Arquivos Diários: 12 outubro, 2011

Uruguai considerou entrar em guerra contra Argentina em 2007, diz ex-presidente / buenos aires – por email

O ex-presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, revelou nesta terça-feira (11/10) que considerou a hipótese de entrar em um conflito armado com a Argentina em 2007. Na ocasião, os países passavam por um momento de crise diplomática pela instalação de uma fábrica de celulose às margens do rio Uruguai, na fronteira entre os dois países. 

Durante uma palestra em uma escola uruguaia, Vázquez afirmou que pediu apoio do então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e de sua secretária de Estado, Condoleezza Rice na resolução do entrave.

“Eu considerei todos os cenários, de que não acontecesse nada, de que um dia acordássemos e o problema estivesse resolvido, até que houvesse um conflito bélico”, explicou.

Em um vídeo gravado no evento, é possível escutar um trecho da palestra, na qual o uruguaio afirma que o conflito com a Argentina era “muito sério”. “Um presidente tem a obrigação de considerar todos os cenários possíveis que possam se apresentar diante de determinado problema, e não esperar que o problema surja para ver o que fazer”, explicou.

UM clique no vídeo abaixo:

 
Segundo informações do jornal uruguaio El Observador, o ex-presidente revelou também que, no ápice das tensões com o país vizinho, chegou a se reunir com os comandantes das Forças Armadas para discutir a situação. Os militares teriam respondido na ocasião que poderiam “fazer uma luta de guerrilha” contra a Argentina.

Em março deste ano, despachos secretos filtrados pelos Wikileaks e publicados por jornais de Montevidéu revelaram fortes críticas do então ministro de Indústria uruguaio, Jorge Lepra, ao país vizinho, em 2006. Em encontro com o encarregado de negócios da delegação diplomática dos EUA, James Nealon, Lepra teria afirmado que o governo do Uruguai encarava as divergências com a Argentina com “seriedade”.

Segundo o despacho assinado por Nealon, o ministro uruguaio teria pedido sugestões de quem poderia ajudar na resolução do conflito e afirmado que “quando um ‘hermano’ bate na cara de outro ‘hermano’, é preciso que um tio mais velho ponha um ponto final no assunto”. Lepra também teria se referido à administração do então presidente Néstor Kirchner como “a pior cara do partido peronista”.

No despacho, o diplomata norte-americano afirmou ainda estar “surpreso” com o tom do ministro uruguaio, devido aos “duros comentários sobre o governo justicialista da Argentina, o qual [Lepra] considerou ser mais ‘camisas pardas’ (em referência aos nazistas de Hitler) que de esquerda” e à menção de que “nos tempos em que [o ex-presidente] Juan Domingo Perón proibiu os uruguaios de entrar na Argentina durante a década de 1950″.

| Luciana Taddeo | Buenos Aires

Morar num shopping – por amilcar neves / ilha de santa catarina


Começou a se incomodar com aquele negócio de cortar a grama duas vezes por mês. Pagava para o Gumercindo fazer o serviço, sentou, fez as contas e viu que era mais barato comprar uma máquina e ele mesmo aparar o gramado. Até uma terapia, como de fato foi no início. Depois virou obrigação, e aí é como ir trabalhar com horário fixo e ter um chefe fungando na nuca. Tinha a mulher, que não tolerava mato no quintal, folha alta demais saindo do chão. Chovesse ou fizesse sol, no frio invernal ou no calor infernal, tinha a grama para cortar a cada 15 dias.

 

Impermeabilizou o terreno ele mesmo, após umas buscas na internet, a compra de pisos cerâmicos, de cimento cola, de rejunte e de uma cortadeira elétrica de azulejos. Semanas de labuta seguindo o manual que imprimiu no escritório, lá eles têm papel que nunca acaba e tinta de impressão à vontade. E a qualidade profissional que sai daquela impressora. Aproveitou para aterrar a piscina, cobrindo o local com um piso azul cinzento em memória do equipamento de lazer que, nos últimos tempos, não foi mais usado e só dava uma trabalheira insana para deixar a água nos padrões mínimos de sanidade com químicas e produtos caríssimos.

 

Seu quintal ficou uma beleza, lisinho e brilhante, zero de grama, tendo sobrevivido apenas uma pitangueira, uma goiabeira e uma ameixeira. As duas primeiras emporcalhavam o chão: metade do ano com folhas, a outra metade com frutos enjoativamente maduros. A ameixeira juntava morcegos como um hotel de alta rotatividade. E os bichinhos não paravam de lambuzar tudo em sua incontinência intestinal. Um fedor, a mulher não se conformava, abateu as três árvores e tapou com restos de piso o que restava de terra à vista em sua casa.

 

O diabo, porém, são os vizinhos. Não adianta falar, pedir que cuidem das folhas geradas em seus quintais e das sementes de todos os tipos que as plantas largavam do outro lado do muro. Ia-se solicitar providências e eles riam, primeiro pelas costas, a gente sabe, depois na cara mesmo. Morar em casa e reclamar da sujeirinha que os gatos alheios fazem de noite no quintal, eles falavam, melhor então mudar para um apartamento.

 

Quando um vizinho sugeriu que o denunciassem à secretaria do meio ambiente e o processassem na Justiça porque se recusava a abater uma araucária estéril que tinha, decidiram, ele e a mulher, que chegara a hora de partir, venderam a casa, aplicaram o dinheiro e escolheram um shopping para morar.

 

Num grande centro de compras tem-se de tudo e não se precisa levar quase nada para lá: cafés para um farto desjejum, bancas com jornais e revistas de todo o país, televisões ligadas por todos os lados, praça de alimentação tão variada que se pode passar meses sem repetir cardápio, os lançamentos do cinema internacional, lavanderias, bancos, banda larga gratuita, serviço de cerzidos, academia, agência de turismo para o caso de uma viagem de férias e segurança quase absoluta. Há uma farmácia para tratar de resfriados e cefaleias, banheiros sempre limpos e uma livraria para abastecer-se de livros de autoajuda, com frases inteiras que ele sublinha e destaca como orientação para sua vida particular, dele e da mulher, e como subsídio para sua atividade profissional.

 

Quanto ao verde, o mais próximo que eles chegam é das árvores de Natal, que não largam folhas nem abrigam bichos que sujam. Vivem muito felizes morando no shopping de sua eleição: não tem igual, proclamam, satisfeitos da vida, e não tem vizinho por perto.

 

AMILCAR NEVES é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.