Campana vai bem de Isaías – por helio de freitas puglielli / curitiba

Que Fábio Campana escreve bem é uma realidade que só pode ser negada por inimigos explícitos (que ele mesmo diz não serem poucos) e pelos não-declarados (sabe-se lá quantos).

Qualquer crítico isento, que esteja concentrado no texto e não na pessoa, que procure a qualidade literária acima de tudo, não se deixando influenciar por antagonismos de opinião ou desavenças pessoais, terá de chegar necessariamente à conclusão: Fábio escreve bem.

Escrever bem já é mérito inconteste, considerando que muita gente pretenciosa anda por aí barbarizando a língua, não vamos dizer portuguesa, mas a língua de Machado, Lima Barreto e Mário de Andrade, a nossa língua literária, bem brasileira.

E bem brasileiro é o Fabio, não obstante o castelhano tenha ressoado junto ao seu berço e acompanhado seus primeiros passos.

E da língua pulamos para o que realmente interessa. Pois a verdade é que não basta escrever bem. Há quem escreva bem sem dizer nada. Há quem escreva bem sem qualquer forma de identificação, com sua época, com os outros e até sem qualquer identificação ou compromisso consigo próprio. Parte da literatura brasileira contemporânea anda padecendo desse mal, com que muitos não se importam e que, por isso mesmo, tende a se alastrar.

Compreende-se que, depois do surto geral de engajamento liberado pela redemocratização dos anos 80, a literatura brasileira deveria tratar menos de temas ligados ao dramático período de combate à ditadura e à repressão. Mas as letras também não são favorecidas por obras vazias de conteúdo, exercícios de escrita sem nenhuma motivação concreta vinda da sensibilidade de alguém perante o mundo.

O escritor não é obrigado a ser homem de seu tempo, a filtrar nos textos os problemas da vida real e as angústias do contexto histórico. Quando foi obrigado, como na época do “realismo socialista”, formulado por Jdanov e imposto por Stalin, os resultados não foram bons. Mas o escritor tem de insuflar vida ao que escreve, pois o texto pelo texto (ou a arte pela arte, dizia-se antigamente) não se sustenta. “Muitos escritores estão voltando à masturbação”, resumiria grosseiramente o  filósofo da Boca Maldita, se ainda existisse um filósofo na Boca.

Fabio não só escreve bem, mas sente com intensidade tudo o que vem de fora e de dentro de si próprio, ou seja, sua consciência entra em sintonia com os fatos externos e os interioriza para a seguir processá-los na forma de texto. A quem objetar que é sempre assim com qualquer escritor, replicaremos que tudo depende do grau da intensidade, do grau de consciência e do grau de sintonia, além da forma de processamento. Nosso autor, em matéria de todos esses graus, está no alto da escala, ao passo que muitos escritores contemporâneos estão lá embaixo.

E vem vindo em escala ascendente, desde os contos de Restos Mortais e No Campo do Inimigo, passando pela poesia de O Paraíso em Chamas, até chegar aos romances O Guardador de Fantasmas, Todo o Sangue, O Último Dia de Cabeza de Vaca e Ai.

Agora, reúne suas crônicas mais recentes no volume A Árvore de Isaías, colocando-se no nível dos grandes cronistas brasileiros. E, como o Brasil teve e tem bons cronistas, figurar em pé de igualdade com eles é, sem dúvida, uma façanha.

Nosso autor não conquista essa posição apenas com talento. Sua maturidade é fruto de um longo processo existencial, que ele descreve explicitamente na primeira crônica do livro e, aqui e ali, em várias outras.

Parece que só quem sofreu, só quem passou por traumáticas desilusões, quem sobreviveu ao desmoronar de certezas e esperanças, pode agora narrar fatos com lucidez, equilíbrio, firmeza e suave ironia (em alguns textos não tão suave, vale ressalvar).  Como bom jornalista (e o escritor se fortalece com isso), Fabio enfrenta, glosa e transfigura fatos, retalhos do mundo e do seu mundo, suas memórias, seus pensamentos.

Ótimo cronista. E, se na Boca está faltando um filósofo, tudo indica que Curitiba, o Paraná e além-fronteiras estão bem servidos, pois as ressonâncias da filosofia de vida podem (e devem) reverberar na plena autenticidade do texto literário.

O recém-falecido Steve Jobs, gênio da informática. afirmou que trocaria toda a sua tecnologia por uma tarde com Sócrates. Eu troco um monte de livros de intragáveis autores promovidos pela mídia editorial por apenas um volume de um escritor como Campana.

Helio de Freitas Puglielli é jornalista e professor.

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