HUGO BLANCO: 50 anos de luta pelo índio peruano.[1] – por manoel de andrade / curitiba

1. Um jovem trotskista e a química revolucionária da década de 60

A ilha de “El Frontón”, um colossal rochedo a 7 quilômetrosdo porto de Callao, deixou de ser a temível penitenciária depois do célebre massacre, pela marinha peruana, de 135 presos políticos do Sendero Luminoso, em junho de 1986, no governo aprista de Allan García. [2]

Quando, em 29 de novembro de 1971, por razões de segurança, voltei de navio à capital peruana, procedente de Guayaquil, pude contemplar de perto a famosa ilha-prisão cujas histórias de tortura e morte eu havia ouvido quando estivera em Lima dois anos antes. Mas Hugo Blanco não estava mais ali. Embora tivesse sido anistiado e libertado, em 14 de setembro de 1971, pelo chamado governo revolucionário de Velasco Alvarado, ironicamente fazia dois meses e meio que fora deportado, pelo mesmo governo, para o exílio no México. No momento em que escrevo estes relatos, em  2011, acompanho ainda, a sua atividade incansável, aos 76 anos, em prol das lutas populares e do movimento indígena, com destaque, para a “Carta aberta a Vargas Llosa”, onde, em janeiro deste ano, Hugo Blanco afirmara que:

 

“O prêmio Nobel outorgado a você representa um golpe a mais do neoliberalismo às populações indígenas, já que dificilmente se encontrará maior inimigo delas que sua pessoa.” [3]

 

Nascido em Cusco, em 1934, Oscar Hugo Blanco Galdós estudou agronomia na Argentina onde se politizou e aderiu definitivamente ao trotskismo, sob a orientação de Hugo Bressano  —  que depois ficaria conhecido como Nahuel Moreno.

Era o início dos anos 60, década em que trotskismo e stalinismo ainda se digladiavam na América Latina numa ofensiva ideológica que começara muito antes do assassinato de León  Trotsky, em 1940, no México, a mando de Stalin. Era a época em que a Revolução Chinesa, de 1949 e a Revolução Cubana, surgida dez anos depois, trouxeram os novos modelos revolucionários ao mundo e ao Continente promovendo debates e confrontos em que as diferentes posições da ideologia marxista disputavam a primazia revolucionária nas lutas libertárias da América Latina. Debruçadas sobre os estudos da natureza da revolução e suas peculiaridades continentais, os intelectuais de esquerda envolveram-se em amplas reflexões e acirradas discussões sobre alianças e estratégias políticas, táticas militares e métodos de luta, fossem eles baseados no foco guerrilheiro ou na organização combativa das massas. Vivia-se numa época em que era imprescindível não confundir marxismo com stalinismo e, por isso mesmo, a teoria e a prática revolucionária estavam divididas, por um lado, na viabilidade da revolução democrático-burguesa por etapas, orientada pela burocracia privilegiada de Moscou e os Partidos Comunistas nacionais,  — cujas conclusões negavam o amadurecimento econômico e social latino-americano para uma revolução socialista  — e, por outro lado, nas idéias trotskistas da “revolução permanente” e no caráter internacional da luta proletária defendido por Trotski na Quarta Internacional, bem como pelas rápidas e avançadas etapas da Revolução Cubana  propondo a luta aberta e armada contra o imperialismo.

Neste sentido, no começo da década de 60, o Peru era um grande laboratório de ideias políticas manipulado com a química revolucionária de jovens e brilhantes ideólogos onde se combinavam e se excluíam os mais diversos ideais de esquerda: maoísmo, trotskismo, castrismo ou guevarismo e, dentro dessas opções, colocou-se a importante dissidência do aprismo. Portanto o grande racha deu-se no antigo APRA[4] (Aliança Popular Revolucionária Americana), de onde surgiu o APRA Rebelde, dirigido por Luiz deLa Puente Uceda que o transformou, em novembro de 1960, no MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria), caracterizado como uma nova e extrema esquerda peruana. Outros movimentos surgiram posteriormente e, sempre deixando de lado as posições ortodoxas do Partido Comunista  —  chamado Partido Socialista do Peru  –, uma meia dúzia de Frentes e Partidos de esquerda optaram pela luta armada definindo-se, sobretudo, entre trotskistas e castristas, já que entre as organizações de esquerda do Continente nunca predominou um só pensamento sobre a natureza da revolução.

Foi nessa fogueira de sonhos que brilhou a chama revolucionária de Hugo Blanco. Regressando da Argentina em 1956, ingressa no POR (Partido Obrero Revolucionário) e, já na clandestinidade, destaca-se como líder e precursor do movimento guerrilheiro no Peru. Com vistas à necessidade inadiável da reforma agrária, como um imperativo do desenvolvimento nacional, e à luta pela defesa da causa indígena contra a oligarquia agrária e o imperialismo, funda a organização trotsquista FIR (Frente de Izquierda Revolucionaria). Demonstrando um grande despojamento, em 1958 foi trabalhar e viver entre os camponeses humildes do Vale deLa Convencióne de Lares, em Cusco, vestindo-se como eles, vivendo nas suas comunidades e aprendendo a língua quéchua.

 

2. Os símbolos do calvário

 

A região – que fui conhecer em minha segunda passagem por Cusco, em 1970, com a grata companhia e esclarecimentos de dois dirigentes da FUL (Federación Universitária Local), que haviam tido contato com Hugo Blanco   — em fins da década de 50, chamara a atenção do país inteiro pela sua extrema pobreza, pela injusta exploração dos camponeses no extorsivo arrendamento do trabalho agrícola e a sua gratuidade periódica prestada aos proprietários da terra e pelo alarmante índice de mortalidade infantil. Quando Hugo Blanco lá chegou em 1958, encontrou, estampado em cada semblante, os símbolos do calvário. Deparou com a vida dos camponeses marcada pelos crimes mais iníquos. O ser humano humilhado, sua cultura esmagada, seus hábitos religiosos e costumes milenares escarnecidos. Encontrou as faces crucificadas pela miséria, marcadas pelos sulcos indeléveis do sofrimento e os olhos vazios de esperança. Iniciou, então, a fundação de sindicatos camponeses, criando uma federação de 142 núcleos sindicais, pedindo escolas para alfabetizar o povo, promovendo, ao longo de cinco anos, a educação pelo trabalho e diminuindo o uso do fumo e da coca entre os camponeses.

