Canto Lampião a um Jaruga – de tonicato miranda / curitiba

 

para o poeta Rodolfo Jaruga

Desde as Baixas do Jacaré,

na caatinga mais desaquartelada

tomando emprestado a Virgolino Ferreira

e também a David Jurubeba

vou na narrativa emendando tudo

causos e estórias,

palavras desenredadas

alguma delas toma, beba e béba

ao estilo Rodolfiano Jaruguense,

porque esta não vai de memória

é uma história roubada da história

é contação de causo no suspense.

E me perdoe Anildomá de Souza,

também outros autores renomados

sobre a história do ex-almocreve

tornado cabra macho sem criados

um que terminou sua criação

nos muitos pós do chão do sertão

logo após

o assassinato vil

do pai.

Ai!

Quanto sangue!

Cortaram o pobre homem

na faca afiada com buril

e a sua morte redundou

um nada de tempo depois

na morte desgostosa da mãe.

E assim Virgolino

foi levado a juramentos

promessas de vinganças

até formar a grei lampiônica

trocando o cabo da enxada

pelo cabo da parabelum.

E logo passou a matraquear balas

como um sendero mortífero,

vagalume de não parar os dedos,

apenas apagado na traição de um

su-bor-di-nado,

cabra danado, endemoniado,

encantado com os mexericos nos Angicos

onde macacos vieram às dúzias

e tum-tum- tum

vieram terminar tudo, apaziguar

o que jamais será apaziguado.

E deixaram duvidas

Mas quais são elas?

… é preciso contar toda a história

Cegado por um garrancho de jurema

Lampião acendeu todo o centro do Nordeste.

Desafiou o Governador de Pernambuco,

ele que governasse

de uma banda do Estado para lá,

até as terras chegar no mar.

Ele governaria do sertão para cá.

Afinal era ou não capitão?

Padinho Cícero lhe nomeou,

ganhou insígnia, vestiu farda

mas a honraria sempre foi tarda

não lhe deram respeito como capitão.

Comandante Virgolino.

Senhor das hostes do cangaço

homem de balas entrelaçadas no peito

e facas de 40 cm nos quartos.

Teve tempo em que fugiu sim

lá para o oco do mundo

perdido nos cafundó do Ceará

nas caatingas mais desenfreadas

lá onde xique-xique, mandacaru

e muito cipó bravo era o tudo

onde havia abundância e criança

mas a água era pouca.

Também poucas eram as riquezas

para tê-las não bastavam estrelas

no chapéu de través em meia lua

sempre na cabeça pendurado,

tinha de assaltar

tomar dos coronéis fazendeiros

distribuir com os pobres

e com os comparsas

após luta encarniçada.

Depois era a danada da cachaça

xaxado varando a madrugada

e a poeira tapando.

Depois eram os muitos goles

e a maldita de não parar a bica

nem o amor das moças

vestidas de chita.

Teve tempo de fartura

onde o xaxado correu solto

noite adentro,

pela garganta da madrugada,

pelos quintos da escuridão

até ser vencido pelo cansaço

ou por uma sandália partida

ou um amor arregaçado

numa rede embalançada.

E que cheiro bom, seu moço

chita de menina moça,

encantada e encantadiça

como Maria Bonita.

Mas teve tempo ruim tamém

onde chegou nos rincões da Bahia.

Vinha com três coisas na algibeira:

fome, nudez e dinheiro!

A ele juntou-se a tristeza

e um vaqueiro todo encourado.

Mas eu paro por aqui

no convite ao poeta Jaruga

para comigo tomar um vinho do sertão

produzido no São Francisco,

ali no Paralelo 8,

pertinho de onde o cangaço

nasceu e morreu.

E vamos sem balas, cavalos ou esporas

palrear meio de lado, lua adentro

ou somente beber calados

como dois velhos cangaceiros

sem mais lembranças que o olhar distante

para o interior do Brasil

de Euclides, de Virgolino

e da Coluna Prestes.

Você vem, não vem?

Tenho um trem de palavras

para descarrilar

trilhas de cavalos a galopar

copos para encher

e esvaziar

esvaziar…

 

.

Curitiba, 25/Jun/2011.

Tonicato Miranda

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