O ABDUZIDO: DESABAFO DE UM RECUSADO CLÁSSICO / por jairo pereira / ilha de santa catarina


E a literatura brasileira?! Muitos autores (inventores) detonados. Conheço uns quantos que viraram músicos, outros abandonaram o ofício e tão fazendo qualquer outra coisa. As megaeditoras estrangeiras estabelecidas no país, (e as autóctones) estão enquadrando, qualidade de obras, gosto de leitores e destino de autor… Uma piada é claro, verdadeiro crime de lesa-cultura. Não acredito que editoras e suas “meninas” diretoras de Conselhos Editoriais, tenham capacidade pra dizer o que é boa literatura ou não. É sempre o tal de: “embora sua obra apresente qualidades literárias, não se enquadra na nossa linha editorial” ou “devido a já estar comprometida a agenda de publicações para este ano, não podemos acolher o seu livro”. Um país (no plano cultural) se faz com obras. Obras no sentido de compostos elevados/enlevados do espíritho, linguagem sobre linguagem, sem concessões ao fácil entendimento, ao que agrada, ajuda ou tenha qualquer utilidade imediata, prática… Dá pra se dizer (só pra citar alguns escritores) que James Joyce, João Guimarães Rosa, Osman Lins, e tantos outros criadores/inventores, seriam recusados hoje, tal o nível de discernimento dos “avaliadores” de editoras. O que é publicado, (em literatura impressa, meios convencionais, livro-livro) não representa absolutamente, e nem chega perto do melhor da literatura nacional. É de se ver, que só aparece a ponta do iceberg. A criação enfim acadêmica, e de autores que fazem peripécias políticas pra chegar numa editora (dessas grandes) não passa de mediana, insossa, que favorece o mercado e mente pra eles mesmos (os tais escritores bem sucedidos) e pra nós, que é alta cultura. Na web transita em drops, grande parte da boa poesia nacional, do conto e excertos de romances. Nas gavetas de autores, obras e obras, a espera de editor. Pelos critérios de avaliação de editoras, é perigoso se presumir sejam tais livros amortecidos, ruins. Livros. Livros. Os natimortos, livros de autores recusados. Uma mentira, o fomento literário, os concursos cartas marcadas. Concursos que já nascem com fim mercadológico: promover editoras e autores (publicados) de qualidade duvidosa. E o pior de tudo: grande leva de autores recusados por editoras, aceita tacitamente a empulhação. Bons cabritos que não berram. Tá na hora do levante. Tirar a máscara dos detentores dos meios de produção do livro. Desvelar a grande mentira da cultura livresca nacional. É de se perguntar: e o avanço do estético como fica? O conteúdo inovador? A arte verdadeira, revoluciona na forma ou no conteúdo, ou em ambos ao mesmo tempo, (e isso tem pouco a ver, com o discurso fácil, dirigido ao público x ou y ), e é a que mais representa a cultura nacional, sendo a estampa cult da nação. Uma nação tem que ter a sua bandeira literária, que a identifique, em obras complexas, acima do entendimento de massas, muitas vezes. As portas devem estar abertas no setor produtivo do livro, para de tempos em tempos surgir o inesperado, em qualidade. E, não simplesmente se fechar o acesso de autores ao mundo editorial (de mercado e leitores). Aliás, é o desejo de todo país, ter suas grandes obras literárias, creio eu. Como um Fausto de Goethe na Alemanha, Ulisses de James Joyce na Irlanda, A divina comédia, de Dante na Itália, Os miseráveis de Vitor Hugo na França, Os irmãos Karamazov de Dostoiévski, na