Com o lema “Terra ou Morte”, organizou, a partir de 1961, greves e enfrentamentos  com a oligarquia agrária da região,  — que em todo o país possuía 80% da terra  — tornando-se pessoalmente uma grande referência na mobilização de massas em toda a América Latina. Diante da insustentável situação agrária na região, Hugo Blanco inicia a invasão de latifúndios, expropriações de terras para a Reforma Agrária e lidera grandes manifestações de trabalhadores rurais. Sua imagem combativa e seu carisma arrebatavam, para sua causa libertária, cada vez mais adeptos entre os camponeses indígenas da região e entre estudantes e intelectuais das grandes cidades peruanas.. Faltava apenas o apoio estratégico mais importante: a adesão de um partido político forte e dos trabalhadores urbanos que, infelizmente, nunca veio. Por outro lado o seu nome tornava-se para alguns poucos um estigma maldito porque era pronunciado com ódio e desprezo pelos latifundiários da província de Cusco e do país.

 

“Os trotsquistas sabemos que a luta armada é uma fase obrigatória da revolução, mas somente isso: uma fase. A luta revolucionária é um processo, através do qual as massas crescem em sua organização, em sua consciência, em suas formas de luta, guiadas por sua vanguarda consciente, pelo partido revolucionário. As massas, naturalmente, preferem obter suas reivindicações por vias pacíficas. Durante o processo, percebem que os exploradores não cedem e respondem às suas reivindicações com a violência; é somente então que as massas se vêem obrigadas a opor à violência dos exploradores a sua própria violência. Com o agudizamento deste choque entre a violência dos exploradores e a resposta violenta dos explorados, chega-se à luta armada, inevitavelmente.[5]

 

Hugo Blanco, ao acenar com a igualdade e a justiça de uma sociedade socialista para os camponeses, tal como José Carlos Mariátegui, ao falar do comunismo inca, certamente conhecia muito bem a histórica tradição coletivista do indígena andino, herdeiro de um aperfeiçoado sistema de produção comunitária que lhe garantia a justiça social e o necessário para viver com dignidade. Sabia também, como Mariátegui,  —  e contrariando a “sapiência” dos teóricos  do estalinismo  —  que a revolução socialista possível tinha que ser agrária, anti-imperialista, contra a burguesia local e sem passar pelas etapas da revolução nacional-democrática, como propunha o Partido Comunista Peruano, que nunca participou dela. Para tanto Hugo Blanco tirou do esquecimento a “Lei da Reforma Agrária” e em Chaupimayo deu início à divisão das terras não cultivadas, regulando o processo de distribuição pela autoridade da “Reforma Agrária da Federação Departamental de Camponeses de Cusco”. A polícia não ousava interferir na distribuição da terra para os camponeses e o receio policial era tanto que:

“Quando algum camponês não sindicalizado se queixava de alguém de Chaupimayo, no posto de Guarda Civil do distrito lhe diziam que fosse ao sindicato procurar justiça ou que voltasse ao posto com um pedido assinado por nosso sindicato para atender o caso” [6]

 

Mas esta aurora de justiça no Vale deLa Convención, era apenas o primeiro passo de uma Reforma Agrária que abrangesse o país inteiro e ele sabia que o dono da terra não a reparte sem a guerra.

Naquela década de 60, os camponeses peruanos viviam vergonhosamente humilhados pela extrema miséria, pelo desprezo cultural e pela condição semi-escrava do trabalho. Apesar de todos esses ingredientes para a rebelião, certas correntes de esquerda, doutrinariamente voltadas para o marxismo europeu, não viam, nessa dependência do campesinato latino-americano à formas tão desumanas da produção capitalista  —  ou pré-capitalista e feudal, como se tem caracterizado essa discussão teórica sobre a natureza na economia ibero-americana a partir da colonização  —  e à doutrina de dominação imperialista,[7] o conteúdo emocional de revolta e o caráter socialmente  indispensável para deflagrar um processo revolucionário no campo, como único caminho para romper essa nefasta dependência.

O grande exemplo acabara de ser dado pela Revolução Cubana, fosse pelo apoio incondicional dos guajiros da Sierra Maestra  —  camponeses sem-terra e explorados pelos latifundiários da região  —  fosse pela rápida transição para o socialismo (agosto-outubro de 1960), frente a uma estrutura socioeconômica dominada até então pelo capital da oligarquia financeira e pelas grandes empresas norte-americanas que mantinham o monopólio da telefonia, eletricidade e produção de açúcar na Ilha. Naturalmente Hugo Blanco conhecia de muito mais tempo a história rebelde dos camponeses latino-americanos. No começo do século, um fenômeno semelhante acontecera no sul do México, quando as terras indígenas, tomadas pelos grandes latifundiários amparados pelo regime corrupto e pró-ianqui de Porfírio Dias (1830-1915), foram reconquistadas por um exército de 30 mil camponeses, liderados por Emiliano Zapata (1879 -1919) Os anais dessa história registraram também a legenda guerrilheira de Augusto César  Sandino, (1895-1934) liderando, na década de 30, um exército de camponeses contra a invasão norte-americana da Nicarágua.

