Arquivos Diários: 5 outubro, 2011

Como Água para Chocolate – por mônica benavides / curitiba

Como Água para Chocolate – Um livro/filme de receitas; para aprender a preparar comida, amor e lágrimas

 

O realismo fantástico é um gênero literário, que se desenvolveu principalmente na América Latina, e que encontrou aqui os seus expoentes máximos, gênios como García Marquez e Isabel Allende, de quem todos, (independente de amarem a leitura ou não), ou já ouviram falar ou já folhearam um livro na estante de uma livraria, banca de jornal ou farmácia (incrível, mas fato, hoje em dia se vende de tudo na farmácia menos remédios. Para esses, eles só aceitam um acordo financeiro que contemple sua assinatura em sangue sobre um contrato, no valor equivalente ao de uma alma em boas condições).

 

Bem, voltando; com certeza você já ouviu falar dos dois, blá, blá, blá… e não me delongarei no assunto. O que importa é que talvez, e digo chorando por você, infelizmente talvez, você não saiba que existe uma senhora mexicana, representante desse gênero que é um verdadeiro deleite. Seu nome: Laura Esquivel.  Essa mulher teve a ousadia de juntar o realismo fantástico com a cozinha ficção. O resultado?  Um cozido quente, com molho grosso e cheiroso; diria que opulento.

 

E eu fiz questão de falar desse livro, porque sei que muitas pessoas odeiam ler e que o cinema lhes vão em socorro para que conheçam adaptações das obras mestras da literatura,  consequentemente, conheçam as melhores histórias que a humanidade já inventou e contou. Na minha opinião, em noventa por cento dos casos de forma lamentável e criminosa. Quer um exemplo? Olha o que fizeram com o Germinal do Zolá… mas deixa essa história para outro dia.

 

Bem, voltando novamente (não sei porque, mas hoje estou tergiversando além do normal), Laura Esquivel é mexicana, tem um livro maravilhoso de estréia, perfeito representante do realismo fantástico latino americano, o dito é um deleite para quem ama cozinha (fiz duas receitas entremeadas na história e digo: elas dão certo), e que faz parte dos dez por cento restantes, que incluo nas adaptações cinematográficas aceitáveis, e digo até… MUITO bem feitas.

 

O filme é fiel à história, aos personagens, e o mais importante, mantem íntegro o clima do livro; romance, drama e intensa perplexidade.

 

Bem, quem não viu e não leu, pare de ler agora. Depois daqui começam os spoilers.

 

Como água para chocolate, é antes de tudo uma história de várias gerações (uma das características marcantes desse gênero literário), um romance com pitadas de melodrama (olha aí a segunda), e uma história povoada com o pó de ouro e a riqueza dos mitos e lendas de uma região (pronto está aí a terceira), além disso, entremeia a narração com fatos absurdos, que contrariam totalmente as leis da física e que se aproximam mais da ficção científica que dos documentários do Discovery Channel (pronto aí está a quarta e derradeira).

 

O livro e consequentemente o filme, contam a história de amor de Pedro e Tita e a história de ódio de Mamãe Elena. Mas o mais importante é que o livro, e graças ao cuidado com o roteiro e a fotografia, o filme; nos transportam para o mundo da cozinha de uma casa mexicana, com seus cheiros, sabores, suores e lágrimas.

 

O livro e o filme, apresentam cada capítulo da história com uma receita especial, lida por uma tataraneta de Tita, que é a narradora principal. Essa história guarda em si cenas belíssimas, que mostram como o cozinhar e o amar caminham juntos, desde que a primeira mulher das cavernas, assou um pedaço de caça para impressionar o homem que amava. As perdizes feitas por Tita utilizando as rosas destruídas, são a mais bela expressão de amor que já vi. Assim como o bolo misturado com as lágrimas de sua dor, mostram como a alma de alguém, quando torturada ao seu limite, pode causar desarranjos nas idéias impostas por outros.

 

O filme é lindo, a atriz mexicana Lumi Cavazos está fantástica no papel, mas perde muito para a soberba interpretação de Regina Torné como Mamãe Elena (ela realmente nos faz querer matá-la). Quanto ao erotismo é bem dosado, sem apelação e a cena de consumação (no sentido literal, afinal eles se consomem pelo fogo), do amor dos dois é belíssima.

 

Digo sempre a quem quer ouvir e a quem não quer também, que leia o livro antes de ver o filme, mas nesse caso digo com mais ênfase, porque aqui o prazer será maior, você verá que as descrições que te levam a criar os cenários da autora na cabeça se descortinaram na tela.

 

Será como ter uma revelação. Uma experiência, em que você verá sua imaginação praticamente transportada para o filme. Esse efeito é conseguido porque o diretor Alfonso Arau foi detalhista e cuidadoso. Fiel completamente aos cenários e aos personagens de Esquivel.

