Arquivos Diários: 14 agosto, 2011

Canto Lampião a um Jaruga – de tonicato miranda / curitiba

 

para o poeta Rodolfo Jaruga

Desde as Baixas do Jacaré,

na caatinga mais desaquartelada

tomando emprestado a Virgolino Ferreira

e também a David Jurubeba

vou na narrativa emendando tudo

causos e estórias,

palavras desenredadas

alguma delas toma, beba e béba

ao estilo Rodolfiano Jaruguense,

porque esta não vai de memória

é uma história roubada da história

é contação de causo no suspense.

E me perdoe Anildomá de Souza,

também outros autores renomados

sobre a história do ex-almocreve

tornado cabra macho sem criados

um que terminou sua criação

nos muitos pós do chão do sertão

logo após

o assassinato vil

do pai.

Ai!

Quanto sangue!

Cortaram o pobre homem

na faca afiada com buril

e a sua morte redundou

um nada de tempo depois

na morte desgostosa da mãe.

E assim Virgolino

foi levado a juramentos

promessas de vinganças

até formar a grei lampiônica

trocando o cabo da enxada

pelo cabo da parabelum.

E logo passou a matraquear balas

como um sendero mortífero,

vagalume de não parar os dedos,

apenas apagado na traição de um

su-bor-di-nado,

cabra danado, endemoniado,

encantado com os mexericos nos Angicos

onde macacos vieram às dúzias

e tum-tum- tum

vieram terminar tudo, apaziguar

o que jamais será apaziguado.

E deixaram duvidas

Mas quais são elas?

… é preciso contar toda a história

Cegado por um garrancho de jurema

Lampião acendeu todo o centro do Nordeste.

Desafiou o Governador de Pernambuco,

ele que governasse

de uma banda do Estado para lá,

até as terras chegar no mar.

Ele governaria do sertão para cá.

Afinal era ou não capitão?

Padinho Cícero lhe nomeou,

ganhou insígnia, vestiu farda

mas a honraria sempre foi tarda

não lhe deram respeito como capitão.

Comandante Virgolino.

Senhor das hostes do cangaço

homem de balas entrelaçadas no peito

e facas de 40 cm nos quartos.

Teve tempo em que fugiu sim

lá para o oco do mundo

perdido nos cafundó do Ceará

nas caatingas mais desenfreadas

lá onde xique-xique, mandacaru

e muito cipó bravo era o tudo

onde havia abundância e criança

mas a água era pouca.

Também poucas eram as riquezas

para tê-las não bastavam estrelas

no chapéu de través em meia lua

sempre na cabeça pendurado,

tinha de assaltar

tomar dos coronéis fazendeiros

distribuir com os pobres

e com os comparsas

após luta encarniçada.

Depois era a danada da cachaça

xaxado varando a madrugada

e a poeira tapando.

Depois eram os muitos goles

e a maldita de não parar a bica

nem o amor das moças

vestidas de chita.

Teve tempo de fartura

onde o xaxado correu solto

noite adentro,

pela garganta da madrugada,

pelos quintos da escuridão

até ser vencido pelo cansaço

ou por uma sandália partida

ou um amor arregaçado

numa rede embalançada.

E que cheiro bom, seu moço

chita de menina moça,

encantada e encantadiça

como Maria Bonita.

Mas teve tempo ruim tamém

onde chegou nos rincões da Bahia.

Vinha com três coisas na algibeira:

fome, nudez e dinheiro!

A ele juntou-se a tristeza

e um vaqueiro todo encourado.

Mas eu paro por aqui

no convite ao poeta Jaruga

para comigo tomar um vinho do sertão

produzido no São Francisco,

ali no Paralelo 8,

pertinho de onde o cangaço

nasceu e morreu.

E vamos sem balas, cavalos ou esporas

palrear meio de lado, lua adentro

ou somente beber calados

como dois velhos cangaceiros

sem mais lembranças que o olhar distante

para o interior do Brasil

de Euclides, de Virgolino

e da Coluna Prestes.

Você vem, não vem?

Tenho um trem de palavras

para descarrilar

trilhas de cavalos a galopar

copos para encher

e esvaziar

esvaziar…

 

.

Curitiba, 25/Jun/2011.

Tonicato Miranda

TOQUE DO TEMPO – de lucrecia welter / toledo.pr

Deus, ó Deus,
Em qual berço balbuciei minhas manhãs?
Em qual prece reconheci Tua voz?
Em qual brinquedo guardei minha infância?
Em qual vestido deixei a adolescência?

Em qual beijo emocionei o amor?
Em qual paixão cedi ao desejo?
Em qual adeus conheci a saudade?
Em qual lençol fantasiei afãs e afagos?

Em qual sonho acalentei meus ideais?
Em qual poema consagrei meus versos?
Em qual magia dei à luz a graça de ser?
Em qual dor senti os meus filhos não só meus?