Na mesma época, liderada por Agustín Farabundo Martí (1893-1932), explode, com incontida violência, a revolta do campesinato indígena em El Salvadorcontra a ditadura militar, a usurpação de terras pela burguesia local e as empresas bananeiras norte-americanas, terminando num verdadeiro genocídio perpretado pelo exército contra camponeses mal armados num episódio conhecido como La Matanza, onde morreram cerca de  30 mil pessoas entre homens, mulheres e crianças.[8]

Outro grande exemplo, tão aguerrido como a Revolução Mexicana pela conquista da terra, foi a decisiva participação que tiveram os camponeses e mineiros bolivianos ocupando terras e enfrentando o exército, na Revolução Boliviana de 1952-53, como já comentamos nesta obra.[9][10]

Foi sob esse imenso cenário de revoltas, lutas e grandes sacrifícios indígenas do Continente que Hugo Blanco construiu, no vale deLa Convencióne de Lares, o palco de redenção dos humilhados e oprimidos da sua pátria, para conduzi-los à conquista da terra e da liberdade.

No passado, suas propriedades haviam sido usurpadas, muitos foram mortos impunemente, outros foram expulsos formando as massas de deserdados que sobreviviam nas barriadas de Lima. Os que ousaram ficar jaziam aprisionados pelos grilhões da dor, do medo e do silêncio. Há duzentos anos, no último grito rebelde da raça, houve cem mil caídos e os que sobreviveram derramaram suas últimas lágrimas ante o martírio infamante de Túpac Amaru, ali mesmo, na praça central de Cusco. Agora, surgia um jovem peruano que não era índio, mas conversava com eles na sua língua, cantava suas canções e aprendia seus costumes.  Semeava e colhia com eles a mesma pobreza, vestia-se como eles e trazia nas mãos a chave para abrir os portões de suas antigas terras. De onde viera? Quem era aquele homem que trazia na alma uma legenda missionária iluminada pelo sublime ideal da justiça e pelo sol da esperança?

 

Dia a dia, mês a mês, ano a ano, o sonho de um tornou-se o sonho de todos. Alguns pequenos proprietários na região de Lares chegaram a entender que a Reforma Agrária levada a cabo por Hugo Blanco estava sendo feita “de maneira perfeita, que havia paz social, que pediam ao governo que não perturbasse a tranquilidade da região.” Contudo esse sonho encontrou seus pacíficos e justos caminhos fechados pela resistência feroz dos grandes fazendeiros. Eram os donos da terra, da vida e da morte. Cobertos pelo manto da impunidade eram cruéis, insensíveis e perversos e agora que se viam sitiados pela força organizada por aqueles que escravizavam, agora que o amanhã os ameaçava com a espada da justiça, apelavam por ajuda do governo.

A queixa e o pedido dos “gamonales”  determinou a escalada da repressão, com a prisão de dirigentes sindicais e a instalação de postos da guarda civil na região.

 

3. Das milícias à guerrilha.

 

Então, a frustração daquele sonho, de distribuir pacificamente a terra aos seus verdadeiros donos, transformou-se em punhos crispados, bandeiras libertárias e trincheiras de luta.

 

“O motivo imperioso para nosso passo de mudança da milícia para a guerrilha foi a brutal arbitrariedade cometida pelo dono da “hacienda” Qayara, acompanhado de guardas civis contra a casa de Tiburcio Bolaños, secretário geral do sindicato daquela “hacienda”: saquearam sua casa, levaram dinheiro e móveis e maltrataram seus familiares. O proprietário, na presença dos guardas, pôs  o cano da arma no peito de um menino e ameaçou disparar se ele não dissesse onde estava Bolaños; o garotou ignorava seu paradeiro. O proprietário colocou o cano da arma sobre o braço do menino e disparou.”(…)

(…) Em Chaupimayo, começamos a realizar, de maneira informal, sessões de tiro ao alvo, tanto homens, como mulheres. Como não era costume as mulheres caçarem, a simples fotografia de uma camponesa da região com uma carabina nas mãos, levantava o espírito do campesinato de outros sindicatos.” (…)        

 

(…) Em Chaupimayo, realizávamos treinamentos intensivos, com participação de outros companheiros que vinham, eventualmente não só de La Convención e de Lares, mas também de outros pontos do departamento de Cusco.

       Também foram enviados instrutores a outros sindicatos de vanguarda de La Convención e de Lares.

       As ações eventuais das milícias de Chaupimayo haviam começado ao se ter aprovado oficialmente, na Federação, a formação de “Brigadas”.” [11]

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Já em 1960 todo o território do Vale de Convención era uma poderosa fortaleza social de massa camponesa consciente do seu papel histórico na região e, dois anos depois, suas milícias de autodefesa, transformadas em colunas guerrilheiras sustentavam as desapropriações das grandes fazendas, enfrentavam com bravura os primeiros ataques do exército, tomaram a ofensiva nos confrontos com os soldados e infringiram muitas baixas nas forças militares.

A gesta libertária de Hugo Blanco incendiava o país e ecoava em todo o Continente. Em 1961, os delegados peruanos participantes da reunião da SLATO (Secretariado Latino-americano do Trotskismo Ortodoxo) realizada na Argentina, trouxeram a Hugo Blanco uma extensa carta de Nahuel Moreno  — escritor, teórico do marxismo e  uma das maiores figuras do trotskismo argentino e latino-americano — incentivando a ocupação de terras e a organização sindical no campo. Algum tempo depois chegavam vários quadros do POR argentino para integrar-se ao POR peruano e entre eles  Daniel Pereyra, Eduardo Creus e José Martorelli. Daniel  Pereyra, atuando sobretudo em Cusco, ampliou os quadros do FIR recrutando estudantes, conscientizando os camponeses através da panfletagem e acelerando a preparação da luta guerrilheira em vistas dos níveis a que chegava a luta de classes no campo.

