O músico GUEGO FAVETTI entrevistado pelo poeta JAIRO PEREIRA: / quedas do iguaçu.pr

PINHA, PINHÃO DO PARANÁ

Compositor, cantor e instrumentista, formado pela Faculdade de Artes do Paraná -FAP

Licenciatura Plena em Música -1985, e atua como músico há mais de 30 anos.Iniciou sua carreira em 1976 em Curitiba apresentando-se no Teatro da Reitoria da Universidade Federal do Paraná.Participou do programa – Som Brasil de Rolando Boldrin em 1982 com Nice Luz.Fez parte do Grupo D´América de Música Latino americana de 1982 a 1986, apresentando-se em festivais importantes.

Fez show no Teatro Paiol de Curitiba em Abril de 2007 com o Trio Desidério Favetti, e também apresentou-se no Programa Sr. Brasil, de Rolando Boldrin na TV Cultura   de São Paulo, neste mesmo mês e ano.Show de lançamento do CD “Branco” no Teatro da Caixa em Novembro de 2007.Show-Guego Favetti convida Carlinhos Vergueiro, no Teatro Paiol em Agosto de 2008.Show com Nice Luz – Terça Brasileira no Teatro Paiol em Junho de 2009.  

CDs:   Noites Curitibanas – 1998 

Ensaio – 2001 – Experimental Bossa Nova e outros.

Sertão em Vozes – 2003 – Experimental de Clássicos Caipiras.

“Arretirança” – 2005, com o Trio D Favetti 

“Branco” – 2007 de sua autoria e outros autores locais.

1.       Pra começarmos… Como a música aconteceu em sua vida?

A música sempre me perseguiu e sempre esteve presente na minha vida através da família.Me perseguiu porque até a minha dolescência era algo um pouco distante das minhas coisas pessoais, apesar de ser muito presente, como já disse, na família.O meu Nono(avô) Pedro Favetti era maestro da igreja que frequentava nos anos 40, no Rio Grande do Sul e minha mãe Vitorina Bíscaro,  cantava afinadinho também.O meu pai Desidério, continuou o canto na família, que foi seguido pelos meus irmãos mais velhos, que cantavam lindamente e ainda cantam até hoje.A música sempre foi algo natural na minha casa.Lembro que quando criança, ainda no Rio Grande do Sul, nos anos cinquenta, ouvi Marina de Dorival Caymmi.

E disso posso dizer que sempre se ouviu de tudo, sem restrição.A seleção do que era bom também era natural.Daí saíram os grandes clássicos que perduram até hoje.As pessoas em geral e nós que sabíamos cantar, naturalmente mantínhamos canções sempre lembradas e tocadas nas rádios e propagadas ao longo do tempo.Então a música como canção ficou enraizada na gente.Após a adolescência, portanto, mesmo trabalhando em empresa familiar de vários ramos, é que fui me envolvendo mais com a música popular em geral.

Ouvi muito Nat King Cole, Louis Armstrong, Al Hirt, Bert Kaempfert, a música mexicana que influenciou enormemente a música da América Latina nos anos 50 e 60.Depois a música italiana, que dominava o cenário romântico dos anos sessenta e enfim a nossa música que é a tal de MPB, o samba que virou uma paixão, mas também a Bossa Nova, João Gilberto no começo dos anos 70, Chico e cia.Aí não parou mais o envolvimento, até que resolvi assumir essa paixão, que se me cobra uma realidade incansável e inconstante, também me dá muita alegria, prazer e amizades verdadeiras e algum dinheiro.

2.       O Guego Favetti é do samba, da modinha sertaneja, da MPB Cult… O que mais lhe atrai musicalmente?

Essa é uma questão interessante, não porque eu tenho as minhas “tempestades cerebrais”, como diz o Caetano Veloso, ou como diz James Joyce (escritor irlandês) sobre “o fluxo da consciência”, que é dado a todos nós pensar o tempo todo, quando acordados.E quando dormimos sonhamos explicações detonamos desejos do nosso eu profundo, como diz Freud.Quero dizer com isso, que não consigo separar as manifestações artísticas especialmente da canção(que compreende letra e música), então como que num tormento saboroso, me inspiro, me emociono, choro, grito, esperneio, se ouço ou canto por exemplo “Sobre todas as coisas”, do Edu Lobo e Chico Buarque(ouçam e verão), quando o Chico fala de que se Deus existe(?), é porque nos fez para o prazer e para a alegria também e que devemos e podemos “desfrutar dos vales onde jorra o leite e o mel”… .