Em qual fé, ó Deus, vi a sabedoria de meus pais?
Em qual sorriso se desfez minha juventude?
Em qual alento aninhei meu colo aos netos?
Em qual retrato me congelaram o ser bela?

Em qual passo se calou a minha dança?
Em qual olhar perdi a ânsia da vida?
Em qual poente repousará minha lide?
Em qual estrela permanecerá minha luz?

Em qual, ó Deus?

A história viva dos anos da ditadura – por urariano mota / brasil

O livro 68 a geração que queria mudar o mundo é um calhamaço de 690 páginas que, em vez de assustar pelo peso e volume, deixa em toda a gente um fascínio. Explico, ou tento explicar.  De agora em diante, ele será um volume de consulta obrigatória, para que não se cometam mais tantos atentados à história e à verossimilhança em telenovelas, peças e filmes no Brasil, quando o assunto for ditadura.  

Organizado por Eliete Ferrer, publicado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, no livro participam 100 autores em 170 relatos. Em mensagem coletiva no grupo da internet “os amigos de 68”, Eliete informa que nele se encontram “histórias reais ocorridas desde 1964 até a abertura política – nas reuniões, na militância, nas manifestações, nas discussões, na prisão, nas ações armadas ou não, nos treinamentos, na clandestinidade, no Brasil ou no exterior, no exílio. O diferencial do nosso livro caracteriza-se pela revelação do lado humano e afetivo daqueles que não aceitaram a prepotência do Golpe de 64, concebido e engendrado nos Estados Unidos”.

De fato, se em alguns relatos individuais as angústias e o heroísmo de militantes socialistas nem sempre se acham realçados, na maioria dos textos e no seu quadro geral se depreende uma história rica da vida de jovens, de homens e mulheres na última ditadura, que, setores à direita queiram ou não, está na agenda do mundo político do Brasil. O livro vem numa luta que exige resposta da civilização brasileira aos assassinatos até hoje encobertos. Mais precisamente, na batalha incansável dos familiares dos mortos que continuam a busca dos  corpos dos filhos, pais e irmãos. “68 a geração que queria mudar o mundo” é parte ativa  da consciência do  país que deseja uma punição exemplar para crimes contra a humanidade, que são imprescritíveis por todas as convenções internacionais do Direito.

Divulgação

O melhor e mais agradável em 68 a geração que queria mudar o mundo é que ele não é um volume de teses. Em seu conjunto lêem-se relatos plenos de frescor, isso quer dizer, de sangue vivo,  da hora, recuperado com o frescor da memória.  É um livro necessário, porque nele estão as chamadas fontes primárias, as pessoas fora dos arquivos, contando o que viveram, penaram ou mesmo imaginaram nos anos do terror da ditadura brasileira. Delas vêm os documentos primários da luta dos malditos anos. É um livro urgente, para ser lido e divulgado.

Nele hão de se debruçar historiadores, roteiristas, cineastas, teatrólogos e jovens de todo o gênero e escolas para que compreendam o mundo que ainda lhes é desconhecido, de pessoas iguais a eles, que viveram, morreram ou escaparam por um triz,  em situação-limite. São relatos da vida clandestina, de acontecimentos inimagináveis de “expropriações revolucionárias”, ou como a repressão as chamava, de assaltos a bancos por terroristas. Histórias de treinamento de guerrilha no Brasil, um documento vivo e inédito,  e de amor, do amor que sobrevivia entre as porradas e tensões.

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O curioso, para muitos, é que nele há também lugar para o humor, pois que os tempos eram duríssimos, mas os homens além do terror e crimes sofridos, também possuíam ou procuravam motivos para rir. Como neste caso, digno de Stanislaw Ponte Preta, o grande humorista que desmontou o ridículo da ditadura brasileira. Copio trecho do depoimento de Emílio Myra e Lopez:

“Um colega seu de ofício (do advogado Lino Ventura) defendia uma mulher e durante o seu processo ocorre o fato, verídico e registrado em seus autos. O advogado de sua defesa inquire o sargento, sua testemunha de acusação.

– Senhor sargento, por que o senhor acusa minha cliente de ser subversiva?

– Pelo material apreendido em sua casa – responde.

– Mas, especificamente, que material?

– Umas cartas…

O advogado prossegue.

– Sargento, seriam estas castas, às quais se refere?

– Sim, senhor, são estas cartas.

– Mas sargento, estas cartas estão escritas em idioma francês, o senhor tem conhecimento do idioma francês?

– Não senhor – responde o sargento para espanto e risos no plenário.

Insiste o advogado.

– Senhor sargento, se o senhor não conhece o idioma francês, como pode, por estas cartas, acusar minha cliente de ser subversiva?

– Mas é claro – prossegue convicto o sargento – eu li nas entrelinhas”.

o.mundi