Arquivos Diários: 17 outubro, 2011

SOLEDAD a mulher do Cabo Anselmo – por urariano mota /são paulo

Quem foi, quem é Soledad Barrett Viedma? Qual a sua força e drama, que a maioria dos brasileiros desconhece? De modo claro e curto, ela foi a mulher do Cabo Anselmo, que ele entregou a Fleury em 1973. Sem remorso e sem dor, o Cabo Anselmo a entregou grávida para a execução. Com mais cinco militantes contra a ditadura, no que se convencionou chamar “O massacre da granja São Bento”. Esse crime contra Soledad Barrett Viedma é o caso mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil.

 O programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, entrevista nesta segunda, às 22 horas, o ex-militar José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, ex-participante de um motim na Marinha, nos anos 60, que, após um período de exílio em Cuba, voltou para o Brasil, foi preso e delatou perseguidos políticos ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, do DOPS. A lista de denunciados incluiu sua companheira, Soledad Viedma, que acabou torturada e morta pela ditadura. A TV Cultura escolheu o Cabo Anselmo como entrevistado para marcar a estreia de Mario Sergio Conti, ex-diretor da Veja e atual diretor de redação da revista Piauí, na condução do programa.

A escolha se dá justo no momento em que se discute no Brasil a instalação da Comissão da Verdade, que enfrenta muita resistência de setores que insistem em manter na penumbra fatos ocorridos em um dos períodos mais tenebrosos da história do Brasil. Publicamos a seguir um artigo do escritor Urariano Mota, autor de um livro sobre Soledad Viedma. 

********************************

Em 1970, de volta ao Brasil, Anselmo foi preso pela ditadura militar. Em troca da liberdade, delatou perseguidos políticos ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Dops. A lista de denuciados incluía sua namorada, Soledad Viedma, que acabou morta devido à tortura.

Quem lê “Soledad no Recife” pergunta sempre qual a natureza da minha relação com Soledad Barrett Viedma, a bela guerreira que foi mulher do Cabo Anselmo. Eu sempre respondo que não fomos amantes, que não fomos namorados. Mas que a amo, de um modo apaixonado e definitivo, enquanto vida eu tiver. Então os leitores voltam, até mesmo a editora do livro, da Boitempo: “mas você não a conheceu?”. E lhes digo, sim, eu a conheci, depois da sua morte. E explico, ou tento explicar.

Quem foi, quem é Soledad Barrett Viedma? Qual a sua força e drama, que a maioria dos brasileiros desconhece? De modo claro e curto, ela foi a mulher do Cabo Anselmo, que ele entregou a Fleury em 1973. Sem remorso e sem dor, o Cabo Anselmo a entregou grávida para a execução. Com mais cinco militantes contra a ditadura, no que se convencionou chamar “O massacre da granja São Bento”. Essa execução coletiva é o ponto. No entanto, por mais eloquente, essa coisa vil não diz tudo. E tudo é, ou quase tudo.

Entre os assassinados existem pessoas inimagináveis a qualquer escritor de ficção. Pauline Philipe Reichstul, presa aos chutes como um cão danado, a ponto de se urinar e sangrar em público, teve anos depois o irmão, Henri Philipe, como presidente da Petrobras. Jarbas Pereira Marques, vendedor em uma livraria do Recife, arriscou e entregou a própria vida para não sacrificar a da sua mulher, grávida, com o “bucho pela boca”. Apesar de apavorado, por saber que Fleury e Anselmo estavam à sua procura, ele se negou a fugir, para que não fossem em cima da companheira, muito frágil, conforme ele dizia. Que escritor épico seria capaz de espelhar tal grandeza?

E Soledad Barrett Viedma não cabe em um parêntese. Ela é o centro, a pessoa que grita, o ponto de apoio de Arquimedes para esses crimes. Ainda que não fosse bela, de uma beleza de causar espanto vestida até em roupas rústicas no treinamento da guerrilha em Cuba; ainda que não houvesse transtornado o poeta Mario Benedetti; ainda que não fosse a socialista marcada a navalha aos 17 anos em Montevidéu, por se negar a gritar Viva Hitler; ainda que não fosse neta do escritor Rafael Barrett, um clássico, fundador da literatura paraguaia; ainda assim… ainda assim o quê?