Rússia, e por aí afora. Sem contar, um sem fim de obras que fogem do cânone clássico, e que foram urdidas na experimentação. A coisa é séria sim. Quando o sistema é brutal, alija criadores do processo cultural, evita seu contato com as novas gerações, tranca portas às novas linguagens, comete o crime de lesa-cultura. A cultura ilustra a educação, a faz avançar, abre os canais da percepção do educando. Observa-se que em encontros literários, o que se apresenta ao público é cultura oficial, editorial por excelência (e até escabrosa), de nomes mezzoconsagrados na sua secular medianidade. Alguns chamam isso de valor da tradição. Tradição, essa palavra-conceito remete a coisas boas e também à coisas perigosas, atraso no processo do conhecimento. Pra mim, sinceramente tá longe de representar o melhor da nossa cultura literária, o que está sendo vendido aí. Não se dá acesso e voz aos autores recusados (entenda-se por recusados independentes em geral), aqueles que fazem parte também da cultura nacional, a literatura suja, a literatura de estorvo, a literatura “persona non grata” no sistema. Evitado esse autor ao público, agride-se o todo da cultura nacional, conspurca-se o intelecto e achata-se a literatura, como produto estético, inventivo, construtivo, expansivo do conhecimento. Ora, vão se catar, Senhores opressores do talento. A nossa parte a gente tá fazendo, escrevendo… A realidade dos nossos sonhos transformada em vida nova, o phuturo. O phuturo das linguagens, o phuturo do estético, o phuturo do conteúdo bom, forte, revolucionário. Tem que pegar pesado com essa gente. Onde eles botar dez autores (tradicionalistas de linguagem) nós temos que botar mais dez doidos, de caótica linguagem. Quando eles enfrenar a vida das linguagens com bridão de aço, devemos atropelar o corcel, veloz, triloz dos novos tempos, na arte e na literatura, com ousadas variações do fazer. Parem de se iludir garotos com grupelhos poéticos, afetações de ser escritor ou poeta, seus blogs, sites, seus posts, nessa árida terra da especulação, do embuste, do retorno fácil a qualquer investimento, e que em arte verdadeira, não existe nenhum. Infelizmente, como anjo vingador de poeta recusado que sou, cumpre me acorda-los pra dura realidade: estamos em guerra, plena guerra contra a tirania editorial. Só se chega a uma dessas grandes editoras, dando pra alguém… sabe-se lá o que? Ou vendendo a alma ao diabo. Tô de saco cheio, já deu pra sentir né, com essa palhaçada!? Nunca vou ter coragem de dizer pra um menino que quer ser escritor que se deve ser um idiota: escrever certinho, com regras (razão) esquemas de fácil entendimento, a um público, composto de outros tantos idiotas como ele o escritor. (Segredo do sucesso). E o “desregramento dos sentidos” de que dizia Rimbaud? E os fantasmas interiores? E o mergulho no mundo do profano, do caótico, do que é pura verthigem? O artista no fio da navalha, entre os duplos, céus x infernos, limpo x imundo, cândido x cruel…  O artista garimpando nos espaços do indizível, abrindo canais de comunicação com o desconhecido. Em primeiro lugar devo começar assim: como abduzido & recusado clássico que sou devo dizer lhe que… patati patatá patatá… Toda ilusão de reconhecimento nesse estúpido mundo da literatura, manipulado por interesses e gente sem o menor critério de avaliação, é vã. Esse status broxanthi’s, mesmo assim, não será capaz de nos fazer desistir do sonho-bom: nossa