ALTO-CONTRASTE – por amilcar neves / ilha de santa catarina

As coisas ficam bem mais simples se forem binárias: zero ou um, sim ou não, norte ou sul, direita ou esquerda, certo ou errado, verdade ou mentira. Isso é mais comum encontrar no universo unidimensional, ao longo da linha reta.


Seres unidimensionais não têm dúvidas, comprazem-se alimentando certezas eternas. Assim, desconhecem ou negam outras dimensões, as quais conturbariam o seu mundinho estabelecido e promoveriam uma formidável bagunça em sua tranquilidade dogmática. Como raciocinar e julgar com a profusão de variáveis, já infinitas, de uma realidade bidimensional? Como manter-se inabalável numa tal promiscuidade de alternativas, opções e possibilidades? Como viver com um Norte seguro, digamos assim, em meio a tantas direções possíveis, viáveis e (o que é aterrador) extremamente tentadoras, oferecidas pelas propriedades geométricas do plano?


Seres bidimensionais penam demais, sofrem de dar dó, angustiados e, tais náufragos, sôfregos por agarrarem-se a uma tábua de salvação, que pode ser tanto as Tábuas da Lei como a tradição dos costumes, que se nutrem, umas e a outra, de todas as formas de preconceito. Não faz muito, a sociedade constituída aceitava como natural a figura jurídica da “legítima defesa da honra”, que permitia ao corno, dito desonrado, assassinar a mulher adúltera, ou o amante dela, ou ambos, e o inocentava com ovação pela circunstância de guardar as regras da boa conduta social ao punir exemplarmente a violação das normas instituídas, ainda que fosse ele próprio um adúltero confesso. Extinta a figura, ele agora mata e se mata.


Seres bidimensionais precisam se defender. Então, para não se perderem na inevitabilidade do plano, apegam-se com fervor ao consolo do alto-contraste. Segundo o Houaiss, este vem a ser um “processo de reprodução fotográfica em que os tons claros e escuros são fortemente acentuados em detrimento dos cinza, que podem até desaparecer”. Claro! (ou: escuro!), eliminem-se todos os matizes do cinza – o processo permite essa operação – e fique-se apenas com o preto e o branco! O que não é preto, é branco, e vice-versa. Nada mais fácil e confortável, eles dizem, já que vivemos no plano – e se congratulam pela descoberta.


Boa parte das pessoas no mundo adota o alto-contraste extremo como forma de se manter supostamente viva e com seus critérios intactos. Elas te dizem, arrogantes e autossuficientes: Quem não está comigo, está contra mim (talvez falem: está contra migo), quem discorda de mim, é meu inimigo. Durante a ditadura, o governo golpista apregoava: Brasil, ame-o ou deixe-o. Com isso, tentava vincular de forma criminosa o País ao grupo que assaltou o Poder. Ainda hoje as pessoas escrevem para os jornais e publicam na internet coisas como: Preto, sempre me diverti e fiz tudo o que quis naquele tempo preto, nunca tive qualquer problema; quem mandou alguém querer ser branco?; tinha mesmo era que pagar, e bem caro, pelo atrevimento e pela afronta.


Para a gente do alto-contraste é inadmissível que a primavera comece no próximo dia 23, pois só conseguem compreender o inverno e o verão; à noite mais cerrada, deve suceder-se numa explosão apenas um meio-dia inclemente de 12 horas. Por piedade a eles, não lhes contemos de sombra e de luz, da sombra que cria os meios-tons que sugerem volumes e uma insuportável terceira dimensão, da luz que gera as cores, milhões de variações delas.


Como avaliar e julgar num mundo assim? E mais: para que serve tamanha e tão confusa variedade?


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