Em Cuba, o jovem poeta Javier Heraud, contagiado pelo sonho de Hugo Blanco e vislumbrando a aurora social que raiava em seu país, integra, em meados de 1962, uma frente guerrilheira composta por 40 intelectuais que chegou ao Peru, no início de 1963,  para unir-se às forças de Hugo Blanco, sonho que infelizmente afogou-se com seu sangue escorrendo nas águas  do Rio Madre de Deusem Porto Maldonado.

Nas grandes cidades peruanas e nas zonas rurais, seus partidários realizavam várias ações políticas, expropriando fazendas e devolvendo as terras aos seus antigos proprietários indígenas, recrutando e armando combatentes para se defenderem da forte repressão militar que apertava o cerco na região de Cusco.

Assim, em início de 1962, o Vale deLa Convencióntornou-se um território totalmente controlado pela organização guerrilheira criada por Hugo Blanco e a Reforma Agrária era feita pela decisão dos próprios camponeses da fazenda onde trabalhavam, que “legislavam” sobre a distribuição da terra, garantidos por suas próprias milícias.

 

“Os camponeses concordaram em prover-nos de tudo que necessitávamos, e aceitar tudo que, voluntariamente, nos ofereceram os pequenos proprietários da região, mas que não confiscaríamos nada deles. Segundo disseram: “para que vejam que o que os camponeses querem é a terra para trabalhar, mas que não somos ladrões para tirar-lhes as suas coisas”. Nós os informamos de nossa intenção de confiscar os “caciques” verdugos, mostrando-lhes que precisamente o nosso Decreto de Reforma Agrária, apesar de seu caráter sintético, assinalava a opção pelo confisco, e que o Decreto sublinhava que, em cada caso específico, o juiz era o campesinato da respectiva “hacienda”, que devia decidir sobre as medidas confiscatórias, e sobre a forma de distribuição da terra, entendendo que a existência da guerrilha não era para substituir, mas para sustentar a vontade camponesa”. (…)

         

(…)”O apoio do campesinato era quase absoluto, emocionante. Alimentava-nos, vestia-nos, guiava-nos, protegia-nos.

       Comam e levem quanto puderem”, nos diziam as companheiras chorando.

       Ai! Nós tão comodamente em nossas casas  e vocês, nas montanhas, perseguidos! Como é doloroso não poder servi-los, cada dia que estão nas montanhas. Companheiros! Irmãos!”

        Como nosso estômago e nossa mochila tinham capacidade limitada, recebíamos um pouco de cada um, para que ninguém se sentisse ofendido”  [12]

 

4. O crepúsculo do movimento

 

Em abril de 1962 o grande líder trotskista argentino Nahuel Moreno, preocupado com o desvio guerrilheiro do movimento dirigido por Hugo Blanco, chegara a Lima para uma reunião da SLATO com o objetivo de corrigir a nova orientação militar do FIR peruano, que optara pela luta armada em face da resistência tenaz da oligarquia agrária ante o avanço da Reforma Agrária. Depois de grandes debates, suas colocações não foram aceitas porque o processo guerrilheiro já estava estrategicamente instalado no Vale de La Convención. Algunsdias depois daquela reunião, o Banco de Crédito, no bairro de Miraflores, em Lima, foi espetacularmente assaltado por um comando de nove militantes do FIR. [13]  O fato talvez não tivesse grandes consequências em Cusco se um dos expropriadores não tivesse sido identificado gerando uma perseguição contra os militantes do MIR em todo o país. Todo o comando acabou sendo preso num posto policial quando descobertos num caminhão que chegava a Cusco. Em maio o poder da repressão aumenta vertiginosamente, e o FIR, sem grande penetração no movimento de massas, é totalmente desbaratado em Lima, Arequipa e em Cusco, onde a perseguição avança para a região rural da província.  Hugo Blanco, completamente isolado, redireciona alguns grupos de camponeses para a guerrilha a fim de defender-se do cerco militar cada vez mais forte  na região.

 

À medida que crescia a repressão armada, cresciam também as arbitrariedades do Poder Judicial:

 

A repressão judicial ao campesinato peruano é permanente, igualada apenas pela repressão armada. Depois de cada matança de camponeses, iniciam julgamentos, por ataque à “força armada”, aos camponeses que se salvaram de morrer, incluindo feridos. Em alguns casos a polícia faz averiguações sobre quem está mantendo os órfãos de suas vítimas e os persegue (Santiago Arroyo, de Ongoy, esteve preso por estar cuidando de seu sobrinho, filho de seu irmão assassinado.” [14]

 

Mas essa luta heroica não era somente contra os grandes latifundiários e as forças da repressão. Na verdade os que estavam, oportunisticamente, aproveitando-se do retrocesso do movimento e dificultando a recuperação da sua combatividade nas áreas libertadas, eram poderosas forças da própria esquerda peruana:

 

“O estalinismo, ajudado pela repressão, tomou grande força na Federação; isso somado com a falta de partido, e a própria repressão, produziram a acentuada polarização da vanguarda ao redor de Chaupimayo. “Ali há outra federação, protestavam os burocratas do PC.”[15] que andavam por Quillabamba.[16]

 

No dia 16 de dezembro de 1962, Hugo Blanco reuniu cerca de 15 mil camponeses na praça central de Quillabamba e num discurso inflamado historiou a imensa memória das injustiças denunciando, acusando e reiterando sua confiança na vitória do movimento e na conquista da terra para aqueles que nela trabalhavam. Contagiou com seu sonho a alma singela e humilde daqueles indígenas secularmente humilhados e levados à miséria extrema pela insensível ganância dos poderosos. Não lutava pelo poder, como faziam os outros movimentos revolucionários, lutava apenas pela dignidade dos camponeses, pela alfabetização dos seus filhos, pela devolução de suas antigas propriedades.

Sua verve revolucionária arrebatou a imensa multidão com aplausos, gritos de apoio e palavras de ordem. Diante da onda crescente de entusiasmo e da revolta da população presente na Praça de Armas, a própria repressão policial se encolheu e as principais autoridades municipais e judiciais abandonaram a cidade.

