Arquivos Diários: 5 setembro, 2011

MATÉRIA DA MEMÓRIA – por olsen jr. / ilha de santa catarina



   Cinco pessoas à mesa. Na minha frente uma mulher, no lado direito outra mulher e um homem e à esquerda outro homem. Três pizzas tinham sido pedidas, duas salgadas, com vários sabores de acordo com o gosto de cada um e uma terceira, doce. No momento estamos tomando um vinho, acompanhado de água como deve ser. O vinho é o “Escudo Rojo”, amadeirado, forte de buquê generoso do país vizinho, a argentina…

Foi aquela associação que me trouxe a lembrança nas fotografias de um álbum de parede fixadas embaixo da escada que levava ao segundo piso, uma em que apareço sentado num banco de tijolos em uma Praça em Buenos Aires. Cabelos longos, barba escura, uma bolsa de couro marrom à tiracolo contrastando com a camisa jeans e ao lado meu filho, com uma camisa xadrez, brinca com o relógio de pulso e olha desafiadoramente para o futuro naquele momento determinado pela lente da máquina fotográfica manipulada pela mãe dele…

Havia perguntado para ela, minutos antes, se ela se lembrava de quando a gente levava aquela menina ali no colo? “Sim, afirma, e também jogava xadrez” disse, apontando para a fotografia em que aparece junto a uma mesa e a nossa filha com três anos, compenetradíssima faz o gesto de mover uma peça tendo aos fundos uma cópia que fiz de um Cartão de Natal dos Beatles em tamanho gigante e que parece vai abraçar as duas naquela mesa onde estão…

Olho então para ela, a mãe deles, que se movimenta ali na frente, tendo na parede lateral, um pôster em que aparece com um blazer branco, foto de meio corpo, num grande momento de sua carreira na televisão e lembrando a atriz americana Lauren Bacall…

Depois penso já se passaram mais de 30 anos… A barba e o cabelo embranqueceram. Aquele garoto se transformou em um empresário e a menina uma intelectual… Ambos casados e com suas próprias teses sobre a existência, religião e o mundo… Demos o exemplo e eles não se distanciaram, talvez aqui e ali, mas sem prejuízos morais para eles e o grupo, a família estava reunida para mostrar isso…

Semelhante àqueles Clãs nórdicos de onde descendemos, os mais velhos, nós os pais, nutrimos uma satisfação interior (raramente demonstrada em público porque os vikings são econômicos em suas emoções) por todos terem seguido o seu próprio caminho… Assim, as reuniões são festivas, risonhas e repletas de afirmações que sugerem segurança e determinação…

Evito o termo “felicidade”, mas nada impede de estar alegre naquele momento quando uma gata persa que andava rondando a mesa desconfiada decide se aninhar no colo da dona da casa como a dizer, estou aqui e também faço parte da família!

 

A RIVAL – zuleika dos reis / são paulo


 

Criei-te rival

odor transpirando

na pele do homem

que chamei de meu

sem poder para arrancar-te

de nós.

 

Criei-te outra fêmea

para o prazer do homem

que me chamou de sua

sem poder para arrancar-te

de mim.

 

Em nós

uma grande brecha

para abrigar-te assim

imensa como és.

 

Mulher assim transbordante

deste imaginário

na cama do homem

que em noites incontáveis

invisíveis

no sêmen

de segundos

foi entranha em mim.

 

Talvez por tão bela

antiga como não fui

talvez pela fragrância

na pele

no rosto

dos versos

Cântico dos Cânticos

 

mulher, quero amar-te

não por ti

não mais que

pela suspeita

de também habitares

a saudade do homem

que em noites incalculáveis

no bater dos segundos

do tempo  que não existe

chamei de homem meu.

Revelações no crepúsculo / de tonicato miranda / curitiba


 

a tarde cai de mansinho

saiba caem folhas de mim

vou me desfolhando no jardim

sou as folhas presas no ancinho

 

confesso jamais estive em Teerã

estou nas tristes folhas do galho

voando vou até mais um orvalho

quando a noite pousar na manhã

 

preso estou nesta janela e na dela

a esperar telefonemas ao meio dia

pois me encontre lá na chuva fria

serei o dedo esfregando a remela

 

a tarde vai, nada há mais para ver

o Sol foi brilhar outro lado do fim

deixou brotos de tristezas em mim

sou sorvete demorando a derreter

 

a tarde vai, morrerei no escurecer

serei na noite prisioneiro da ferida

terei aqui apenas palavras e bebida

pode até a luz não mais aparecer

 

a tarde se foi, é imensa a tristeza

rezo, não rezo, rezo por ninguém

darei de graça meu último vintém

comprarei com milhões sua leveza

 

