Um cenário – por amilcar neves / ilha de santa catarina


Cocal do Sul, SC – O Bin Laden Guinchos situa-se logo após a ponte sobre o Rio Cocal, à esquerda de quem sai da cidade em direção a Urussanga pela rua principal, com a qual se confunde a rodovia estadual enquanto corta o perímetro urbano. Na manhã modorrenta de domingo, alguns carros passam sem olhar para os lados. As motos também cruzam o rio, mas só olham para as moças, quando as há por ali: nem todo mundo está na rua, apesar do clima morno e sonolento de início da primavera.


Na véspera houve, na cidade, uma reunião de mulheres Osórias, primas entre si vindas de todos os municípios do Sul do Estado (à exceção de Imaruí, onde não vingam Osórios de quaisquer gêneros): muitas não se viam há anos, décadas até, e tinham muito a se conferir e se contar. A tarde e a parte da noite destinadas ao evento foram insuficientes para colocar os assuntos em dia. Todas as tardes e noites da vida nunca serão bastantes para dar conta de tamanha tarefa.


Na casa ao lado do encontro Osório, uma festa de aniversário tomou a tarde de sábado com parabéns entusiásticos renovados a cada convidado que chegava: um pai, uma avó, uma madrinha. O casal mirava com carinho e atenção o aniversariante, seu irmãozinho e os amiguinhos que acorreram: tanto a mãe dos dois pequenos, separada do pai deles que, dizem, a espancava, quanto a sua amada companheira, uma mãezona para as crianças.


Tomando à esquerda em ângulo reto logo após o Bin Laden Guinchos (haverá lá uma Bin Laden Demolições?), cruza-se adiante o mesmo Rio Cocal, que confirma seu caminho pelo relevo ondulado do lugar. Debruçando-se alguém sobre o parapeito desta segunda ponte, haverá de ver um pequeno remoinho com muitas penas brancas e, de permeio, umas vísceras cruas (supostamente de ave) girando em círculo na água. Vem de baixo um cheiro desagradável. Não convém meter o nariz ali.


Próxima à margem oposta, uma pequena construção, um dia modesta casa de material, teve a porta e as janelas da frente, de contornos ainda aparentes, lacradas com alvenaria. A parede resultante da operação foi pintada com tinta escassa e diluída que deixa ler o nome de uma sorveteria. No lado que dá para o rio, duas aberturas apenas: uma janela de venezianas hermeticamente fechadas e uma porta, já perto da parede dos fundos, aberta de todo. Aberta, permite ver pessoas em atitude de respeito, de pé desde a parede de trás, voltadas para a frente da casa e seguindo os gestos de um suposto celebrante.


Duas quadras além, a Rua Tubarão termina junto ao mesmo Rio Cocal, bem ao lado da Sociedade Recreativa Cocal do Sul, um largo prédio meio abandonado, meio em reformas, que ostenta a vistosa placa de um convênio com a Secretaria Estadual do Bem-Estar da Família. À margem do rio, leivas recém-colocadas e, a espaços regulares de menos de dois metros, buracos abertos na grama logo antes da chuva da véspera feitos como para instalar postes de luz. Abaixo, em espreita, o rio continua passando.


No jornal local, a manchete e a notícia: “Dono de bar é morto a facadas em Cocal do Sul – Aldoir Anga, de 46 anos foi morto com quatro facadas no próprio bar na tarde de ontem (29)…” Indignada, Samanta S. diz que é tudo mentira e escreve: “o nome dele não é esse a idade dele não é essa ele não é dono do bar e a causa não foi essa quando não tiver certeza não falem do assunto ha e não foi quatro facadas”. Aldoir talvez tenha se safado dessa.


Tudo leva a crer que algo está para explodir de súbito na manhã bucólica de domingo.

AMILCAR NEVES  é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.
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