Soledad é a pessoa que aponta para o espião José Anselmo dos Santos e lhe dá a sentença: “Até o fim dos teus dias estás condenado, canalha. Aqui e além deste século”. Porque olhem só como sofre um coração. Para recuperar a vida de Soledad, para cantar o amor a esta combatente de quatro povos, tive que mergulhar e procurar entender a face do homem, quero dizer, a face do indivíduo que lhe desferiu o golpe da infâmia. Tive que procurar dele a maior proximidade possível, estudá-lo, procurar entendê-lo, e dele posso dizer enfim: o Cabo Anselmo é um personagem que não existe igual, na altura de covardia e frieza, em toda a literatura de espionagem. Isso quer dizer: ele superou os agentes duplos, capazes sempre de crimes realizados com perícia e serenidade. Mas para todos eles há um limite: os espiões não chegam à traição da própria carne, da mulher com quem se envolvem e do futuro filho. Se duvidam da perversão, acompanhem o depoimento de Alípio Freire, escritor e jornalista, ex-preso político:

“É impressionante o informe do senhor Anselmo sobre aquele grupo de militantes – é um documento que foi encontrado no Dops do Paraná. É algo absolutamente inimaginável e que, de tão diferente de todas as ignomínias que conhecemos, nos faltam palavras exatas para nos referirmos ao assunto.

Depois de descrever e informar sobre cada um dos cinco outros camaradas que seriam assassinados, referindo-se a Soledad (sobre a qual dá o histórico de família, etc.), o que ele diz é mais ou menos o seguinte:

‘É verdade que estou REALMENTE ENVOLVIDO pessoalmente com ela e, nesse caso, SE FOR POSSÍVEL, gostaria que não fosse aplicada a solução final’.

Ao longo da minha vida e desde muito cedo aprendi a metabolizar (sem perder a ternura, jamais) as tragédias. Mas fiquei durante umas três semanas acordando à noite, pensando e tentando entender esse abismo, essa voragem”.

Esse crime contra Soledad Barrett Viedma é o caso mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil. Vocês entendem agora por que o livro é uma ficção que todo o mundo lê como uma relato apaixonado. Não seria possível recriar Soledad de outra maneira. No título, lá em cima, escrevi Soledad, a mulher do Cabo Anselmo. Melhor seria ter escrito, Soledad, a mulher de todos os jovens brasileiros. Ou Soledad, a mulher que apredemos a amar.

(*) Urariano Mota, 59 anos, é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997), um romance de formação, que se passa sob a ditadura de Emílio Garrastazu Médici (1969–1974), e de Soledad no Recife (São Paulo, Boitempo, 2009).

C.M.

NUNCA MAIS por olsen jr / ilha de santa catarina

Estou em casa, tendo a minha frente à imensa varanda, e aos fundos, a Lagoa da Conceição. Fim de tarde, a placidez daquela água ali em frente me empresta uma sensação de paz. Estou pensando em como é bom ser brasileiro, catarinense, morar em Florianópolis, na Lagoa da Conceição, Avenida das Rendeiras, beco dos Poetas… Quando descubro que estou sentindo algo que nunca havia sentido, embora nada tenha mudado na minha vida nos últimos cinco anos, a não ser, claro, o que de fato me prostrou ali, como um exilado em minha própria terra, mas isso já passou, penso, ou deveria ter passado. Subitamente, uma sensação de que tenho uma casa, um lar, uma família, pô! Mas o que se passa? Lembro de Ortega Y Gasset – “no sabemos lo que nos pasa y eso es lo que pasa” – e tenho a consciência de que estou sendo enganado pelos meus próprios sentidos.