Tarde! Demore-se mais por aqui

queria parir este último poema

dizer a ela da caçada a seriema

após tê-la nas mãos deixei-a fugir

 

Tarde esta foi mais uma bobagem

precisava revelar o novo dilema

amo a vela, não é tolice de cinema

tola é a vida, mas bela a viagem

 

Ah tarde, agora pode ir embora

já disse tudo, chutei muitos baldes

disse coisas na sala, nos arrabaldes

no quarto do olhar e até porta afora

 

A queda dos juros – por paulo nogueira batista jr / paris

Escrevo de Paris, leitor, onde estou para reuniões do G-20 e do FMI. Essas reuniões costumam ser longas e penosas. A primeira durou dez horas! Já havia resolvido não escrever a coluna para este sábado.

Eis que fui surpreendido pela decisão do Banco Central de reduzir em 0,5 ponto percentual a taxa básica de juro. Bela surpresa. Ora, o economista que vos escreve passou anos e anos reclamando da política de juros do Banco Central. Nada mais justo, nada mais apropriado do que fazer um esforço especial para escrever hoje – mesmo depois de uma reunião de dez horas.

Pega no contrapé, a turma da bufunfa deve estar ventando fogo pelas narinas. Daqui de longe, fico imaginando investidores e economistas de banco dando os proverbiais arrancos triunfais de cachorro atropelado. Mas a decisão do Banco Central foi correta, e traz mais benefícios do que custos e riscos, no meu entender.

O Banco Central usou três argumentos para explicar a sua decisão: a) a marcada deterioração do cenário internacional; b) a desaceleração da economia brasileira; e c) a revisão do cenário para a política fiscal.

O principal argumento é o primeiro. Alguns críticos da decisão estão dizendo que o Banco Central exagerou na descrição do quadro externo. Parece bem claro, entretanto, que a piora do contexto mundial, principalmente nos EUA e na zona do euro, foi realmente abrupta; eu diria mesmo: dramática. Falei a esse respeito na coluna de sábado retrasado.

O meu local de trabalho, a diretoria do FMI, é um ponto de observação privilegiado. Posso lhe assegurar, leitor, que o clima no Fundo é de extrema preocupação, quase alarme. Teme-se que a economia dos principais países desenvolvidos possa sofrer uma crise semelhante àquela que ocorreu depois do colapso do banco Lehman Brothers em 2008.

O que não poderia acontecer de modo algum era o Banco Central repetir o seu comportamento daquela ocasião. Em 10 de setembro de 2008, a taxa básica de juro havia sido aumentada de 13% para 13,75% no Brasil. Menos de uma semana depois, no dia 15 de setembro, veio o colapso do Lehman, fato que desencadearia uma crise financeira em escala global com forte efeito recessivo na economia brasileira. Mesmo assim, numa inexplicável inércia, o Banco Central manteve a taxa em 13,75% nas reuniões de outubro e dezembro, reduzindo a taxa apenas em janeiro – só depois que o nível de atividade econômica despencou no Brasil!

Recorde-se que, naquela época, antes de sofrer o violento choque externo, a economia brasileira vinha crescendo rapidamente. Agora, ao contrário, ela se encontra em franca desaceleração. Mais uma razão para se antecipar aos fatos e começar a reduzir, desde logo, a estratosférica taxa de juro brasileira. Diga-se de passagem que, mesmo depois dessa redução, ela ainda é, e por larga margem, a mais alta do mundo em termos reais.

A chave é manter uma política fiscal ultradisciplinada, o que permitirá continuar diminuindo a taxa de juro gradualmente. Até agora os resultados das contas públicas são favoráveis: o superávit primário tem sido maior e o déficit nominal, menor do que em 2010. O governo acaba de aumentar a meta para o superávit primário em 2011, um movimento programado para dar cobertura à redução dos juros.

A queda da taxa de juro ajudará no equilíbrio das contas públicas ao reduzir o custo da dívida pública, inclusive o de carregar as reservas internacionais do país. Além disso, juros menores combinados com controles de capital e medidas macroprudenciais ajudarão a corrigir o grave problema da sobrevalorização cambial.

Abriu-se uma oportunidade para corrigir o mix de políticas monetária e fiscal no Brasil, um problema antigo que causa distorções importantes. Com a Fazenda e o Banco Central atuando de maneira coordenada, essa oportunidade pode ser aproveitada com grandes benefícios para o desenvolvimento do país, notadamente a superação do custoso binômio juro alto/câmbio sobrevalorizado que nos atormenta há décadas.