Arquivos Diários: 9 outubro, 2011

QUASE COMPLÔ! – por olsen jr / ilha de santa catarina



   Na minha infância quando as “coisas” não iam bem era comum se ouvir a expressão “Quando o circo vai mal até o anão cresce”.  Em outras palavras, quando você imagina que nada mais pode acontecer, ainda assim, alguma coisa acontece… Ah! Quase esqueço e acrescento, para pior!

Parece mentira ou algo de quem possui imaginação, mas a realidade está constantemente competindo com a nossa capacidade criativa. Vejamos, esperei a minha vida toda para encontrar uma “agente literária” (por que somente mulheres se dão bem nesta área é algo para ser discutido outro dia) e, finalmente, quando menos esperava, embora estivesse atento sempre, eis que “ela” se apresenta.

Por e-mail digo da minha satisfação por estar em contato diretamente com ela e gostaria de conversar… Ela me responde afirmando que para não “ficar só na conversa” eu poderia enviar uma coleção dos meus livros para serem avaliados e uma síntese de cada um, assim já ganharíamos tempo…

Apreciei aquela desenvoltura e vou atrás das obras. Algumas (pelo menos três) estão esgotadas e aí me ocorreu procurá-las nos sebos aqui da Capital. Depois de alguns dias, consigo recuperar duas delas e a terceira, pego da minha coleção particular para não atrasar o processo. Junto com as outras quatro, num total de sete, tudo arrumado numa caixa de sedex, anexo uma carta com uma pequena sinopse de cada livro e no dia 09 de outubro de 2011 despacho na agência da Lagoa da Conceição.

No final daquela tarde, celebrando o fato de que só na metade da minha existência (sou um otimista) estava dando, finalmente, um encaminhamento científico para a minha carreira literária, fui celebrar sozinho bebendo um espumante (ver Blog Enoteca Le Pic) e saborear aquele acontecimento.

Não comentei com ninguém porque era apenas o início do que se poderá constituir uma grande parceria.

Na manhã seguinte abro os jornais e me deparo com a Greve dos Correios…   Quase 30 dias depois e a paralisação perdura.

O pessoal do Correio me pergunta (via e-mail) o que penso da greve, respondo:

A “greve” é um direito democrático e estou solidário, espero que desta vez o pleito seja atendido e tudo volte à normalidade… Enviei um sedex (protocolo SZ904391519BR) era algo importante e urgente… Bem a encomenda ainda não foi entregue embora já esteja na cidade do destinatário… Como disse, estou solidário com a Greve, talvez o coletivo deva prevalecer sobre o individual, neste caso, o meu problema é o menor… Sorte para vocês…

Parece um complô… Aconteceu o mesmo com os bancos… Com o Detran, com a saúde, com os professores… Todo mundo fazendo greve simultaneamente… Alguém me alertou, mas tem um lado positivo, ainda bem que a AMBEV é uma empresa privada… Está bem, a boemia está salva, menos mal!

OLSEN JR é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS

Campana vai bem de Isaías – por helio de freitas puglielli / curitiba

Que Fábio Campana escreve bem é uma realidade que só pode ser negada por inimigos explícitos (que ele mesmo diz não serem poucos) e pelos não-declarados (sabe-se lá quantos).

Qualquer crítico isento, que esteja concentrado no texto e não na pessoa, que procure a qualidade literária acima de tudo, não se deixando influenciar por antagonismos de opinião ou desavenças pessoais, terá de chegar necessariamente à conclusão: Fábio escreve bem.

Escrever bem já é mérito inconteste, considerando que muita gente pretenciosa anda por aí barbarizando a língua, não vamos dizer portuguesa, mas a língua de Machado, Lima Barreto e Mário de Andrade, a nossa língua literária, bem brasileira.

E bem brasileiro é o Fabio, não obstante o castelhano tenha ressoado junto ao seu berço e acompanhado seus primeiros passos.

E da língua pulamos para o que realmente interessa. Pois a verdade é que não basta escrever bem. Há quem escreva bem sem dizer nada. Há quem escreva bem sem qualquer forma de identificação, com sua época, com os outros e até sem qualquer identificação ou compromisso consigo próprio. Parte da literatura brasileira contemporânea anda padecendo desse mal, com que muitos não se importam e que, por isso mesmo, tende a se alastrar.

