem, do sonho da realização amorosa com o sonho de adquirir a alma imortal.

A princesinha do mar sobe, pela primeira vez, à superfície. As águas estão mansas; ao longe um navio. Aproxima-se e vê, no interior da embarcação, o rosto do mais belo dos príncipes humanos, rosto pelo qual se apaixona, instantaneamente. Queda-se a olhá-lo, as horas passam. Uma borrasca toma conta do céu e do mar, faz soçobrar o navio. Sereiazinha salva o príncipe, leva-o para a praia; ele abre os olhos, olha-a, novamente perde os sentidos. A jovem se oculta quando vê a comitiva real aproximar-se, tomar do príncipe, levá-lo para o palácio.

No reino subaquático, Sereiazinha almeja, fundidos, o sonho do amor humano e o sonho da alma humana. A feiticeira do reino lhe diz que só poderia conquistar o príncipe se tivesse duas pernas e lhe propõe metamorfosear-lhe a cauda, se lhe der em troca a sua voz maviosa, a voz mais maviosa do reino do fundo do mar, quiçá, de todos os reinos. A princesinha cede, torna-se muda e, junto com as perdas ganha, também, atroz sofrimento: ao andar é como se espadas a penetrassem desde a raiz dos pés.

Sereiazinha abandona o reino dos seus ancestrais. No reino dos humanos é admirada por sua beleza, pelo corpo perfeito, pelas pernas belíssimas que todos adivinham por baixo das castas vestes. Ninguém sabe de onde ela veio, não há como sabê-lo. Também o príncipe, por ela amado, queda-se seduzido.

O destino, caprichoso, trama destino diverso do que o deseja a leitora de oito anos (diverso também do que o viria a desejar a leitora adulta): o rei determina uma esposa para o príncipe; quando este conhece a escolhida por seu pai, julga reconhecê-la como aquela que o salvara do naufrágio.

Na festa de núpcias Sereiazinha dança, leve como uma fada. Dança… dança… dança… sufocando na garganta a terrível dor dos pés, sufocando no peito a dor da perda do amor e da perda da esperança por uma alma imortal. Como no início, as cenas finais se passam em um navio. A ex-princesinha do mar sabe que, ao amanhecer, deverá jogar-se ao mar, virar espuma, para todo o sempre. Olha pela janela do convés e vê suas irmãs se aproximarem, aflitas. Portam um punhal, entregam-no a ela, pedem-lhe que o enterrem no peito do príncipe: isto a salvará da morte tão precoce; isto a livrará do precoce destino de espuma.

Sereiazinha, com o punhal nas mãos, entra no quarto onde os noivos dormem, serenos; queda-se por longo tempo a olhá-los, chega mais perto, beija o príncipe amado na fronte.

O dia amanhece. A jovem sereia dirige-se à proa, lança o límpido e intacto punhal ao mar e, em seguida, joga-se também.  Sente-se dissolver; sabe-se, agora, espuma do mar. Em seguida, sente que se eleva e se percebe em presença de seres, estes sim alados, que lhe dizem: “Estavas entre dois caminhos, poderias ter escolhido o mais fácil: não o fizeste. Viemos para dizer-te que foi dado o passo inicial para a obtenção da alma imortal a que tanto aspiras. Teu amor pelo príncipe foi maior do que teu amor pela própria preservação. Tal renúncia suprema te confere o direito de ir em busca de tua alma, por mérito, por tuas ações. Já não dependes, como nós também não mais dependemos, dos seres do reino humano para nos tornarmos imortais.”

4 Respostas

  1. OS HUMANOS NEM IMAGINAM, MAS AS SEREIAS ESTÃO MAIS PERTO DELES DO QUE ELES PENSAM!

  2. Pelo amor de Deus, Zuleika, “princesinha”. Com “s”, pelo amor de Deus, não com “z”. Estás ficando analfabeta, fessora?

  3. Há muitas coisas debaixo dos céus que a filosofia de nenhum de nós alcança nem alcançará. O sacro-ofício da sereiazinha ocorreu mais de uma vez, mas, com um dos príncipes, o sempre-presente, o que cumpre doloroso destino também, em razão da presença de outras princesas e de graves deveres de outras naturezas, daquele príncipe o dever da princezinha é ficar perto,para sempre perto, do jeito possível, por compromisso acima de qualquer outro compromisso, à exceção do compromisso com a mãe. Esse príncipe, querido amigo Omar, há 22 anos e alguns meses selou, com sua aparição, o destino de todos os outros príncipes, dos que vieram antes, também do que veio depois dele, aquele que veio a se tornar o companheiro efetivo da sereiazinha, ao longo de muitos anos, assim como de todos os que pudessem ter vindo depois desses dois. Assim é, Omar. Assim é.
    Beijo da amiga
    Zuzu.

  4. Cara Annabell Lee

    Também o príncipe sofreu ao perceber que as palavras não podiam sair da boca da sereiazinha. Ele, que julgava te-la visto apenas em sonho, ficou encantado com a presença fisica silenciosa dela. E, se soubesse, a teria carregado no colo todo o tempo,para evitar que seus pés tocassem o solo e a fizessem sofrer. Mas não aprovaria o sacrifício que ela fez, ficar sem voz, por amor a ele, já que não tem como avaliar se correspondeu ao que ela esperava, ao que ela precisava. Se pudesse, teria se deixado levar junto com ela pela espuma,a dançar livres pelas correntes do mar , rindo nas praias distantes, enquanto se vestiam de conchas luminosas e algas brincassem em seus cabelos. Mas ela preferiu mais uma vez o sacrifício. E ele ficou para sempre estático, na proa do navio, com sol ou tempestade, vento ou calmaria “olhos fixos, rasos de ânsia” a vasculhar a salgada imensidão, a esperar por ela, a lembrar os olhos de agua de Annabel Lee.

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