A FELICIDADE NÃO MORREU! – por mhario lincoln / curitiba

Quem conheceu Flor de Lys de perto, sabe muito bem como ela encarava a vida. Foi uma vitoriosa, antes de tudo. Conseguiu feitos inacreditáveis para a época em que São Luís, capital do Estado do Maranhão, mergulhava em total escuridão pertinente aos direitos humanos, direitos da mulher e respeito público às senhoras desquitadas. Foi exatamente nessa plenitude da escuridão que Flor de Lys apareceu e iluminou os novos rumos socioculturais da capital do Maranhão.
Suas vitórias são incontestes. Rompeu as barreiras do machismo ao integrar, pela primeira vez, uma banda masculina de ginásio (Liceu e Escola Normal) tocando corneta no desfile de Sete de Setembro. Foi a segunda mulher a dirigir um carro de passeio nas ruas de São Luís. Lembro-me (eu tinha de 11 para 12 anos): quando Flor de Lys parava sua Rural Willys na praça João Lisboa, em frente aos Correios, quem estava lá, se aproximava para ver se era realmente verdade uma mulher dirigir uma camionete/rural.
E foi nessa mesma rural que num dia chuvoso, ao levar minha irmã Orquídea para o curso primário do Colégio São Luís Gonzaga, na rua do Sol, da fantástica Zuleide Bogea, a camionete derrapou numa curva, na rua dos Afogados, subiu na calçada e entrou no quarto do então Delegado do Trabalho, pela janela da frente, derrubando a parede frontal. Um bafafá daqueles, logo às sete da manhã…e o delegado acabara de levantar de sua rede armada à beira da janela, rede essa que acabou servindo de freio para o avanço, quarto adentro, da camionete de seis cilindros.
Praticamente tudo aconteceu durante a vida de nossa mãe. Mas ela sempre se saiu vitoriosa, não só por sua força interior, mas por sua qualidade indisfarçável de nunca desistir de seus objetivos. Por exemplo, um dos mais importantes para nós foi diante da Justiça, quando conseguiu a nossa guarda; dos dois primeiros filhos, após a separação de nosso pai, advogado José Santos. (Ah, sim! Flor teve mais dois maridos – Humberto Marão e Eloy Cutrim – e mais duas filhas, Cristina e Dalvinha, respectivamente, rompendo mais essa barreira social).
Toda a vida de Flor de Lys foi marcada por muita luta. Desde o começo, pela sobrevivência, quando trabalhava pela manhã no Jornal Pequeno, à tarde no TRE-MA e à noite nas recepções sociais. Antes, no começo, ela eracrooner de um trio de músicos do Hotel Araçagy, do saudoso Moacir Neves.
Nessa época lançou “Tudo que eu tinha na Vida”, música que rodou o Brasil e fez muito sucesso. Por pouco, Maysa Matarazzo não gravou. Como era difícil gravação e envio para o Rio de Janeiro, a letra e música de Flor de Lys não chegou à tempo, a fim de que o estúdio pudesse aprovar a composição e incluí-la no novo long play que a cantora estava finalizando.
Uma coisa, porém, no meio desse furacão de acontecimentos prós e contras, Flor de Lys sustentou algo que passou para os filhos: liberdade e persistência. Ela me disse várias vezes quando eu me sentia chateado com alguma coisa: “Nem que o Céu lhe caia na cabeça, nunca desista”. Esse era seu lema, repito: Liberdade e Persistência. Isso, todos os quatro filhos conseguiram absorver nitidamente.
Por isso, neste 03 de novembro, quando mamãe Flor de Lys completaria 83 anos e 7 meses dessa viagem ao Universo, voando nas asas de anjos de luz do Senhor, não teremos dúvida. Vamos comemorar a vida. Vamos festejar a vida. Vamos cultuá-la como em vida na Terra estivesse. Esse era seu desejo. E será literalmente cumprido. (Benção minha mãe). De teus filhos Mhario Lincoln, Orquídea Santos, Cristina Martins e Dalva Lima.
Obs: Em 2009 minha mãe veio  visitar-me em Curitiba para continuar seu tratamento da vista. Aqui, brincando, eu e Mariana, minha filha mais nova, fizemos um vídeo (gravado em máquina digital). De repente, esse simples vídeo marcou a última entrevista de Flor de forma espontanea, como ela sempre foi em vida. A seguir, a entrevista escrita:http://www.mhariolincoln.com/noticias/ver/neste-sabado-poetico-a-ultima-entrevista-de-flor-de-lys
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