Compreende-se que, depois do surto geral de engajamento liberado pela redemocratização dos anos 80, a literatura brasileira deveria tratar menos de temas ligados ao dramático período de combate à ditadura e à repressão. Mas as letras também não são favorecidas por obras vazias de conteúdo, exercícios de escrita sem nenhuma motivação concreta vinda da sensibilidade de alguém perante o mundo.

O escritor não é obrigado a ser homem de seu tempo, a filtrar nos textos os problemas da vida real e as angústias do contexto histórico. Quando foi obrigado, como na época do “realismo socialista”, formulado por Jdanov e imposto por Stalin, os resultados não foram bons. Mas o escritor tem de insuflar vida ao que escreve, pois o texto pelo texto (ou a arte pela arte, dizia-se antigamente) não se sustenta. “Muitos escritores estão voltando à masturbação”, resumiria grosseiramente o  filósofo da Boca Maldita, se ainda existisse um filósofo na Boca.

Fabio não só escreve bem, mas sente com intensidade tudo o que vem de fora e de dentro de si próprio, ou seja, sua consciência entra em sintonia com os fatos externos e os interioriza para a seguir processá-los na forma de texto. A quem objetar que é sempre assim com qualquer escritor, replicaremos que tudo depende do grau da intensidade, do grau de consciência e do grau de sintonia, além da forma de processamento. Nosso autor, em matéria de todos esses graus, está no alto da escala, ao passo que muitos escritores contemporâneos estão lá embaixo.

E vem vindo em escala ascendente, desde os contos de Restos Mortais e No Campo do Inimigo, passando pela poesia de O Paraíso em Chamas, até chegar aos romances O Guardador de Fantasmas, Todo o Sangue, O Último Dia de Cabeza de Vaca e Ai.

Agora, reúne suas crônicas mais recentes no volume A Árvore de Isaías, colocando-se no nível dos grandes cronistas brasileiros. E, como o Brasil teve e tem bons cronistas, figurar em pé de igualdade com eles é, sem dúvida, uma façanha.

Nosso autor não conquista essa posição apenas com talento. Sua maturidade é fruto de um longo processo existencial, que ele descreve explicitamente na primeira crônica do livro e, aqui e ali, em várias outras.

Parece que só quem sofreu, só quem passou por traumáticas desilusões, quem sobreviveu ao desmoronar de certezas e esperanças, pode agora narrar fatos com lucidez, equilíbrio, firmeza e suave ironia (em alguns textos não tão suave, vale ressalvar).  Como bom jornalista (e o escritor se fortalece com isso), Fabio enfrenta, glosa e transfigura fatos, retalhos do mundo e do seu mundo, suas memórias, seus pensamentos.

Ótimo cronista. E, se na Boca está faltando um filósofo, tudo indica que Curitiba, o Paraná e além-fronteiras estão bem servidos, pois as ressonâncias da filosofia de vida podem (e devem) reverberar na plena autenticidade do texto literário.

O recém-falecido Steve Jobs, gênio da informática. afirmou que trocaria toda a sua tecnologia por uma tarde com Sócrates. Eu troco um monte de livros de intragáveis autores promovidos pela mídia editorial por apenas um volume de um escritor como Campana.

Helio de Freitas Puglielli é jornalista e professor.