Depois em seguida ouço Tonico e Tinoco sem medo, ouço Negros Mestizos y Blancos, do uruguaio Daniel Viglietti e mais depois volto a João Gilberto, me enleioem Noel Guaranie Noel Rosa com a mesma paixão, buscando compreender o lirismo a ironia, a crítica.Essa foi a minha formação musical e intelectual, sem preconceito, sem medo, sem exasperação, mas com muita beleza.E tendo vivido muitas experiências musicais como ouvinte e como produtor de cultura, estou sempre antenado nos movimentos subjacentes que acontecem na periferia da mídia e da vida cotidiana das pessoas.Existe uma inquietação a partir dessa linha de raciocínio, de que a canção tal como se conhece – letra e música, harmonia, melodia, está com os dias contados! É uma longa discussão.

Eu como um apaixonado pela harmonia, sinto um pouco que tudo se repete, tudo se requenta e compositores maravilhosos hoje amparam-se no “minimalismo harmônico”, ou a volta de dois, tres acordes que resultam em belas canções.Ou seja um cansaço e esgotamento de tudo o que se fez e faz.Claro que a coisa continuará por muito tempo, mas a ascensão do RAP(Rithm And Poetry – Ritmo e Poesia), por exemplo, se dá um pouco por isso.É a fala e as palavras que se sobressaem, não mais a melodia e a harmonia.Me fascina aliás, como as comunidades periféricas se levantaram e se levantam através do Hip Hop, um movimento que pretende aglutinar as forças, que não aceitam mais ficar à margem do processo civilizatório.Esse tipo de movimento me emociona, me encanta e tenho esperança que seja reconhecido.Hip Hop é estrangeiro?Sim, mas somos todos estrangeiros e bem brasileiros, não é mesmo.Sobre o que me atrai musicalmente, diria que é a harmonia da canções populares, as vezes simples, as vezes complexas.

Me atrai algo que aprendi em casa e de tão natural se torna uma “doença”, no bom sentido, que é sempre fazer uma outra voz além da voz que sola e faz a melodia.Me dá um prazer enorme e me deixa extremamente feliz, porque externa beleza e lirismo.É assim que acontece quando canto com meus irmãos Titi e Tita no Trio D Favetti e também quando cantamos em família ou com amigos.É uma terapia maravilhosa.Mas devo dizer que me fascina também a música erudita contemporânea(aquela que organiza em sinais e notas tradicionais, os sons de tudo, desde a natureza até o som de uma panela).Despertei para isso quando fazia faculdade de música nos anos 80, e sempre compreendi essa linguagem, também sem medo e sem pudor.Conheço obras belíssimas de Shoenberg, Berg, Boulez, Henry, o nosso Almeida Prado, Arrigo Barnabé, a música experimental contemporânea e das cores de Jorge Antunes e tantos mais, maravilhosos.

apresentação do TRIO FAVETTI em Florianópolis. foto de Rudi Bodanese.

3. Sua música de autoria, traz parceiros poetas (Reinoldo Atem e outros), além do próprio TRIO D FAVETTI? MPB e poesia são indissociáveis?

Pois é, é uma inquietação a autoria de canções.A gente faz por prazer e paixão e se espalha por aí.A amizade e parceria com Reinoldo Atem me foi muito prazeirosa e fascinante, pois ele também é uma pessoa inquieta com a cultura e as palavras.Fizemos também músicas em família e com o próprio Trio.Sobre a MPB, acredito que sua grandeza se deve a exuberância da nossa mistura de raças e ritmos.A poesia se mostrou vigorosa através das letras das músicas, quase que se bastando poeticamente mesmo como letra, porque levou às derradeiras consequências da manifestação bem brasileira e com muita novidade, nas criações de Chico Buarque, Paulo Cesar Pinheiro e Vinícius de Moraes, Aldir Blanc, Noel Rosa, Cartola e Dorival Caymmi, prá citar apenas alguns dos tantos e tantos craques das palavras para a canção popular.A poesia existe e vai muito bem sozinha.Mas quando usa o veículo brutal ( no bom sentido) da música, se transforma numa força e numa ameaça até, porém na verdade chega aos mais longínquos rincões do mundo, espraiando-se com uma força extraordinária, às vezes para o bem às vezes para o mal.

