Como Água para Chocolate – por mônica benavides / curitiba

Como Água para Chocolate – Um livro/filme de receitas; para aprender a preparar comida, amor e lágrimas

 

O realismo fantástico é um gênero literário, que se desenvolveu principalmente na América Latina, e que encontrou aqui os seus expoentes máximos, gênios como García Marquez e Isabel Allende, de quem todos, (independente de amarem a leitura ou não), ou já ouviram falar ou já folhearam um livro na estante de uma livraria, banca de jornal ou farmácia (incrível, mas fato, hoje em dia se vende de tudo na farmácia menos remédios. Para esses, eles só aceitam um acordo financeiro que contemple sua assinatura em sangue sobre um contrato, no valor equivalente ao de uma alma em boas condições).

 

Bem, voltando; com certeza você já ouviu falar dos dois, blá, blá, blá… e não me delongarei no assunto. O que importa é que talvez, e digo chorando por você, infelizmente talvez, você não saiba que existe uma senhora mexicana, representante desse gênero que é um verdadeiro deleite. Seu nome: Laura Esquivel.  Essa mulher teve a ousadia de juntar o realismo fantástico com a cozinha ficção. O resultado?  Um cozido quente, com molho grosso e cheiroso; diria que opulento.

 

E eu fiz questão de falar desse livro, porque sei que muitas pessoas odeiam ler e que o cinema lhes vão em socorro para que conheçam adaptações das obras mestras da literatura,  consequentemente, conheçam as melhores histórias que a humanidade já inventou e contou. Na minha opinião, em noventa por cento dos casos de forma lamentável e criminosa. Quer um exemplo? Olha o que fizeram com o Germinal do Zolá… mas deixa essa história para outro dia.

 

Bem, voltando novamente (não sei porque, mas hoje estou tergiversando além do normal), Laura Esquivel é mexicana, tem um livro maravilhoso de estréia, perfeito representante do realismo fantástico latino americano, o dito é um deleite para quem ama cozinha (fiz duas receitas entremeadas na história e digo: elas dão certo), e que faz parte dos dez por cento restantes, que incluo nas adaptações cinematográficas aceitáveis, e digo até… MUITO bem feitas.

 

O filme é fiel à história, aos personagens, e o mais importante, mantem íntegro o clima do livro; romance, drama e intensa perplexidade.

 

Bem, quem não viu e não leu, pare de ler agora. Depois daqui começam os spoilers.

 

Como água para chocolate, é antes de tudo uma história de várias gerações (uma das características marcantes desse gênero literário), um romance com pitadas de melodrama (olha aí a segunda), e uma história povoada com o pó de ouro e a riqueza dos mitos e lendas de uma região (pronto está aí a terceira), além disso, entremeia a narração com fatos absurdos, que contrariam totalmente as leis da física e que se aproximam mais da ficção científica que dos documentários do Discovery Channel (pronto aí está a quarta e derradeira).

 

O livro e consequentemente o filme, contam a história de amor de Pedro e Tita e a história de ódio de Mamãe Elena. Mas o mais importante é que o livro, e graças ao cuidado com o roteiro e a fotografia, o filme; nos transportam para o mundo da cozinha de uma casa mexicana, com seus cheiros, sabores, suores e lágrimas.

 

O livro e o filme, apresentam cada capítulo da história com uma receita especial, lida por uma tataraneta de Tita, que é a narradora principal. Essa história guarda em si cenas belíssimas, que mostram como o cozinhar e o amar caminham juntos, desde que a primeira mulher das cavernas, assou um pedaço de caça para impressionar o homem que amava. As perdizes feitas por Tita utilizando as rosas destruídas, são a mais bela expressão de amor que já vi. Assim como o bolo misturado com as lágrimas de sua dor, mostram como a alma de alguém, quando torturada ao seu limite, pode causar desarranjos nas idéias impostas por outros.

 

O filme é lindo, a atriz mexicana Lumi Cavazos está fantástica no papel, mas perde muito para a soberba interpretação de Regina Torné como Mamãe Elena (ela realmente nos faz querer matá-la). Quanto ao erotismo é bem dosado, sem apelação e a cena de consumação (no sentido literal, afinal eles se consomem pelo fogo), do amor dos dois é belíssima.

 

Digo sempre a quem quer ouvir e a quem não quer também, que leia o livro antes de ver o filme, mas nesse caso digo com mais ênfase, porque aqui o prazer será maior, você verá que as descrições que te levam a criar os cenários da autora na cabeça se descortinaram na tela.

 

Será como ter uma revelação. Uma experiência, em que você verá sua imaginação praticamente transportada para o filme. Esse efeito é conseguido porque o diretor Alfonso Arau foi detalhista e cuidadoso. Fiel completamente aos cenários e aos personagens de Esquivel.

 

Esse livro e esse filme são jóias valiosas e um tanto discretas, como aquelas tabernas nos porões de casas simples em cidadezinhas européias da França ou da Espanha. Você entra receoso, porque são menos famosos do que deveriam (somente se conhece por indicação pois não constam em guias), mas sai maravilhado e saudoso, porque guardam em si um universo de sabores surpreendentes. E isso, é importante dizer, é muito mais do que se pode dizer de diversos pratos, servidos nos mais famosos restaurantes.

 

Uma resposta

  1. Um filme belíssimo,mesmo. E me trás à lembrança, imediatamente, um outro, europeu ,de idêntico tema, mas, diversa abordagem, o também maravilhoso A FESTA DE BABETTE.

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