Não poema – de omar de la roca / são paulo

Não poema

Fechei meus olhos,para que não te visses neles e recebi com carinho teus beijos não dados.
Abri meus olhos, os teus já fechados,pousei um beijo em cada um com a delicadeza de uma borboleta numa folha, para não te acordar.
Encostei minha mão no teu rosto e não acordastes.
Recolhi a mão,fechei os olhos, senti a mão que voce não colocara em meu rosto e curvei a cabeça para receber o carinho não dado,prendendo tua mão não estendida entre o rosto e o ombro.
Segurei com cuidado tua cabeça,para que não batesse no vidro do ônibus,mas tirei a mão já que abrias os olhos.
E fiquei vendo o teu reflexo bo espelho, enquanto mantinhas os olhos vigilantes, e olhei direto para teu rosto enquanto mantinhas teus olhos fechados.Não, não os abra,quero decorar teu rosto.Sim, abra-os,quero ver de relance a cor de teus olhos enquanto desvio o olhar.São claros ? Não se i.
Tens sono.Fecho meus olhos e te vejo em meus sonhos despertos.Espero estar nos seus,mesmo que misturados com tua vigília.Abro meus olhos.Em tua boca o contorno de um sorriso.Do que te lembrastes? O que fizestes ? Fecho meus olhos e sorrio também.Me lembrei do que fiz? Não.Gravei teu rosto.
Estamos chegando.Sussurro ao teu ouvido,está na hora.Não te dás conta.Espero-te ? Não respondes.Te olho mais uma vez quando chegamos ao ponto final.
Respondo com um sorriso ao até amanhã que não me destes.Até amanhã.Espero te ver de novo.Mesmo que seja durante os quinze minutos que a viagem dura.
Te abraço forte,mas pareces não sentir.Eu, entretanto, quase não respiro com a força do teu abraço não dado.
Te levantas rápido. E finges não perceber que te deixo descer na minha frente.Aguardas na calçada e não me estendes a mão, que pego com avidez.
Agradeço a gentileza não feita,enquanto amarras o tênis.Sigo até a escada rolante.Vo cê vai pela fixa.Mas ainda nos vemos no andar de cima em lados opostos.Te procuro e te acho.Dou um sorriso de satisfação pelo teu sorriso não dado.Aceno de volta para o teu aceno não dado.Viras a tua esquerda e eu viro a minha esquerda.
Quem sabe amanhã.Quem sabe amanhã tocarei teu corpo com o meu sem querer,perto da porta de saída,descendo as escadas.
Quem sabe amanhã um motorista descuidado não freia rápido,jogando tua cabeça para perto da minha.Quem sabe irei pisar em teu pé,meio que por acidente,só pra te olhar bem, me desculpar,e ver teus olhos verdes olhando para mim.

Do lixo viemos e com lixo enriqueceremos / por alceu sperança / cascavel.pr

Todos conhecemos o ditado popular, que herdamos de nossos avós: nem tudo o que reluz é ouro. Isso quer dizer que as aparências enganam. Nas eleições, as aparências enganam muito mais.

Quanto mais dinheiro o candidato tem, mais pode pagar uma propaganda que o deixa bonito na fotografia e dizendo apenas coisas bonitas e agradáveis aos nossos ouvidos.

O advogado Ives Gandra Martins, com quem temos fundas divergências mas também concordâncias, como neste caso, escreveu que o eleitor não vota no político em si, como ele é, mas na imagem que os especialistas em ilusões fabricam.

Esses especialistas em ilusões, segundo o dr. Martins, “criam um herói cinematográfico e vendem esta imagem”.

O que fazer para não cair na ilusão de ótica montada pela propaganda? O melhor é procurar se aprofundar nas ideias dos candidatos, pois promessas são fáceis de fazer e difíceis de cumprir.

Quem vota em pessoas corre um grande risco de errar, se não conseguir perceber que está sendo vítima de uma ilusão. Mas quem vota em ideias erra menos, pois ao procurar idéias semelhantes às suas próprias convicções escapa da armadilha de confiar em promessas que dificilmente serão cumpridas.

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A humanidade está evoluindo, a cada descoberta, a cada nova invenção, e, nessa marcha, um grupo de cientistas descobriu algo que os recicladores já sabem há muito tempo: que do lixo se pode extrair força e riqueza. Mas não deixa de ser espantosa a descoberta feita por esses cientistas.

Foi com partes do DNA que se consideravam inúteis, um DNA lixo, portanto, que nós, humanos, aprendemos no curso da evolução de nossa espécie a usar nossos braços e mãos para manipular ferramentas e inclusive para andar de pé, ou seja, na forma ereta.

Parece inacreditável que esse DNA considerado “lixo” tenha sido responsável por algumas das nossas mais destacadas ações como seres humanos e que nos distinguem dos animais ditos irracionais.

Uma análise comparativa dos genomas do homem, do chimpanzé, do macaco rhesus e de outros primatas, indica que a evolução humana pode ter sido promovida não apenas por uma sequência de mudanças genéticas, mas por transformações em áreas do genoma que até então se achava que não serviam para nada.

Quem quiser se aprofundar no assunto pode pesquisar no novo deus da humanidade (o Google – “pedi e receberás) o cientista James Noonan e o DNA lixo.

Segundo os pesquisadores, essas mudanças foram responsáveis originariamente pela ativação de genes no polegar e no dedão do pé. Ora, essas são duas das características que ao se desenvolver tornaram os humanos os “donos” da natureza.

Como se trata de um assunto extremamente complexo, vamos ficar por enquanto com essa ideia fantástica: ao contemplar algo aparentemente inútil, pode estar ali, no coração daquele material, ou da pessoa considerada imprestável, marginal, uma riqueza de valor material ou espiritual que nossos sentidos ainda não conseguiram captar.

 

ALCEU SPERANÇA  é jornalista e escritor.