indignação pelas linguagens atirada aos bons e maus espírithos. Nossa busca de razão, desrazão, no caos. Posso dizer no prosseguinte de mim, que primeiro temos que mostrar a nossa face, produtora de cultura. A nossa face, verdadeira na pegada… desbancar a má tradição que não condiz com os endereçamentos bons ao phuturo. A teleológica da pruzirithílica é essa: acrescer no processo, romper paradigmas, inventar e não diluir, como já bem colocou Erza Pound. Apontar os responsáveis pelo mau uso dos meios de produção do livro, coisa que nos envergonha e ao país, pois que muitos nem brasileiros são, e os brasílicos já estão meio-vendidos nessa coisa de transformar literatura em mercadoria “barata”… Esses obtusos Senhores da escuridão, estão ditando as regras do jogo cultural. Do que deve ser lido, vendido e o pior de tudo: escrito. É pra acabar… e a nossa pátria varonil, nada faz pra rebater o império do baixo espíritho. De parte do Governo, o MINC tá por fora. Ninguém vê, ou se vê, faz que não vê… o que está acontecendo. Não é pouca coisa, quando gerações e gerações de autores, estão sendo massacradas por um sistema produtivo do livro, que as anula no plano da criação & chegada ao público leitor. Tive uma ideia: nós também vamos começar a recusa nos livros editados por vocês. Tem umas meninas aqui, amigas nossas que são campeãs pra isso nos seus ótimos critérios avaliatórios. Vamos carimbar na capa R E C U S A D O e espalhar por aí. O meu grupo de excluídos é grande pra mais de metro. É muita gente mesmo… pega o Brasil inteiro. Um perigo! Tá na hora de denunciarmos a nhacaziiiraaaa que estão fazendo com a literatura brasileira. Um país deve estar atento à produção de seus autores, o que realmente é vigoroso em termos de linguagem, construção do espíritho, e não a essa literatura insossa que grassa por aí, com todo o empenho midiático de supervalorização. A estampa cultural de uma nação é o que ela tem de verdadeiro na arte, na literatura, na poesia, NUNCA O QUE É FEITO MERAMENTE PARA SER ABSORVIDO POR ESTE OU AQUELE PÚBLICO. Absorvido, levemente encantador (de trouxas), o que não faz consequência, não causa, não transforma… O universal, o absoluto, em arte, se impõe por seus próprios meios, forma, conteúdo bom, e não depende de jogadas de marketing, mentiras, engambelações. Não posso mentir às crianças, não posso iludir os meninos escribas que estão vindo, com “maravilhas” nas letras do país. Isso aí, já tem muito professor, acadêmico em geral e marqueteiro editorial fazendo. É um des-serviço à cultura e a sociedade. Comigo é na veia… se criamos galinha de três pernas, ei-las… não vamos enfeitar o pavão da mediocridade. A coisa tá de mal a pior nessa área do livro impresso. As armas devem ser as mesmas, os meios, os mesmos, os recursos os mesmos, para uma cultura dita oficial, estabelecida ou tradicional e aquela que jaz nas gavetas, no limbo da recusa. Literatura independente, a custo e suor dos autores. Afinal de contas, não é e nunca poderá ser o homem o que deve cercear o homem como artífice, obscurecer a obra, a criação. Deixa o louco falar, por favor, deixa o louco escrever, edite o louco-bom, deixa o inventor trançar cateto com hipotenusa, na enteléquia da proselitílica. Porra! E, vamos promover isso. Senão vai rolar só titica de galinha nas nossas cabeças de cabritos super-resignados. É outro o descortínio de signos que pretendemos, outro chão, outro céu e outro inpherno.

