Arquivos Diários: 26 setembro, 2011

Aplicativo para celular promete descobrir se seu filho é gay / paris

Segundo organização LGBT, questionário reforça estereótipos

Mães em dúvida sobre a sexualidade do filho podem recorrer à tecnologia. Pelo menos, é o que promete um aplicativo francês para smartphone.

Por 99 centavos de Euro — pouco mais de R$ 2,50 —, é possível saber “se tudo vai bem e em ordem com seu filho”, diz a descrição numa loja virtual. Após preencher um questionário, a mãe deverá ter a resposta para “a pergunta que vem fazendo a si mesma por talvez muito tempo”.

As questões abordam temas que supostamente indicariam a preferência sexual de um rapaz, como o gosto por esportes, os hábitos de beleza e se ele é fã da cantora Mylène Farmer, uma espécie de Madonna francesa.

O controverso aplicativo também pergunta se a mãe é divorciada, insinuando que a ausência de uma figura paterna pode levar à homossexualidade do filho.

Caso o teste indique heterossexualidade, a mãe recebe uma mensagem de parabéns:

— Você não tem com que se preocupar, seu filho não é gay. Você tem uma boa chance de se tornar avó.

Para questionários que indiquem homossexualidade, a mensagem diz:

— Não seja cega. Ele é gay! ACEITE! Ele gosta de garotos tanto quanto você gosta de homens.

Controvérsia

Em comunicado, a Federação LGBT da França afirmou que o aplicativo apresenta uma visão simplista, caricata e degradante da homossexualidade masculina. O porta-voz da organização, Stéphane Corbin, disse ao site Rue89 que, ao reforçar estereótipos e preconceitos, o questionário contribui para a homofobia.

O criador do aplicativo, Christophe De Baran, justificou que as perguntas não passam de uma brincadeira. Segundo ele, o objetivo é tirar a carga dramática da situação e ajudar as mães a aceitarem a homossexualidade de seus filhos.

net.

CONVERSA DE CACHORROS – por olsen jr / ilha de santa catarina

“Sou um vira-latas. Já me acostumei com o nome. O que quer dizer isto? Que não tenho pedigree. Sou o resultado de um sem número de cruzamentos sem

qualquer outra orientação que não o instinto. A exemplo de um herói brasileiro, aquele que não tinha caráter, isto me empresta uma certa distinção. Quer dizer não ter um estilo também é um estilo. Estou há dois dias sem comer, lembro disso enquanto vou trotando por esta calçada, neste bairro nobre da cidade. Espere, nunca vi isto aqui antes. Por que aqueles meus parentes estão lá do outro lado da tela de arame. Estranho. Vou latir para eles. O que vocês estão fazendo, presos? “Não sei”, responde um deles, o mais forte, um Bulldog de pelagem brilhante, concluindo “sempre estivemos aqui”. Lembrei da minha fome e perguntei: o que vocês comem aí dentro? “Estas pastilhas em forma de biscoitos e que chamam de ração”, interfere um Beagle, querendo fazer parte da conversa. Mas é só isso, então? Nem um ossinho de costela, um naco de carne de picanha com uma pontinha de gordura? “O que é osso? O que é picanha? O que é gordura?”, fala aos trancos um Dobermann. Levaria muito tempo para explicar e estava curioso em conhecer mais sobre aquela vida ali dentro. O que fazem durante o dia? Eles pareciam estar preparados para responder, todos falaram ao mesmo tempo e deduzi que, fora o ensinamento de dar a pata dianteira para o dono ou tratador, ou então, pular por dentro de um círculo de metal pendurado num suporte de ferro, ou então arreganhar os dentes para atemorizar os incautos, o que mais faziam era andar dali para cá, de cá para lá, mostrando sempre os pêlos bem escovados e reluzentes, puro exibicionismo, penso, gratuito. Vocês namoram? Fazem sexo? Eu queria saber tudo, mas era inútil, pareciam filhotes crescidos. Eram leigos nos assuntos da vida, viviam uma supra-realidade, limpa, higiênica, bonita, metódica, disciplinada, um mundo só deles. Vocês nunca pensaram em sair daí, em ser livres? Grito antes de ir embora a tempo de ouvir um Collie desdenhando a sugestão “ser livre implica em correr riscos, ser dono do próprio nariz impõe muita responsabilidade e aqui dentro temos tudo”… saio rápido, olhando para os lados com medo da carrocinha, o mundo inteiro para descobrir e a iniciativa para fazê-lo quando bem entendesse. Agora, por exemplo, iria até a casa do poetinha, na Lagoa, onde sempre tinha uns ossos guardados do último churrasco, pena que não houvessem mais “ poetinhas”, e a vida seria bem melhor, mais intuição e menos razão, é o que, afinal, estou fazendo agora.

 

OLSEN JR é membro da Academia Catarinense de Letras.