 

Esse livro e esse filme são jóias valiosas e um tanto discretas, como aquelas tabernas nos porões de casas simples em cidadezinhas européias da França ou da Espanha. Você entra receoso, porque são menos famosos do que deveriam (somente se conhece por indicação pois não constam em guias), mas sai maravilhado e saudoso, porque guardam em si um universo de sabores surpreendentes. E isso, é importante dizer, é muito mais do que se pode dizer de diversos pratos, servidos nos mais famosos restaurantes.

 

CASO E DESCASO – de jorge lescano / são paulo


 

CASO

Uma dupla de HOMOSSEXUAIS foi agredida na Avenida Paulista no último fim de semana. O fato está na moda. Os repórteres acompanham o movimento da investigação. Os jornalistas esperam que este não seja mais um caso de DISCRIMINAÇÃO impune. Ótimo! Ninguém gosta de ser agredido gratuitamente.

 

DESCASO

No interior de São Paulo (não guardei o nome da cidade porque a notícia não foi reprisada) o FILHO de um VEREADOR agrediu e ameaçou verbalmente um CAMINHONEIRO NEGRO. Este, na sua santa inocência pediu a intervenção policial. A polícia chegou e ELE (só ele) foi levado para a delegacia. O CIDADÃO perguntou por que só ele estava sendo conduzido ao distrito policial. Resposta: cumprimos ORDENS SUPERIORES (!?). O VEREADOR, seu FILHO e sua NAMORADA ou esposa foram embora tranquilamente, não sem antes entrar numa loja de conveniências e comprar cigarros e uma lata de cerveja.

           

CONCLUSÃO (?)

No Caso se procuram os agressores e se supõe ou espera que sejam punidos. No Descaso se tem o agressor e não se espera que haja punição por “Ordens Superiores”. À discriminação social e racial do Caminhoneiro se soma a Discriminação Jornalística, que noticiou uma vez e esqueceu o assunto. Coisa de somenos que não merece manchete, especialmente quando no interior se produz uma tragédia por questões financeiras em família tradicional.

            Assim marcha a Democracia Compulsiva. VIVA! 

CIDADÃO COMUM – por olsen jr / ilha de santa catarina



   Indague para qualquer pessoa quando ela estiver “down” (como dizem lá na matriz) o que é necessário para alguém ser feliz? Você ficará surpreso com as respostas. A maioria dirá que se precisa de pouco: salário, carro, um “cantinho” para chamar de seu…  E até aquela ex-modelo no alto da experiência de seus 21 anos afirmando que “se estou apaixonada moro até embaixo da ponte”.

Curioso é que “Ela”, esta “felicidade”, sempre vem associada a um “ter” qualquer, como no exemplo, mas nunca a um “ser ”que poderia ser compartilhado. O fato é que este estado de espírito ou de “alheamento” se preferirem, precisa de uma sustentação (evito falar em dinheiro) porque não há paixão que resista a ausência de condições materiais… A moçoila que no dizer do Cartola “Mal começaste a conhecer a vida”, apesar do romantismo implícito, está condenada.

Uma vida é composta de momentos, do somatório deles… Juntando-se aí, bons e maus… O enfrentamento de ambos com a nossa capacidade esgrimir com situações antigas e novas… O colorido pode (ao menos deveria) estar nos detalhes, o sorriso, um afago, aquele abraço, no aperto de mão, na empatia sincera de se por no lugar do outro no momento do desamparo e na valorização do que cada ser é… Porque ninguém é bom o tempo todo e poucos são ruins sempre.

Há alguns momentos em que você consegue reconciliar-se com a própria natureza e a outra, uma enlevação interior plena a ponto de dizer “o mundo poderia acabar agora e estaria bem” mesmo sabendo que tal fato poria um fim àquela plenitude. Esta conjunção existencial que possibilita o êxtase pode ser construída, requer para tanto uma consciência sem a qual o ato em si não faz sentido. Não se trata de conformismo, mas de uma trégua ou um armistício com a vida.

Reconhecer estes momentos quando se compartilha deles em grupo é uma arte. Na família se pode constatá-los com maior frequência. Mesmo nas altercações porque todas as pessoas trazem dentro de si uma fera que está encarcerada e que sem o perceber vamos alimentando enquanto vivemos. Um animal que se contenta com pouco. Tudo o que vamos sublimando durante a nossa existência lhe serve: o ódio, rancores, egoísmos e uma memória que não permite o arrefecimento dos sentidos e quando uma realidade reproduz a situação que lhes engendrou, é como abrir a jaula e a fera toma conta… Poderíamos domá-la fazendo com que esta animália se tornasse uma companheira de jornada e não uma algoz… Bastaria que assumíssemos as fragilidades humanas (que nos distinguem dos outros bicho na natureza) que todos carregamos e (só que ao contrário deles) ainda podemos continuar procurando, quem sabe “Ela” (não a fera), a tal felicidade, esteja por aí a espreita para nos poupar de novas buscas?

 

OLSEN JR é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.