P S. A sacanagem é bem maior do que a gente possa imaginar. Me chamem de despeitado se quiserem. Tô nem aí! EHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH.

 

     jAiRo pEreIra

Autor de O abduzido –prosa longa- 584 pgs., Arijo – romance rapsódico, 1.097    pgs., O antilugar da poesia –manifesto-, e outros. Todos recusados      por editores comerciais.

7 Respostas

  1. obrigado Tonicato Miranda, vc entendeu ainda mais q eu este desabafo de autor. sinto não ter lido mais nada teu no Palavras… continuemos a nossa luta por uma poesia e literatura brasileira que possa nos orgulhar.

    Grande abraço.

  2. Jairo tem toda razão no desabafo. Nós, “palavreiros” conhecemos e admiramos sua obra. Mas e os outros, que estão privados da literatura inovadora, ludibriados pelo mercado editorial safado?
    Ainda bem que sempre há a possibilidade de uma luz no fim do túnel.

  3. Adendo sobre as Meninas Editoras (sic).
    Caro Jairo, eu também havia notado a presença dessas meninas de nariz empertigado. Pensava que fosse impressão minha apenas e me acusava de frustrado por não ser doutor, invejoso por não ser bonitinho e intolerante por ter deixado para trás a dourada juventude. Hoje percebo que estas garotas pós-graduadas, assumem os conselhos editorais não como servidoras da cultura, mas como Autoridades inapeláveis do saber. Que os escribas se curvem ou definhem pastando nas áridas terras do ineditismo, infinitamente mais vastas que as searas por elas cultivadas. Quem lhes dirá que seu recorte da leitura é parco e breve? Nenhum escritor inédito, certamente, pois sua própria condição de ineditismo os desautoriza.As Casas de Altos Estudos, ostentem o nome que ostentarem e sejam públicas ou privadas, continuam produzindo estes engendros que posam de divindades atrás das escrivaninhas dos castelos de papel. O dedo de Kafka os acusa em centenas de páginas. O Palácio Central tem a meta de incentivar e promover cada vez mais o número de doutores no país. Cuidado! No país de analfabetos o bom leitor é punido. Meu abraço aos companheiros dispersos pelos quatro cantos do planeta.

  4. jairo pereira (O abduzido) | Responder

    Obrigado, Lescano, Geraldo Reis e Tonicato Miranda. Vcs me deixaram bem, agora. Escrever tem essa coisa da responsabilidade, e as vezes a gente pode se perder… como é o caso de uma crítica agressiva, mesmo verdadeira. Abraço.

  5. Desabafo muito lúcido. Estou 100% de acordo. A propósito, na década de 70 tínhamos essa opinião. Assim, acredito, não haverá, uma uma renovação de valores. A mesmice há de imperar.

  6. Companheiro Jairo,

    Parceiro de parceiradas em Varandaes, próximas; e em tantos outros ais, distantes. A sua verve continua afiada como facão de mateiro, qual canivete de embornal, a cortar os matos menores, a cercar os caminhos e trilhas da floresta já fatigada de tanta ausência de luz. Mas deixemos as figurações ao lado e passemos livres sobre a campina aberta da ditadura das editoras sobre o grito da nossa cultura aprisionada, desabiduzida da oportunidade de vir ao espaço e ao olhar do leitor.

    Nos tempos de Varandaes, naquele diálogo ainda primário apontávamos, 25 anos passados, o mesmo comportamento-apertamento do qual estávamos prisioneiros pelas editoras de então, cujos proprietários eram pais dos atuais donos. Esta “modernidade” da formatação e exposição do texto ganhou e se abriu para um mundo eletrônico, virtual, mas continuou fechada nos livros de papel. Se 25 anos atrás tínhamos 120 milhões de habitantes hoje, com quase 200 milhões, seria de se esperar houvesse mais editoras, mais leitores. Mas não houve crescimento da massa desses dois grupos na mesma proporção do crescimento populacional. Houve apenas o fortalecimento das grandes editoras e a chegada das “meninas” sub-editoras, como você diz, formadas em cursos aguados das universidades, onde a análise de apenas um escritor já lhes confere um título de pós-graduação, tornando-as juízes togadas do desiderato __ Esta obra serve! Esta obra não serve!

    Vai daqui a minha solidariedade ao seu grito. Ao seu brado, companheiro. Sim, o seu desabafo é o de um despeitado, mas quem não se sente assim diante das recusas? Mas espera lá… Não és de forma alguma um despeitado. Merecem tal epíteto aqueles que dizem a boca miúda da sua insatisfação com alguma coisa ou com alguém. Aquele que brada alto em tom maior sua discordância não é de forma alguma um pejado nas suas calças curtas arreadas. É sim de alguém que grita, se expõe, merece nosso respeito. Por isto vai daqui meu abraço e so-li-da-rie-da-de, ao estilo polonês pós-Gdansk. Continuemos na luta e faça uso do meu braço, ou dos dois se quiser, e da minha voz, para erguer esta sua e minha, nossa parceira indignação.

    Grande Abraço.

  7. Caro Jairo, concordo com você no tom e no alvo, contudo, devemos reconhecer que, como você diz, a literatura criativa não está mais no suporte-livro, pelo menos no que diz respeito às editoras (multi)nacionais neste país. Há muito tempo eu recuso a “literatura oficial(?)”: não entro nas “boas livrarias”, continuo me alimentando de sebos. Ainda bem que existem sites como este que nos permiten mostrar a ponta dos nossos icebergs. Tenho a horna de dizer que não sou um autor recusado pelo simples motivo de que não procuro editoras. Solidário com a sua indignação, receba o meu abraço.

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