Contudo, ao findar o ano de 1962, as tropas militares já estavam à vista. Conta Hugo Blanco em seu livro Tierra o Muerte: La lucha campesina en el Peru, que terminou de escrever em maio de 1970, quando ainda estava preso na Ilha Penal El Frontón:

 

Em janeiro, as forças repressivas surpreenderam nossa guerrilha, atacando-nos com toda a munição possível. (…) … nos dispersaram. Depois deste ataque, não pude reunir-me com meus companheiros. Com todas as precauções possíveis, cheguei à choça de um companheiro, que vivia em um lugar isolado. (…) Escondi-me, mas os policiais eram muitos e não foi difícil me achar. Apenas tive tempo de destruir papéis comprometedores para outros companheiros.

        Faziam parte do grupo efetivos da Guarda Cível que tinham ordem de matar-me e membros da Polícia de investigações (PIP), com ordem de capturar-me vivo. Foram os da PIP que me encontraram, algemaram-me e me prenderam. O oficial da Guarda Civil que me encontrou, quando já tinha sido preso, teve de contentar-se em bater na minha cabeça com a coronha do revólver, …(…) Menos sorte que eu e Béjar, tiveram os companheiros De La Puente, Vallejos, Heraud, e tantos outros, que foram mortos a sangue frio depois de capturados, como aconteceu com Che.”[17]

 

5. A prisão, a “pena de morte”, os desterros e o político

 

Depois de preso, em 29 de maio de 1963, Blanco foi levado descalço e com a cabeça sangrando pelos campos. Ao passarem por um povoado, os camponeses, verificando quem era o prisioneiro, espalharam a notícia pelas redondezas. Algumas horas depois surgiram indígenas de todos os lados e quando a patrulha com o guerrilheiro chegou a uma pequena cidade, a multidão já os esperava reunida aos gritos de “Terra ou morte” e “Viva Hugo Blanco”.  Em vista de um confronto para libertar Hugo Blanco, a polícia rapidamente pediu um helicóptero que o levou ao quartel do Exército,em Cusco. Houveuma greve geral pela sua liberdade e a própria oligarquia peruana temia que sua desejada execução levantasse as massas no país inteiro. Preso, em Cusco, com centenas de outros militantes, Blanco foi confinado em uma solitária durante três anos e, posteriormente, transferido para Arequipa. Em 1966  foi “julgado” em Tacna, sob forte pressão internacional pela sua anistia. Contudo em vez da liberdade, foi condenado a 25 anos de prisão na famigerada Ilha “El Frontón”. Os militares, que desejavam sua morte, recorreram, através do fiscal do Conselho Supremo da Justiça,  pedindo a pena capital..

A campanha internacional pela sua liberdade e de outros presos políticos, que já havia começado, intensificou-se com a perspectiva de sua execução pelo governo peruano. Com base na “justiça para os presos políticos”  a campanha fora organizada pela Quarta Internacional, solicitando a  anistia a Hugo Blanco, Hector Bejar e outros prisioneiros, o que resultou numa grande pressão estrangeira  sobre o governo de Balaúnde Terry. Do Chile veio uma emocionante lista com milhares de marcas digitais dos camponeses analfabetos de Arauco  — eram as “assinaturas” dos índios mapuches, historicamente celebrizados com o nome de araucanos  pela sua indomável tradição de quinhentos anos de invencibilidade e de luta pela liberdade  —  bem como o voto unânime de todos  os deputados chilenos pedindo anistia para Blanco. Chegaram mensagens de apoio dos sindicatos argentinos, da Confederação Italiana do Trabalho e dos membros do Parlamento Belga.

Seria cansativo relacionar aqui tantos pedidos internacionais e as demonstrações massivas de apelo dos próprios peruanos pela vida de Hugo Blanco. Contudo é relevante citar ainda os nomes de Jean-Paul Sartre, Bertrand Russell, Simone de Beauvoir, Isaac Deutscher, Yves Montand, além de instituições internacionais de Anistia e Direitos Humanos e intelectuais de todo o mundo.

Os apelos internacionais e a comovedora carta que Blanco escreveu aos estudantes do Peru fizeram  com que o governo de Belaúnde Terry suspendesse o processo da pena de morte e mantivesse a prisão de 25 anos. O governo de Belaúnde caiu em outubro de 1968, mas somente em dezembro de 1970 Hugo Blanco foi beneficiado pela anistia “geral”, promulgada pelo presidente Velasco Alvarado. O ex-chefe guerrilheiro Héctor Béjar, para surpresa de muitos, aceitou um cargo no novo governo.[18] O jornalista e lider trotskista peruano Ismael Frias foi também seduzido pela junta militar e somente Hugo Blanco rejeitou os cargos oferecidos, mantendo o dedo nas grandes feridas sociais que ainda persistiam no governo “progressista” de Alvarado, entre elas por denunciar a mentira oficial de que já não havia presos políticos no Peru. Por estes e outros motivos e, supostamente, por apoiar uma greve nacional de professores, mas sem nenhuma explicação oficial, em 13 de setembro de 1971, Blanco foi detido por 24 horas e em seguida deportado para o México. De lá seguiu posteriormente para a Argentina onde foi detido e encarcerado por três meses e meio e deportado para o Chile onde chegou no ultimo ano do governo de Salvador Allende. Com o golpe de Pinochet, foi enviado para o único país que o aceitou como exilado: a Suécia. Em 1975 houve uma anistia para os deportados peruanos e ele pôde voltar à pátria. Incorporou-se, como membro executivo, à Confederação dos Camponeses e pelos efeitos de suas ideias e liderança, nove meses depois, foi novamente deportado para a Suécia. Voltando em junho de 1978, candidatou-se como deputado nas eleições para Assembléia Constituinte. Novamente é preso e faziam-se os trâmites para expulsá-lo do país, quando a sua estrondosa vitória eleitoral com mais de 600 mil votos, lhe deram a imunidade parlamentar para permanecer no país. Residindo em Lima, mantém até hoje uma atividade incansável, dando conferências por toda a América Latina, participando em eventos mundiais de direitos humanos e mantendo no seu site Lucha Indígena, uma bandeira permanente em defesa dos povos e nações indígenas da América e do mundo.

