DOIS VELHOS – por jorge lescano / são paulo

 

O ancião maltrajado, aparentemente ébrio e surdo, a julgar pelo modo de inclinar a cabeça, deixou um pacote de supermercado sobre o banco e sentou-se à minha frente, sem me olhar. Lembrei-me dele de cócoras no umbral do açougue, lia uma folha amassada do Butantã Zeitung. Parece estrangeiro, talvez por ter os olhos claros. Encontramo-nos às vezes, ao eu andar por este lado do bairro. Suspeito que não tem moradia fixa.

Ficou alguns instantes quieto, os olhos no espaço. Depois retirou do bolso a página de jornal dobrada várias vezes e um maço de cigarros quase vazio. Notei que era da mesma marca que eu fumo, embora não fosse impossível que as marcas do maço e dos cigarros não coincidissem.

Os dedos grossos não conseguiam separar as paredes de papel. Enquanto o indicador da mão direita escarvava a abertura, a mão esquerda apalpava o maço querendo adivinhar-lhe o conteúdo. Um ou dois cigarros, não mais, concluí.

Olhávamos para frente, indecisos.

Deixei que alguns cigarros lhe caÍssem na mão espalmada. Colocou-os no seu maço e guardou o pequeno volume no bolso interno do paletó.

          Por que oferecer cigarros? Porque avaliava a situação sem pedir auxílio?

Deveria ter agradecido/? Deveria ter agradecido/?Porque lia momentos antes?

                Um leitor sempre interessa, especialmente aquele para o qual a rotina parece ser a ausência do mundo. Talvez seja assim, no entanto (seu gesto de virar a página também faz parte de nossa leitura), o mecanismo (hábito?) de ler permanece. Porque se identificou com o outro num futuro não longínquo?  Oferecer cigarros apenas para ter sobre o quê escrever (?)  Não é improvável que este rascunho já estivesse no horizonte do gesto. Ou porque são iguais na leitura?

 

Ele acendeu o cigarro que permanecera oculto na mão esquerda. Depois de alguns segundos concentrado em fumar, perguntou se era quarta-feira. Confirmeiem silêncio. Assombras já apagavam nossos contornos e eu mal percebia seu rosto através da fumaça. Sentia-se obrigado a conversar ou queria se comunicar com alguém?

Não esperei para saber, peguei meu jornal e o pacote com meu jantar – pão e margarina às quintas-feiras – e fui embora; minha solidariedade não inclui o diálogo. Prefiro ler  nos fins de tarde.    

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