Arquivos Diários: 26 outubro, 2011

NAVIO FANTASMA – por jorge lescano / são paulo.sp

Clorinda olhava com olhos lânguidos, como se dizia naquele tempo, o sub-gerente Belmiro. Seria difícil dizer qual dos dois correspondia aos olhares do outro, pois era simultânea a languidez. Falavam-se, como é de praxe numa empresa de meio porte, em função dos seus afazeres, contudo, um observador perspicaz poderia ver que os olhares não correspondiam exatamente às palavras, sempre ocasionais, como devem ser entre funcionários dedicados,

No réveillon do primeiro ano que Clorinda passava na firma, na hora das despedidas e dos convencionais beijos de bons augúrios, Belmiro abandonou sub-repticiamente nas mãos de Clorinda um pequeno barquinho de papel. Era de um modelo pouco comum, lembrando mais uma gôndola. Talvez por esta particularidade Clorinda o guardou na bolsa e ao chegar em casa o jogou numa caixa de papelão onde soia guardar pequenos objetos que por um motivo ou outro tivessem algum significado numa vida que ela considerava sem significado.

O tempo foi passando e Clorinda achou outro admirador que a contemplava com olhos lânguidos. Sem sentir a mesma emoção de quando era olhada por Belmiro, deixou que o namoro acontecesse e depois o casamento e mais tarde a maternidade. A essa altura dos acontecimentos há muito que se demitira da firma. Poderia jurar, se fosse uma moça menos modesta, que os olhos de Belmiro conservavam aquela antiga languidez no momento do aperto de mãos derradeiro entre funcionários que se despedem de um colega. O futuro marido ainda não surgira no horizonte.

Dez anos mais tarde, procurando algo com que entreter seu terceiro filho, deu com a caixa de papelão e dentro dela o barquinho de Belmiro. Tirá-lo da caixa e que a criança o rasgasse foi um ato só. Então Clorinda percebeu que no interior da folha de sulfite havia algo escrito:

Srta. Clorinda, amanhã se inicia um novo ano. Espero-a na porta da Biblioteca Municipal às 16 h. para tratar de assunto que diz respeito ao NOSSO futuro. Se não comparecer, saberei que me enganei sobre o significado do seu olhar e minha vida não terá novo capítulo, por assim dizer.

Seu, Belmiro, sub-gerente.

Com a folha entre os dedos, Clorinda olha através da janela o quintal vazio, limitado por um muro cinzento. Algum colega, dos antigos, poderia jurar que seu olhar adquirira a languidez de outrora.

CARAVANA ANTINUCLEAR parte para o Sertão nesta quinta-feira – 27/10/11 – recife.pe


 

No período de 28 a 31 de outubro a Caravana Antinuclear estará percorrendo os municípios pernambucanos de Belém do São Francisco, Floresta, Itacuruba e Jatobá. O objetivo é levar para estas cidades sertanejas informações sobre os impactos que ocorrerão com a instalação de uma usina nuclear em Itacuruba. O ônibus conduzindo seus integrantes sairá da frente da Reitoria da UFPE, às 17 horas desta quinta-feira, dia 27. Nele vão embarcar integrantes do MESPE – Movimento Ecossocialista de Pernambuco, do Greenpeace e da Articulação Anti Nuclear Brasileira, acompanhados de professores universitários, jornalistas, artistas e ambientalistas daqui e de outras partes do país, que vieram apoiar essa mobilização.

 

A Caravana terá atividades integradas como exposições, debates, feira de ciências, apresentação de teatro, cantadores e poetas populares, para ajudar a população a compreender os riscos de uma usina nuclear na região, assim como as possibilidades de gerar energia elétrica a partir do sol, dos ventos, de outras fontes renováveis de energia que não destroem a natureza e nem causam danos às pessoas. “A Caravana Antinuclear espera alertar as populações para os riscos da instalação dessa usina. O governo decidiu e planeja instalar a usina nuclear, mas não faz um diálogo com o povo da região para que ele fique ciente dos riscos, principalmente à saúde e ao meio ambiente. A Caravana vem para cumprir esse papel, para isso organizações locais ajudam a mobilizar o maior número de pessoas”, afirma o coordenador da Caravana, físico e professor Heitor Scalambrini Costa.

 

A primeira parada será nesta sexta-feira, em Belém do São Francisco, no sábado a Caravana aporta em Floresta, no domingo em Itacuruba, local onde está prevista a instalação da usina. A última cidade a receber os manifestantes antinucleares será Jatobá, com a programação prevista para segunda-feira. Todas as atividades da Caravana serão gratuitas. Associações, sindicatos, igrejas, escolas e várias outras organizações sociais da região estão se mobilizando para participar do evento, que tem como um dos organizadores o Movimento Cultura de Paz da Diocese de Pesqueira

 

Contato: Heitor Scalambrini Costa – 9964.4366

Jornalista/Assessor de Imprensa: Gerson Flávio – 8649.8759 ou 7812.0080