Ainda que a história oficial tenha deformado sua imagem, Hugo Blanco, como político, nunca defendeu interesses que não fossem dos camponeses e dos operários. Como Antônio Conselheiro, em Canudos, ele construiu no Vale deLa Convenciónum santuário de promissão e liberdade para os deserdados, semeando a coragem para os vencidos e, como Francisco de Assis, ele se fez instrumento da união, do amor, da alegria e da esperança onde havia tanto ódio, tristeza e desespero. Filiado ao Partido Revolucionário dos Trabalhadores, jamais compactuou com coalizões e negociatas inconfessáveis. Propôs a dissolução das Forças Armadas e sua substituição por milícias populares que defendessem a justiça social. Propôs a nacionalização total dos bens estrangeiros que imputaram a indignidade e a miséria aos operários peruanos das regiões serranas. Forçado a trocar a trincheira pela tribuna política, justificou-se aos trabalhadores afirmando que:

 

“Nós participamos destas eleições para demonstrar, entre outras coisas, que não são democráticas, e para organizar o povo e poder continuar na luta. Dizemos ao povo peruano, pela televisão, rádio e jornais, que não confiem que as eleições vão solucionar seus problemas, que somente confiem em sua força.” [19]

 

O FIM DE UM SONHO

 

1. As quatro frentes guerrilheiras de 1965: Puente Uceda, Lobatón,  

    Portocarrero, Fernádez Gasco e Béjar.

 

       Depois que caiu o poeta Javier Heraud em Porto Maldonado e Hugo Blanco foi preso houve um período de dois anos para se avaliar o fracasso guerrilheiro na revolta camponesa no Valle de la Convención em 1963. Contudo, em 1965, outras frentes rebeldes recomeçaram suas atividades militares no Peru. Três delas, vinculadas ao MIR, dividiam as operações em diferentes partes do Peru. Na região de Serra Pelada, na parte oriental do departamento de Cusco, atuava a Guerrilha Pachacutec, dirigida por Luis de la Puente Uceda. A Guerrilha Túpac Amaru, comandada por Guillermo Lobatón e a Guerrilha Manco Capac, chefiada por Elio Portocarrero Rios e Gonzalo Fernández Gasco, atuaram na região central do país. A quarta era a Guerrilha Javier Heraud, vinculada ao ELN, comandada por Héctor Béjar e que atuava na região de Ayacucho. Contudo todo aquele legítimo entusiasmo teve um período fugaz. Em fins de 1965 as quatro frentes já estavam praticamente liquidadas pelo exército e com centenas  de combatentes mortos. Em outubro foi derrotada a guerrilha Pachacutec, caindo seu grande comandante Puente Uceda.[20] A última coluna rebelde a cair foi a guerrilha Túpac Amaru, em 7 de janeiro de 1966,  quando também tombou para sempre seu chefe Guillermo Lobatón. Os únicos comandantes guerrilheiros que sobreviveram foram Héctor Béjar, Elio Portocarrero e Gonzalo Fernández Gasco.

 

Houve, no entanto, um momento em 1965, em que as atividades e avanços das várias colunas guerrilheiras trouxeram preocupação ao exército e pânico à alta burguesia urbana e à oligarquia rural. Seus poderes passaram a pressionar a imprensa reacionária e o governo para ações mais urgentes e táticas contra a guerrilha. Com esse propósito chegaram ao Peru assessores norteamericanos, veteranos do Vietnan, anulando todos os escrúpulos éticos e humanitários que ainda restavam nos militares e propondo novos métodos e propaganda de terror às populações indígenas que apoiassem os guerrilheiros. Em meados daquele ano as guerrilhas  enfrentavam-se em pé igualdade com os efetivos do exército. Os partidos de direita e, pasmem, o próprio APRA, apoiaram as novas medidas de terror de Belaunde Terry, aprovadas, às pressas, no Congresso, transformando meras contravenções e pequenos delitos em longos anos de prisão e pena de morte, com os réus sentenciados por Conselhos de Guerra.

Tal como no Brasil, em 1964, lá a direita também fez uma campanha semelhante ao “Ouro para o bem do Brasil”, com a oligarquia agrária e a burguesia industrial fazendo aprovar leis de emissão de bônus para a “Defesa da Soberania Nacional” arrecadando milhões de soles para contrarestar os sucessos da campanha guerrilheira.

 

2. O terror e o napalm para matar um sonho.

 

A campanha de terror atingiu as famílias dos guerrilheiros, cujas esposas foram presas e mantidas em cárceres até ao fim das operações militares, caracterizando como crime ser esposa de guerrilheiro.

Não faltou o fator psicológico nessa guerra suja que acabou trazendo o pânico aos humildes camponeses indígenas, já historicamente tão traumatizados. Os assessores americanos propuseram, e os bombardeios com napalm não só incendiaram vastas áreas guerrilheiras de florestas, mas arrasaram milhares de hectares em regiões suspeitas de apoiar a guerrilha, habitadas e cultivadas por camponeses, queimando plantações, aldeias, rebanhos e vidas humanas. Nessa guerra de extermínio oito mil camponeses foram massacrados e um número ainda maior de indígenas foram presos e torturados como supostos cúmplices da guerrilha. Trezentos guerrilheiros caíram em combate ou foram torturados até a morte. Os militares peruanos inauguram em 1965 afase mais cruel da história contemporânea da América Latina, seguidos pelas tantas ditaduras do continente, que também contaram com a consultoria de terror dos assessores norte-americanos que, no “bom exemplo” de Daniel Mitrione, produziram, do Uruguai à Guatemala, dores e lágrimas inimagináveis. [21]  Chama-se Alejandro Sierralta o general do exército peruano que comandou, nos Andes Centrais do Peru, essa guerra cruel e covarde de peruanos contra peruanos, de militares bem armados contra camponeses indefesos e jovens idealistas.