4.      Qual o problema de um possível mercado à música que se faz no Paraná?
Honestamente é a criatividade.Sei da quantidade enorme de obras criadas por paranaenses e tem muita, mas muita coisa boa.Nas várias linguagens musicais, mais acentuadamente no rock e na música popular moderna e contemporânea.Mas não nos iludamos, pois a avalanche do que é produzido nos mesmo lugares de sempre, São Paulo, Rio, Bahia, Minas, Rio Grande do Sul, Nordeste e até Centro-Oeste, têm um vigor e uma expressão estabelecida e consagrada.Nós, e nesse nós me incluo, estamos construindo uma obra, uma história.Tenho plena consciência disso.Não adianta esbravejar e iludir ninguém.Precisamos produzir mais e melhor.

Agora, se os paranaenses mesmos não reconhecem o que se faz aqui, com extremo bom gosto e qualidade, como fazem meus conterrâneos gaúchos, por exemplo, não mudará tão cedo.Nós mesmos precisamos sempre bater na tecla e difundir nossos compositores e poetas.Eu faço isso sempre.Às vezes até esqueço de mim, o que é um erro, mas procuro apostar na qualidade de quem está ouvindo, prá valer a pena, e canto coisas minhas, de Ronald Magalhães, Sidail César,Cláudio Menandro, Marcelo Sandmann e Benito Rodriguez, Etel Frota, Reinoldo Atem, Iso Fischer, Rosi Greca, Daniel Faria e outros.Mas temos que acreditar mais em nós mesmos e soltar o verbo e as notas.

5.       A experiência da noite… dos bares da vida, valeu muito na sua carreira? Fale nos sobre isso.
Valeu e vale.Adoro boteco, bar, Restaurante.É aquela balbúrdia, o fim do mundo para o músico, mas sempre alguém se interessa, pergunta, participa.E vale a pena.Estou um pouco afastado esse ano, porque fizemos muitos shows em teatros no norte do Paraná e aqui no Sesc da Esquina e também eventos.Mas a noite ensina muito.Pode derrubar a gente, se não tivermos atenção.É fascinante demais.Mas tenho alguma prática e me seguro no braço do violão.

6.     O amálgama de uma arte que nos identifique como paranaense é possível, a seu ver?
Esse amálgama está sendo construido, como falei.Parece uma eternidade o tempo que demora e que se possa perceber alguma estrutura e formato mais perceptíveis, daquilo que é feito para construir a identidade especificamente da música popular paranaense.As novas gerações têm avançado bastante e organizado movimentos bem densos e importantes.Único problema é que essas novas gerações, não ariscam nada ou quase nada e dependem quase que exclusivamente do poder público para se manter, com projetos e recursos públicos, sem passar pelo caminho que eu passei, muitos bons músicos passaram, como passaram tantos músicos consagrados da Música Popular Brasileira.Como diz a cantora baiana Rosa Passos, não se chega entendendo muito bem no final do alfabeto, sem tropeçar no ABC.É um pouco o que aconteceu com muito músico paranaense, que se escorou nos orgãos públicos para fazer sua carreira.Condeno isso!O Hermeto e outros sabem bem disso…?!
Quanto às outras artes, Curitiba e o Paraná vão muito bem, há muito tempo.E o amálgama é um pouco ensaduichado entre o extremo sul e o restante do Brasil.Mas tem muita coisa interessante acontecendo no cinema, na poesia.

7.       Você viveu um tempo no exterior… Como é, ver a música brasileira de fora do país, vivendo enfim, numa outra realidade social, política…?
Pois é, em 1987 e 1991, morei por duas vezes um tempo curto de tres meses em Genebra, na Suíça, que foi difícil e maravilhoso ao mesmo tempo.Mas é uma cidade encantadora e pequena e tem uma simplicidade e grandeza no ar, que é bem perceptível.Na época adoravam a música brasileira.Mas o jazz ainda era mais requisitado.Os europeus em geral, conhecem bem a nossa música e percebi que definitivamente, é a nossa maior força e expressão cultural.O futebol foi e já não é mais, pois ninguém é mais ingênuo e o futebol mundial cresceu e se desenvolveu, portanto é tudo muito parecido e não existem mais surpresas.Na música ainda encanta os estrangeiros o samba e as escolas, Tom Zé, Hermeto, Toninho Horta, Tom Jobim, e assim mantemos cada vez mais abrindo canais e portas.A capoeira tem dado uma contribuição extraordinária para divulgar o Brasil.