Alguma coisa mudou, sinto, é só isso, mas o que? De repente, meus olhos se detêm em uma cadeira solitária ali na varanda. Acredito, minha filha deve tê-la trazido enquanto lia o indefectível Stephen King (é duro competir com a “rapaziada” que detém a fórmula, o marketing e o monopólio do “gosto” universal, mas é a vida) e esqueceu-a … não podia ser outra coisa. O fato é que a cadeira vazia num ângulo de 45 graus, voltada para a Lagoa da Conceição, como se alguém a tivesse abandonado recentemente, talvez, para buscar um café, um chá, ou simplesmente para ir a algum lugar com a intenção de voltar logo… Aquela cadeira estava fazendo toda a diferença. Nunca tinha percebido o quanto de “doméstico” tem uma cadeira sozinha numa varanda num final de tarde, é como diria o Sartre, é preciso que se repita de uma só vez “uma cadeira sozinha, numa varanda, num final de tarde, num domingo” poderia acrescentar-se na casa do “poeta” na Lagoa da Conceição… Mas é outra história, desgraçada de cadeira, tinha que me fazer lembrar que já tive uma casa, um lar, uma família… pô! Por que nós humanos temos essa coisa de “sermos” o somatório de nossas lembranças? Por que temos que carregar o “nosso” passado para onde vamos? Por que diabos uma desgraçada de uma cadeira sozinha numa varanda evoca toda uma vida? E por que tinha de ser comigo? Por que não é com aquele bestalhão que entra de moto aqui no beco todos os dias, fazendo barulho e acabando com a harmonia do dia? Talvez porque ele seja apenas um bestalhão… a noite vai tomando conta de tudo e continuo ali na varanda contemplando aquela cadeira, não tenho iniciativa para arredar o pé dali, sua presença já evocou toda a minha vida, o som do último CD de George Martin com as músicas dos Beatles me mantém ligado, a canção “Ticket to Ride” com as “Meninas de Petrópolis” alimenta a minha nostalgia. Fecho a porta porque já não suporto mais aquela viagem solitária. Desligo o som porque preciso me sentir, saber que existo, além daquele passado que não me abandona… Depois sinto baterem na vidraça ali na sala, aproximo-me com temor, estou no segundo andar, vejo um vulto escuro, parece uma ave negra, um bico insistente no vidro da janela… Penso em Edgar Allan Poe, na felicidade, e percebo um ruflar de asas e um grasnar repetindo… “Leonor” ou “never more!”

Olsen Jr. é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

Lançamento do livro “Avaliação em Planeamento Urbano” / Reitoria da Universidade do Porto / portugal


Demonstrar que é possível e desejável avaliar de forma sistemática a atividade de planeamento urbano é o propósito de Vítor Oliveira no livro “Avaliação em Planeamento Urbano”, obra editada pela U.Porto editorial que será apresentada no próximo dia próximo dia 24 de outubro, na Fnac de Santa Catarina. Paulo Pinho, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e coordenador da Secção de Planeamento do Território e Ambiente e diretor do Centro de Investigação do Território, Transportes e Ambiente daquela faculdade fará a apresentação do livro.

Depois de uma primeira parte, em que faz um enquadramento teórico e metodológico do tema, o autor propõe uma metodologia de avaliação do Plano Diretor Municipal (PDM), o elemento central do sistema de planeamento urbano em Portugal. Aplica a metodologia aos planos diretores atualmente em vigor em Lisboa e no Porto, avaliando cada um destes dois casos em termos de racionalidade do plano, de performance do processo de planeamento e de conformidade dos resultados obtidos. Conclui que é possível aplicar uma metodologia de avaliação de planos diretores que  permita um juízo de valor sobre os documentos e que  contribua, através de um processo de contínua aprendizagem, para melhorar a qualidade desses planos, dos processos de planeamento, e do ambiente urbano das cidades em que intervêm.

A sessão de apresentação terá lugar pelas 18h30, na Fnac de Santa Catarina, no Porto. A entrada é livre.

U.Porto editorial

Reitoria da Universidade do Porto

Praça Gomes Teixeira, 4099-002 PORTO

Tel.: 220 408 196  Fax: 220 408 186

URL: editorial.up.pt/