 

Foi um sonho? Sim…, foi um sonho apenas! As guerrilhas peruanas, ao lado das guerrilhas gualtematecas, na década de 60, foram dos mais belos ideários sociais do continente. Que mais belo gesto legitima a liberdade senão o direito de sonhar, quando esse sonho é sublimado pela redenção dos humilhados e vencidos? Os guerrilheiros peruanos eram jovens intelectuais bem formados, muitos deles filhos de famílias abastadas, que negaram seus privilégios e, sem nenhum outro interesse, que não fosse a justiça social para o seu povo, semearam a própria vida sonhando com uma aurora de espigas e de frutos para os famintos e esquecidos. Sonharam, nos mesmos anos em que sonharam Ho Chi Mihn e Che Guevara, num tempo em que as sementes prometiam uma primavera de pão e a liberdade para os povos oprimidos do mundo.

 

Foi um sonho? Sim…, foi um sonho, entre tantos os que sonharam e cantaram seus anseios de justiça nos grandes impasses da história da humanidade. Aqui, na América,  por esse sonho cantaram também os poetas e, entre tantos, Marti, Neruda, Castro Alves e caíram, ao longo de quinhentos anos,  Lautaro, Capolicán, Túpac Amaru, Tiradentes, Sandino, o “CHE” e eu quisera nominar aqui todos os bravos. Foram tantos em tantas pátrias, mas nesse transe cruel da história peruana, além dos bravos que caíram em 1965, eles chamam-se José Maria Arguedas, Hugo Blanco e Javier Heraud. Três almas que partilharam, no mesmo sonho, o sonho de todos os peruanos justos. Que sonharam com a redenção dos vencidos numa sociedade marcada pelo desprezo e a voracidade. Três idealistas, três ovelhas no meio de lobos. A pureza e a dignidade contra a ambição e a crueldade. Contudo os idealistas  justificam-se a si mesmos. Seu destino é sublimado pela obstinação e o despojamento, a despeito da indiferença e da inconsciência humana. Suas bandeiras de luta e o que escreveram e escrevem, sinalizam os caminhos da esperança, porque eles apenas sabem semear. Os frutos somente são colhidos pelos filhos do amanhã, porque os sonhadores não florescem nem cabem na época em que viveram.  Eles são os viandantes de um tempo mágico além da vida e da morte. Transitam na imortalidade e na memória imperecível dos povos. Seu sangue é a seiva do futuro, porque sempre ousarão viver o presente com toda a intensidade. Sua existência é um apostolado feito de fé e compromisso, uma trajetória de glória e sofrimento. Como Prometeu, eles surgem na encruzilhada dos tempos para entregar aos homens a chama do amor e da esperança. Nascem predestinados para a luta, para “combater o bom combate”. Vivem para iluminar o caminho da história ensinando o sabor da liberdade e da justiça e, como todos os apóstolos da redenção humana, eles “são o sal da terra e a luz do mundo.


[1] Esse artigo integra o enredo de um livro que o autor está escrevendo sobre os anos que passou na América Latina , nas décadas de 60/70. O presente texto é parte do capítulo: Arguedas, Blanco e Heraud – Três almas entrelaçadas pelo mesmo sonho.  As partes referentes ao escritor José María Arguedas e ao poeta Javier Heraud,  já foram publicadas neste site. As notas e traduções são do autor.

[2] O massacre de El Frontón (135 senderistas mortos) e de Lurigancho (124 senderistas executados um a um com uma bala na nuca, depois de se renderem) no dia 18 de junho de 1986, amotinados por melhores condições carcerárias, bem como os crimes inomináveis cometidos pela Ditadura argentina entre 1976 e 1983 são as manchas mais negras na história das lutas libertárias do século passado, na América do Sul. Na Argentina, muitos dos carrascos da Ditadura foram condenados à prisão perpétua e entre eles o ex-general Jorge Rafael Videla, tristemente célebre pelo seu rosário de crueldades. Contudo Allan García e seus cúmplices continuam impunes, assim como continuam impunes os carrascos da ditadura brasileira. Sabe-se que o caso do bárbaro assassinato dos militantes de Sendero Luminoso em 1986 não está encerrado e que a Corte Interamericana de Direitos Humanos declarou o massacre de El Frontón como um crime contra a humanidade e, por isso mesmo, imprescritível.

 

[3] http://desacato.info/2010/11/carta-aberta-de-hugo-blanco-a-mario-vargas-llosa/

“El premio Nóbel entregado a usted representa um golpe más del liberalismo a las poblaciones indígenas, ya que dificilmente podrá encontrarse mayor enemigo de ellas que su persona”

 

[4] O APRA, movimento político de centro-esquerda fundado em 1924 pelo peruano Victor Haia de la Torre quando do seu exílio no México, baseava sua doutrina numa visão geo-política estritamente cultural, regional e indo-americanista, abrangendo, no seu início vários países do Continente e dando origem a importantes organizações políticas como o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), na Bolívia, o Partido Socialista do Chile (PS), a Ação Democrática (AD), na Venezuela, entre outras. Com a bandeira da Justiça Social com Pão e Liberdade e uma visão crítica do marxismo europeu propunha uma teoria estritamente continental para o processo revolucionário. Acabou restrito ao populismo do PAP (Partido Aprista Peruano), abdicando da sua postura anti-imperialista e, a despeito da sua antiguidade como partido político, tanto no Peru como na América, conseguiu finalmente chegar ao poder em 1985 e em 2006 eleger Alan García, o mais  ilustre ( e cruel) discípulo de Haya dela Torre.

