CONVERSA DE CACHORROS – por olsen jr / ilha de santa catarina

“Sou um vira-latas. Já me acostumei com o nome. O que quer dizer isto? Que não tenho pedigree. Sou o resultado de um sem número de cruzamentos sem

qualquer outra orientação que não o instinto. A exemplo de um herói brasileiro, aquele que não tinha caráter, isto me empresta uma certa distinção. Quer dizer não ter um estilo também é um estilo. Estou há dois dias sem comer, lembro disso enquanto vou trotando por esta calçada, neste bairro nobre da cidade. Espere, nunca vi isto aqui antes. Por que aqueles meus parentes estão lá do outro lado da tela de arame. Estranho. Vou latir para eles. O que vocês estão fazendo, presos? “Não sei”, responde um deles, o mais forte, um Bulldog de pelagem brilhante, concluindo “sempre estivemos aqui”. Lembrei da minha fome e perguntei: o que vocês comem aí dentro? “Estas pastilhas em forma de biscoitos e que chamam de ração”, interfere um Beagle, querendo fazer parte da conversa. Mas é só isso, então? Nem um ossinho de costela, um naco de carne de picanha com uma pontinha de gordura? “O que é osso? O que é picanha? O que é gordura?”, fala aos trancos um Dobermann. Levaria muito tempo para explicar e estava curioso em conhecer mais sobre aquela vida ali dentro. O que fazem durante o dia? Eles pareciam estar preparados para responder, todos falaram ao mesmo tempo e deduzi que, fora o ensinamento de dar a pata dianteira para o dono ou tratador, ou então, pular por dentro de um círculo de metal pendurado num suporte de ferro, ou então arreganhar os dentes para atemorizar os incautos, o que mais faziam era andar dali para cá, de cá para lá, mostrando sempre os pêlos bem escovados e reluzentes, puro exibicionismo, penso, gratuito. Vocês namoram? Fazem sexo? Eu queria saber tudo, mas era inútil, pareciam filhotes crescidos. Eram leigos nos assuntos da vida, viviam uma supra-realidade, limpa, higiênica, bonita, metódica, disciplinada, um mundo só deles. Vocês nunca pensaram em sair daí, em ser livres? Grito antes de ir embora a tempo de ouvir um Collie desdenhando a sugestão “ser livre implica em correr riscos, ser dono do próprio nariz impõe muita responsabilidade e aqui dentro temos tudo”… saio rápido, olhando para os lados com medo da carrocinha, o mundo inteiro para descobrir e a iniciativa para fazê-lo quando bem entendesse. Agora, por exemplo, iria até a casa do poetinha, na Lagoa, onde sempre tinha uns ossos guardados do último churrasco, pena que não houvessem mais “ poetinhas”, e a vida seria bem melhor, mais intuição e menos razão, é o que, afinal, estou fazendo agora.

 

OLSEN JR é membro da Academia Catarinense de Letras.

Anúncios

2 Respostas

  1. Jorge, prezado, salve!
    Acredito que você tenha razão… Às vezes me sinto assim, meio desgarrado do rebanho, mas como as escolhas que fazemos na vida, sartrianamente falando, são voluntárias e livres, esta liberdade compensa qualquer outro desvario (incompreensão, desprezo… Enfim…)…Abração!

  2. Olsen, artista avulso e cachorro vira-lata são da mesma espécie, não? Ou estarei enganado? Se não for assim a sua crônica os aproxima. A isto Baudelaire chamaria de prosa poética. E tem gente que gostaria de classificar os vira-latas de “espécie em extinção”!
    Três latidos para você.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: