ENOMIS – por jorge lescano / são paulo

Era uma vez um príncipe almejado por todas as donzelas, porém seu grande e verdadeiro amor chamava-se Enomis, e tanto amor lhe vinha não apenas do nome, que significa “a de olhar gentil”, mas também do ouro, um dos seus muitos atributos.

Engana-se quem pense que o metal deslumbrava a mente do mancebo e não a sua beleza ebúrnea.

Erra quem acredite que o amor ao ouro é indignidade. Os que cobiçam ouro para com ele comprar prazeres e poder, não amam em verdade o ouro e sim aqueles prazeres e o poder. O fascínio do ouro não os toca, esbanjam-no qual tagarela as palavras.

Não estava neste caso o príncipe, que com ele se engalanava cada manhã, após as abluções e até na cabeleira espargia uma fina camada do metal precioso. Cintilava o ouro sobre a testa régia, dir-se-ia, do sol, um suave orvalho.

Tal hábito sagrado diferenciava os seres de alta estirpe do resto dos mortais, distinguia-se deste modo o jovem cavalheiro, tanto do campônio rude, quanto do mais erudito cortesão.

Como vedes, de Enomis não poderia desejar o ouro e sim seu puro encanto.

Enomis era, contudo, uma vestal. Sacerdotisa devotada a um vasto culto no qual, após a iniciática cerimônia, onde confluíam duas primaveras, aos astros nunca mais mostrar-se-ia. Viveria, daí por diante, vestida somente pela longa cabeleira. Nada decorava o aposento da reclusa. Imaginava-se, no entanto, que tênues esculturas de vapor perfumavam devagar a cela, por cujo chão marmóreo deslizavam os pés nus.

Existia invisível. Do claustro não vazava sequer a voz de brisa, de castidade era o voto, e de silêncio, e de nunca elevar os olhos para o altar.

Definhava o mancebo em meio a riquezas incontáveis. Ocultava-se na alcova, submerso em melancólica penumbra, pois nem o supremo bem da liberdade o atraia.

Da harpa, as mãos, languidesciam. Temendo ecos de uma voz perdida, as cordas não mais ousava dedilhar. Pesadas cortinas o isolavam da campina circundante. Morriam nas pregas do veludo os trinados e o brilhar do sol, e a lua, menos sutil que Enomis, da presença do amoroso foi banida.

Estórias como esta não tem fim, e mesmo seu final parece incerto.

 

  (Cala-se o venerável bardo e empunha seu cajado. Vá-se.)

 

2 Respostas

  1. Parabéns…
    Sensibilidade aflorada em uma estória profunda, simples e direta.

    És muito feliz….

    És um excepcional escritor…

  2. Não há como deixar de vir aqui louvar a beleza, a poesia e o encantamento, fundamento e fundamente presentes neste teu texto, caro Jorge Lescano.

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