Arquivos Diários: 14 novembro, 2011

OS NOVOS BEATNIKS ‘Ou um elogio à liberdade’ – por olsen jr / ilha de santa catrina

Nos finais e começos de ano, é sempre assim, há um mecanismo inconsciente que faz com que abramos a guarda. De repente ficamos dóceis, ternos, receptivos. É uma constatação que faço e isso nada tem a ver com o cristianismo, apenas com a época, uma vibração diferente. A observação é uma das ferramentas de um escritor, já a sensibilidade para captar a nuance do que é observado pode ser atributo de um poeta. Se você conseguir reunir os dois quesitos em uma pessoa só, melhor. Mas isso ocorre o ano inteiro, então por que lembrar isso apenas agora?

Well, penso que ao afrouxar um pouco o ceticismo contemplativo com que a maioria das pessoas leva a vida, a realidade não parece ser tão soturna como imaginamos quando estamos mais pessimistas que o habitual. Percebi isso agora, vendo aquele grupo. Na verdade acompanho todos eles individualmente andando por aí, a esmo, sem destino e nem objetivos determinados.

Um grupo de pessoas, seis ao todo, lembra aquele livro “Cannery Row”, do John Steinbeck, escrito em 1945 e que integra uma saga do escritor norte-americano que já tinha publicado “Tortilla Flat”, em 1935 e prosseguiu com “Sweet Thursday”, em 1954.

Sim, foi um vislumbre da obra de Steinbeck, dadas as semelhanças, porque aqui na Lagoa da Conceição como lá em Monterey (na Califórnia) estes meio-habitats se parecem. Alguns indivíduos que estão unidos por laços comuns, quer dizer, nenhum deles tem um trabalho fixo, aliás, são os novos beatniks, agora os do século vinte e um. Todos têm certa habilidade em alguma área, seja carpintaria, artesanato, alvenaria e outras ocupações que exijam o emprego das mãos. Só o fazem, entretanto, quando não há mais alternativas para conseguirem o mínimo necessário para levar a vida numa boa.

Na última sexta-feira encontrei-os em um terreno gramado à beira da Lagoa. Na calçada mostravam o trabalho em jóias de arame, prata, bijuterias transformadas em brincos, braceletes, pingentes, camafeus, cordões, prendedores de cabelos, uma variedade de ornamentos capazes de satisfazer qualquer vaidade feminina menos sofisticada, mas de bom gosto para a simplicidade combinando sempre com o velho jeans de guerra. Também, o chimarrão passando de mão em mão enquanto alguém cuidava do fogo, sim, porque havia carne sendo assada, tudo isso ao lado de uma banca de revistas, embaixo de algumas árvores numa manhã de sol claro depois de toda a tragédia que se abateu sobre alguns lugaresem Santa Catarina.

Aspirei aquele odor de carne assada, me deu saudades de ver a família reunida, e aquele dolce far niente a que eventualmente dávamos ao luxo de nos entregar. O momento vivido era único. O futuro é um espaço que não existe. Caminho devagar quando passo por eles, também por momentos queria ter a sensação de viver aquela heresia, de não pensar no “depois”…  A despreocupação está nos rostos, pelo menos naquela hora.

Que País infernal é esse Brasil, penso.

Registro esse encantamento com a espontaneidade para celebrar a livre escolha, para eternizar a ação de se fazer o que se pode mesmo em uma situação que, muitas vezes, não deveria nem possibilitar esse “poder”: uma escolha apenas, mas vocês que estão chegando agora, que não precisaram viver o que nos foi imposto “como natural” durante o regime militar, leitores, não imaginam o que é viver essa liberdade, o que é desfrutá-la assim, como companheira de viagem, porque se não vamos chegar a lugar nenhum, então ela deve vir junto, afinal, de tudo o que nos podem “tirar” na vida: o vínculo com os nossos pais, o amor que se dizia eterno ou o que conseguimos com o nosso esforço, do homem revoltado às paixões inúteis, é a liberdade o único bem que não suportamos perder na vida… É por isso que todas as ditaduras caem, não importa por quanto tempo dissimulem ficar em pé!

Olsen Jr. é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS

VIDA BREVE… – por joão bosco leal / são paulo

 

Ainda outro dia, depois das aulas e das tarefas feitas, jogava bolinhas de gude com amigos na calçada de casa…

No mês de agosto, os meninos faziam seus papagaios de papel de seda e goma arábica, tentando que fossem mais coloridos e com o rabo maior que o dos outros…

Ao anoitecer, os pais já cansados e querendo um pouco de sossego, nos davam algumas moedas para apanharmos vagalumes…

As brincadeiras mais comuns eram as de pega-pega, esconde-esconde, cabra cega, amarelinha e queimada…

Depois vieram os jogos de futebol e para meninas, outros tipos de brincadeiras, considerados mais apropriados…

Os pais que podiam, colocavam seus filhos no judô e na natação, as meninas no balé e piano, e ambos no inglês…

Como diversão, a grande novidade eram os patins, antecessor do skate…

As fanfarras treinavam o ano todo para raríssimas apresentações, no sete de setembro ou nos concursos estaduais, quando, as meninas faziam belíssimas apresentações de malabarismos…

Vieram as aulas de datilografia, que os mais novos sequer sabem do que se trata…

As brincadeiras dançantes em clubes eram destinadas aos menores de idade e animados com música ao vivo…

O limite de horário era sempre muito rígido, 22 horas, e queríamos envelhecer mais rapidamente…

Vieram os bailes, os carnavais, os cinemas e os namoros, todos muito diferentes dos atuais…

A cuba libre era a bebida da moda e alguns se embebedaram pela primeira vez…

Ouvíamos os Beatles, Creedence CR, Carpenters, Ray Charles, Cat Stevens, Aretha Franklin, Tina Turner e centenas de outros de elevado padrão musical, com músicas também muito diferentes das atuais…

Veio a faculdade, muitos estudos, músicas, namoradas e bailes, mas a sonhada formatura, só para a minoria…

Começou a vida de responsabilidades, trabalho, busca de renda, casamento, filhos…

A tensão era ser enorme, com muitas preocupações com a educação e saúde dos pequenos, seu futuro…

Agora são os filhos que passam pelas mesmas situações, nos alegrando ou preocupando…

Apareceram rugas e cicatrizes, muitas no corpo outras na alma…

Muitos cabelos caíram e outros ficaram brancos, os sonhos diminuíram e fiquei mais realista…

Os netos começam a crescer e de um modo ou de outro a viver tudo o que eu e seus pais vivemos…

Aos 60 anos, muitos nos acham quadrados, ultrapassados, com poucas idéias úteis, mas na sua idade, eu achava que uma pessoa com 35, 40 anos já era velha…

Realmente diminuíram minhas destrezas, estou cada vez mais lento, física e mentalmente, mas é uma fase maravilhosa, pois já aprendi e senti bastante, mas tenho fome de novos aprendizados e sentimentos…

Foi tudo muito rápido e o que mais quero agora, é que tudo demore muito…