NAVIO FANTASMA – por jorge lescano / são paulo.sp

Clorinda olhava com olhos lânguidos, como se dizia naquele tempo, o sub-gerente Belmiro. Seria difícil dizer qual dos dois correspondia aos olhares do outro, pois era simultânea a languidez. Falavam-se, como é de praxe numa empresa de meio porte, em função dos seus afazeres, contudo, um observador perspicaz poderia ver que os olhares não correspondiam exatamente às palavras, sempre ocasionais, como devem ser entre funcionários dedicados,

No réveillon do primeiro ano que Clorinda passava na firma, na hora das despedidas e dos convencionais beijos de bons augúrios, Belmiro abandonou sub-repticiamente nas mãos de Clorinda um pequeno barquinho de papel. Era de um modelo pouco comum, lembrando mais uma gôndola. Talvez por esta particularidade Clorinda o guardou na bolsa e ao chegar em casa o jogou numa caixa de papelão onde soia guardar pequenos objetos que por um motivo ou outro tivessem algum significado numa vida que ela considerava sem significado.

O tempo foi passando e Clorinda achou outro admirador que a contemplava com olhos lânguidos. Sem sentir a mesma emoção de quando era olhada por Belmiro, deixou que o namoro acontecesse e depois o casamento e mais tarde a maternidade. A essa altura dos acontecimentos há muito que se demitira da firma. Poderia jurar, se fosse uma moça menos modesta, que os olhos de Belmiro conservavam aquela antiga languidez no momento do aperto de mãos derradeiro entre funcionários que se despedem de um colega. O futuro marido ainda não surgira no horizonte.

Dez anos mais tarde, procurando algo com que entreter seu terceiro filho, deu com a caixa de papelão e dentro dela o barquinho de Belmiro. Tirá-lo da caixa e que a criança o rasgasse foi um ato só. Então Clorinda percebeu que no interior da folha de sulfite havia algo escrito:

Srta. Clorinda, amanhã se inicia um novo ano. Espero-a na porta da Biblioteca Municipal às 16 h. para tratar de assunto que diz respeito ao NOSSO futuro. Se não comparecer, saberei que me enganei sobre o significado do seu olhar e minha vida não terá novo capítulo, por assim dizer.

Seu, Belmiro, sub-gerente.

Com a folha entre os dedos, Clorinda olha através da janela o quintal vazio, limitado por um muro cinzento. Algum colega, dos antigos, poderia jurar que seu olhar adquirira a languidez de outrora.

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