Arquivos Diários: 29 agosto, 2011

Carta às esquerdas – por boa ventura de souza santos / portugal

Livre das esquerdas, o capitalismo voltou a mostrar a sua vocação anti-social. Voltou a ser urgente reconstruir as esquerdas para evitar a barbárie. Como recomeçar? Pela aceitação de algumas ideias. A defesa da democracia de alta intensidade é a grande bandeira das esquerdas.

 

Não ponho em causa que haja um futuro para as esquerdas mas o seu futuro não vai ser uma continuação linear do seu passado. Definir o que têm em comum equivale a responder à pergunta: o que é a esquerda? A esquerda é um conjunto de posições políticas que partilham o ideal de que os humanos têm todos o mesmo valor, e são o valor mais alto. Esse ideal é posto em causa sempre que há relações sociais de poder desigual, isto é, de dominação. Neste caso, alguns indivíduos ou grupos satisfazem algumas das suas necessidades, transformando outros indivíduos ou grupos em meios para os seus fins. O capitalismo não é a única fonte de dominação mas é uma fonte importante.

Os diferentes entendimentos deste ideal levaram a diferentes clivagens. As principais resultaram de respostas opostas às seguintes perguntas. Poderá o capitalismo ser reformado de modo a melhorar a sorte dos dominados, ou tal só é possível para além do capitalismo? A luta social deve ser conduzida por uma classe (a classe operária) ou por diferentes classes ou grupos sociais? Deve ser conduzida dentro das instituições democráticas ou fora delas? O Estado é, ele próprio, uma relação de dominação, ou pode ser mobilizado para combater as relações de dominação?

As respostas opostas as estas perguntas estiveram na origem de violentas
clivagens. Em nome da esquerda cometeram-se atrocidades contra a esquerda; mas, no seu conjunto, as esquerdas dominaram o século XX (apesar do nazismo, do fascismo e do colonialismo) e o mundo tornou-se mais livre e mais igual graças a elas. Este curto século de todas as esquerdas terminou com a queda do Muro de Berlim. Os últimos trinta anos foram, por um lado, uma gestão de ruínas e de inércias e, por outro, a emergência de novas lutas contra a dominação, com outros atores e linguagens que as esquerdas não puderam entender.

Entretanto, livre das esquerdas, o capitalismo voltou a mostrar a sua vocação anti-social. Voltou a ser urgente reconstruir as esquerdas para evitar a barbárie. Como recomeçar? Pela aceitação das seguintes ideias.

Primeiro, o mundo diversificou-se e a diversidade instalou-se no interior de cada país. A compreensão do mundo é muito mais ampla que a compreensão ocidental do mundo; não há internacionalismo sem interculturalismo.

Segundo, o capitalismo concebe a democracia como um instrumento de acumulação; se for preciso, ele a reduz à irrelevância e, se encontrar outro instrumento mais eficiente, dispensa-a (o caso da China). A defesa da democracia de alta intensidade é a grande bandeira das esquerdas.

Terceiro, o capitalismo é amoral e não entende o conceito de dignidade
humana; a defesa desta é uma luta contra o capitalismo e nunca com o capitalismo (no capitalismo, mesmo as esmolas só existem como relações públicas).

Quarto, a experiência do mundo mostra que há imensas realidades não capitalistas, guiadas pela reciprocidade e pelo cooperativismo, à espera de serem valorizadas como o futuro dentro do presente.

Quinto, o século passado revelou que a relação dos humanos com a natureza é uma relação de dominação contra a qual há que lutar; o crescimento económico não é infinito.

Sexto, a propriedade privada só é um bem social se for uma entre várias
formas de propriedade e se todas forem protegidas; há bens comuns
da humanidade (como a água e o ar).

Sétimo, o curto século das esquerdas foi suficiente para criar um espírito igualitário entre os humanos que sobressai em todos os inquéritos; este é um patrimônio das esquerdas que estas têm vindo a dilapidar.

Oitavo, o capitalismo precisa de outras formas de dominação para florescer,
do racismo ao sexismo e à guerra e todas devem ser combatidas.

Nono, o Estado é um animal estranho, meio anjo meio monstro, mas, sem ele, muitos outros monstros andariam à solta, insaciáveis à cata de anjos indefesos. Melhor Estado, sempre; menos Estado, nunca.

Com estas ideias, vão continuar a ser várias as esquerdas, mas já não é provável que se matem umas às outras e é possível que se unam para travar a barbárie que se aproxima.

 

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

MOMENTOS – por olsen jr. / ilha de santa catarina



(Para Luiz e Neiva do Restaurante “Barba Negra”).

    Muitas vezes o melhor que podemos fazer é deixar-nos levar pelos acontecimentos, sem opor-lhes resistência. Na verdade, creio, nunca temos plena consciência do fato. É uma espécie de movimento pela inércia. Semelhante àqueles passageiros que estão em um ônibus, o veículo anda a sessenta quilômetros por hora e de repente freia, as pessoas que estão no seu interior mantém a velocidade e por isso são projetadas para frente. Quem está em pé sofre mais.

Naquele dia, lembro, tínhamos passado uma tarde fagueira (lembra o poeta) no interior da Ilha. Um churrasquinho, muitas risadas e aquela sensação agradável de estar entre amigos e não se confunda alegria com felicidade (porque a felicidade é outra coisa) ao menos compartilhávamos de uma paz coletiva que possibilitava (agora sim) a alegria pelo estar ali dispondo da vida como queríamos.

Dispersivo durante horas, à noite ficou difícil de retomar um trabalho de reflexão mais intimista. Decido visitar um cantinho de balcão na Av. das Rendeiras, aonde sempre vou nestes casos e o “santo costuma baixar”… Quando chego, percebo logo o ambiente carregado, mas ninguém me diz nada. O ar estava pesado. Tento dialogar com o proprietário, o amigo Luiz Monteiro com o qual converso quando vou lá, mas ele parece estar com os pensamentos em outro lugar… Penso logo, o que vim fazer aqui? Os garçons fazem o trabalho rotineiro em silêncio… Nem a vitória do Internacional na Recopa parece motivar um deles, torcedor colorado, pressinto um acordo coletivo de consternação e que só interessa para aqueles que já estavam no local quando cheguei… Peço uma cerveja e tento organizar as minhas ideias… Finjo interesse por um jogo de futebol, não sei dissimular, e tudo aquilo vai me deixando desconfortável… Logo, o Luiz e Neiva, sua mulher, jantam em uma das mesas dos fundos, afastados de todos… Dali a pouco vai começar aquele campeonato de lutas e que, naturalmente não tem nada a ver com o poeta que sou… Tenho de ir embora, digo para mim mesmo… Nesse meio tempo já bebi três cervejas e o “santo não baixou”… Quando estava saindo é que soube da morte da mãe do meu amigo, tinha acontecido na véspera… Então tudo se explicava… Não há o que se fazer com a morte, penso… Estar preparado para “ela”, pura retórica porque “ela” sempre surpreende… De repente, antes de sair, retorno até a mesa dos fundos, preciso dizer que entendo sua tristeza… Na tela da tv aquela profusão de socos e murros e uma energia consentida, o Luiz parece interessado, mas é uma maneira de estar ausente, só… Procuro as palavras, mas elas não vêm, em pensamentos tento dizer que já passei por isso e finalmente, quando me aproximo, apenas estendo-lhe a mão e digo: solidário!