Morei por dois anos nos Estados Unidos e senti um pouco mais alheio, o interesse pela nossa música.É que a América tem toda aquela efervecência musical.Muito Rap, muito Flach Back e o mesmo que acontece no Brasil, o ostracismo dos grandes músicos que acompanharam estrelas.Parece uma praga do capitalismo.Apesar de que em Cuba também, grandes artistas foram lembrados no final de suas vidas, num trabalho do cineasta alemão Wim Wenders e o guitarrista Ry Cooder no show Buena Vista Social Club, (“…um amigo considera um filme desonesto com os cubanos…”)o que não é uma maldição só por aquelas bandas, mas aqui o nosso Mestre Cartola, chegou a lavar carros nas ruas do Rio de Janeiro para sobreviver.Então é uma praga do show biz, da falta de respeito e consideração por quem fez e faz a história da música em qualquer lugar.

8.       Música popular brasileira e o fazer propriamente…  Existe um caminho, um ideal estético a que o artista persegue?

Temos as referências, que são as mais diversas e diferentes possíveis, na criação estabelecida pelos compositores de música popular.Se sobressai a graça, a malemolência, o tempero, a elegância, muita força e muito vigor rítmico.A invenção é o ponto alto, ao lado do improviso.A música popular brasileira, traduz muito do que somos como nação, como bons improvisadores da sobrevivência, dando o famoso”jeitinho” de resolver os problemas.Por isso sai tanta música boa, nos nossos dias nem tanto, pelo esgotamento que falei anteriormente, mas ainda no campo do samba, são criadas verdadeiras obras.A gente se espelha nisso, claro que carregando as nuances da nossa terra, do sul do Brasil.Amo o samba, como amo a Bossa Nova, que afinal é um tipo de smaba, mas amo muito a canção de raiz rural e sertaneja.E embevecido nessas fontes murmurantes, como diz Ary Barroso na famosa Aquarela do Brasil, a gente produz e procura refletir e traduzir o que se vê e se sente ao redor, nesse Brasil grande de tantas contradições e belezas.

9.    Fale nos um pouco do TRIO D FAVETTI que está fazendo um trabalho que orgulha a música no Paraná, e que também como alguns intelectuais do Estado, forja na praxis uma identidade paranaense.
Pois então, disso que falava na pergunta anterior, procuramos traduzir o mundo que vemos, ouvimos e sentimos à nossa volta.Com as vozes nos referenciamos num grupo como MPB4, também Os Cariocas, mas bastante marcados pelas vozes do Quinteto Farroupilha, que do Rio Grande do Sul, nos anos 50, 60 e 70, ecoava canções das mais diversas linguagens, desde a Bossa Nova, até clássicos estrangeiros e muito a música regional gaúcha, mostrando lirismo, poesia, e beleza aos ouvintes dessa época.
Desde criança ouvíamos o Quinteto Farroupilha e nos marcou, pois sempre, como já disse anteriormente, foi natural na minha família, fazer vozes e mais vozes, das mais diversas formas e sonoridades.Então nesse quinteto nós bebemos e fomos bebendo e assim estamos agora deixando uma marca única, na vida das pessoas que nos escutam, pois a timbragem e as cores vocais se entrelaçam e permeiam todas a possíveis linguagens da música popular, que conhecemos até hoje, desde o samba até a guarânia, o chamamé, à bossa nova e a música moderna de José Miguel Wisnik, Luiz Tatit, Itamar Assumpção e porque não de Tom Zé, misturado num caldo de composições bem paranaenses, criadas a partir dessa expressão, pressionada entre o norte e o sul brasileiro.Estamos fazendo.Deixaremos nossas marcas!

Anúncios

2 Respostas

  1. Prezado Jairo,
    Prezado Guego,

    Faz tempo não nos vemos. E agora encontro os dois aqui nesta entrevista-catarse, pulando na tela para purificar a alma paranaense, sulista e brasileira. Maravilha vê-los juntos, repontando palavras, ritmos e sons.

    Também desfilando nossos autores, músicos. Verdadeira viagem pelo tempo. Este sábado de luz se enche agora de palavras-cor trazidas por vocês, para brilhar junto a este Sol que vai espantando ao lado as massas frias. Brado eu daqui um Viva a música! E ainda um: Viva o músico brasileiro!

    Grande Abraço.
    TM

    1. Salve Tonicato!Obrigado pela lembrança.
      Grande abraço
      Guego Favetti

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: