Arquivos Mensais: novembro \29\UTC 2011

STF e STJ: Empresários pagam encontro de juízes em resort na Paraíba – por frederico vasconcelos / são paulo

29/11/2011 – 09h08

Ministros do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça participaram, no último fim de semana, de evento fechado em um resort na Paraíba com despesas pagas pela Fetronor (Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Nordeste)

Seguradoras bancam evento para cúpula da Justiça em resort no Guarujá

O “Terceiro Encontro Jurídico de Transportes Públicos do Nordeste” foi realizado no Mussulo Resort, que fica no litoral do Estado. A diária do hotel custa R$ 609 (quarto para duas pessoas).

Além dos ministros, participaram do encontro juízes e advogados, que também tiveram suas despesas pagas.

O evento teve o apoio da Petrobras, que ofereceu patrocínio de R$ 50 mil.

OUTRO LADO

Para o presidente da AMB, Henrique Nelson Calandra, o evento teve finalidade acadêmica. “Não vejo por que censurar. Significa que entidades da iniciativa privada acreditam que juízes podem dizer coisas importantes e investem para ouvir teses que podem ser contrárias às suas.”

A Petrobras atribui o patrocínio ao encontro à “política comercial e de relacionamento com grandes clientes da Petrobras Distribuidora”.

Leia mais na edição da Folha desta terça-feira.

Editoria de Arte/Folhapress  
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Brasil tem 19 novos milionários por dia, diz estudo – por silvio guedes crespo / são paulo

29 de novembro de 2011 | 11h17

O crescimento econômico faz com que, desde 2007, 19 pessoas se tornem milionárias a cada dia no Brasil, tendência que deve continuar por mais três anos, segundo um estudo apresentado na conferência Private Banking Latin America 2011, realizada em Miami (EUA). Os dados foram divulgados em blog da revista americana “Forbes“.

A pesquisa define como milionários aqueles cujas riquezas chegam a 1 milhão de reais (não de dólares), incluindo investimentos, propriedades, poupança e outros ativos.

Guilhermo Morales, um executivo da Millennium BCP que estava na conferência, disse que o ritmo de crescimento do número de milionários deve se reduzir daqui a três anos – “para tudo há limites”, afirmou.

O motivo de haver cada vez mais pessoas ricas está, segundo os autores do estudo, na expansão do PIB (produto interno bruto) e particularmente, na do consumo, o que impulsiona a fortuna nos setores varejista, bancário e em alguns ramos da indústria.

Os altos executivos têm se beneficiado com o “boom” econômico. Segundo Morales, é comum, no Brasil, profissionais de bancos de investimento ganharem um bônus anual de R$ 1 milhão.

Para Emerson Pieri, que apresentou as estatísticas, o País proporciona uma “enorme oportunidade” para atividades de private banking para atender as demandas da “crescente comunidade de milionários”.

Brasil tem atualmente 137 mil milionários e 30 bilionários, segundo a “Forbes”, com 70% da riqueza concentrada em São Paulo e no Rio de Janeiro.

RESTOS MORTAIS – por olsen jr / ilha de santa catarina.sc

 

Tinha 14 anos quando tomei conhecimento da existência do poeta Cruz e Sousa. Estava na Escola Agro-Técnica  Lysímaco Ferreira da Costaem Rio Negro, no Paraná e o livro era da editora Nova Aguillar, obras completas. Fiquei só na poesia: Broquéis, Faróis, Últimos Sonetos e o Livro Derradeiro.

Foi amor à primeira vista. Todo o meu tempo livre era dedicado a ler e reler aqueles poemas… Até o professor Venceslau Muniz me por nas mãos o “Eu”, de Augusto dos Anjos (assunto para outro dia).

Dois anos depois, em 1972 já em Curitiba prestando vestibular para arquitetura, na prova de português caiu uma interpretação do soneto “Vida Obscura”, do livro “Últimos Sonetos”. Acertei a questão relativa ao texto e me senti orgulhoso por ser catarinense e por perceber que todos os meus colegas tinham feito uma leitura equivocada do poema. O poeta faz a descrição do sofrimento de alguém e através de uma metáfora remetendo, no paroxismo, a crucificação de cristo, descreve os seus últimos momentos… Ele se referia (e foi a resposta certa) a um amigo… Na condição de artífice sei que ele estava imaginando a própria morte, claro, se esta alternativa estivesse nas respostas teria criado um impasse. A maioria dos candidatos foi ludibriada pelo verso “sei que cruz infernal prendeu-te os braços” e assinalou a resposta que aludia a Jesus Cristo…

Em 1994 fiz uma ponta no filme “Alva Paixão”, da diretora Maria Emília em que trata da vinda do corpo de Cruz e Sousa, que morreuem Minas Gerais, para o Rio de Janeiro num vagão de trem de transporte de animais. A mulher Gavita veio junta.

Faço o fiscal da estação ferroviária que recebe o corpo do poeta. Aquela cena me marcou, não só pelo fato de quase ter perdido a falange do polegar da mão direita prensado na porta emperrada de um vagão de trem no interior de Rio Negrinho onde as locações se deram, mas pela interpretação da Zezé Mota (assunto para outro dia) que fez Gavita, a mulher de Cruz e Sousa, também pelo realismo da situação. Hoje podemos ver com a clareza facultada pelo distanciamento histórico, um dos maiores poetas brasileiros, seu maior simbolista, morto com tuberculose na mais completa miséria que sofreu durante toda a sua vida a discriminação de seus contemporâneos, que foi protelado em cargos públicos e até da Academia Brasileira de Letras por um mestiço chamado Machado de Assis, que a história lhe faça justiça longe da literatura, trasladado num vagão de transporte de animais é dose. Nem na morte lhe deram compaixão, foi um maldito até o fim.

No dia 29 de novembro de 2007, depois de uma batalha que levou mais de 30 anos, finalmente o governo do Estado de Santa Catarina consegue resgatar os restos mortais do Sr. João da Cruz e Sousa.

Trazido agora de avião e depois por um caminhão do corpo de bombeiros, uma mala de aço contendo uma urna de madeira com os restos mortais do poeta que finalmente volta para casa, recebidos no Palácio Cruz e Sousa, bela construção arquitetônica com o seu nome, com direito a um coral entoando música clássica, louvado por autoridades acadêmicas e políticas, a promessa de um grande Memorial em sua homenagem onde se possam recitar poemas, onde sua obra nunca será esquecida e onde as lembranças de seu calvário serão sepultadas junto.

Foi diferente hoje, não era mais a cena de um corpo chegando em situações precárias numa estação do interior, era o poeta mesmo, mais de 100 anos depois, recebido em sua terra natal, o filho de escravos alforriados, o  “ser humilde entre humilde seres”…  Aquele para quem o “… mundo foi negro e duro”… O cidadão que chegou “… Ao saber de altos saberes”, “tornando-te mais simples e mais puro”…

Estive lá num canto observando tudo a distância, não suporto que me vejam emocionado em público, de poeta para poeta com a mesma dor, estava precisando de um trago, saí dali rumo ao mercado público, “… E neste conciliábulo mundano/ Pelos botecos da vida, confesso:/É solitário que eu me sinto humano!”.

Requiescat in pace!

SAUDADES DE TI DIANTE DE TI – de zuleika dos reis / são paulo

 

Saudades de ti diante de ti

eu a olhar-te de leve

meu olhar sobre ti asas

a roçarem folhas, de passagem,

sem pouso permitido

asas a perderem o rumo

asas a perderem o prumo

asas num voo vertigem

direto  ao chão.

 

Saudades de ti diante de ti

eu a receber e a guardar

olhares de todos os cantos

canto chão

cantochão

no tempo sempre a escoar

sempre em fuga de nós

e do nosso outro tempo

aquele eterno, imóvel,

que nos cravou no mostruário

as asas de borboleta

para sempre em oculta exposição.

 

Saudades de ti diante de ti

esta história, nossa história

suspensa nos galhos da árvore

a perder de vista

a tocar o céu

no bico das aves

sempre a partir

nossa história

que não podemos tocar

a cintilar provisória

nos olhos destas pessoas

que também nunca a conhecerão.

 

Saudades de ti diante de ti

e em breve, muito em breve

nós, a circular em fotos

diante do mundo

e enquanto estas não nos chegam

volto para a casa

onde minha mãe me habita

onde não me habito há mundos

e vou-me, a ler teu livro

que não nos conta, mas nos diz

nos desdizendo

assim, nesta Dor que nos corrói,

para sempre,  assassinando.

 

Saudades de ti

e eu me dissipo

 

como se dissipam

 

ventos…

 

nas mãos

 

nossos fiapos…

Senador ALOYSIO NUNES FERREIRA (psdb): Escândalo da Controlar já atinge senador – 247 / são paulo

Escândalo da Controlar já atinge senador Aloysio

Escândalo da Controlar já atinge senador AloysioFoto: DIVULGAÇÃO

ALÉM DO PREFEITO GILBERTO KASSAB E DO EX-GOVERNADOR JOSÉ SERRA, ALOYSIO NUNES FERREIRA TAMBÉM ESTÁ ATORDOADO COM A PRISÃO DE JOÃO FAUSTINO (ESQ.), EX-SUBCHEFE DA CASA CIVIL DE SÃO PAULO, NA OPERAÇÃO SINAL FECHADO; FAUSTINO ERA TÃO FORTE QUANTO PAULO PRETO NO RODOANEL

27 de Novembro de 2011 às 10:03

247 – A informação mais revelante da Folha de S. Paulo deste domingo, um catatau que circula com centenas de páginas nos fins de semana, está escondida em três pequenas notas, sem chamada na primeira página. Publicadas na coluna Painel, de Renata Lo Prete, elas tratam do escândalo Controlar, empresa de inspeção veicular que provocou o bloqueio dos bens do prefeito Gilberto Kassab, e suas conexões com o Palácio dos Bandeirantes. Aqui, no 247, noticiamos que um dos homens fortes de José Serra, João Faustino, está preso desde a última quinta-feira em Natal, no Rio Grande do Norte, em razão da Operação Sinal Fechado (leia mais aqui).

Às notas de Renata Lo Prete:

Surpresa!

Quem acompanhou de perto o processo que levou a Prefeitura de São Paulo a validar o resultado de licitação para inspeção veicular realizada na gestão de Paulo Maluf (PP) atesta: a pressão sobre Gilberto Kassab (PSD) não vinha da Controlar, vencedora do questionado certame, e sim da CCR – que veio a adquirir o controle da Controlar pouco depois da assinatura do contrato com o município.

Conexões 1

Carlos Suarez, ex-sócio da construtora OAS acusado de improbidade administrativa pelo Ministério Público paulista no caso Controlar, tem ligação antiga e estreita com João Faustino (PSDB-RN), suplente do senador José Agripino (DEM-RN) preso na quinta-feira em operação que apura fraudes na inspeção veicular (entre outros serviços sob o guarda-chuva Detran) no Rio Grande do Norte.

Conexões 2

Tucanos graúdos se mobilizam intensamente nos bastidores para avaliar a situação e projetar os danos da prisão de Faustino, que foi o número dois do hoje senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) na Casa Civil durante o governo de José Serra.

Renata Lo Prete é uma das melhores jornalistas do Brasil. Daquelas que sabem das coisas. Foram dela, por exemplo, as entrevistas com Roberto Jefferson, que desencadearam o escândalo do Mensalão. Neste caso Controlar, ela vem publicando informações a contagotas. Por “tucanos graúdos”, leia-se José Serra e Aloysio Nunes. Isso porque João Faustino foi uma peça estratégica no governo Serra. Tão importante quanto outro assessor de Aloysio, conhecido no mercado como Paulo Preto.

Paulo Preto, engenheiro da Dersa e responsável pelas obras bilionárias do Rodoanel, foi o arrecadador, junto às empreiteiras, de recursos para a campanha presidencial de 2010. João Faustino, por sua vez, coordenava a campanha fora de São Paulo, inclusive no tocante à arrecadação.

A Operação Sinal Fechado e a ação do Ministério Público que bloqueou os bens de Kassab têm conexão direta — ocorreram simultaneamente. O elo entre as duas é a empresa Controlar, criada por Carlos Suarez, ex-dono da OAS.

Comentários para “Escândalo da Controlar já atinge senador Aloysio”

  1. Antonio S. Valentim 27.11.2011 às 19:13

    Xiiiiiii, A Elite politica honesta correta etc,etc,etc, não existe? Quero ver a cara do Agripino Maia,Gilberto Kassab,J. Serra e seu amigo Paulo Preto, Ahan, não é amigo, Foi? certo, e o Aloysio Nunes e João Faustino tabem foi não são mais, deixaram descobrir o desvio. Gente onde vamos parar?

  2. Maria Amélia Martins Branco 27.11.2011 às 18:57

    Era só uma guestão de tempo pra sujeira DEMOTUCANA vir à atona, demorou, mais o controle começa a sair das mãos do PIG, parabéns brasil247 pela imparcialidade, os éticos, os indignados que todo dia derrubam Ministros tem telhado de vidro, hoje é VIDRAÇA.

  3. André Oliveira 27.11.2011 às 10:18

    Olha só a malfeitoria chegando as portas do gabinete do Sr Senador Agripino Maia.!!!.Quem diria que a vestal seria flagrada remelenta, remelenta, nas lamas da desabonança..

  4. André Oliveira 27.11.2011 às 10:16

    O Pau que dá em Chico tem que dar no Francisco também..Boa Brasil 247.. Eu não defendo nem corrupto e nem corrupção, mas não admito esse substantivo que a direitalha criou chamado de “corrupção do PT”, como não concordo com o termo “tucanar” as coisas..Quanto mais decente for a imprensa melhor será o país…

  5. Joselito 27.11.2011 às 10:11

    O pau dá que dá em Chico tem que dá em Franscico,brasileiro é pobre mas é limpinho,já somos 80 por cento indignados com roubalheiras e acusações só de um lado como se eles fosse um exemplo para a sociedade,esqueceram dos 45 escandalos do FHC quando foi gov. que tinha uma imprensa a seu favor e uma Justiça que engavetava tudo,agora temos o Google e só perguntar e entrar pra saber tudo só é ignorante quem quiser,quando aparecer um politico cara de pau, entre no google e veja o curriculo dele,você não precisa esperar horario politico pra conhecer o candidato,agora eles não nos enganam mais fomos enganados por 500 anos chega,trabalhe para deixar um Pais melhor pros seus netos.Viu´só o Pais que os militares deicharam para nós.?200 anos de atrazo.Vote em quem está tirando o Brasil do Atrazo.

  6. Jofra 27.11.2011 às 09:22

    Parabéns a este JORNAL, bate nos dois lados! Acredito que seja o mais imparcial do Território Basileiro. Veremos como a TUCANADA vai justificar ( este caso deve entrar para o rol daqueles que foram atos enganosos do poder público – erros da Polícia Federal / Ministério Público etc…etc…a exemplo do caso Protógenes – o ótimo delegado federal que foi linchado até pela imprensa por ter mexido onde não devia). VIVA a DEMOCRACIA BRASILEIRA que está amparada em 90% pelas redes sociais e por jornais como este. Observem, isto só irá para os noticiários do PIG quando não houver mais jeito. Diferentemente do envolvido com o DETRAN de São Paulo, que deixou o DEM e, por isso, está estampado em todos os JORNALECOS tanto a sua foto como a história ( ou estória?) do ocorrido. Mas, este cara é TUCANO, não se deve fazer mau juízo dele! Eta Brasilzão daszelites…….

Dr. PAULO HOFF: Incidência de câncer vai aumentar no País / são paulo

Envelhecimento fará número aumentar nos próximos anos, afirma o oncologista Paulo Hoff, diretor do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e médico do ex-presidente Lula

Ele nasceu em Paranavaí (PR), viveu em Passo Fundo (RS), graduou-se em Brasília e foi médico residente na Universidade de Miami e em Houston. Paulo Marcelo Gehm Hoff, 43 anos, é hoje uma das principais autoridades brasileiras em câncer, professor da USP, e está encarregado de cuidar da saúde do ex-presidente Lula, que trata de um tumor na laringe. Diretor do hospital Sírio Libanês e do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), tem entre seus pacientes a presidente Dilma, além do ex-vice-presidente José Alencar, que lutou contra a doença até março.

Veja também:
link Câncer afetará 1 milhão de brasileiros nos próximos 2 anos, aponta Inca 

Na última sexta-feira, um dia após a divulgação da estimativa do Inca (Instituto Nacional de Câncer) de um aumento no número de casos da doença no país em cerca de 1 milhão de novos pacientes nos próximos dois anos, Hoff disse que a estimativa é conservadora. “Temos no Brasil ainda uma falta de dados exatos do número de câncer, mas acredita-se que a estimativa do Inca esteja muito próxima da realidade”, afirma.

Ele explica que o envelhecimento da população deve levar o quadro da doença a níveis dramáticos nos próximos anos. Para combater isso, segundo Hoff, é preciso investir agora em prevenção e conscientização dos jovens sobre hábitos saudáveis de vida. “A conta será cobrada daqui a algumas décadas”. Ele afirma que 60% dos pacientes com câncer têm cura, que há medicamentos para reduzir o desconforto da quimioterapia, e critica a Resolução 196, que restringe a pesquisa científica no Brasil desde a gestão do ex-ministro Adib Jatene. “A agenda da pesquisa é dependente da indústria. É preciso mudar isso”, diz.

Após ter administrado a segunda sessão de quimioterapia ao ex-presidente Lula, no começo da semana passada – a última está prevista para janeiro -, Hoff afirma que o paciente reage bem ao tratamento do câncer na laringe. O prognóstico do ex-presidente, segundo o médico, “é bom” e que as informações sobre o tratamento são “absolutamente transparentes”.

Filho de um ex-dono de laboratório de análises clínicas em Paranavaí, o oncologista é casado com uma médica, tem três filhas, torce para o Internacional (RS) e é um apaixonado por assuntos de defesa, como aviões e navios de guerra. Perguntado se aceitaria ser ministro da Saúde, responde: “Eu? Nunca fui convidado”.

Abaixo, os principais trechos da entrevista no Icesp.

O Inca diz que há uma estimativa de um milhão de novos casos de câncer nos próximos dois anos no País. O que significa do ponto de vista da saúde pública?
O Inca talvez seja hoje uma das instituição mais sólidas em termos de estudos e investigação epidemiológia do câncer na América Latina. Então nós temos de acreditar nesses dados. Se nós quisermos ter alguma dúvida em relação a esses números é que eles podem ser até um pouco conservadores. Temos no Brasil ainda uma falta de dados exatos do número de câncer, mas acredita-se que a estimativa do Inca esteja muito próxima da realidade. Os números liberados agora têm algumas nuances importantes. No ano passado, o número da estimativa era de 500 mil casos. Neste ano, 520 mil. Um aumento substancial. Infelizmente a expectativa sobre esse número é de que continue a aumentar. Na pergunta foi mencionado qual era a expectativa de um milhão de casos nos próximos dois anos. Eu iria mais longe: nos Estados Unidos haverá um milhão e meio de casos em um ano – e o Brasil tem um terço da população americana. Se nós seguirmos nesta projeção ascendente, que se confirmou entre as estimativas de 2011 para 2012, nós teremos no futuro um número muito maior de casos. Não é impossível que cheguemos a ter um milhão por ano, quando a nossa população realmente atingir seu estado mais maduro e tivermos uma população elevada acima dos 60 anos.

Hoje temos no mundo em torno de 25, 26 milhões de casos.
Mas esse número vai aumentar bastante. E o número que é dramático é que até 2030 esta incidência deve aumentar em mais 15 milhões. E esse aumento se dará predominantemente em países em desenvolvimento cujas populações estão envelhecendo agora. Nos Estados Unidos, Europa etc, esta fase de amadurecimento já aconteceu há alguns anos. A pirâmide populacional mudou e as incidências subiram muito em anos passados e agora começam a estabilizar. Para nós, as curvas ainda são ascendentes.

O envelhecimento projeta um aumento importante dos casos.
A maior parte dos tumores tem mais de um fator que leva à formação da doença. Mas entre todos os fatores de risco o que é mais comum a todos os tumores é o envelhecimento. Porque o envelhecimento faz com que as células tenham mais tempo expostas a fatores que possam transformar as células normais em cancerosas. O envelhecimento faz com que haja mais pessoas sob risco, e consequentemente um aumento na incidência. Mas gostaria de dizer que se abrem oportunidades. O câncer não é doença que se forma do dia para a noite. As pessoas têm a impressão de que o câncer se forma de um ano para o outro. Na realidade, o processo é muito longo, com exceção dos tumores associados a síndromes familiares, que são muito rápidos, em geral os tumores levam de uma a duas décadas para se instalar. Então, se nós já sabemos que a estimativa atual é que haverá um envelhecimento da população e que essas pessoas terão um risco maior, nós temos a oportunidade de atuar na juventude agora para fazer com que ela minimiza a exposição. Você nunca vai conseguir eliminar o risco. Mas voce pode reduzir a chance. Mais ou menos como alguém que está dirigindo a 140/150 quilômetros um carro e baixa essa velocidade para 80 quilômetros por hora. Ele ainda tem o risco de um acidente, mas é menor do que se ele continuasse naquela velocidade.

Daí a iniciativa do trabalho com escolas do Icesp.
Justamente. Temos uma preocupação muito grande de como nós, no Icesp, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, podemos colaborar na redução dos casos de câncer a longo prazo. É importante não só se pensar no tratamento e diagnóstico precoce, que são soluções a curto prazo, mas nas soluções a longo prazo. Sabendo do tempo de formação do tumor, nós achamos que o momento no qual teríamos mais impacto é a conscientização do jovem. O jovem sempre pensa que é invulnerável, que não tem alta incidência de câncer, de outras doenças, e tende a ser um pouco mais solto em relação a hábitos. No entanto, o que ele faz agora vai cobrar a conta daqui a algumas décadas. Nossa iniciativa visa a conscientizá-lo de que hábitos saudáveis agora podem evitar que ele enfrente esse problema daqui 20 anos.

Doutor, o que é o câncer?
O câncer, na realidade, não é uma doença. Há centenas de doenças que têm características similares, que agrupamos com nome de câncer. Hoje a gente sabe que mesmo câncer de um órgão específico são doenças diferentes. Por exemplo: você pode ter duas mulheres com câncer de mama e um tumor não ter nada a ver com o tumor da outra. O que leva a nós chamarmos de câncer são algumas características em comum. Primeira delas: o câncer é doença que advém de alteração no código genético de uma célula afetada. Isso é comum a todas elas. Aconteceu alguma alteração naquele código que rege as funções e o desenvolvimento da célula fez com que ela se tornasse anormal. Segundo ponto: ele tem a capacidade de invadir estruturas adjacentes e mais, ele consegue viajar e se instalar a longa distância. A junção dessas características é o que nos leva a chamar uma doença de câncer.

O que é apoptose?
É um mecanismo que o organismo tem de eliminar células defeituosas ou que já tenham cumprido sua missão. Seria, entre aspas, o suicídio da célula. Por exemplo: se você tem um indivíduo que pega bastante sol e uma dessas exposições a radiação solar causou uma alteração numa célula da pele, esta célula pode vir potencialmente a se transformar em um câncer. Dentro da própria célula ela tem mecanismos que fazem com que se ative a apoptose, e ela morre. Geralmente isso acontece quando há um defeito no código genético que não pode ser reparado. A célula vem e tenta reparar o problema. Não conseguiu, então, ela instruiu a célula para morrer para que não cause câncer. Muitas vezes o câncer acontece porque temos defeitos nesses mecanismos de gerar apoptose.

O que é angiogênese?
Angiogênese é um termo bastante antigo. Foi cunhado por um cientista britânico chamado John Hunter, no Século 18, estudando feridas cirúrgicas. É a formação de novos vasos sanguíneos. Porque é importante em termos de câncer: o câncer precisa de oxigênio , precisa de uma via para receber alimentação e eliminar os produtos nocivos que são gerados pelo metabolismo. Então, se a célula cancerosa não conseguir fabricar um novo vaso, ela não consegue crescer. Se você consegue bloquear a angiogênese dentro do tumor você faz com que o tumor pare de crescer ou até regrida.

Esse seria um ponto fraco da doença.
É um dos pontos que têm sido explorados nos tratamentos. É um dos pontos fracos do tumor.

O senhor tratou do ex-presidente José Alencar, da presidente Dilma e do ex-presidente Lula. Qual deles foi melhor paciente?
Todo paciente é especial.

O senhor votou em Lula?
O voto é secreto.

O caso de Lula é relacionado ao fumo, câncer de laringe. Qual é o prognóstico?
O câncer de laringe tem sido bastante estudado. E o tratamento tem evoluído bastante nos últimos anos. Diria nas últimas décadas. Hoje a chance de sucesso de um câncer de laringe é bastante alto, especialmente se ele é descoberto no momento em que ele está confinado na região onde se iniciou. No caso do nosso ex-presidente, justamente se identificou que a lesão estava localizada, ainda, não havia disseminação do tumor. Então, o prognóstico é bom. Mas eu diria, se você me permitir, que mesmo instituições que trabalham com o Sistema Único de Saúde (SUS) têm a possibilidade de oferecer quimio e radioterapia que levam a uma chance de sucesso bastante alta. Em diversas regiões do Brasil. É um dos tumores com taxas de sucesso bastante boa.

Ele fez duas sessões, vai fazer mais uma. Isso é o mais indicado para o caso dele, ou é procedimento para todo paciente desse tipo de caso?
Não. Nós temos hoje em dia um interesse muito grande em individualizar a terapia. Os tratamentos para os diversos tipos de tumores são padronizados de acordo com o tipo de tumor a sua apresentação e a condição do paciente. Se você imaginar, são três grandes áreas que você trata a intersecção dessas três áreas. Tumor, paciente e o seu tratamento. Esse tipo de tratamento oferecido ao nosso ex-presidente foi desenhado especificamente para a situação dele. Existem tratamentos em que há cirurgia imediata, outros em que há cirurgia, seguida de quimio e radioterapia, e outros ainda quimio e radioterapia inicialmente. Esse foi o escolhido para ele.

Uma das queixas do paciente com a doença, nesta fase do tratamento, é o desconforto. Como fazer para reduzir os danos da quimio?
Nós evoluímos muito em termos de controle de sintomas no tratamento nos últimos 20 anos. Quando eu comecei a tratar pacientes com câncer não era incomum que no dia do tratamento o paciente ficasse fechado num quarto tomando soro, com as luzes apagadas, ar condicionado ligado. O paciente vomitava, um desconforto excessivo. É claro que o tratamento oncológico continua sendo um tratamento difícil. Mas evoluímos muito. Hoje nós temos medicações que permitem que o paciente tenha qualidade de vida aceitável. Ainda haverá dias em que os efeitos colaterais afetarão as atividades normais do pacientes. Particularmente quando você está fazendo um tratamento em áreas mais delicadas do organismo. como por exemplo a laringe, uma área extremamente nobre do organismo, o que nós comemos, respiramos, bebemos passa por essa região do pescoço. Mas existem outras áreas que são igualmente delicadas e, de novo, os esforços têm sido não só em melhorar o tratamento, mas também em diminuir o desconforto do paciente. Nós vamos evoluir eventualmente para tratamentos muito mais específicos, que pouparão muito mais as células normais e atuarão muito mais sobre as células cancerosas. Isso já está acontecendo, mas nem sempre é possível.

Já há drogas específicas e disponíveis?
Temos a primeira geração dessas medicações. No entanto, elas não estão disponíveis para todos os tipos de câncer. O mesmo essas drogas ainda não são perfeitas. Um cientista alemão, do final do século 19, início do século 20, chamado Paul Ehrlich, cunhou um termo ‘bala mágica’, uma bala que quando fosse disparada e só acertaria o bandido, poupando as outras pessoas ao redor. A ideia dele é que se pudesse desenvolver um tratamento que matasse só a célula cancerosa sem atingir as demais. Ainda não chegamos na ‘bala mágica’ de Paul Ehrlich, mas já andamos nesta direção. Eu tenho muita convicção de que vamos chegar nesse ponto porque o tratamento mais moderno já está muito mais próximo disse do que era. Novamente: infelizmente ainda não é perfeito e nem está disponível para todos os tipos de tumores. Novas gerações desses remédios terão de ser desenvolvidas para se atingir esse objetivo.

Com o que se tem hoje, o câncer tem cura?
Hoje nós conseguimos curar mais de 60% dos pacientes com câncer.

Quando o senhor fala de cura é eliminar completamente? A pessoa vai morrer idosa ou de uma outra doença?
Exatamente. Alguns tumores têm mais chance de sucesso. Por exemplo: dos que temos grande chances, pacientes com tumor de testículos, que é tumor importante porque atinge homens jovens. Nós temos a chance acima de 90% de curar. Mesmo quando ela está mais avançada. Maior exemplo é o ciclista americano Lance Armostrong, que teve um câncer de testículo com metástase no cérebro, foi tratado e ficou não só curado como ganhou o Tour de France várias vezes depois do tratamento. Um sucesso. Outros têm taxa menor em termos de cura. Mas mesmo assim temos evoluído. Há um sarcoma, incomum, chamado Gist, tumor do sistema gastro intestinal. Esses tumores tinham expectativa de vida, quando já avançados, de menos de um ano. Hoje, quando não é curável, a expectativa de vida é de mais de cinco anos. E vem aumentando ano a ano. Graças a essas moléculas específicas que a gente chama de terapia Alfa. Temos tido avanços, não na velocidade que gostaríamos, mas hoje em muitas apresentações é curável.

Um médico salva muita gente, mas também convive com as perdas. Como é perder um paciente?
É uma experiência muito difícil. Ninguém aceita isso. O médico aprende a conviver com a perda, porque se não ele teria de abandonar a profissão, especialmente um oncologista, porque o número de pacientes que acaba falecendo da doença é muito grande. É um momento de dor para todos os envolvidos. O tratamento oncológico é intenso. Nós trabalhos com o paciente lutando juntos, com frequência grande, períodos longos. Você vê o paciente muito. Se formam vínculos de amizade. Por outro lado, procura-se ver o sucesso, aqueles que se curam. E mesmo aqueles que não conseguem sobreviver nós procuramos ver se conseguimos fazer com que esse paciente vivesse mais tempo, tivesse oportunidade de ver a formatura de um filho, assistir a um casamento, coisas importantes para ele. E se a qualidade de vida foi mantida da melhor forma possível até o fim.

Os médicos fazem estatísticas desse sucesso? O senhor mede?
individualmente, não. Não tenho esse hábito. Como instituição, acho muito válido e necessário que façam suas estatísticas de sucesso. Para ter certeza de que está fazendo o melhor.

O senhor fez medicina nos EUA. O que diria a um jovem que pretende cursar medicina no Brasil?
Eu sempre tive muito orgulho da minha formação no Brasil. Os médicos brasileiros com os quais convivi nos Estados Unidos sempre foram muito respeitados nos grupos. Eu diria a um aluno que depende muito de seu esforço. Acho que no Brasil há todas as condições de formarmos médicos excelentes, mas é necessário esforço pessoal. No passado, quando eu fui aos Estados Unidos, havia uma discrepância muito grande entre a infraestrutura disponível aqui e a de lá. A primeira vez que cheguei na Universidade de Miami coloquei o jaleco e comecei a caminhar na direção do hospital, foi um choque. Era muito diferente do que eu estava acostumado a ver. Hoje não é tão diferente. Visitei recentemente a Universidade de Miami, visitei as clínicas, e não há mais diferença. Em muitos aspectos o Icesp tem uma estrutura mais acolhedora. Mas há que ter cuidado. O Brasil teve um aumento muito grande no número de escolas médicas. Nem todas estão preparadas para formar um médico que nós precisamos. É importante que haja um controle da qualidade dos médicos que estão se formando.

É possível fazer boa medicina com a pressão de custos do sistema hospitalar?
A pressão é nos médicos e hospitais mundiais. Nos Estados Unidos, o presidente Obama passou lei de atenção à saúde que está sendo questionada. É possível que ela seja desfeita. A pressão de custos é universal. Se podemos fazer boa ciência? Podemos. Boa medicina? Podemos. Mas vamos ter de aprender a racionalizar os recursos. Há, às vezes, a impressão de que é possível se fazer tudo para todos sendo estabelecido, experimental etc. Infelizmente a realidade não é essa. Há limitações. Deveríamos ter mais verbas? Gostaria que tivéssemos. Mas também ficar só mencionando isso é complicado. Acho que sim, temos que lutar por mais verbas, mas temos que racionalizar o uso do que temos também.

O senhor dirige o Sírio Libanês, privado, e o Icesp, público. Qual é a maior dificuldade na questão da gestão?
São mundos bastante distintos, mas que estão se aproximando. Acho que o sistema público, pelo menos as instituição de mais qualidades, estão se aproximando mais do sistema privado. mas sempre haverá diferenças, como entre dois hospitais privados. Aqui, no Icesp, público, temos a dificuldade de financiamento da saúde maior do que o que você tem numa instituição privada. O salário dos médicos não são exatamente o que nós gostaríamos que fosse. É natural a dicotomia. Uma pergunta importante, que ainda não foi feita, é qual seria o grande problema do atendimento oncológico hoje no Brasil? Nós discutimos muito o acesso a novas drogas, a novos equipamentos. É importante. Mas o grande problema é o acesso aos serviços. Você precisa fazer com que o paciente que tem suspeita de câncer tenha seu tratamento iniciado mais rápido. Como fazer? De duas maneiras: aplicando na infraestrutura e racionalizando o uso do que você já tem. Por que há filas e o paciente reclama? É importante esclarecer à população que não é um porque os médicos do hospital x,y,z não estão atendendo, ou o hospital está de má vontade. É que a demanda é maior do que o que os hospitais têm. Se tenta fazer o melhor. O que precisamos é de um sistema que redistribua melhor essa demanda.

Doutor, o senhor aceitaria ser ministro da Saúde?
Eu? Nunca fui convidado.

É possível fazer boa formação sem o apoio das corporações e indústria que financiam pesquisa?
No Brasil, nós tínhamos uma falta de arcabouço jurídico da pesquisa clínica que estava sendo realizada. Na gestão do ministro Adib Jatene, da Saúde, se criou um sistema nacional de controle ético de pesquisa e se regulamentou como seriam as relações entre pacientes, médicos, prestadores e patrocinadores. A espinha dorsal é a Resolução 196 da Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisas). Temos que reconhecer que a Resolução 196/96 foi um grande avanço. Regulamentou o que era feito sem controle adequado. E estabeleceu marcos importantes em defesa dos pacientes. No entanto, a Resolução 196 e as que se seguiram a ela criaram uma situação em que a pesquisa clínica no Brasil ficou extremamente restritiva e extremamente cara. Se você seguir ao pé da letra, fica quase impossível fazer pesquisa que não seja patrocinada por indústria farmacêutica. Os tratamentos padronizados tem de ser cobertos por alguém que não seja o SUS, seguros ou pacientes. Quem é que tem dinheiro para pagar? A grande indústria. Hoje, a agenda da pesquisa ficou altamente dependente da indústria farmacêutica.

Mas isso não gera uma questão ética para o médico?
Depende de como ele se relaciona. Gera é uma questão maior. Uma questão de desenvolvimento de conhecimento para o país. É do nosso interesse que a pesquisa médica do país seja dominada só pela indústria farmacêutica? Eu não sou contra a indústria. Sou totalmente a favor do relacionamento com a indústria dentro de normas éticas. Mas acho que deve existir outras formas de pesquisa. Mesmo porque existem pesquisas clínicas relativamente simples que não são do interesse da indústria. Um exemplo: se eu imaginar um tratamento com a droga Y e a dose é de 100 ml de aplicação e eu, estudando, imagino que 50 ml seja suficiente, para fazer um estudo tenho de achar alguém que pague os 100 ml do braço de controle e os 50 ml do experimental. Embora os 100 ml seja padronizado e se eu for tratar o paciente, o que farei, será coberto. Pela lei atual tenho que achar alguém que pague os dois braços. Será que a indústria vai ter interesse em patrocinar um estudo que vai levar à venda da metade do que ela vende atualmente? Difícil.

Qual a solução?
É você pensar melhor a questão. Drogas novas têm de ter seu desenvolvimento patrocinado totalmente pela indústria, sem dúvida. Mas acho que te de haver flexibilidade para instituições acadêmica, quando estiverem avaliando protocolos padronizados possam fazer a cobrança na fonte usual. Não é aumento de despesa. Fico feliz que a Resolução 196 tenha sido colocada em discussão agora. Estão recebendo no Ministério comentários da comunidade científica para tentar aperfeiçoar a resolução. Queremos manter a ética da pesquisa. É importante que o que for experimental seja coberto por quem eventualmente vá lucrar, mas temos que ter cuidado para não jogar o nenê junto com a água do banho. Temos que separar o que tem de ser patrocinado pela indústria e o que tem de ser acadêmico, que vai beneficiar o SUS, inclusive. Outro ponto é que o Brasil só perde em tempo de aprovação de pesquisa para a China. Hoje nosso tempo médio é muito longo, que faz com que sejamos excluídos de estudos importantes. Não queremos diminuir a avaliação ética dos projetos. Mas precisa ser mais célere. Hoje temos duas instâncias: a maior parte dos países tem uma instância de aprovação e uma de supervisão.

por Pablo Pereira.

“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.” – Chico Xavier

em 25/11/2011 as 20:10

recebi a FRASE ACIMA, de um leitor amigo e colaborador do site, há alguns meses, como sendo de CHICO XAVIER. entendi de publicar. não coloquei dúvida na autoria, até porque, o respeitável espírita jamais assumiria algo que não fosse seu ou dos seus mentores. agora, o meu amigo e brilhante escritor OLSEN JR, também colaborador do site, nos esclarece que se trata de uma frase/pensamento do não menos brilhante poeta/filósofo português FERNANDO PESSOA. sem, pessoalmente, saber da origem real, tomo posição  favorável ao alerta de OLSEN JR, a quem, de público, agradeço esta preciosa colaboração corretiva. é difícil de se compreender as pessoas por tais atitudes. modificar a autoria não melhora a imagem de ninguém, antes, pelo contrário, agride a moral do provável beneficiado. para que os comentários e esta observação tenham sentido, mantenho o post tal como está.

CHILE: Homenagens a assassinos e torturadores não são mais aceitas – por christian palma / santiago.ch

No Chile, a dor e as feridas causadas pela ditadura estão longe de fechar. Um exemplo desta situação foi protagonizado pelo próprio Piñera, pelo prefeito da acomodada e conservadora localidade de Providencia, o ex-coronel de Exército, Cristián Labbé, e seu ex-superior hierárquico, o brigadeiro reformado Miguel Krassnoff (foto), acusado, este último, de delitos de lesa humanidade nos tempos em que Pinochet governava o país. Uma homenagem a Krassnoff gerou forte reação popular.

No Chile, a dor e as feridas causadas pela ditadura estão longe de fechar. Ainda mais quando diversas autoridades, inclusive algumas de dentro do governo de direita de Sebastián Piñera, insistem em olhar para o lado e fazer de conta que não aconteceu nada.

Um exemplo desta situação foi protagonizado pelo próprio Piñera, pelo prefeito da acomodada e conservadora localidade de Providencia, o ex-coronel de Exército, Cristián Labbé, e seu ex-superior hierárquico, o brigadeiro reformado Miguel Krassnoff, acusado, este último, de delitos de lesa humanidade nos tempos em que Pinochet governava o país.

A indisposição cidadã começou na semana passada quando Labbé –reconhecido amigo do defunto ditador chileno- anunciou que faria uma homenagem à Krassnoff, o que foi valorizado e respaldado pelo palácio de La Moneda. A opinião pública levantou a voz por meio das redes sociais, pela qual Piñera se retratou alegando que uma colaboradora havia falado por ele. Sua mensagem foi via twitter e não de frente ao país como a situação merecia.

Ontem pela manhã, a poucas horas de que a homenagem dos militares começasse, pois não foi suspensa pelo governo, o ministro visitante da Corte de Apelações de Santiago, Alejandro Solís, abriu um processo contra quatro ex-integrantes da Direção de Inteligência Nacional (DINA – a temida polícia secreta de Pinochet) pelo sequestro qualificado de Newton Morales Saavedra, ocorrido a partir de 13 de agosto de 1974 em Santiago, na etapa mais sangrenta da ditadura (1973-1990).

Entre os acusados da autoria deste delito está o homenageado, o ex-brigadeiro Krassnoff, juntamente com o general (R) Manuel Contreras Sepúlveda, o coronel (R) Marcelo Moren Brito e o suboficial (R) Basclay Zapata Reyes, todos assassinos e torturadores consumados.

De acordo com os autos do processo, Morales, de 39 anos, foi detido sem nenhuma ordem judicial por volta das 21h15min em seu domicílio em Santiago, por três agentes da DINA, que o introduziram em um veículo de cor vermelha com antenas, foi conduzido até um quartel da agrupação de inteligência que se localizava no centro de torturas na rua Londres, nº38, no centro da cidade.

Os quatro processados foram notificados desta resolução nos recintos de detenção preventiva onde cumprem pena por outras causas vinculadas a violações de direitos humanos. No caso de Krassnoff, o trâmite se realizou em Punta Peuco onde cumpre 144 anos de pena como participante destes crimes de lesa humanidade. Mesmo assim, a homenagem continuou adiante.

A comunidade mostrou seu descontentamento. Não só nos cafés, nas esquinas ou nas praças públicas. Outra vez as redes ferveram repudiando a cerimônia. De fato se convocou uma “funa” (grupo de pessoas que se reúne para interpelar algum delinqüente) que irrompeu pela tarde na chique e facistóide localidade de Providencia.

Cerca de 500 pessoas, após saírem de seus trabalhos, chegaram até o Club Providencia para reclamar contra o violador de direitos humanos.
Os convidados para a cerimônia que chegaram até o recinto foram objeto de insultos, cuspidas e tentativas de agressão protagonizadas por alguns dos manifestantes. O grito de “assassinos, assassinos” foi escutado novamente em Santiago.

A polícia uniformizada, que estava de prontidão próximo ao local, atuou com força, com carros lança-água, bombas de gás lacrimogêneo e porretes. De fato, uma mulher sofreu um ferimento no rosto devido ao impacto de uma bomba de gás lacrimogêneo.

Em meio aos protestos, foi recebida pelo menos uma ameaça de bomba no lugar. Embora num primeiro momento se informasse de uma evacuação do Club Providencia, os convidados à homenagem continuaram ingressando ao centro de eventos e não se informou sobre a suspensão do evento.

“Este é um ato puramente militar. Que os políticos fiquem em suas casas” afirmou um coronel reformado, companheiro de promoção de Krassnoff e que parecia não se importar com os acontecimentos.

De fato, Labbé voltou às manchetes quando reprimiu os estudantes secundários em greve através da força policial.

A dirigente da Agrupação de Familiares de Detidos Desaparecidos (AFDD), Mireya García, criticou o trabalho policial frente às disputas ocorridas com os que compareceram à homenagem, assegurando “se manifestam com um grau de violência que realmente é abismal e os carabineros permanecem impávidos nestas circunstâncias”.

Disse ainda que o prefeito Cristián Labbé “não tem o direito de encabeçar uma cerimônia desta natureza, porque ele foi eleito por votação popular e, portanto, tem que representar todos os moradores de Providencia e não somente um setor. Eu acredito que o prefeito Labbé não pode continuar sendo prefeito, não pode continuar sendo representante de uma comunidade porque se colocou definitivamente do lado dos criminosos”.

“Esta é una atividade que nunca deveria ter sido realizada. O Presidente Piñera devia ter tido uma atitude de repúdio absoluto oficialmente”, sustentou a dirigente.

No final do dia, vários manifestantes foram detidos e feridos. Armaram-se barricadas nas proximidades, o que demonstra que as pessoas não tolerarão mais abusos ou lembranças daqueles que os praticaram. Ontem à noite no Chile a frase “nem perdão nem olvido”, se escutou com força.

Tradução: Libório Junior

BONDADE – de sergio bitencourt / curitiba.pr

Cada Ser Humano tem a uma Bondade, que é dele,
 E que lhe cabe.
É exercida com os seus que Ama,
E com outros que também Ama.
Ser Bom, é exercer a Bondade,
E não patrocinar a vontade dos seus ou fora deles.
Ser Bom é conhecer sem julgar,
Mas conhecer sem se arrepender,
É dar a cada qual o que lhe cabe naquele momento,
Bondade não tem Tempo.
A necessidade é de cada tempoi,
E irraigada com ele.
De modo que, a necessidade de cada qual,
Não tem vínculo com a Bondade se quer de um só.
A Bondade não é nem necessária,
Prescinde da necessidade,
E a necessidae não prescinde nem de sí.
Então, o que é Bom,
É Bom porque quer ser,
E fim.

UM POEMA – de gilda kluppel / curitiba.pr

Um Poema

Sou um ser estranho

ando pela cidade

encontro beleza no asfalto

em qualquer esquina,

numa rua, na sarjeta

exalo o cheiro de chuva na relva.

Sou um trovador

em versos e rimas

o motivo para um enredo,

experimento sensações

acalento sonhos, desvelo segredos

não uso disfarces, mas tenho muitas faces.

Sou uma saudade

quando os passos andam em desalento

amenizo as despedidas

entre tantas angústias

encontro o porto de chegada.

Sou um ser contraditório

caminho pela contramão

no sentido oposto da ambição

durmo ao relento

aprecio o brilho das estrelas

ou o céu lacrado, inviolável

canto felicidade, dores e mágoas

alegrias e tristezas da vida

as pequenas e as desmedidas

a perfeição me encanta

e também o mal acabado,

o desleixado, o jogado ao acaso.

Sou um abraço

sem amarras e cobranças

apenas afeto, o argumento convincente

meras palavras me realizam

entre tantas metáforas

tenho a força de um sentimento.

ESTOU APRENDENDO – de delinar pedrinho matuczak / quedas do iguaçu.pr


 

Eu pensei que a idade me trouxesse experiência.

Lembraram-me que na vida devesse pedir sapiência

Labutei pedindo experiência

Entendi depois de muito penar

Necessito sapiência, espero que esteja em tempo de aprender a ser sábio e a tentar ensinar isso a alguém.

cognita sum

Putabam me aetate usus.
Admonuit me sapientia vitam peterent
Vocatio experientiam laboraverunt
EGO animadverto multum laborem
Ut sapientiae sapere et spes discite tempus tellus sed do eiusmod aliqua.

O HOMEM E SEU DUPLO – por olsen jr / ilha de santa catarina.sc

   O que vou escrever não tem nada a ver com a obra “O Homem e o Seu Duplo”, de Alexandre Figueiredo, tampouco com “O Homem Duplo” (que originou o filme “A Scanner Darky”) de Philip K. Dick (o mesmo autor de Blade Runner) e menos ainda com “O Homem Invisível”, de H. G. Wells.

   O assunto aqui é mais leve.

É vox populi que todo o homem tem em algum lugar um sósia. Em outras palavras, alguém que é a sua imagem e semelhança, pelo menos no estereótipo.

Mas também não é isso do que pretendo tratar.

Só abrindo um parênteses, o escritor Christopher Lash (conhecido pela obra “A Cultura do Narcisismo”) escreveu uma espécie de continuação dela em outro livro “O Mínimo Eu” em que fala do narcisismo passivo e que o Paulo Francis emendava, referindo-se ao autor “acha que o mundo de hoje é dominado de tal forma por um complexo de burocracias todo poderosas que é difícil a alguém ganhar a individualidade”, mais “a vida é um constante comercial de TV ao qual o espectador tenta se segurar e tenta seguir, mas não consegue”, concluindo “ teme a idade e a morte de maneira infantil, nunca sai da infância”.

Começo por aí, pela infância. Quando éramos crianças, nós inventávamos um mundo de mentirinha e nos refugiávamos nele. A partir daí as brincadeiras faziam um sentido especial o que as tornavam necessárias. Nós não estávamos muito conscientes da duplicidade dos mundos, o que era “real” de onde provínhamos e do outro “imaginado” que acabávamos de criar. Os dois mundos até poderiam se confundir, embora sempre preferíssemos aquele outro o do faz de conta e sobre o qual tínhamos o domínio absoluto, inventando personagens e situações que parodiavam a vida adulta (ou não), mas nesse caso era apenas uma representação que poderia ser abandonada quando estivéssemos cansados dela.

O importante era ter uma ingerência na fantasia que criávamos diferente do mundo “real” onde aquelas aventuras oníricas não tinham guarida.

Nessa vida, dita adulta, o escritor que habita em mim está fazendo esse papel, o mesmo daquela criança que ontem fui e que ainda não me abandonou (porque sempre a tratei bem e nunca a deixei sozinha o suficiente a ponto de ela me ignorar como companheiro de viagem) o que permite a criação de um mundo paralelo aonde vou quando escrevo.

Ao contrário dessa criança, tenho consciência da fronteira entre ambos os mundos (um que eu suporto e o outro que criei) e o curioso agora é que nunca preciso cruzar a ponte de maneira clandestina, sei que consegui cobrir o trajeto quando essa solidão que me condena de um lado me absolve do outro, então escrevo, sozinho, mas livremente.

Agora, recebo um telefonema de uma amiga que está lendo os meus livros, e ela afirma: “não é justo… Assim não é justo”, repete e explica: “fico aqui lendo… Estou me apaixonando”…

Interrompo aquele monólogo e digo que ela pode se apaixonar pelo escritor, que está inteiro nas mãos dela, nas obras que lê, mas o homem por trás do autor é demasiadamente comum, não vale a pena alimentar um interesse por uma natureza humana que pode ser encontrada em cada esquina. Ela não se conforma, mas é a realidade, o escritor foi o sujeito que inventei para melhor suportar o homem comum que eu sou.

Para as pessoas que se crêem normais é muito estranho fazer essa discriminação entre a criança, o homem e o escritor e constatei isso enquanto limpava uma coleção de soldadinhos de chumbo reproduzindo os templários e as cruzadas e comecei a perceber o fragor da luta entre sarracenos e cristãos e, palavra de escoteiro, naquela hora, juro, senti o zunido de flechas e as batidas secas de cimitarras nos escudos que tinham uma cruz pintada em vermelho, diante das muralhas castigadas por catapultas, enquanto uma lança me espetava e tombei ferido de morte antes de afirmar que aquelas distinções não faziam sentido e aquela carnificina era inútil!

 

Sem julgamento, ações contra juízes prescrevem / brasilia.df

Segundo a Corregedoria Nacional de Justiça, há casos abertos desde 2009; prazo de extinção dos processos varia de seis meses a cinco anos

BRASÍLIA – O processo administrativo aberto contra um magistrado do Maranhão por trabalho escravo está parado desde 2007. Em Minas, uma representação contra um juiz, suspeito de morosidade, arrasta-se desde 2005. No Tribunal de Justiça do Amazonas, 10% dos processos foram abertos há pelo menos quatro anos. Esses casos podem estar prescritos e mostram como funcionam as corregedorias de alguns tribunais. Órgãos que deveriam processar e punir juízes acusados de irregularidades retardam as investigações e contribuem para a impunidade.

Veja também:
link Peluso veta divulgação de iniciais de juízes e desembargadores processados
link Peluso divulga lista de processos administrativos contra juízes
link RELEMBRE: Fala de corregedora sobre ‘bandido de toga’ abriu crise no CNJ

Peluso defende investigações pelos próprios TJs - Andre Dusek/AE - 27/9/2011
Andre Dusek/AE – 27/9/2011
Peluso defende investigações pelos próprios TJs

Quando decidiu divulgar que as corregedorias locais têm 1.085 investigações contra magistrados em andamento, o presidente do Conselho Nacional de Justiça, Cezar Peluso, queria mostrar que os tribunais de Justiça fazem seu papel e que a Corregedoria Nacional de Justiça, comandada pela ministra Eliana Calmon, não precisaria intervir com frequência para coibir irregularidades.

Mas uma radiografia nos números mostrou que a intervenção da corregedoria nos tribunais, em muitos casos, tem razão de ser. Como são leves as punições administrativas para magistrados, o prazo de prescrição é curto – de seis meses a cinco anos.

A demora no julgamento desses processos, portanto, beneficia juízes responsáveis por diversas irregularidades, como morosidade e parcialidade no julgamento dos processos, passando por emissão seguida de cheques sem fundo, denúncias de trabalho escravo e atropelamento.

Por isso, Eliana Calmon pediu que as corregedorias expliquem por que há casos abertos antes de 2009 e que ainda não foram julgados. E, a depender do andamento desses casos, a corregedora pode avocar esses processos e julgá-los diretamente no CNJ.

Conflito. A divulgação dos números pelo CNJ serviria para mostrar que as corregedorias dos TJs são diligentes e punem magistrados que cometem irregularidades. Entretanto, os dados acabaram por dar subsídios à intervenção da corregedoria.

“Os números confirmam a veracidade das críticas que fiz, pois, além de revelar a existência de grande número de investigações e processos, mostram que em muitos casos a inoperância da corregedoria local ou do desembargador responsável pelo processo acarreta grande número de prescrições e consequente impunidade”, afirma a ministra.

21 de novembro de 2011 | 22h 40
Felipe Recondo, de O Estado de S.Paulo

“Copia Fiel” – Um Kiarostami original . Ou não? – por monica benavides / curitiba.pr

Assisti mais um filme iraniano.  Copia Fiel, de Kiarostami.

Se quando citei iraniano e Kiarostami, você se animou com imagens de areia, deserto, camelos e exóticas caravanas de beduínos; digo que infelizmente não, esse Kiarostami não vai lhe agradar. Diferente do filme que colocou o Irã na moda e transformou o diretor em queridinho do cinema mundial (Gosto da Cereja), aqui Abbas Kiarostami guarda de sua origem persa muito pouco, apenas um toque. Em todo o mais ele se aproxima totalmente da escola francesa de cinema.

Em Cópia Fiel, esse toque a que me referi fica muito evidenciado. Eu o descreveria  como uma capacidade herdada pela sua origem,  para enxergar uma diferença básica entre o sexo feminino e masculino, uma sutileza de compreensão da vida e relação com o desejo, por parte da mulher, um passar de tempo consciente para elas, que acredito fique  sem eco aos homens ocidentais nascidos após o vitoriano.

No filme, Juliette Binoche, madura, linda e como sempre hipnotizante, (prestem atenção na cena do brinco), apresenta uma forma de sedução velada, com gestos, meio-sorrisos (sua marca registrada), olhares e porque não dizeres, que poderia ser considerada o supra-sumo do uso da feminilidade em uma relação de conquista homem e mulher. Enlouquecendo aos poucos ou não, (aqui está a escola francesa), a personagem de Kiarostami apresenta toda a sua capacidade de fantasiar e brincar de faz-de-conta com o viver.  Isso se dá devagar, através dos diálogos e os famosos closes femininos do diretor, que se desenrolam e que aparentemente surreais, surpreendem o espectador pela carga dramatica, o levando a sem sentir, sofrer por ela em sua tentativa ingênua e constrangedora de cativar.
Willian Shimell, esta muito bem no papel, quase a altura de sua parceira de cena. Mas sua perplexidade soa um tanto falsa e forçada, o que para o clima correto que o roteiro exige, deixa a desejar.

É importante avisar que não existe explicação racional aqui, o expectador não verá uma história lógica com começo, meio e fim e com certeza sairá da experiência um tantinho atordoado.

Se essa era a intenção do diretor, não importa. Para mim, o que há de mais iraniano nesse filme é justamente a capacidade de Abba, como um excelente exemplo do artista originário do Oriente médio (quem já leu Mahfuz e Layla sabe), de contar uma bela história de amor do jeito certo. Dando valor aos detalhes,  às pequenas reações individuais, a dinâmica dos diálogos de quem quer amar e ao medo que provoca querer alguém que não se conhece. Ou conhece?

Aqui definitivamente a cópia é o original, quem ver o filme entenderá.

Enviado via iPad

O NOME DA DEUSA – por jorge lescano / são paulo.sp


Não há provas de que esta criatura constitua uma espécie. O exemplara que registramos é, conforme declaração textual, o único avistado pelo autor do manuscrito compilado e comentado, provavelmente, pelo ilustre bibliotecário cego; versão esta que ora apresentamos em tradução livre. Acreditamos que o leitor, por pouco erudito que seja, poderá identificá-la entre suas lembranças de juventude.

 

“Lucádia ou Dulcáia, a Princesinha, tal a estirpe, e a alcunha, pelas quais é conhecida entre os tcharooas, na terceira margem do rio Cunaimama. Todavia, por motivos que a história omite, os francos e certo autor hebreu-germano-sueco, a denominam Charlotte, a Coxa.

“Presume-se que seu nome, como o da América (Amerik: elevação de terreno não vulcânico na atual província de Chontales, Nicarágua), foi transferido para solo europeu por navegadores espanhóis do século XVI. Como Amerik, foi rebatizada e devolvida ao Novo Mundo com a função de vestal.

“Eis a descrição suscinta legada pela tradição:

Cor: mourisca; cheiro: de felino silvestre de pequeno porte; cabelos: liga de cobre e ouro velhos; nariz: cleopátrico; olhos: sarracenos; voz: damasco em salva de cobre.

“Dadas as referências orientais, é-nos lícito suspeitar que o Império Otomano não esteve ausente na sua reconstituição. Há quem insista no caráter esotérico (alquímico, cabalístico) da passagem citada. conjeturou-se que era uma versão abreviada do simurg proposto pelo persa Farid ud-Din Attar. Talvez fosse previsível que alguém associasse a Princesinha à Zoraida do capítulo XL, da primeira parte do Quixote.

“A antiguidade clássica guarda silêncio ao seu respeito. Platão não a menciona em suas obras, o que induz a não poucos helenistas apressados a adjudicá-la, de forma pueril, ao culto de Eros. Outros, não menos anacrônicos, optam por oferenda-la a Dionísio. Deve atribuir-se isto à sua tendência a pousar sobre as mesas na posição de flor de lótus? A imobilidade, contudo, não é sua característica principal.

“Um velho mendigo a quem consultamos, interrompe seu zazen para sussurrar,  olhando para os lados, que, ‘devido às suas minúsculas proporções e aos seus passos miúdos, quando surge no crepúsculo dos corredores dos teatros pode ser confundida com um castorzinho assustado. E ainda: ‘Recomenda-se ceder-lhe a passagem desviando os olhos, sua mirada tem poderes ígneos’.

“Os chineses a admitem como justa equivalência do atroz monstro Aqueronte, avistado apenas uma vez, no século XII, por Túndalo, jovem e dissoluto cavaleiro irlandês.

“Para os tcharooas personifica Oolan-Naooëv, a lua nova de sirënev (sexta-feira). Nessas ocasiões, genuflexos, entoam poemas para sua natureza úmida no leito do Cunaimama, pois o que está acima está embaixo, acreditam. Porém, se a divindade mostra a face na sétima noite (Oolan-Naël, a jornada vermelha das semanas de treze dias), seu sacerdote empreende o Caminho do Norte pela margem direita do rio. Solitário, chora ou canta em silêncio.”

Os bandidos que ninguém anda “pacificando” – por alceu sperança /cascavel.pr

Se alguém sujar a água da sua caixa-reservatório estará cometendo um crime,

não é? Um crime contra você e sua família.

Se alguém fizer fogueiras ao redor de sua casa, estará sujando o ar que você, sua família e seus vizinhos respiram. Não é um crime?

Deveria ser. Mas no Brasil estragar a água, a terra, o ar, a natureza para ganhar dinheiro e lucrar com a destruição, em prejuízo da natureza e das pessoas, não é considerado crime.

Não deveria ser? Parece tão claro isso, tão claro que é crime estragar a natureza, que não pensamos na verdade: os interesses egoístas, para não ter obstáculos à sua ação predatória, deram um jeito de destruir sem que essa destruição seja considerada crime.

O advogado criminalista Guilherme Nostre, em sua tese de doutorado “Direito Penal das Águas”, para a Faculdade de Direito da USP, pergunta por que não existe no Brasil uma lei que considere crime sujar a água.

Os donos de terra foram tão espertos que só se considera crime a água poluída se ela leva animais (seres humanos também) à morte.

Se não provar que foi a água que matou, enterra o falecido e tudo fica do mesmo jeito.

Um crime perfeito, não?

Mas não existe crime perfeito. Sujar a água é um crime, uma indecência, um desrespeito à vida.

Existe uma planta no Cerrado brasileiro que limpa o solo contaminado com metais pesados. Esses metais, que provocam terríveis prejuízos à saúde humana e ao equilíbrio da natureza, ficam escondidos nos descartes de produtos industriais.

A planta milagrosa, cujo nome científico é Galianthe grandifolia, pertence à família do nosso conhecido café.

Ela foi definida como uma faxineira de metais pesados no ambiente por uma tese de doutorado elaborada pela pesquisadora Divina Vilhalva, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas,

Essa planta é a primeira conhecida que absorve grandes quantidades de cádmio, um metal muito perigoso para a vida, encontrado em baterias de telefones celulares e pilhas. Se ele contaminar o corpo humano, vai causar doenças renais, enfisemas pulmonares, osteoporose e vários tipos de câncer.

A descoberta da função de faxineira de metais pesados por parte dessa planta é da maior importância.

Hoje, os processos de fitorremediação – ou seja, a descontaminação do solo com plantas – são realizados, na maioria das vezes, com plantas geneticamente modificadas originárias de outros países.

Por aí percebemos que a natureza, quando consegue, encontra em si mesma os remédios para os nossos males.

Mas para isso precisamos estudá-la melhor e favorecer a ação dos vegetais capazes de fazer a faxina daquilo que sujamos sem pensar ou, no caso dos capitalistas gananciosos, de caso criminosamente pensado.

O que mais precisamos, no entanto, é deixar de causar danos à natureza para que ela depois tenha que se virar sozinha para resolver.

CINEASTA OLIVER STONE: “Não há democracia nos EUA, mesmo com Obama”

DA FRANCE PRESSE, EM ARGEL

 

O cineasta americano Oliver Stone, 65, declarou neste sábado, em Argel, Argélia, que os Estados Unidos não vivem na democracia, mesmo sob a presidência de Barack Obama, eleito em 2008, e criticou Wall Street, a atitude bélica americana e a indiferença de seus compatriotas com relação ao resto do mundo.

Em entrevista coletiva em francês, intercalada por algumas expressões em inglês, Stone, cuja mãe é francesa, disse que os “indignados” americanos que protestam contra Wall Street deveriam deslocar seu movimento de protesto contra o sistema financeiro “a Washington e não a Nova York, para ter maior impacto”.

Segundo o diretor de filmes como “Wall Street, poder e cobiça” (1987) e “Wall Street: o dinheiro nunca dorme” (2010), é assim que as pressões sobre os políticos para sanear o sistema financeiro serão “eficazes”.

Francisco Guasco – 12.nov.2011/Efe
Oliver Stone criticou os americanos em entrevista
Oliver Stone criticou os americanos em entrevista

O cineasta, cujo pai é um ex-operador financeiro de Wall Street, foi convidado ao festival de cinema autoral de Argel, que começa no próximo dia 29. Ele se disse “consternado de ver como o dinheiro é venerado pelos americanos” e com os efeitos da crise econômica.

“A classe média (americana) é a primeira vítima, mas nada consegue mexer com o sistema” americano, ao qual qualificou de “não-democrático, mesmo depois da chegada de Obama” ao poder.

O cineasta denunciou “30 anos de mentiras” contadas nos Estados Unidos, e mencionou a guerra do Vietnã, que o inspirou a dirigir “Platoon” (1986). Segundo ele, os americanos viveram com a ideia de que “o comunismo vai dominar o mundo”, enquanto ele caiu em 1989.

Interrogado sobre o apoio americano a Israel, Stone afirmou que “não se pode falar disso nos Estados Unidos. Há um poder tal, o dinheiro, a imprensa e o lobby são tais que os fatos, a verdade, não aparece”, disse.

Stone julgou seus compatriotas com severidade.

“Os americanos não estão tão interessados nos problemas do exterior”, disse. “Não têm empatia por eles”, acrescentou.

José Sarney parte para o ataque – entrevista ao congresso em foco / brasilia.df.br

Para o presidente do Senado, oposição não tem proposta nem discurso, partidos viraram “cartórios que registram candidatos” e Congresso perdeu a legitimidade

Sarney brinca com as críticas seguidas que recebe: “Virou moda bater no Sarney” – Paulo Negreiros

Aos 81 anos, o ex-presidente da República e atual presidente do Senado e do Congresso Nacional, José Sarney (PMDB-AP), não é homem de passar recibo. Destratado por um coro de 100 mil vozes no Rock in Rio, saiu-se com esta: “A contestação está no DNA do rock”.

Sarney sobreviveu a tudo. À crise dos atos secretos, a denúncias de problemas administrativos no Senado e à repercussão causada pelo envolvimento do seu filho Fernando em uma investigação da Polícia Federal. Alheio à pressão popular, o Senado, que na legislatura anterior havia arquivado as denúncias feitas contra ele, no início deste ano o reconduziu à presidência.

Nada mais parece abalar Sarney. Ele diz estar acostumado a apanhar. “É bom bater no Sarney”, ironiza. Fala em aguardar o julgamento da história. Mas o homem que cultiva a fama de conciliador também sabe atirar.

Ao receber em seu gabinete a Revista Congresso em Foco, para a qual esta entrevista foi feita originalmente, disparou contra a oposição, os partidos políticos e o próprio Legislativo. Leia aqui a íntegra da entrevista.

Congresso em Foco – Nesses seus quase 60 anos de vida política, qual foi o setor, na sua opinião, em que o Brasil mais avançou e qual aquele em que ainda há maiores dificuldades a serem superadas?
José Sarney –
 Se fizermos uma análise na história do Brasil, chegaremos à conclusão de que o Brasil é um país que sempre deu certo. Saímos da independência sem nenhuma luta, ao contrário do que ocorreu na América Espanhola. A república – um golpe militar a que o povo assistiu bestificado, como disse Aristides Lobo – também se instaura sob o poder civil. Ruy Barbosa, o grande civilista, estabelece a nova Constituição, moldada na americana. Os próprios militares estavam submetidos e querendo instaurar um regime democrático e de liberdades públicas. Por isso o Brasil deu certo. Dentro do Congresso se fez o país. Não foi em batalhas. Saímos dos barões do café, entramos nos bacharéis. A partir de então, tivemos quase todas as classes representadas no poder. Chegamos ao fim do primeiro século da República tendo um operário no poder e depois uma mulher na presidência, uma mudança de gênero, o que é extraordinário. Hoje somos a quinta economia do mundo. Como tivemos tempos dourados dos Estados Unidos, da Europa e dos tigres asiáticos, hoje a África e a América do Sul estão despertando. Não temos motivos para pessimismo. Estamos no caminho de crescimento constante. Até censuramos nosso excesso de leis. Estive na França uns cinco anos atrás, criticava-se o fato de terem votado durante a Assembleia Nacional 23 leis. No Brasil temos mais de 350 mil leis.

Essa espécie de fúria legiferante é o maior defeito do Congresso?
Criou-se a mentalidade de que tudo se resolve com uma lei. Ela vem para assegurar direitos e quase que costumes. Mas há um fato mais importante. Como a Constituição de 1988, colocaram funções do Congresso no Executivo, e do Executivo no Congresso. O Executivo passou a ser o maior legislador do Brasil. Essa deformação vem da Constituição de 1988.

O senhor mantém a opinião de que o Brasil é um país ingovernável?
Logo que assumi a Presidência da República, poucos meses depois, convoquei a Constituinte. Minha visão era de abrir imediatamente todos os espaços para que as forças vindas da clandestinidade tivessem espaço para exercer, dentro da democracia, seu desejo de participação. Precisávamos atualizar o Brasil em matéria de direitos sociais porque nossas constituições tinham sempre predominância da visão econômica. O Brasil precisava se modernizar também em relação a direitos sociais e civis, porque vínhamos de um regime autoritário. Esses dois capítulos são excepcionais, tanto que devemos a eles o mais longo período de tranquilidade institucional. Como a Constituição é híbrida, ela transformou o país em ingovernável. Tem se mantido a governabilidade à custa do sentimento de unidade e conciliação que o Brasil sempre teve.

Ingovernável por quê?
O Congresso está, de certo modo, com suas funções deformadas pelas medidas provisórias. A iniciativa legislativa passou a ser do Executivo, que comanda o processo legislativo. O Congresso perdeu o poder de criatividade, em que se aprofunda a democracia. Quem toma conta da pauta do Legislativo é o Executivo. Por outro lado, o Legislativo chega e assimila ações que eram do Executivo. Culpo muito esse sistema ao fato de o Congresso ter se desviado de suas funções e, ao mesmo tempo, perdido força, substância e prestígio perante o poder público. Votamos coisas que não deveríamos votar. Organização e criação de cargos, remanejamento de créditos, coisas da administração diária que passam a ser obrigatoriamente vindas do Executivo. Até a fixação do salário mínimo. Durante toda a vida, o presidente fazia um decreto com o novo salário mínimo. Agora temos de fazer uma lei todo ano. Passamos um mês ou dois aqui no Congresso discutindo o assunto.

Por isso o Congresso tem uma imagem tão desgastada?
Isso é um fenômeno mundial. É a crise da democracia representativa. Ela está no mundo inteiro. No Brasil, o Congresso tem 38% de aprovação. O Congresso do Chile está com 23% de aprovação e o dos Estados Unidos, com 27%. Isso é um fenômeno que enfrenta a democracia representativa. Ela foi instituída para que os eleitos representassem o povo, num prazo certo, em eleições periódicas. Mas as novas tecnologias fizeram com que a vontade do povo se expressasse em tempo real. A substituição que houve é saber quem representa o povo. É um Congresso eleito de quatro em quatro anos e que envelhece rapidamente diante da velocidade dos fatos ou aqueles que falam diariamente em nome da opinião pública? Esse é o grande choque da crise da democracia representativa. É um outro mundo, que não corresponde àquele em que se criou a democracia representativa, ainda no tempo da carta do rei João na Inglaterra. Outro dia até fui mal interpretado. Analisando isso, eu disse que, quando os Congressos foram feitos, deram aos parlamentares ainda na Inglaterra prerrogativas para que eles não fossem objeto de dependência do rei. Para isso, havia algumas garantias chamadas de prerrogativas. Quando a gente analisa isso, interpretam como se estivéssemos falando das vantagens que os parlamentares têm. Falo isso do ponto de vista teórico, de quem estudou a história da construção da democracia representativa.

 

“Estamos marchando para a democracia direta”, acredita Sarney, ao associar a velocidade das redes sociais à crise do Legislativo – Paulo Negreiros

Como superar essa crise?
Estamos marchando para um tipo de democracia direta. Hoje, 30 dias depois da eleição, o eleitor já não sabe por que votou em determinada pessoa, nem o eleito sabe por que foi votado. Desapareceram os programas e as ideologias. Ficou uma atividade pragmática do dia da eleição. O Congresso foi ficando um poder – que hoje já se pensa que ele é anacrônico – que não representa nada. Mas é muito melhor você viver com um Congresso dessa natureza do que viver sem nenhum Congresso.

Muitos brasileiros canalizam contra o Congresso o incômodo causado hoje no Brasil por temas como corrupção e falta de serviços públicos de qualidade. É visão errada dessas pessoas ou há falhas graves no Congresso e nos políticos?
É muito compreensível que as pessoas tenham visão crítica e insatisfação, embora as pesquisas apontem grau de satisfação do povo brasileiro bastante alto em relação ao país. Acreditava-se, até a queda do mundo de Berlim, que através da utopia você podia mudar o mundo. E isso criou sociedades muito questionadoras no mundo inteiro. Não é um fenômeno brasileiro, até aqui é menor, por exemplo, se compararmos com o movimento dos indignados na Europa e nos Estados Unidos. Eles têm uma insatisfação pessoal muito grande e isso também se reflete sobre o Congresso. Por quê? Por que o Congresso é o coração da democracia. É onde o povo tem a oportunidade de falar, protestar e opinar. O que moveu a política do mundo inteiro foi a utopia. E, de repente, percebemos que a ciência e a tecnologia foram capazes de fazer muito mais que do que fizemos todos nós com as ideias políticas ao longo do século. Por exemplo, o Alexander Fleming, que descobriu a penicilina, fez de bom para o povo e para o mundo muito mais que qualquer ideologia política. Agora, a vontade do homem de cometer desvios vem desde o princípio do mundo. A corrupção está no âmago das ideias políticas do mundo ocidental, até como desqualificadora dos adversários. Acredito que o Brasil hoje seja menos corrupto do que foi no passado. E é mais corrupto do que será no futuro, porque no futuro ele será bem melhor.

Por que o PT se tornou tão forte no Brasil? Até que ponto vai essa força?
O Lula desencadeou um processo da ascensão dos operários ao poder. A partir daí ele representa uma ideia-força que é extraordinária, porque ele levou a classe operária ao poder. Com ele, a sociedade brasileira passou a ser menos injusta. A liderança de Lula não é horizontal como as outras, que com um vento caem. Sua liderança é vertical, não é qualquer ventania que pode destruí-la.

O senhor quer dizer que a força não é do PT, mas do Lula?
A história sempre se conduz de um homem, de um grande líder, algumas ideias básicas. E o Lula é justamente a síntese dessas ideias, que ele representa pessoalmente. Ele passou de um homem a símbolo desse processo.

E há algo que as oposições pudessem ter feito na história recente do país, ou que possam fazer hoje pra contrapor a essa enorme força?
Em princípio, acho que a oposição perdeu ideias. Ela não tem propostas. Qual é a proposta da oposição pra isso? Ela adotou o discurso “nós somos responsáveis por tudo isso”. Ora, isso não cabe na cabeça de ninguém, porque a legitimidade do Lula é de ser operário. Como é que uma área nascida da elite paulista pode dizer que ela é que representa essas idéias? É uma coisa que não pega. A mudança de gênero, com Dilma, também é um avanço. Dilma é uma continuidade sem continuísmo, embora ela também represente essas ideias.

Esse discurso da oposição de que o PT se apropriou de seu programa não pega por que a ideia é falsa, ou não pega por que a população não acredita?
Isso é falso, não existe. O Lula é resultado de um processo histórico, que vem da República até aqui. Não há a mesma coisa em relação à oposição. A oposição existe e deve existir, porque a pior coisa seria uma sociedade unânime. Nós temos uma oposição com nomes brilhantes, ativos, mas falta proposta, uma ideia-chave que seja a motriz desse processo.

A oposição tem condições de reverter esse processo até as próximas eleições presidenciais daqui a três anos?
Acho que não. Num horizonte médio, enquanto não se esgotar esse processo de participação do social como principal na nossa forma de governo, o Lula, com esse conjunto de forças que se agregaram a ele, ainda tem tempo. Não vejo um horizonte de perda de substância disso. Essa aliança em torno de Lula vai ter futuro ainda durante muito tempo. Ela pode ter defecções, mas a linha básica será mantida.

Não há espaço nem mesmo para outros partidos hoje aliados ao PT?
Todo partido tem forças de direita, de centro e de esquerda. Lula é um grande político, não só representou uma ideia. Se fosse só uma ideia, ele seria combatido. Como grande político, reuniu toda a sociedade, um segmento que estava em torno também desse mesmo processo.

 

O senhor acha que o PSD pode virar um novo PMDB, ou seja, um partido com muitas lideranças regionais fortes, mas sem uma uniformidade ideológica, programática?
Enquanto tivermos o voto proporcional uninominal, não teremos partidos políticos. No caso do Brasil, não existe partido, porque o inimigo está dentro da legenda. O candidato tem de vencer não é o adversário, mas o seu companheiro de partido para se eleger. Não tendo partidos, as pessoas passaram a ficar desconfortáveis nessas agremiações, que não são partidos. São cartórios que reúnem políticos e registram candidatos nas vésperas das eleições. Muita gente estava insatisfeita e agora apareceu uma janela e todo mundo pulou fora.

O senhor acredita que a reforma política sairá?
A reforma política é muito difícil. Luto por ela há mais de 40 anos. Apresentei, em 1971, o primeiro projeto instituindo o voto distrital. Mas a verdade é que o Congresso, por viver tantos anos sob determinadas regras, tem receio de mudá-las. Os parlamentares receiam perder as eleições.

O senhor diria que a solução pra esse problema da falta de identidade dos partidos seria o voto distrital, seria lista fechada?
Não podemos inventar a roda. O sistema político no mundo inteiro é feito à base do voto distrital, puro ou misto. Só existe no Brasil o voto proporcional ou uninominal. Na Finlândia também existe, mas é uma coisa diferente, porque é um voto proporcional dentro do próprio partido. Não podemos inventar que vamos ser o único país do mundo a descobrir um sistema de governo baseado no voto proporcional. Temos de fazer o voto distrital, o distrital misto.

O senhor concorda com o financiamento público?
É um grande avanço, embora eu não acredite que o financiamento público evite a participação do poder econômico, que sempre vai influir em todas as eleições em todos os lugares do mundo. Essa bagunça que existe aí, da empresa privada contribuir para as eleições, não é uma forma que tenha dado certo, porque obriga os políticos a serem pedintes, que vão com uma sacola na mão. São 500 mil candidatos atrás de recurso para fazer eleição.

Qual o legado que o senhor acredita que deixará nas suas gestões à frente do Senado?
Minha participação dentro do Senado sempre foi procurando buscar a modernidade. Levantei a ideia da informatização em 1972. Forcei naquela época para que fosse criada uma comissão da qual saiu o Prodasen. Depois, quando fui presidente da Casa, a minha primeira providência foi justamente a de dar transparência para ajudar o povo brasileiro a acompanhar mais. Montei todo um sistema de informatização do Congresso, com televisão, rádio e agências de notícias. Fiz naquela vez a primeira reforma administrativa. Na segunda também procurei fazer a reforma administrativa. Acho que o Senado é muito mais enxuto, melhorou bastante. Agora estamos trabalhando numa outra etapa de futuro, que é justamente de gestão de programas estratégicos. Não devemos esquecer que, pela própria singularidade da máquina administrativa do Congresso, temos 81 repartições periféricas da administração central, que são os gabinetes dos senadores. Eles têm independência para nomear, admitir e administrar.

Na área legislativa, o que o senhor acha que deixa de mais importante?
Primeiro, a reformulação dos nossos códigos, que também é uma ideia de modernidade. Nós estabelecemos comissões com juristas. Já saímos com o Código Civil e  o Código de Processo Penal. Estamos trabalhando no Código de Defesa do Consumidor, que está terminando agora. Vamos partir para a Lei das Execuções Penais, que é uma coisa que o Brasil está devendo. Nosso sistema penitenciário é uma coisa trágica. Minha ideia é constituir uma comissão de grandes experts para analisar a federação. Hoje a federação é uma ficção e uma palavra dentro da Constituição, mas na realidade ela não está estruturada em termos modernos.

Há temas que estão sendo debatidos há muito tempo, mas sempre com dificuldade para se chegar a um desfecho. O senhor acredita que se avance, por exemplo, na reforma tributária este ano?
A reforma tributária é uma necessidade, porque realmente temos um verdadeiro pandemônio na legislação fiscal, com a superposição de atribuições. E, para fazer uma reforma fiscal, temos de mexer com grandes interesses. É uma reforma de difícil formulação.

O senhor não acredita que se consiga avançar nessa área? 
Acredito que se possa avançar pouco a pouco em partes tópicas. Por exemplo, estamos com uma lei que mexe no ICMS sendo votada. Também estamos discutindo certa redistribuição de renda entre os estados, aproveitando o problema dos royalties do petróleo. São alguns avanços.

Muitos críticos do senhor fazem referência ao fato de seu grupo político exercer um longo domínio no estado do Maranhão, e aquele estado não ter se desenvolvido nesse período tanto quanto outros. Como o senhor enfrenta essa crítica?
De certo modo, essa crítica é nova.  Passou a existir depois que perdemos a eleição no Maranhão. Uma maneira de desqualificar a minha participação na vida pública nacional era desqualificar o estado. Então venderam ao Brasil essa ideia de que o Maranhão é um estado miserável, quando na realidade o IBGE tem 3 mil índices. Nós temos alguns índices que são péssimos, também os outros estados têm índices péssimos. Mas quero dizer que o Maranhão é o 16º estado do Brasil em PIB [Produto Interno Bruto], está na frente do Mato Grosso. Fala-se que o IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] do Maranhão é baixo. É realmente baixo, muito baixo. Agora, o Brasil é a 7º economia do mundo. E qual a posição dele no IDH? Está na 81ª posição. Nem por isso se vai dizer que o Brasil é um país miserável. O Maranhão, pelo contrário, é um estado que hoje tem as maiores possibilidades naquela região. A infraestrutura que nós criamos no Maranhão é a melhor dos estados do Nordeste. Tiramos ele do século XIX. Esse foi um processo político que foi assimilado pela grande mídia porque é bom bater no Sarney, dá visibilidade isso, pela minha longa vida política, em que sempre atuei como um conciliador nos momentos mais difíceis da história do Brasil. Fui um homem que procurou ajudar o país na transição democrática, o colar social dentro da Constituição foi feito por mim. Sempre procurei influenciar essa visão social e solucionar crises. Minhas escolhas aqui dentro da Casa também têm sido neste sentido, do homem  tranquilo, do homem prudente, do homem paciente.

Que imagem o senhor acredita que o brasileiro, de maneira geral, tem do senhor?
Não sou a pessoa certa pra julgar. A história é que vai me julgar. No contingente, cada um de nós sofre os problemas diários. Como não se pode falar mal do Lula, porque o Lula já não está presente, não se pode falar mal da Dilma, porque é a nossa presidente, restou Sarney para ser o ponto de crítica nacional.

Teve algum momento em que o senhor ficou particularmente indignado ou particularmente atingido por críticas ao longo desses quase 60 anos de vida pública?
Na Presidência da República, sofri um combate muito grande. No meu discurso de saída, fiz uma avaliação em que digo que o tempo corrige até as críticas mais violentas feitas. Todos os excessos são corrigidos. Quando leio a história do Brasil, vejo a proporção que ela vai construindo e a possibilidade que a pessoa tem dentro da sua vida política. Também me vejo assim. Um dia o Chico Caruso me perguntou como eu via as charges dele. Respondi: como se eu fosse uma terceira pessoa.

O senhor acredita que sua imagem como homem público será revista no futuro?
Não tenho dúvida de que serei julgado pelo que fiz e não pelo que não fiz. Eu gosto de um verso do Miguel Torga, sobre o Afonso de Albuquerque, que foi vice-rei das Índias. “Do que fiz e do que não fiz, não cuido agora; as Índias todas falarão por mim.”

 

POR SYLVIO COSTA E EDSON SARDINHA

O rumo do meu barco – de jamil snege / curitiba.pr

Já inspecionei a proa,
amarrei a carga,
desatei a vela.
O vento sopra forte e
enfuna meu coração
de alegria.
Agora é contigo, Senhor.
Toma o leme e risca
o rumo do meu barco – não
penses que irei por
este mar sozinho.

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO: “Penso em parar de escrever” – por ana rita martins / porto alegre.rs

Aos 75 anos de idade, o escritor Luis Fernando Verissimo diminui o ritmo e diz que está mais para depressivo que para bem humorado

 

O escritor Luis Fernando Verissimo é famoso por seus textos de humor e pelas sátiras de costumes que publica em jornais de grande circulação. Comédias da Vida Privada, uma antologia de crônicas engraçadíssimas, publicada em 1994, por exemplo, virou, inclusive, uma série da TV Globo em 1995. Por causa desse talento em fazer rir, fica difícil acreditar quando o próprio autor afirma que não tem vocação humorística. “O que eu tenho é a técnica para escrever textos divertidos”, diz. “Mas meu jeito de ver as coisas está mais para depressivo”, completa. De fato, esse lado do escritor não aparece em suas obras (são 500 mil exemplares vendidos no país).

Seu último livro, Em algum lugar do paraíso, é composto por 41 crônicas, a maioria delas publicadas nos últimos cinco anos, no Jornal Estado de São Paulo. Verissimo, aliás, vem diminuindo o ritmo de sua produção. Reduziu, já há alguns anos, o número de jornais para os quais escreve – se antes, chegou a publicar em dez periódicos, hoje concentra-se em três: O Globo, O Estado de São Paulo e Zero Hora. E pensa, inclusive, em se aposentar. “Penso em parar de escrever. O problema é que o dinheiro que ganho com os direitos autorais dos livros não é o suficiente para garantir minhas contas”, diz.

Os leitores, aliás, já podem notar sua ausência em eventos literários. “Vou a lançamentos mais por causa da editora. Não é por prazer, pois sou caseiro e evito badalações”, conta. E de onde vem então a inspiração para os textos se ele tem se mantido mais reservado? “Às vezes de um filme ou de uma música”, diz. “Aliás, eu preferiria ser músico a escritor”, revela. “Mas como eu escrevo melhor do que toco saxofone, vamos deixar as coisas como estão”, completa. Na casa do escritor, num porão de pedra, há vários instrumentos.

Curiosamente, apesar da paixão pelo jazz, não há sequer uma crônica em sua nova obra cujo tema seja a música. No livro Em algum lugar do paraíso, o autor repete a fórmula já consagrada em suas outras publicações, ou seja, a de abordar situações cotidianas e colocar personagens históricos em circunstâncias hilárias.

Vem dessa última abordagem um dos textos mais inspirados da obra. Em Cafarnaum fala do encontro entre Guizael – dono de uma taberna – e um homem capaz de multiplicar peixes e pães e transformar água em vinho. A história – contada em linguagem textual similar à bíblica – desenvolve-se quando Guizael tenta convencer o homem a fazer uma parceria financeira com ele.

Verissimo não se importa com a clara alusão a Jesus, que poderia gerar mal estar entre os leitores religiosos. “O politicamente correto limita o humorista”, fala. E diz mais: “Eu não me coloco rédeas quando estou escrevendo”.

Outro destaque é Microfone Escondido, em que o casal Leonor e Ataíde resolve esconder um aparelho desses no elevador do prédio só para descobrir o que os amigos pensam deles. Toda vez que fazem um jantar para um casal de convivas há uma nova descoberta, revelada pelo microfone antes destes chegarem ao apartamento ou quando estão descendo o elevador rumo à rua. O resultado é um sucessão de confusões e mágoas, temperada pelas construções simples (mas não simplistas) e certeiras do escritor.

Por meio do humor, o autor acaba desvelando as idiossincrasias humanas. Em Pato Donald, Sérgio e Dulce, casados há 25 anos, reveem suas vidas quando o homem conta que, apesar de ter rido a vida inteira das piadas do personagem norte-americano, admite que nunca entendeu patavinas do que este falava. A confissão ganha, então, ares de crise existencial. E, enquanto discutem, Dulce fica preocupada porque o zíper do vestido que sempre lhe coube está difícil de fechar.

Outro exemplo interessante de narrativa é Versões. No texto, um homem entra num bar e começa a imaginar o que teria sido de sua vida se ele tivesse feito um teste para jogar no Botafogo. De repente, lhe surge ao lado, uma versão de si mesmo que fez o tal teste. As perguntas se multiplicam e, consequentemente, mais versões dele aparecem.

Nessa crônica, Verissimo toca num de seus assuntos mais caros, o futebol. Torcedor do Internacional e da seleção, ele se preocupa com a Copa de 2014 no Brasil. “Espero que as obras fiquem prontas a tempo”, diz. E fala que irá aos jogos. Até lá, terá 78 anos. Vale torcer para o pique se estenda também a escrita. Ou a literatura ficará órfã do depressivo mais bem humorado de que se tem notícia.

ONU pede julgamento de violadores dos direitos humanos no Brasil / brasilia.br

France Presse

Alta comissária saudou a sanção da lei da Comissão da Verdade.

Mas disse que medida deveria incluir a revogação da Lei de Anistia.

Do G1, com AFP

A alta comissária dos Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, pediu nesta sexta-feira (18) “medidas adicionais para facilitar o julgamento dos supostos responsáveis por violações dos direitos humanos” durante a ditadura militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985.

Pillay saudou a sanção pela presidente Dilma Rousseff, nesta sexta-feira, de uma comissão para investigar os crimes cometidos durante os governos militares, mas afirmou que essa medida “deveria incluir a promulgação de uma nova legislação para revogar a Lei de Anistia de 1979 ou para declará-la inaplicável por impedir a investigação e levar à impunidade (…) em desrespeito à legislação internacional de direitos humanos”.

Em comunicado, Pillay lembrou que começou a defender a necessidade dessa comissão em 2009, quando fez visita oficial ao Brasil.

“Eles e suas famílias estão esperando compensação pelas violações que sofreram por mais de quatro décadas, e têm direito a ver a justiça sendo feita”, disse Pillay sobre as vítimas da ditadura. “Além de iluminar a verdade sobre incidentes particulares, essas comissões investigam o padrão das violações no passado, suas causas e consequências.”

Ela acrescentou que o trabalho da comissão deve ajudar os brasileiros a entender e reconhecer sua própria história, que, até agora segundo ela, foi frequentemente contestada ou negada.

“Comissões da verdade também buscam evitar novos abusos, fazendo recomendações específicas sobre reformas institucionais e políticas públicas”, disse.

A presidente Dilma discursa em cerimônia de sanção da lei da Comissão da Verdade (Foto: Roberto Stuckert / Presidência)A presidente Dilma discursa em cerimônia de sanção da lei da Comissão da Verdade (Foto: Roberto Stuckert / Presidência)

Comissão
A Comissão da Verdade irá apurar violações aos direitos humanos entre 1946 e 1988 – período que inclui a ditadura militar – e terá dois anos para produzir um relatório com conclusões e recomendações sobre os crimes cometidos.

A Lei de Acesso à Informação acaba com o sigilo eterno de documentos públicos e estabelece prazo máximo de 50 anos para que as informações classificadas pelo governo como ultrassecretas sejam mantidas em segredo.

AI WEIWEI: China investiga dissidente por pornografia on-line / pequim.ch

China investiga dissidente Ai Weiwei por pornografia on-line

 

 DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

 

O artista chinês Ai Weiwei afirmou nesta sexta-feira que foi iniciada uma investigação por parte das autoridades chinesas sobre acusações de que ele teria ajudado a divulgar pornografia na internet. As novas suspeitas recaem sobre o dissidente após semanas de campanha contra uma multa milionária que o regime quer que ele pague.

Segundo Ai, policiais convocaram o cinegrafista Zhao Zhao, um dos assistentes do artista, para interrogatórios na quinta-feira. Ele foi questionado sobre fotos artísticas que tirou de Ai e quatro mulheres, nas quais todos apareciam pelados. A obra foi intitulada “Um tigre, oito seios”, em tradução livre.

As investigações parecem reacender uma acusação levantada contra o dissidente quando ele foi detido em abril. Havia relatos de que ele era investigado por evasão fiscal, bigamia e divulgação de pornografia on-line.

“Se eles entendem nudez como pornografia, então a China ainda está na dinastia Qing (1644-1911)”, disse Ai. As autoridades chinesas não se manifestaram sobre o assunto.

Zhao contou que policiais lhe disseram que procurariam acusações contra ele por conta das imagens caso elas fossem amplamente divulgadas por considera-las obscenas. Ele afirmou acreditar que as investigações fazem parte da empreitada chinesa em difamar Ai e calar suas críticas ao regime.

Ai Weiwei/France Presse
Fotografia mostra Ai Weiwei sem roupa com quatro mulheres; China investiga artista por pornografia
Fotografia mostra Ai Weiwei sem roupa com quatro mulheres; China investiga artista por pornografia

O artista, de 54 anos e famoso por seu trabalho “Ninho de Pássaro”, no Estádio Olímpico de Pequim, ficou preso sem acusação formal durante 81 dias este ano, medida que provocou críticas de governos ocidentais. Ele foi libertado em junho, após firmar um acordo –que já desrespeitou desde então– de que pararia com as críticas.

Nas últimas semanas, as autoridades chinesas estão cobrando dele uma quantia de 15 milhões de yuans (US$ 2,4 milhões) por suposta evasão fiscal. Ai teve que pagar quase metade desse valor como garantia para poder recorrer da multa.

Simpatizantes vêm fazendo doações ao dissidente. Na segunda-feira, uma voluntária da campanha de arrecadação, Liu Yanping, informou que receberam US$ 1,04 milhão para ajudar a pagar a multa que vence em 15 de novembro.

Ao todo, 24.130 pessoas enviaram quantias, tanto pelo Alipay, um sistema de pagamento on-line, quanto pelo cartão bancário, segundo Liu.

Andy Wong/Associated Press
Artista dissidente chinês Ai Weiwei chega a escritório para pagar garantia contra multa fiscal
Artista dissidente chinês Ai Weiwei chega a escritório para pagar garantia contra multa fiscal


DANTE MENDONÇA: “Nosso novo cidadão” – por adherbal fortes de sá júnior


O título é redundante.

Ninguém é mais curitibano que o Dante, co-fundador do verdadeiro Carnaval Curitibano, sócio atleta do Bar Botafogo e do Ao Distinto Cavalheiro, sem falar no apoio que nunca negou à feijoada do Bar do Pascoale.

Mas o bordão latino determina: quod abundat non nocet, o que abunda não prejudica.

Então ta. As abundâncias são o principal assunto do livro que Dante Mendonça acaba de concluir e está mostrando a alguns amigos.

Finalmente temos uma extensa, confiável e bem humorada pesquisa sobre a cidade, em seus três séculos de libidinagem. De dia e de noite.

Com o título de Maria Batalhão – Memórias Póstumas de uma Senhora Cafetina, o livro acompanha os passos de uma Messalina de dois continentes atravessando a cidade, do Beco do Inferno, atual Travessa Tobias de Macedo, às casas do Parolin, passando pelas bocas da Cabral e pela famosa Casa da Uda.

O romance é uma história sociológica e picaresca da Curitiba, percorrida por Saint-Hilaire e Debret, habitada por Dalton Trevisan, Wilson Martins e Poty Lazzarotto. E também da Curitiba de hoje, porque a Casa da Mile é recente, o Morguenau está lá, o Operario ganhou sobrevida.

E sobram pelas ruas senhores capazes de testemunhar sobre famosas profissionais do sexo que habitaram Curitiba e foram colegas de sua personagem Maria Batalhão. Desde Maria Sem Calça até Avila Quadros, dona de estabelecimento no Parolin e prima do ex-presidente Janio Quadros.

Dante especula sobre os Anais da Mirlei, dona da mal afamada chácara em Colombo. Até hoje nas mãos de um delegado, os Anais contém revelações capazes de derrubar gabinetes e abalar reputações.

Vocês verão que só esse livro justifica todas as homenagens que Dante Mendonça recebe dos vereadores. Adicione-se a isso os anos dedicados ao jornalismo no Estado do Paraná e na Tribuna do Paraná. E os trabalhos que fez pela cidade como escritor, cartunista e figura pública. O crédito é imenso.

Enfim, Dante é mais do que cidadão – é uma personalidade curitibana que merece busto na praça, nome na placa da esquina e samba enredo no próximo desfile da Banda Polaca, que ele ajudou a inventar e ainda há de ressuscitar.

o cartunista e escritor DANTE MENDONÇA com o TITULO DE CIDADÃO HONORÁRIO DE CURITIBA ao lado do ex prefeito e ex governador Jaime Lerner no dia da solenidade na Câmara de Vereadores da cidade, em 17/11/2011.

foto sem os créditos.

ENQUANTO OUÇO SEGÓVIA – por zuleika dos reis / são paulo.sp

       

O tempo em que todas as coisas já não são. O tempo em que todas as coisas estão fechadas dentro de si mesmas, elas próprias conteúdo e continente. O baú trancado do qual se perdeu a chave.

                Segóvia toca e a musica é perfume que entra pelas frestas do que fui. O tempo flor de metal mais que cristal ou sopro de vento. O tempo um calafrio entre os dedos.

                Alguns antigos sabiam de coisas que quase todos de nós perdemos há muito. Os dedos de Segóvia vão recuperando o possível disso, mas a hora é velha demais para qualquer descobrimento.

O gato tem sete fôlegos, sete vidas. Eu tenho só uma vida e nem esta é minha. O gato pisa manso, não desperdiça nada de suas sete vidas. Eu piso denso e vou perdendo cada passo da única que tenho.

Segóvia toca e o gato não compreende. Os pensamentos são as ondas de um mar inútil. A tarde também passa e desaparece todos os dias sem decifrar nada, porque não há nada a decifrar: não há qualquer fratura no cristal do tempo.

O tempo de uma vida… o que é o tempo de uma vida? Sabemos do mundo o universo de fantasmagorias chamado palavras. Nele matamos, morremos, nos perdemos do que julgamos nós mesmos, como se significasse alguma coisa perdermos isso.

Há os que meditam, há os que sempre buscaram e buscam e em todos os vindouros tempos continuarão a busca de escapatórias desta casca, desta crosta a que chamamos eu, este eu que é nada. Nomes e nomes e nomes para dizer algo desse OUTRO que buscam. Nomes e nomes e nomes para que algo deste OUTRO INDIZÍVEL INCOMUNICÁVEL seja o MESMO para os demais homens ou, pelo menos, a aspiração de cada um deles.

Segóvia para de tocar, a noite caiu há tempo, nada se quebrou nem se partiu. Tudo parece coeso onde o mundo é apenas uma infinita saudade do mundo; uma infinita e sem saída saudade de mim.

ROBERTO PRADO e sua poesia / curitiba.pr

A volta triunfal

aqui vamos fazer nossa casinha
ali a fábrica não ficará muito longe
uma escola com vista pra montanha
e o templo sem imagem nenhuma
desta vez não vamos sujar o rio
nem inventar leis desalmadas
apenas novamente simples heróis
descobrindo mundos, trocando fraldas
-.-
 
imperativo da primavera
humano, assuma o ar silvestre
época de amor conforme o calendário
flores façam tudo o que não digo
coração, aceite o eixo terrestre
ninho esta vida leve no bico
viva de brisa o papo sozinho
estações, aqueçam seu poeta
primaveras, passem com carinho
    -.-
 
 
dez mandamentos
delire na criança
não bula na flor
pense estrelas
não rele no bicho
gire o sol
não zombe do bem
sofra uma lua
não duvide do amor
acredite nos amigos
e não saia da sua
-.-
 
 
subtrações
que tal pegar tudo que temos
e deste todo fazer a grande falta
um salto que cai, uma queda que salta
essa soma assim sem mais nem menos?
por que não juntar o nosso nada
o eterno que move, o nunca que repousa
e fazer destas perdas somadas
o achado de alguma coisa?

BENETTON: Campanha causa polêmica ao mostrar líderes mundiais se beijando / italia.it

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Uma campanha publicitária lançada pela marca Benetton está causando polêmica ao exibir outdoors com fotomontagens de líderes mundiais se beijando. O objetivo da campanha –batizada da “Unhate”– seria protestar contra a “cultura do ódio”.

Entre os líderes retratados estão o presidente americano, Barack Obama, que aparece beijando o líder chinês, Hu Jintao. Em outra fotomontagem, Obama é visto dando um beijo no presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

O presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina) também aparece beijando o premiê israelense, Binyamin Netanyahu. A chanceler alemã, Angela Merkel, é retratada beijando o presidente francês, Nicolas Sarkozy, em outra imagem.

Já o papa Bento 16 dá um beijo em Ahmed Mohamed el Tayeb, imã da mesquita de Al Azhar no Cairo.

Veja algumas das fotomontagens:

Divulgação/Benetton
Papa Bento 16 dá um beijo em Ahmed Mohamed el Tayeb, imã da mesquita de Al Azhar no Cairo
Papa Bento 16 dá um beijo em Ahmed Mohamed el Tayeb, imã da mesquita de Al Azhar no Cairo
Divulgação/Benetton
Mahmoud Abbas, líder palestino, à esquerda, e Benjamin Netanyahu, premiê israelense
Mahmoud Abbas, líder palestino, à esquerda, e Benjamin Netanyahu, premiê israelense
Divulgação/Benetton
Chanceler alemã, Angela Merkel, e presidente francês, Nicolas Sarkozy
Chanceler alemã, Angela Merkel, e presidente francês, Nicolas Sarkozy
Divulgação/Benetton
Barack Obama, presidente americano, e Hugo Chávez, presidente da Venezuela
Barack Obama, presidente americano, e Hugo Chávez, presidente da Venezuela

O poeta e webeditor J B VIDAL é entrevistado pelo poeta JAIRO PEREIRA na Ilha de Santa Catarina.

ENTREVISTA PARA A REVISTA  ‘CLIC MAGAZINE’:

o poeta declama seus poemas na PRIMEIRA SEMANA DA POESIA PARANAENSE. CURITIBA. foto do jorn. Gustavo H. Vidal.

1. J B Vidal, a quantas anda a sua poesia, uma vez que você se dedica muito ao Site Palavras, Todas Palavras?

– Me considero um poeta que não tem compromisso com a produção em termos quantitativos, portanto, não tenho que estar criando poemas para atender as vontades do editor – que não tenho. Não sou poeta de escrever por “encomenda” ou de escrever por escrever, fazer da poesia uma maratona – quem escreve menos é mulher do padre – deste tipo de “poeta”, tu sabes bem, estão cheios o país e o mundo. Respondendo, então, a tua pergunta – que coisa horrível – a minha produção poética está onde deve estar, na placa mãe, na quantidade diretamente ligada às minhas emoções, sentimentos, racionalismos e devaneios que realmente vivi nem que tenha sido por segundos de medo e continuo a  escrever quando dessas ocorrências. O  site, você é um dos responsáveis pela criação, tornou-se um espaço onde me exteriorizo através das publicações selecionadas – sem censura- considerando conteúdo e o que pode atingir o público para retirá-lo do seu abestalhamento. Eu converso com os leitores através deles. Continuo publicando os “sem mídia”, “sem editores” e, raramente, publico, alguns dos mortos meus preferidos.

2. O Site Palavras, Todas Palavras, é um dos mais visitados do país, e publica não só poemas, contos, literatura em geral, mas também ensaios, artigos, vídeos… como foi chegar a tanto?

– Está com pouco mais de três anos e senti que precisava “abrir”- era só poesia, contos e crônicas, um que outro artigo – ampliar o leque de abrangência em termos literários e do cultural quotidiano. Os leitores começaram a exigir, e foram excelentes nas exigências. Cedi. Hoje a média é de 2.000 acessos/dia. Sem mulher pelada, sem piada sem graça, sem vender nada. Não busquei isso – acessos – veio naturalmente, através do nível cultural do nosso povo, e comprova que as pessoas querem ler e buscam ler, querem saber. Na maioria das vezes é um vôo cego, claro. Só é lamentável que eu não consiga alcançar as
suas expectativas. Dá muito trabalho realmente, mas, como disse, me comunico através da produção dos demais autores, e os comentários (mais de 5.000 até agora) são uma prova disso. Acredito que seja uma modesta contribuição a arte e a cultura brasileira – através desse mundo novo das comunicações – que, diga-se, andam numa pobreza criativa como há muito não se via. Eu visito em torno de 150 a 200 sites/blogs por semana, menos de dez por cento pode-se aproveitar alguma coisa, o resto é lixo! E pior, o lixo é que faz sucesso, ganha adeptos e multiplicadores. Deve ser sinais dos tempos rsrsrsrsrsrs a humanidade genérica sempre frequentou os lixões das prateleiras, e agora, os “aterros sanitários” da virtualidade. A intelectualidade brasileira evaporou-se com a ditadura e não conseguiu recompor-se porque é de uma mediocridade a qualquer prova, oriunda das universidades que proliferaram vendendo diplomas e contratando esses diplomados, assim segue. Hoje o grande tema em discussão é descobrir qual o melhor meio de transportar dinheiro para liberar meias e cuecas. A nossa intelectualidade não sabe dizer, ao presidente do momento, “quando” é necessário defender-se a paz ou os direitos humanos. Ela ainda não se convenceu de que é sempre. Para ela paz e direitos humanos são relativos. Ora, por favor! Como alguém, não lembro quem, já disse: “…são um bando de hienas pós-graduadas em esnobismo.” E, por força da atividade, temos de enfrentar esse lixo que roda no mundo virtual dos emails, sites, blogs e filmecos. Na literatura, então, o que dizer? O que é isso que estão publicando e premiando? Aonde querem levar o público leitor? Aonde querem levar a nossa literatura?  Há dois ou tres anos iniciei a leitura de um livro de autor brasileiro, premiadíssimo, havia ganhado todos os grandes prêmios do ano, não consegui passar das primeiras páginas, ilivel. Sucesso fabricado pelo grande “mercado editorial”. É a máfia do livro impresso. Mesmo  com toda a badalação dos críticos de aluguel, o publico não respondeu favoravelmente. Às vezes o povo reage, timidamente. Veja a ABL em que se transformou? Não opina mais sobre os grandes temas nacionais, como antes. Quando a ABL se posicionava o país parava para ouvi-la. Hoje não serve para nada. Desmoralizada e ridícula.

Se transformarem-na em um bloco carnavalesco para a terceira idade será um final feliz.

3. Os livros inéditos de poesia, do poeta J B Vidal serão publicados em livro, impressos?

-Tenho material para seis livros, bem, dependendo do número de páginas de cada volume, são em torno de 860 poemas publicáveis, sem contar outro tanto renegados a segundo plano. Os filhos que decidam rsrsrsrs, sempre disse que do ponto de vista da poesia eu nasci póstumo rsrsrsrsrs talvez publique OFERTÓRIO em vida. Uma pequena traição a eles rsrsrsrs.

4. Em Ofertório, série de poemas de livro inédito, você se joga de corpo e alma aos ímpios? Isso é provocação?

Na verdade, OFERTÓRIO é um tipo de confissão, aberta, pública. E toda confissão é provocadora em algum grau, principalmente as publicadas. Rigorosamente, eu não tenho mais aptidão para as provocações que fazia alguns anos atrás. Cansei pela falta total de resultados. Está  cheio de gente se auto proclamando poeta e escrevendo só droga, porcaria, lixo. Como não teem o talento, tentam copiar o Bukowski, o Beaudelaire, com uma desfaçatez incrível e, lógico, sem nenhuma qualidade. Só me obrigo a ler esse lixo justamente para não publicá-lo, distraidamente. –  Escrevê-lo – o OFERTÓRIO – não foi fácil. As condições subjetivas existiam – sentimentos e outras cositas – a questão é escrever a verdade sobre si próprio, é muito difícil. A vontade de omitir ou mentir é enorme. É preciso um grande esforço para que isso não ocorra. Mesmo que em determinado aspecto você não tenha nenhuma culpa, admitir isto torna-se ingênuo, babaca, aí você se tranca, não aborda, omite ou mente.  Mas enfim, consegui escrevê-lo são 12 poemas orientados pelos sentidos e alguns sentimentos. Durou quatro anos esse processo. Há muito não se lê autores com esse realismo (isto, é cabotinismo, antes que alguém pense), acham antigos, ultrapassados, mofentos,  rsrsrsrs… não sabem de nada. Para mim, foi muito bom ter escrito OFERTÓRIO, melhorei, cresci, para a poesia não sei e também não estou interessado; a poesia existirá com ou sem os meus poemas ou os desses bandos de imbecis que saem espalhando lama pela cidade chamando de poesia. Não há poesia no mal nem no inferno.

o poeta JAIRO PEREIRA  entrevista o poeta J B VIDAL em sua residência.

5. São muitos os Vidais, o poeta, o contista, o agitador cultural, num dos sites mais badalados do Brasil. É a execução de um projeto cultural, existencial… que está dando certo?

O poeta, o contista, o agitador cultural, o marido, o pai, o avô, o político, o trabalhador, enfim, entendo que tudo o que fazemos com esforço, com dedicação e vontade faz parte do topo do nosso processo existencial. Se está dando certo, não sei, acredito que sim pois já tem muita gente me odiando! rsrsrs. Meu caro amigo, não busco louros nem reconhecimentos, busco fazer a  parte que me cabe nesse mar de ausências.

6. Numa época, dá pra se dizer não-literária, onde a juventude perde-se nos links na Web, você acha que a literatura, a poesia, ainda terão futuro?

– É fato que temos futurólogos de todo tipo e para qualquer assunto, a grande maioria atletas da imaginação na busca da verdade que sequer sonham o que é e onde pode estar. Sem dúvida que a internet abriu caminhos para a democratização do saber, da informação, do conhecimento, foi a revolução da comunicação, sem dúvida, agora, daí dizer-se que a literatura, a poesia está com os dias contados é de uma mulice extraordinária; a literatura, a poesia são o que mais se lê no meio virtual! Estão aí as pesquisas informando: o que se lê na internet brasileira? Em primeiro lugar: noticias, em segundo lugar: poesia! Poesia meu caro, poesia! Ela é uma forma elevada de comunicação entre os homens, sempre existirá.

7. Essa pode lhe deixar nervoso. O Senhor é humilde na sua apreensão da vida pelos signos. Ou expande-se, ou pouco mais, quando interessa?

Você não pode viver falseando consigo mesmo, isto é autodestruição. Você é  sua vida. Fora disso não existe nada. Tudo é morto, e você não é. Portanto meu amigo, sempre tudo me interessa.

8. Há algo de novo no front, ou… a diluição e repetição de formas e conteúdos é o lugar comum?

Acredito que sempre tem alguém criando alguma coisa para benefício de todos. Acho que brevemente teremos uma grande mexida na internet em termos tecnológicos. Ela irá ao cosmos no sentido do aprimoramento da criação de conjunto.

9. O homem J B Vidal, interfere no social, buscando o literário, o crítico, ou o quê? Fale-nos sobre isso.

A minha intervenção no social é decorrente do meu quotidiano, nada tem de especial ou de objetivo porquanto não manipulo nem me deixo manipular. O literário, o critico e o “o quê” surgem no Vidal como consequência da sua interagência humana e sensível com o ser coletivo, naturalmente, sem estudos prismáticos.

o poeta declamando seus poemas no HERMES BAR. Curitiba. 2009. foto do jorn. Gustavo H. Vidal

10. O poeta J B Vidal, gosta de oralizar sua poesia, em bares… Ação poética é fundamental? Ou o poeta, deve ser o fantasma do livro impresso, aquele que não aparece?

Nem uma nem outra. Na poesia o fundamental é a poesia. Ponto final. Há quem te ofereça um tratado sobre ela como a mais cristalina das verdades. Lixo. Oralizar – declamar, para mim, – poemas em bares é muito mais prazeroso porquanto estão todos bêbados, nenhum presta atenção e todos aplaudem ao final  rsrsrsrs

OS NOVOS BEATNIKS ‘Ou um elogio à liberdade’ – por olsen jr / ilha de santa catrina

Nos finais e começos de ano, é sempre assim, há um mecanismo inconsciente que faz com que abramos a guarda. De repente ficamos dóceis, ternos, receptivos. É uma constatação que faço e isso nada tem a ver com o cristianismo, apenas com a época, uma vibração diferente. A observação é uma das ferramentas de um escritor, já a sensibilidade para captar a nuance do que é observado pode ser atributo de um poeta. Se você conseguir reunir os dois quesitos em uma pessoa só, melhor. Mas isso ocorre o ano inteiro, então por que lembrar isso apenas agora?

Well, penso que ao afrouxar um pouco o ceticismo contemplativo com que a maioria das pessoas leva a vida, a realidade não parece ser tão soturna como imaginamos quando estamos mais pessimistas que o habitual. Percebi isso agora, vendo aquele grupo. Na verdade acompanho todos eles individualmente andando por aí, a esmo, sem destino e nem objetivos determinados.

Um grupo de pessoas, seis ao todo, lembra aquele livro “Cannery Row”, do John Steinbeck, escrito em 1945 e que integra uma saga do escritor norte-americano que já tinha publicado “Tortilla Flat”, em 1935 e prosseguiu com “Sweet Thursday”, em 1954.

Sim, foi um vislumbre da obra de Steinbeck, dadas as semelhanças, porque aqui na Lagoa da Conceição como lá em Monterey (na Califórnia) estes meio-habitats se parecem. Alguns indivíduos que estão unidos por laços comuns, quer dizer, nenhum deles tem um trabalho fixo, aliás, são os novos beatniks, agora os do século vinte e um. Todos têm certa habilidade em alguma área, seja carpintaria, artesanato, alvenaria e outras ocupações que exijam o emprego das mãos. Só o fazem, entretanto, quando não há mais alternativas para conseguirem o mínimo necessário para levar a vida numa boa.

Na última sexta-feira encontrei-os em um terreno gramado à beira da Lagoa. Na calçada mostravam o trabalho em jóias de arame, prata, bijuterias transformadas em brincos, braceletes, pingentes, camafeus, cordões, prendedores de cabelos, uma variedade de ornamentos capazes de satisfazer qualquer vaidade feminina menos sofisticada, mas de bom gosto para a simplicidade combinando sempre com o velho jeans de guerra. Também, o chimarrão passando de mão em mão enquanto alguém cuidava do fogo, sim, porque havia carne sendo assada, tudo isso ao lado de uma banca de revistas, embaixo de algumas árvores numa manhã de sol claro depois de toda a tragédia que se abateu sobre alguns lugaresem Santa Catarina.

Aspirei aquele odor de carne assada, me deu saudades de ver a família reunida, e aquele dolce far niente a que eventualmente dávamos ao luxo de nos entregar. O momento vivido era único. O futuro é um espaço que não existe. Caminho devagar quando passo por eles, também por momentos queria ter a sensação de viver aquela heresia, de não pensar no “depois”…  A despreocupação está nos rostos, pelo menos naquela hora.

Que País infernal é esse Brasil, penso.

Registro esse encantamento com a espontaneidade para celebrar a livre escolha, para eternizar a ação de se fazer o que se pode mesmo em uma situação que, muitas vezes, não deveria nem possibilitar esse “poder”: uma escolha apenas, mas vocês que estão chegando agora, que não precisaram viver o que nos foi imposto “como natural” durante o regime militar, leitores, não imaginam o que é viver essa liberdade, o que é desfrutá-la assim, como companheira de viagem, porque se não vamos chegar a lugar nenhum, então ela deve vir junto, afinal, de tudo o que nos podem “tirar” na vida: o vínculo com os nossos pais, o amor que se dizia eterno ou o que conseguimos com o nosso esforço, do homem revoltado às paixões inúteis, é a liberdade o único bem que não suportamos perder na vida… É por isso que todas as ditaduras caem, não importa por quanto tempo dissimulem ficar em pé!

Olsen Jr. é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS

VIDA BREVE… – por joão bosco leal / são paulo

 

Ainda outro dia, depois das aulas e das tarefas feitas, jogava bolinhas de gude com amigos na calçada de casa…

No mês de agosto, os meninos faziam seus papagaios de papel de seda e goma arábica, tentando que fossem mais coloridos e com o rabo maior que o dos outros…

Ao anoitecer, os pais já cansados e querendo um pouco de sossego, nos davam algumas moedas para apanharmos vagalumes…

As brincadeiras mais comuns eram as de pega-pega, esconde-esconde, cabra cega, amarelinha e queimada…

Depois vieram os jogos de futebol e para meninas, outros tipos de brincadeiras, considerados mais apropriados…

Os pais que podiam, colocavam seus filhos no judô e na natação, as meninas no balé e piano, e ambos no inglês…

Como diversão, a grande novidade eram os patins, antecessor do skate…

As fanfarras treinavam o ano todo para raríssimas apresentações, no sete de setembro ou nos concursos estaduais, quando, as meninas faziam belíssimas apresentações de malabarismos…

Vieram as aulas de datilografia, que os mais novos sequer sabem do que se trata…

As brincadeiras dançantes em clubes eram destinadas aos menores de idade e animados com música ao vivo…

O limite de horário era sempre muito rígido, 22 horas, e queríamos envelhecer mais rapidamente…

Vieram os bailes, os carnavais, os cinemas e os namoros, todos muito diferentes dos atuais…

A cuba libre era a bebida da moda e alguns se embebedaram pela primeira vez…

Ouvíamos os Beatles, Creedence CR, Carpenters, Ray Charles, Cat Stevens, Aretha Franklin, Tina Turner e centenas de outros de elevado padrão musical, com músicas também muito diferentes das atuais…

Veio a faculdade, muitos estudos, músicas, namoradas e bailes, mas a sonhada formatura, só para a minoria…

Começou a vida de responsabilidades, trabalho, busca de renda, casamento, filhos…

A tensão era ser enorme, com muitas preocupações com a educação e saúde dos pequenos, seu futuro…

Agora são os filhos que passam pelas mesmas situações, nos alegrando ou preocupando…

Apareceram rugas e cicatrizes, muitas no corpo outras na alma…

Muitos cabelos caíram e outros ficaram brancos, os sonhos diminuíram e fiquei mais realista…

Os netos começam a crescer e de um modo ou de outro a viver tudo o que eu e seus pais vivemos…

Aos 60 anos, muitos nos acham quadrados, ultrapassados, com poucas idéias úteis, mas na sua idade, eu achava que uma pessoa com 35, 40 anos já era velha…

Realmente diminuíram minhas destrezas, estou cada vez mais lento, física e mentalmente, mas é uma fase maravilhosa, pois já aprendi e senti bastante, mas tenho fome de novos aprendizados e sentimentos…

Foi tudo muito rápido e o que mais quero agora, é que tudo demore muito…

“Brinquedos Proibidos” de René Clement – por monica benavides / curitiba

domingo, 20 de março de 2011 às 22:56

Hoje assisti ao belíssimo “Brinquedos Proibidos”, um filme de René Clement, com uma fantástica trilha de guitarra do Narciso Yepes.

Carregado em dramaticidade porém livre de pieguices, como a maior parte da escola realista francesa do pós-guerra, “Le Jeux Interdits” no original, conta a história de Paulette uma menininha francesa na época da ocupação alemã (1940).

Órfã, a menina vaga pela França carregando o corpo de seu cachorrinho morto, até ser encontrada por um menino, Michel Dolle, filho de uma rude e ignorante família camponesa. Apesar da intensa dificuldade de adaptação de Paulette, ela verá no novo amigo a possibilidade de entender e sobreviver ao desmoronamento de seu mundo.

O filme tem um final previsível, porém assustador, que faz pensar muito no que aconteceu com as crianças órfãs da segunda guerra, e na incrível e insuperável capacidade que a raça humana tem, de superar os momentos de mais completo desespero, através da simples esperança.

Clement conseguiu separar bem o mundo adulto, cheio de mesquinhez e ódio, do infantil carregado de ternura e inocência. Mesmo caricatural sua crítica social é tocante e a separação das crianças angustiante. Como se não bastasse, mesmo datada a interpretação dos pequenos é maravilhosa.

O filme, apesar de recusado por Cannes (absurdamente), ganhou o reconhecimento do mundo com um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e com o Leão de Ouro em Veneza no ano de 1952 (merecidamente), suprema recompensa e menção especial do juri “…por ter elevado a uma singular pureza lírica a inocência da infância acima da desolação da guerra…”

Em tempos como o nosso de conflitos velados e pseudo guerras cirúrgicas, o filme realmente consegue a proeza de marcar nossa alma com um selo de intensa bondade e anti-belicismo.

Recomendadíssimo!!!!!

CULTURA DOS EDITAIS – O REMÉDIO AMARGO DOS ARTISTAS – por almandrade / salvador.ba

O artista que passa o tempo recluso na solidão do atelier, trabalhando, desenvolvendo sua experiência estética, como um operário da linguagem e do pensamento, está em extinção. É coisa de museu. Ou melhor, é raridade nos museus de arte, hoje em dia, que estão deixando de ser instituições de referência da memória para servir de cenários para legitimação do espetáculo. Às vezes com míseros recursos que ficamos até sem saber, quando deparamos com baldes e bacias nessas instituições, se são para amparar a pingueira do telhado ou se trata de uma instalação, contemplada por um edital para aquisição de obras contemporâneas. O que interessa na politica cultural nem sempre é a arte e a cultura, e sim, o glamour. Em nome da arte contemporânea faz-se qualquer coisa que dê visibilidade.

As políticas públicas foram relegadas às leis de incentivo à cultura e aos editais públicos. Nunca se fez tanto editais neste País, como atualmente, para no fim fazer da arte um suplemento cultural, o bolo da noiva na festa de casamento. Na fala do filósofo alemão Theodor Adorno: “As obras de arte que se apresentam sem resíduo à reflexão e ao pensamento não são obras de arte”. Do ponto de vista da reflexão, do pensamento e do conhecimento, a cultura não é prioridade. Na política dos museus, o objeto já não é mais o museu que se multiplicou, juntamente com os chamados centros culturais, nos últimos anos. Com vaidade de supermercado, na maioria das vezes eles disponibilizam produtos perecíveis, novidades com prazo de validade, para estimular o consumo vetor de aquecimento da economia. A qualificação ficou no papel, na publicidade do concurso.

Esses editais que bancam a cultura são iniciativas que vem ganhando força. Mostram ser um processo de seleção com regras claras para administrar o repasse de recursos, muito bem vendido na mídia, como um método de democratizar o acesso e a distribuição de recursos para as práticas culturais. Mas nem tão democrático assim. Podem ser um instrumento possível e eficiente em certos casos, mas não é a solução, é possível funcionar também, como escudo para dissimular responsabilidades pela produção, preservação e segurança do patrimônio cultural. Considerando-se ainda a contratação de consultorias, funcionários, despesas de divulgação, inscrição, o trabalho árduo e apressado de seleção , é um custo considerável, em último caso, gera serviços e renda.

O artista contemporâneo deixa de ser artista para ser proponente, empresário cultural, captador de recursos, um especialista na área de elaboração de projeto, com conhecimentos indispensáveis de processo público e interpretação de leis. Dedica grande parte de seu tempo nesse processo burocrático de elaboração e execução de projeto, prestação de contas, contaminado pela lógica do marketing, incompatível para o artista que aposta na arte como uma opção de vida e meio de conhecimento que exige uma dedicação exclusiva. Ou então, ele fica à mercê de uma produtora cultural, para quem essa política de editais e fomento à cultura é um excelente negócio.

Uma coisa é preocupante, se essa política de editais se estender até a sucateada área da saúde. Imaginem uma seleção pública para pacientes do Sistema Único de Saúde que necessitam de procedimentos médicos, os que não forem democraticamente contemplados, teriam que apelar para a providência divina, já engarrafada com a demanda de tantos pedidos. Nem é bom imaginar. Que esta praga fique restrita nos limites da esfera cultural, pelo menos é uma torneira que sempre se abre para atender parte de uma superpopulação de artistas / proponentes pedintes.

O artista, cada vez mais, é um técnico passivo com direito a diploma de bem comportado em preenchimento de formulário, e seu produto relegado ao controle dos burocratas do Estado e aos executivos de marketing das grandes empresas. Se o projeto é bem apresentado com boa justificativa de gastos e retornos, o produto a ser patrocinado ou financiado, mediano, não importa. O que importa é a formatação, a objetividade do orçamento, a clareza das etapas e a visibilidade, o produto final é o acessório do projeto. Claro, existem as exceções.

Almandrade

(artista visual, poeta e arquiteto)

AO LEITOR DO “NOTÍCIAS DO DIA”

Repito nestas primeiras linhas o que já disse em outros tempos, em outro lugar nas mesmas circunstâncias: “Francamente, não gosto de despedidas. Um adeus sempre sugere a hipótese de que seja definitivo. Foi assim quando minha mãe morreu e o fato se repetiu com o meu pai, do mesmo jeito: era para ser apenas um até breve, e acabou sendo um nunca mais.

   “Prefiro mil vezes os encontros. A aproximação possibilita uma expectativa, algo capaz de gerar uma esperança e essa, naturalmente, abre horizontes… Não restringe, amplia”.

 

Depois de ter morado em Chapecó, São Carlos, Rio Negro, Curitiba, Blumenau e finalmente em Florianópolis, quis acreditar que esta seria de fato, a minha última parada antes de partir “desta” para o oblívio, como diria o Paulo Francis.

 

O “destino” caprichoso, entretanto, ainda me reserva novas descobertas. Por razões estritamente profissionais devo estar mudando de domicílio em breve para Rio Negrinho, Norte do Estado de Santa Catarina e onde se encontra o berço da “Olsen’s Family”. Devo acreditar que a permanência por aquelas plagas não ultrapasse há dois anos, porém nunca se sabe. Como desde os nove anos de idade quando saí de casa pela primeira vez, sempre me senti um estrangeiro em qualquer lugar, tal determinismo passageiro não me incomoda. O homem é ele e sua memória, o restante é decorrência.

 

Com as atribuições inerentes ao ingresso na Academia Catarinense de Letras (Cadeira 11) devo visitar a Ilha pelo menos uma vez por mês, contingência que não abdicarei em hipótese alguma.

 

A primeira crônica publicada aqui foi no dia 11 de novembro de 2010, portanto, daqui a quatro dias fará um ano, período marcado por uma boa convivência neste espaço democrático e também gratificante.

 

Em retrospectiva, os textos publicados em que aludi à família foram os que encontraram maior receptividade. De resto, o mesmo sentimento que embalou minha participação em outro jornal já mencionado. A família ainda continua um forte sustentáculo social a quem as pessoas não transigem. Tal constatação não deixa de ser alvissareira.

 

Aos meus leitores, figuras enigmáticas e muitas vezes distantes, agradeço a atenção que me dedicaram durante este período que pode ter sido curto, mas foi produtivo e sempre rico em aprendizado, deixo o agradecimento sincero e também levo um sentimento de perda, o mesmo que carregam todos os que se ausentam.

 

Encerro da mesma maneira que a última vez “E como diria o poeta, vamos em frente e sejamos felizes, se pudermos: um bom final de ano para todos e até outro dia… Por aí!”.

Olsen Jr. é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

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o PALAVRAS TODAS PALAVRAS irá se ressentir da ausência do grande escritor bem como, e principalmente, os milhares de leitores que colecionou ao longo do pouco tempo em que colaborou conosco. ficaremos aguardando o retorno  de suas crônicas amigo Olsen.

grande abraço e seja breve na ausência,

J B VIDAL

Editor

O ESTADO de SÃO PAULO, REVISTA VEJA, FOLHA DE SÃO PAULO: O INSULTO, A COVARDIA e A MALIGNIDADE

o PiG (*) e o câncer do Lula:
o insulto, a covardia, a malignidade

Efeitos da pregação midiática

No princípio era e é a mídia. A primazia vem de longe, mas se acentua com o efeito combinado de avanço tecnológico e furor reacionário. De início a serviço do poder até confundir-se com o próprio, um poder ainda medieval de muitos pontos de vista, na concepção e nos objetivos.

Ao invocar o golpe de Estado de 1964, os editorialões receitavam o antídoto contra a marcha da subversão, obra de pura fantasia, embora os capitães do mato, perdão, o Exército de ocupação estivesse armado até os dentes. Marcha da subversão nunca houve, sequer chegou a Revolução Francesa.  Em compensação tivemos a Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade.

Há tempo largo a mídia cuida de excitar os herdeiros da Casa-Grande ao sabor de pavores arcaicos agitados por instrumentos cada vez mais sofisticados, enquanto serve à plateia, senzala inclusive instalada no balcão, a péssima educação do Big Brother e Companhia. Nem todos os herdeiros se reconhecem como tais, amiúde por simples ignorância, todos porém, conscientes e nem tanto, mostram se afoitos, sem a percepção do seu papel, em ocasiões como esta vivida pelo presidente mais popular do Brasil, o ex-metalúrgico Lula doente. E o estímulo parte, transparentemente, das senhas, consignas, clichês veiculados por editorialões, colunonas, artigões, comentariões.

Celebrada colunista da Folha de S.Paulo escreve que Lula agora parece “pinto no lixo”, cuida de sublinhar que “quimioterapia é dureza” e que vantagens para o enfermo existem, por exemplo, “parar de tomar os seus goles”. Outra colunista do mesmo jornal, dada a cobrir tertúlias variadas dos herdeiros da Casa-Grande, pergunta de sobrolho erguido quem paga o tratamento de Lula. Em conversa na Rádio CBN, mais uma colunista afirma a culpa de Lula, “abuso da fala, tabagismo, alcoolismo”. A cobra do Paraíso Terrestre desceu da árvore do Bem e do Mal e espalhou seu veneno pelos séculos dos séculos.

Às costas destas miúdas aleivosias, todas as tentativas pregressas de denegrir um presidente que se elegeu e reelegeu nos braços do povo identificado como o igual capaz de empenhar-se pela inclusão de camadas crescentes da população na área do consumo e de praticar pela primeira vez na história do País uma política externa independente. Trata-se de fatos conhecidos até pelo mundo mineral e no entanto contestados oito anos a fio pela mídia nativa. E agora assistimos ao destampatório da velhacaria proporcionado pelo anonimato dos navegantes da internet, a repetirem, já no auge do ódio de classe, as tradicionais acusações e insinuações midiáticas.

Há uma conexão evidente entre as malignidades extraordinárias assacadas das moitas da internet e os comportamentos useiros do jornalismo do Brasil, único país apresentado como democrático e civilizado onde, não me canso de repetir, os profissionais chamam o patrão de colega.

Por direito divino, está claro. E neste domínio da covardia e da raiva burguesotas a saraivada de insultos no calão dos botecos do arrabalde mistura-se ao desfraldado regozijo pela doença do grande desafeto. Há mesmo quem candidate Lula às chamas do inferno, em companhia dos inevitáveis Fidel e Chávez, como se estes fossem os amigões que Lula convidaria para uma derradeira aventura.

Os herdeiros da Casa-Grande até mesmo agora se negam a enxergar o ex-presidente como o cidadão e o indivíduo que sempre foi, ou são incapazes de uma análise isenta, sobra, de todo modo, uma personagem inventada, figura talhada para a ficção do absurdo. De certa maneira, a escolha da versão chega a ser mais grave do que a própria, sistemática falta de reconhecimento dos méritos de um presidente da República decisivo como Lula foi. Um divisor de águas, acima até das intenções e dos feitos, pela simples presença, com sua imagem, em toda a complexidade, a representar o Brasil em tão perfeita coincidência.

(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

C.CAPITAL

Casa velha, coisas velhas – por amilcar neves / ilha de santa catarina


 

Numa noite quente qualquer, o futuro escritor escrevia um dos seus primeiros contos. Sentava-se à mesa de jantar numa sala do casarão talvez já centenário na ocasião. Como ainda era apenas projeto de ficcionista, não tinha espaço próprio na casa velha: era, ainda, um escritor sem escritório. Mas já tinha de seu uma biblioteca. Modesta e bem sortida, uma biblioteca para chamar de sua. Os livros integravam-se ao ambiente, de meio a vasos, enfeites, crianças, fotografias e, claro, móveis e louças. Animais não eram admitidos no interior da residência.


A casa fora construída junto à calçada, como era hábito na época da sua ereção (consulte antes o dicionário, por obséquio, quem pretender esboçar um sorriso malicioso, aqui inconveniente), com porta e janelas debruçando-se sobre os passantes que traziam notícias e levavam informações. Dessas aberturas – ponto estratégico – controlava-se a entrada e saída de gentes, cavalos e veículos que procuravam a praça central da cidade. Para trás, virado para o nascente e para a Ilha, o terreno abrigava dois coqueiros carregados de cachos de butiá, um campinho de futebol, muita árvore e gramado, e terminava nas areias da Baía Sul, que limitavam sua continuação; hoje, é um aterro com avenida por cima que o reprime, com bem menos poesia e encanto do que o mar.


De um lado morava o Jayro Schmidt, do outro havia um palacete sinistro onde teria ocorrido há tempos um crime passional com o emparedamento da jovem e bela dona da casa; atravessando a rua, subia-se o morro quase à frente do casarão para encontrar de súbito o cemitério da cidade, povoado de vetustos cidadãos do lugar.


O casarão: vinha com porão alto e frequentável, com um vasto sótão infestado de cupins, com ruídos noturnos inesperados e suspeitos, com um razoável elenco de fantasmas. Destes, o mais notável leva o nome de Germano, cujo túmulo, perfeitamente identificável, o espera no cemitério próximo. Germano tem por hábito perseguir senhoras idosas dentro da casa, obrigando-as a correr mesmo incapacitadas para a celeridade dos deslocamentos. Alcançando-as, vampiresco, ele as morde nas costas. Nunca se soube com precisão o que acontece depois desse abraço por trás: talvez o terror e o pudor – ou o prazer – impeçam essas senhoras, pobres vítimas, de detalhar os fatos posteriores. Lá, dormia-se com a luz acesa.


As pessoas nascidas ao tempo deste alvorecer para a literatura acima referido estarão em final de carreira se forem jogadores de futebol, terão completado o doutorado caso hajam enveredado pela pesquisa e o magistério, ainda não se terão casado, e muitas viverão com os seus filhos na casa dos pais, desobrigadas de compromissos mais sérios em sua vida particular: não faz tanto tempo assim, portanto. Um escritor escrevia à mão ou com máquina de escrever manual, pois as elétricas, caríssimas, eram para as firmas de sucesso e os computadores, exclusividade de raríssimas empresas de grande porte. A música e o mundo lhe chegavam pelas ondas hertzianas, como proclamavam os locutores, em radinhos de pilha japoneses. O Japão era a China de hoje.


O conto que falava do casarão, da sua vizinhança e do seu morador mais ilustre, o Germano, foi bruscamente interrompido naquela noite quente que já avançava bem porque algo queimou e inchou dolorosamente, de imediato, o pé esquerdo do escritor, obrigando-o a correr para a emergência do hospital, que ficava longe – obra, talvez, dum inseto. Que jamais foi localizado.

Carlos Vereza: ‘Vi discos voadores e eles sabiam que eram vistos’ / rio de janeiro

Ator, que é espírita, diz sentir energia das pessoas, escreve livro e cede ao iG vídeo em que avista supostos OVNIs no Rio.

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro 01/11/2011 07:00

Carlos Vereza concede a entrevista a seguir em seu apartamento, no 13º andar de um prédio cuja varanda tem ampla vista para a praia da Barra da Tijuca e a Pedra da Gávea, no Rio. É desta mesma varanda que o ator diz já ter avistado diversos discos voadores. Com ajuda do assessor pessoal, Roberto Ricardo, filmou pelo celular o que seriam alguns deles e cedeu ao iG as imagens. “Os extraterrestres estão limpando a crosta terrestre das explosões atômicas que acontecem no sul do oceano pacífico”, diz, enfático.

Leia também: ‘Não é nada que a gente conheça’, diz astrônoma sobre vídeo

Ator contratado da TV Globo – vai fazer a próxima novela das 6 -, prestes a completar 53 anos de carreira, com prestígio nacional construído a partir de memoráveis papéis na televisão, premiado no teatro e com atuação marcante também no cinema, Vereza pretende lançar até março, quando completa 71 anos, o livro “Efeito Especial – Estilhaços Biográficos. Vida Privada de Karl Marx”.

Seu contato com o espiritismo, religião que segue até hoje, surgiu a partir de um incidente ocorrido durante a gravação do seriado “Delegacia de Mulheres”, da TV Globo, há 22 anos. “Explodiu pólvora no meu ouvido esquerdo e, por causa disso, fiquei três anos em depressão e internado em vários sanatórios”, conta. O episódio é relatado com detalhes em seu livro.

Divorciado, Vereza mora sozinho com uma empregada. Na sala do apartamento, entre outras, há imagens de Nossa Senhora da Conceição, de uma figura indiana, uma estátua de São Jorge. Pede para que nenhuma das imagens seja fotografada, “em respeito a elas”.

Entre uma xícara de café e outra, Vereza conta que é médium intuitivo. Relata que espíritos batem a sua porta, o chamam pelo seu nome, acendem e apagam a luz, ligam o computador. “Não tenho medo de que me achem louco”, diz o ator. Ele tem muita fé em sua religião, mas diz que não pede ajuda para compor seus personagens. “Aí é o talento que Deus me deu”.

Foto: Selmy Yassuda

Carlos Vereza, 70 anos

iG: Por que detalhar em um livro o episódio que afetou sua audição?
CARLOS VEREZA:
 O acidente mudou minha vida. Ouvia um zumbido fortíssimo que me causou depressão, labirintite, insônia. Acabou meu casamento de 15 anos (com a artista plástica Delma de Oliveira Godoy). Ficava só deitado, igual a um vegetal. Foi quando minha tia falou para eu ir ao Lar do Frei Luiz (centro espírita na zona oeste do Rio), que tinha curado meu primo de leucemia.

iG: Qual é a relação da sua depressão com a “vida privada de Karl Marx”, subtítulo do livro?
CARLOS VEREZA:
 Fui do Partido Comunista por 15 anos, mas nunca fui ateu, por não acreditar no mundo como obra do acaso. Ia às reuniões do partido com a medalhinha de São Jorge. Gosto da história de vida do Marx que, ao contrário dos comunistas amigos do Lula, morreu na miséria e teve duas filhas que se suicidaram. Faço um paralelo da utopia dele, contando o ser humano que ele foi.

iG: Mas o senhor trocou o comunismo pelo espiritismo?
CARLOS VEREZA:
 Deixei de ser comunista quando a União Soviética invadiu a Hungria. Me tornei espírita quando me curaram, sem me cobrarem absolutamente nada. Ciência, filosofia e religião são o tripé do espiritismo, que foi decodificado por um cético chamado Alan Kardec. Os fenômenos paranormais existem desde que o mundo é mundo. A primeira psicografia do mundo foi a tábua dos Dez Mandamentos.

iG: Já presenciou algum fenômeno paranormal?
CARLOS VEREZA: 
Vários, vários, vários. Lá no Frei Luiz temos a sessão de materialização. O médico deita numa cabine, expele um ectoplasma e, dele, se forma um espírito materializado. Em carne e osso. Este espírito traz do plano astral aparelhos de laser para o tratamento de quase 40 pessoas em cerca de uma hora. O médico fica em transe. O ectoplasma é composto por gás carbônico, hidrogênio, oxigênio…

iG: Sei.
CARLOS VEREZA:
 O espírito vem com uma capa branca que parece de algodão. Teve um dia em que ele deixou a capa branca para a gente. Já tive um pedacinho desse pano, mas é que aqui em casa tudo some… É uma tolice achar que só existe a matéria. Taí a física quântica para mostrar que passado, presente e futuro estão num só plano.

iG: Tem algum poder sobrenatural?
CARLOS VEREZA
: Todo mundo tem mediunidade, só que nem todos desenvolvem. Tem o vidente, o audiente (que ouve vozes de espíritos), o psicógrafo, o “vista dupla” (que vê pessoas ao seu lado que você não enxerga)… Todos nós somos videntes. Dizem que sou médium intuitivo. Eu pressinto, mas não sou nenhum profeta.

iG: Explique melhor.
CARLOS VEREZA
: Sinto a vibração das pessoas que entram na minha casa.

iG: E o que sentiu quando chegamos?
CARLOS VEREZA:
 Boa, boa, boa… Muito boa.

Foto: Selmy Yassuda

“Nunca vi nenhum espírito, mas já senti. Às vezes escuto o meu nome, ‘Caaarlos’, bem nitidamente”

iG: O senhor vê pessoas mortas?
CARLOS VEREZA:
 Nunca vi nenhum espírito, mas já senti. Às vezes escuto o meu nome, “Caaarlos, Caaarlos”, bem nitidamente. Às vezes eles batem na minha porta. Quando vejo, não tem ninguém. Já nem abro mais a porta, já estou acostumado de tanto que batem. Eles queimam interruptores, acendem a luz do nada… Mas isso não é todo dia. Queria falar também que tenho uma relação muito forte com ufologia.

iG: É?
CARLOS VEREZA:
 Já vi vários discos voadores que saem da Pedra da Gávea. Eu lhe mostro agora no meu laptop o vídeo que fiz quando dois discos apareceram aqui perto.

iG: Qual é a relação da ufologia com a mediunidade?
CARLOS VEREZA: 
Total. Perguntei a um espírito qual é a diferença entre um alienígena e um espírito. Ele falou “nenhuma”. Os extraterrestres do bem estão limpando a crosta terrestre das bombas atômicas que explodem no sul do oceano Pacífico. Depois reclamam que as placas tectônicas estão se batendo no fundo do mar.

iG: As placas tectônicas se movem desde que o planeta foi formado.
CARLOS VEREZA: 
Elas se movem sempre, mas não a ponto de provocar terremotos que matam 300 mil pessoas e formar ondas de tsunami que matam outras milhares de pessoas. Com suas naves, eles limpam a crosta terrestre e mandam advertências seriíssimas para a gente.

iG: Como quais?
CARLOS VEREZA: 
Com estas explosões, o eixo da Terra se verticalizou. Houve a mudança do eixo da Terra. Tudo é quântico, mexe com a cabeça da humanidade. Pai que mata filho, garoto de dez anos que atira na professora… Essa loucura do planeta que a gente vive… Tudo é ligado às placas tectônicas e ao universo. Não é preciso ver para saber. Tenho certeza de que nossos anjos da guarda e outros espíritos estão aqui agora ouvindo nossa conversa. Tenho certeza como eu me chamo Carlos.

iG: Esses espíritos são os mesmos que acendem a luz e batem à porta?
CARLOS VEREZA:
 Dependendo da visita, até o computador liga sozinho. Isso tudo é trabalho científico, que está sendo estudado por acadêmicos. Sonia Rinaldi, da USP, grava vozes de espíritos pelo rádio, é a transcomunicação. Coloca isso, porque senão vão dizer “Vereza está maluco, só fala besteira”.

Foto: Selmy Yassuda

“Tenho certeza de que nossos anjos da guarda e outros espíritos estão aqui agora ouvindo nossa conversa”

iG: O senhor pede ajuda espiritual para compor personagens?
CARLOS VEREZA:
 São 53 anos de carreira que vou fazer em dezembro, meu filho. Aí é o talento que Deus me deu, né? Para você cair logo desmaiado, leia esta mensagem em voz alta (Vereza entrega ao repórter um texto “psicografado”, atribuído por ele à autora de novelas Janete Clair, morta em 1983).

iG: Voltando à ufologia, como avistou OVNIs?
CARLOS VEREZA:
 O grande avistamento foi em 1997. Eu, minha filha Larissa, minha amiga médium Márcia Zenkye, o marido dela Josué, que é comissário de bordo, estávamos na varanda do apartamento, quando vimos mais de dez discos passando bem próximo, em velocidade inacreditável. Demorou mais de três horas. Eles vinham e iam, como se mergulhassem no mar.

iG: Foi só essa vez?
CARLOS VEREZA:
 Não. Há um ano e meio, o Roberto falou que estava vendo uma coisa na direção da Pedra da Gávea. Fui ver e falei: “Ih, Roberto. Aquilo está parecendo disco. Corre e pega seu celular”. Ele demorou a achar o celular. Os objetos não correram. Me deu a impressão de que eles sabiam que estavam sendo vistos e queriam que fossem registrados. Tem um mistério em torno da Pedra da Gávea.

iG: Diz a lenda que os fenícios…
CARLOS VEREZA
: Diz não, eles estiveram ali. Há 15 mil anos. O Brasil não começou agora (Vereza mostra o vídeo dos OVNIs no seu laptop).

iG: Não ficou com medo?
CARLOS VEREZA:
 Ficamos de mãos dadas chorando. Eles passam alguma coisa inexplicável de emoção. Se ampliar a imagem, você vê até a cabine deles. Calculo que estivessem a 40 km/h. Não é avião, sonda, nem helicóptero. Ia mandar para o Fantástico, mas não divulguei, porque sempre aparece alguém dizendo que é balão meteorológico. Mas autorizo você a divulgar, estou na vida para colocar a cara a tapa.

iG: As pessoas podem achá-lo louco.
CARLOS VEREZA:
 Já falei aqui para você muita coisa que as pessoas não vão acreditar. Falei de espírito, de ectoplasma, de materialização… Não tenho medo do que vão dizer. O lugar em que mais aparece disco é o México, é coisa impressionante. O Vaticano já chama os extraterrestres de irmãos. Você nunca ouviu falar nos tapetes voadores das “Mil e Uma Noites”? Então… Era o vocabulário da época.

Foto: Selmy Yassuda

O ator está preparando um livro de memórias. “São fragmentos”, explica

iG: Que outros fenômenos o senhor já presenciou?
CARLOS VEREZA:
 Meses depois deste vídeo, um colega meu dormia aqui, eram quase 6h, quando os discos passaram. O gravador ligou sozinho e começou a transmitir vozes. Passou do português ao castelhano, depois para inglês. Não deu para entender bem. O que me fez concluir que a velocidade deles é tão absurda que eles trocam de idioma conforme passam pelos países.

iG: Imagino.
CARLOS VEREZA:
 O mundo é muito complexo, rapaz. Não é só pegar o carro, ir trabalhar e voltar para casa, não. Os iogas levitam na água, na Índia. É o domínio de leis da natureza que foge do nosso conhecimento. Galileu quase foi queimado porque dizia que a Terra não era o centro do universo. Assim vai a vida.

iG: Há alguns meses, entrevistei o cantor João Bosco, que confessou morrer de medo do fim do mundo. Ele acredita que um meteoro vai se chocar com a Terra em 2029. Há motivos para tal pânico?
CARLOS VEREZA:
 Meu querido João Bosco, o mundo enquanto bola não vai acabar. Haverá uma transformação de dogmas e conceitos em 2012, porque estamos entrando na Era de Aquário. São mudanças para o bem, algumas até geográficas, mas a humanidade vai levar um susto para que tenhamos paz no futuro.

Foto: Selmy Yassuda

Vereza toca flauta transversa ao final da entrevista

NOITE ET – de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

UM PRESENTE DOS CÉUS

A POTRA AMARÍLIA ET

 

O cão corria o lebrão saltado da moita na noite escura corria até pegar. Já tínhamos dois no saco de ráfia. A caçada rendeu bem pensei. Já era hora de parar. Meia noite ou quase. Sobre a pedreira a grande nave estacionou num repente. Passei o arame liso da cerca com o cão e encostamos a par do mato. A supernave mãe abre a grande porta da frente e lança uma extensa e luminosa esteira. Pensei despensei o que iria sair dali? Uma mulher linda uns homens tipo soldados armados pra guerra um líder com vestes bizarras?! Nada disso. O que saltou de dentro do truvisco luminoso era um belo cavalo: patas de acrílico ou carbono tilintando feito moeda no metal da esteira. Olhos crispados de céus noturnos o bicho levantado nas quatro patas. Nojo de pisar no chão saltou no campo… olhou pros lados conferiu avaliou e num salto espetacular por cima da cerca ganhou a parte mais alta do terreno. Um cavalo do espaço. Um cavalo alado. Um cavalo amarílio quase pinhão crinas douradas. Miúdo de cerca duns onze meses de idade. Um cavalo crispado de noite grande. Pensei despensei. Isso é uma jóia: um brinde dos céus pra quem olha tanto pra cima. Olha confere as noites kedences como um alucinado. Quem teria me mandado tão valioso presente?! Matutei. Agora é com o Charlinhos Soboleski: amanhã cedo tentamos pegar o bicho e fazer as avaliações de praxe. Se tem algo que conhecemos mais ou menos nesse mundo é cavalo. Isso que você tá pensando também… mas não acertamos uma. Fica só na mãe mesmo. AHHHHHHHHHHHHHHHHHH. Cernelha alta a potra ou potranco não deu pra ver o sexo na escuridão da noite. As patas luzentes de acrílico ou carbono. A pelagem fina e lustrosa. As crinas tecidas em seda chinesa. A cauda alta tipo do nosso cavalo terreno árabe em chuveirinho. Os olhos grandes e luzidios na noite grande. Um topete alto punkiano moikano estilizado no nathural cósmico. Não é sempre que se ganha um presente assim dos céus. O pior agora é o cuidado que a gente deve ter com a jóia rara. O olho grande dos especuladores. Não pode. Não poderia vazar a informação. Mas vazou. Caso dum caipora que foi buscar umas vacas gordas e esticou o zóio na éguinha ET. Avaliou: cara de anta (do avaliador) com espíritho de taititu. Dissimulado tipo besouro que finge a morte pouco disse ou demonstrou de suas intenções. Mas lá fora do cercado pros lados de Três Barras já abriu o bico. O Charlinhos não vence a procura de curiosos pela santinha do espaço equina formosa nojo de pisar no chão bailante redibrilha de brilhar. Eles chegam cara de quem não quer nada ver duns garrotes uma ovelha umas novilhas pra criar e fixam o zóio gordo na minha bichinha do espaço. Não tem preço não tem destino e não tem empresta e não tem tipo algum de negócio. Vai crescer ali na Fazenda Poema a pequenina curtida de noites cósmicas campos a perder de vista alumbradas paisagens siderais. Não é que o presenteador que já calculo quem seja Nilthand”s Lux do Planeta Help’s 888 passou por ali sobre a pedreira noite dessas olhos cumpridos pra baixo… garanto a fim de ver a minha boneca se tá bem cuidada etc etc. Amigos se fazem assim trocando presentes… inusitadas honrarias. Sem esquecer que ele me deve milão do shopping de Floripa que lhe emprestei pra comprar bagulhos terrenos. Num desses dias de calor intenso a pequena espacial cresceu pra fora do mato saltou a cerca e foi até a comunidade mais próxima. Muitas pessoas correram a vê-la transitando por ali. Mas cria que bebe o leite num lugar de ficar retorna sempre e ela voltou saltitante já passada de ano e meio. Encorpada trafega os piquetes do gado adentra os capões de mato e provoca os garanhões árabe e paint horse. Um americano extraviado por aí veio ver a encantada dia desses. O homem parece cria cavalos árabes no Arizona. David Walker um nome que lembra um bom uísque. Mas o rebatemos com uma boa cachaça do Eduardo Estachelski amarelinha daquela que até o nosso querido padre achou exceeeeelenteeeeeeeee! O homem queria levar a potra por uns cinquenta mil dólares mas trucamos na hora. Nem é pelo nível do animal sua postura em cena campal seus trejeitos femininos formosura de debutante cósmica. Mas pelo raro do presente o ato em si do presenteador que a escolhera (a potranca) entre tantas daquele espaço e especial a brindar-me nos orbes de cá onde grassa vio-rulência. Por uns tostões se prende tortura e mata. Fica o bichinho em meu pasto sim. O Charlinhos pôs o buçal amansando-a de corda depois foi pro quebra queixo lento nos dois anos e três meses. A monta se deu aos dois e meio idade de conhecer estrada com gente encima. Universidade livre do cavalo: a estrada. Ali bicho aloucado desbocado tresandador sente o trecho e aquieta na educação. Assim é que sempre fazemos. Dá certo. Deu. Sempre dá. Agora inventei de descobrir mais da bichinha dada atirada lá do céu e vi: abaixo da crina uns nódulos metálicos se insinuam na pelagem. Entre os dentes frontais pequenas lâminas de afiar nas pedras e na base da cauda cristais incrustados à pele que a fazem luzir em certas noites. A um primeiro olhar nada se vê do que digo insisto está no bichinho como uma marca estigma extraterreno. Acredite quem quiser mas de pasto come pouco. Adora broto de taquara e água só bebe da chuva quando empoça nos campos. Não excreta o que come. Outro o sistema digestivo e motor. Salta pra mais de dois metros de frente ou de lado. Amanhã ficou de vir o Sr. Laurindo Stael talvez o veterinário mais especializado em equino das Américas pra fazer um laudo definitivo da belezura como diz o meu amigo Lúcio Soboleski. Belezura por dinheiro nunca jamé… dinheiro é bom mas pode dar probrema como diz o caboclo: fiquemos com a potra mesmo que o laudo do homem dê que a cria é única (e acredito que é) transespacial e encantada de sóis noturnos.

 

DANTE MENDONÇA e ALIANÇA FRANCESA convidam: / curitiba.pr

NOSSO SERTÃO NÃO MERECE UMA USINA NUCLEAR – de climério lima / jatobá.pe

NOSSO SERTÃO NÃO MERECE UMA USINA NUCLEAR

 

Cordel de Climério Lima (Jatobá-PE/outubro-2011)

Lido durante a passagem da Caravana Antinuclear naquele município

Vocês que estão em Brasília

Com as rédeas da nação

Nos gabinetes trancados

Para tomar a decisão

Escutem a voz do povo

Sofrido deste Sertão

.

Nosso Nordeste é marcado

Por seca, fome, abandono

Para o país um problema

Um território sem dono

E o Sudeste com as riquezas

E as benesses do trono

.

No passado nós lutamos

Até de armas na mão

Tantas guerras nós travamos

Revoltas, revolução

E produzimos riquezas

Pra engrandecer a nação

.

Acham pouco, meus senhores

Nossa contribuição?

Usinas no São Francisco

Iluminando a nação

A custa do ribeirinho

Sem direito a irrigação?

.

Porque querem construir

Nessa terra renegada

Uma usina nuclear

Pelo mundo condenada?

Porque não constroem mais

Hospital, escola, estrada?

.

Venham melhorar os níveis

Da nossa educação

Melhor salário, emprego

Projetos de irrigação

Proteger o São Francisco

Veia de amor do Sertão

.

Uma usina nuclear

É um perigo constante

Na União Soviética

Numa explosão gigante

Matou e espalhou câncer

Numa área bem distante

.

Também nos Estados Unidos

O acidente aconteceu

Fukushima no Japão

Com uma explosão sofreu

Depois de um terremoto

Aquela terra tremeu

.

O lixo dessas usinas

É um resíduo fatal

Não pode ser reciclado

Jogado em qualquer local

Se posto na natureza

É perigoso e mortal

.

Esse tipo de energia

É, por demais, perigosa

A causa de uma explosão

É ligeira e desastrosa

A energia do Sol

É muito mais vantajosa

.

Todos sabem: Temos ventos

Abundantes no Sertão

Para gerar energia

Sem a tal poluição

Essa usina nuclear

É uma contradição

.

Ao povo de Itacuruba

Pra que não seja enganado

Tem político querendo

Esse projeto aprovado

Pensem: se tiver dinheiro

Quem é o beneficiado?

.

Eu repondo sem pensar

O povo é quem não é

O dinheiro vai pros ricos

Comprarem carro e chalé

E fugirem da cidade

Quando o perigo vier

.

A região vai sofrer

Belém, Florest e Jatobá

Petrolândia, Paulo Afonso

Sem dever irão pagar

Se o rio São Francisco

Vier se contaminar

.

Também a piscicultura

Será bem prejudicada

A morte tomará conta

Da água contaminada

Se isso acontecer

Ninguém pode fazer nada

.

Projetos de agricultura

Terão que paralisar

Sergipe também Bahia

Preços altos vão pagar

De Pernambuco a Alagoas

Até descambar no mar

.

O problema, como sempre

Sobra pro povo sofrido

Precisamos nos unir

Criar um grande alarido

Político só tem medo

Do povo que está unido

.

Desculpem-me pelas rimas

Se não são do seu agrado

Sou um poeta pequeno

Que não quer ver aprovado

Esse projeto maluco

Pelo Governo criado

EIKE BATISTA: ” Sou o anti-mega-puxadinho” / são paulo.sp

‘Sou o anti-mega-puxadinho’

Quando subiu ao palco para receber o prêmio de Líder Mais Admirado no Brasil, na noite de segunda-feira 31, em evento promovido pela revista CartaCapital, em São Paulo, o empresário Eike Batista, dono da EBX, demonstrou bom humor ao ser aplaudido pelos convidados da festa ao afirmar: “Finalmente conquistei os paulistas”.

O bilionário Eike Batista, eleito o líder mais admirado do Brasil. Foto: Marco Antônio Teixeira/Ag. O Globo

O homem mais rico do Brasil, nascido em Minas Gerais e que mantém a sede de sua empresa no Rio de Janeiro, aproveitou o discurso para criticar o que classificou como espírito imediatista da imprensa e de parte dos empresários brasileiros. Segundo ele, os empresários nacionais não entendem que grandes projetos não são realizados no curto prazo. Era uma resposta às referências a uma suposta “megalomania” contida nos projetos a envolver suas empresas – entre os quais a construção de um complexo industrial no entorno de um porto projetado na costa fluminense.

Eike provocou risos na plateia ao se autodenominar como um “empresário anti-mega-puxadinho”, que leva em conta o “conceito de tecnologia no estado da arte” – e que, portanto, tem a confiança dos investidores internacionais.

“Nos últimos sete anos, a imprensa não foi carinhosa comigo, mas eu entendo: projetos grandes não acontecem no trimestre, mas em anos. O investidor estrangeiro entendeu o que eu faço”, provocou.

Diante da presidenta Dilma Rousseff, a assisti-lo na primeira fileira, Eike destacou que não havia “nada melhor do que ter a maior autoridade do meu país neste evento”. Citou ainda a “fantástica visão do nosso querido presidente Lula”. Segundo Eike, Lula foi o responsável por incentivar o crescimento da indústria naval, setor no qual o empresário aplica hoje 2 bilhões de reais para a construção de um dos estaleiros mais modernos do mundo. “É a Embraer dos mares, um empreendimento que mata os gringos de inveja.” Ele destacou ainda que “regras claras e respeito aos contratos” levam empresários estrangeiros a apostar no longo prazo no Brasil. “Presidenta, isso é muito importante.”

C.C.

grifo nosso.

TEATRO AUGUSTA convida para “A CASA DOS DADOS” / são paulo.sp