 

[5] BLANCO, Hugo. Terra ou Morte. Editora Versus. São Paulo, 1979, trad. Omar de Barros Filho, p. 81.

 

[6] BLANCO, Hugo. Op. Cit.,  p. 76.

 

[7] O Peru era naqueles anos o paraíso das grandes empresas pesqueiras, petroleiras e mineiras norteamericanas, e entre estas a tristemente célebre Cerro de Pasco Corporatión, cujo perfil já delineamos anteriormente, neste livro.

 

[8] A Revolução de 1932em El Salvador foi um caso raro e único de um  movimento de massa, integrado num processo  guerrilheiro, dirigido por um partido comunista latinoamericano. Farabundo Martí, que foi seu fundador, participou, ao lado de Sandino, da luta guerrilheira contra a ocupação da Nicarágua pelos Estados Unidos.

 

[9] Na Bolívia, em 1951, Victor Paz Estenssoro, com uma campanha contra a oligarquia e o imperialismo, vence as eleições para presidente, mas os militares negam sua posse, dão o golpe e assumem o poder. No ano seguinte os mineiros de Oruro se rebelam exigindo a posse de Paz Estenssoro. Marcham sobreLa Paz, juntam-se aos camponeses e derrotam sete exércitos. Paz Estenssoro assume seu mandato, mas o país fica sobre o controle dos mineiros e camponeses, que criam a Central Obrera Boliviana (COB),  e mantêm-se mobilizados em defesa da Revolução com uma poderosa milícia de 100.000 homens dirigida sobretudo por trotskistas.

 

[10] Um dos documentos mais antigos, na América Latina, de adesão ao trotskismo são as Teses de Pulacayo, aprovadas num congresso de trabalhadores mineiros bolivianos em novembro de 1946, na mina de Pulacayo.  Redigidas por Guillermo Lora, eram uma adaptação do Programa de Transição da IV Internacional e propunham um programa de ação político-revolucionária para a independência econômica nacional e a plena vivência democrática como parte dos caminhos para o estado socialista. Usadas como motivação programática na Revolução de 1952-53 e notórias pelo espírito de vanguarda revolucionária que sempre caracterizou o proletariado boliviano, sua referência histórica e seu conteúdo são celebrados e seguidos ainda na atualidade.

 

[11] Idem.  p. 83, 86 e 89.

 

[12] Idem.  p., 91-92

[13] Data deste ano de 1962  as primeiras “desapropriações de bancos” na América Latina. Neste caso para angariar fundos e compra de armas para as milícias camponesas de Hugo Blanco, cuja ação foi comandada pelo trotskista Daniel Pereyra, conhecido como “Che Pereyra”.

 

[14] Idem.  p. 97

 

[15] Como atestam  tantos ensaios, artigos e documentos, os interesses  dos partidos comunistas da América Latina, ao longo de quase todo o século XX,  variavam conforme variavam os interesses de Moscou, quer fosse quanto aos paradigmas da natureza da revolução, quer em relação à sua tolerância quanto ao imperialismo norteamericano, conforme a conveniência dos pactos e acordos feitos pela URSS, sobretudo na Segunda Guerra Mundial, ora com os EUA contra a Alemanha, ora com a própria Alemanha ( pacto Molotov-Ribbertrop). Essa flutuação era sobretudo evidente na Argentina e no México, onde o ódio dos comunistas pelo trotsquismo era visceral. A corrente estalinista ditava o comportamento marxista na América Latina e poucos se arriscavam a ter uma visão crítica do que acreditavam ser os verdadeiros ideais do comunismo, com exceção, obviamente, dos partidários do trotsquismo, que eram acusados de “provocadores” e no passado, que ironia, de “agentes do fascismo”.

 

[16] Ibidem.,  p. 86.

[17] Idem,  p. 112

 

[18] Longe de mim julgar aqui o gesto de um escritor premiado, intelectual  brilhante  e a bravura guerrilheira de um homem que empenhou a vida para defender um sonho, como foi o caso de Héctor Béjar. Contudo é indispensável registrar que os mesmos militares que derrubaram Belaúnde, em 1968 foram os mesmos que, em 1965 sob sua autoridade, liquidaram os movimentos guerrilheiros dos quais Béjar foi um dos comandantes, bem como arrasaram com napaln várias comunidades indígenas que apoiavam a guerrilha. É claro que entre os generais houve algumas honrosas exceções, e entre eles Leónidas Rodrigues Figueroa, um mestiço de origem quíchua, nascido em Cuzco, que defendia com unhas e dentes a condição do camponês indígena e o direito às terras que lhes foram tomadas, como já anotei anteriormente nesta obra.

 

[19] BERARDO, João Batista. Guerrilhas e Guerrilheiros no Drama da América Latina. São Paulo, Edições Populares. 1981, p. 178.

 

 

[20] Luis deLa Puente Uceda, o mais ilustre dissidente de esquerda do aprismo, era o mais preparado, entre os intelectuais de origem burguesa que lideraram as guerrilhas peruanas, onde não houve lideranças proletárias. Esteve em Cuba e na Europa e preparou-se para um longo período guerrilheiro, priorizando a politização a longo prazo dos camponeses. Achava que a luta armada era o único caminho para convocar a juventude e redimir o indígena peruano. Caiu num aguerrido combate em 23 de outubro de 1965, depois do estratégico cerco de Serra Pelada pelo exército, e seu corpo jamais foi encontrado.

[21] Leia neste link alguns detalhes de quem foi Daniel Mitrione e também uma amostra do que foi a tortura sofrida pelos revolucionários brasileiros naqueles anos, no eloquente exemplo de Virgílio Gomes da Silva, já citado anteriormente nesta obra.

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2010/01/26/o-poeta-manoel-de-andrade-comenta-sobre-a-extradicao-de-militar-torturador-curitiba/

 

 

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