Arquivos Diários: 20 agosto, 2011

O ÚLTIMO TANGO EM PARIS (contém spoilers) – por monica benavides / curitiba

Para mim, é engraçado ver como qualquer filme que sugira ou cite sexo, recebe um carimbo e passa a ser conhecido e reduzido a um clichê pornô. Não existe praga maior para qualquer roteiro, do que uma crítica (maldosa ou bem intencionada, não importa), de que o filme é “erótico”.

 

Automaticamente todas as intenções do roteirista, do diretor e dos atores, sejam elas quais forem, são transformadas em uma fumaça mal cheirosa que tende a disfarçar uma perversão inata dos seres humanos reunidos em sociedades ditas civilizadas, e pautadas pelo velho e bom moralismo cristão.

 

Tudo o que coloquei acima serviu de referência quando escrevi sobre esse, que para mim, não é um filme erótico, não é um filme pornô e muito menos é um filme feito para provocar a discussão sobre a moralidade social.

 

Last Tango in Paris, é um aprofundado estudo psicanalítico da sociedade francesa e uma metáfora para a transição da Europa para o  American Way of Life (prestem atenção na cena dos dois namorados franceses, escolhendo o vestido de noiva e discutindo sobre casamento pop… fantástica). Uma situação irreversível, que tomou de assalto esse continente vovô, assim que a última bala aliada foi deflagrada nos anos 40.

 

A relação doentia entre Marlon Brando (um americano expatriado, cinquentão, charmosíssimo e misterioso) e a doce e jovem Maria Schneider, com seu chapéu com peônias e sua capa escondendo um vestido curto, inverte o teor do conflito de gerações que dominava o mundo na década de seu lançamento (1972).

 

Em Last Tango in Paris, vemos Bertolucci em sua melhor forma, com um roteiro vigoroso, uma fotografia de ensaio e uma discussão séria sobre “o ser existencialista”, em uma época onde todos se sentiam culpados pela dor do outro (Guerra do Vietnã, Paz e Amor, Fidel Castro, Apartheid…enfim, a década da culpa).

 

Esse existencialismo descabido permeia todo o filme. Torna-se explícito quando Brando conversa com o amante de sua mulher que acaba de suicidar-se. Ao fundo, na parede, está uma foto de Camus e um pôster de Henry Moore. Schneider, em outra cena, ao conversar com sua mãe, conta sobre o tempo em que seu pai militar, já morto, morou na Argélia.

 

E assim vai; aos poucos. Descortinando o roteiro, e levando o sentimento de existência até o ápice, quando no diálogo dos dois, após a cena da manteiga, que na verdade foi colocada apenas como uma forma figurada de mostrar a Europa enquanto território conquistado, mas que rendeu ao filme sua fama, (Para usufruir da arte, a visão literal sempre será patética e te tornará medíocre, essa é uma lição importante) Brando diz para ela: “Garota, você está só, todos estão sós… as pessoas vão ser sós até o dia de sua morte, você descobrirá isso um dia… “. Nem Sartre teria explicado melhor.

 

O filme é romântico. Ok! Ninguém nunca concordou comigo, mas é, (como tudo que Bertolucci já fez. Para mim ele é o Rachmaninov do cinema). O filme é psicanalítico, na forma como ela mata Brando na sala do apartamento de sua mãe com a arma do pai dominador e diz: Quem era ele? Eu não sei? A cena chega a ser óbvia. E mais importante do que isso, o filme é extremamente perturbador e corajoso. Não pelas cenas de sexo, que na verdade para uma geração como a minha que convive com a tal mulher melancia e as novelas da Globo chegam a ser pudicas, mas pelo roteiro duro, pelo tema doloroso e pela narração crua.

 

Eu recomendo o filme, e recomendo que quem assisti-lo e após uma semana, só conseguir lembrar das cenas de sexo, procure urgentemente um psicanalista.

 

Realmente o filme mexe com o inconsciente de homens e mulheres, afinal todas as meninas já fantasiaram o amor por um homem mais velho, todas as mulheres já tiveram em algum momento uma vertigem de fuga e todo homem já se abasteceu  de prazer e encontrou o torpor para o sofrimento, na companhia da juventude de alguém.

 

Se não existe sinceridade na sociedade para aceitar isso como uma verdade, é outra história, e Bertolucci não quis contá-la aqui, disso eu tenho certeza.

 

 

PERIQUITO SEM ASAS – de julio saraiva / são paulo

na contramão dos meus olhos
caminha uma mulher estupidamente bela
que jurou matar-me um dia
e disso não duvido  –  nunca duvidei
por isso evito sonhar quando ela está por perto

em sonho também se mata
em sonho também se morre
dependendo do azul do sonho
prefiro o horror do pesadelo