Arquivos Diários: 20 novembro, 2011

O NOME DA DEUSA – por jorge lescano / são paulo.sp


Não há provas de que esta criatura constitua uma espécie. O exemplara que registramos é, conforme declaração textual, o único avistado pelo autor do manuscrito compilado e comentado, provavelmente, pelo ilustre bibliotecário cego; versão esta que ora apresentamos em tradução livre. Acreditamos que o leitor, por pouco erudito que seja, poderá identificá-la entre suas lembranças de juventude.

 

“Lucádia ou Dulcáia, a Princesinha, tal a estirpe, e a alcunha, pelas quais é conhecida entre os tcharooas, na terceira margem do rio Cunaimama. Todavia, por motivos que a história omite, os francos e certo autor hebreu-germano-sueco, a denominam Charlotte, a Coxa.

“Presume-se que seu nome, como o da América (Amerik: elevação de terreno não vulcânico na atual província de Chontales, Nicarágua), foi transferido para solo europeu por navegadores espanhóis do século XVI. Como Amerik, foi rebatizada e devolvida ao Novo Mundo com a função de vestal.

“Eis a descrição suscinta legada pela tradição:

Cor: mourisca; cheiro: de felino silvestre de pequeno porte; cabelos: liga de cobre e ouro velhos; nariz: cleopátrico; olhos: sarracenos; voz: damasco em salva de cobre.

“Dadas as referências orientais, é-nos lícito suspeitar que o Império Otomano não esteve ausente na sua reconstituição. Há quem insista no caráter esotérico (alquímico, cabalístico) da passagem citada. conjeturou-se que era uma versão abreviada do simurg proposto pelo persa Farid ud-Din Attar. Talvez fosse previsível que alguém associasse a Princesinha à Zoraida do capítulo XL, da primeira parte do Quixote.

“A antiguidade clássica guarda silêncio ao seu respeito. Platão não a menciona em suas obras, o que induz a não poucos helenistas apressados a adjudicá-la, de forma pueril, ao culto de Eros. Outros, não menos anacrônicos, optam por oferenda-la a Dionísio. Deve atribuir-se isto à sua tendência a pousar sobre as mesas na posição de flor de lótus? A imobilidade, contudo, não é sua característica principal.

“Um velho mendigo a quem consultamos, interrompe seu zazen para sussurrar,  olhando para os lados, que, ‘devido às suas minúsculas proporções e aos seus passos miúdos, quando surge no crepúsculo dos corredores dos teatros pode ser confundida com um castorzinho assustado. E ainda: ‘Recomenda-se ceder-lhe a passagem desviando os olhos, sua mirada tem poderes ígneos’.

“Os chineses a admitem como justa equivalência do atroz monstro Aqueronte, avistado apenas uma vez, no século XII, por Túndalo, jovem e dissoluto cavaleiro irlandês.

“Para os tcharooas personifica Oolan-Naooëv, a lua nova de sirënev (sexta-feira). Nessas ocasiões, genuflexos, entoam poemas para sua natureza úmida no leito do Cunaimama, pois o que está acima está embaixo, acreditam. Porém, se a divindade mostra a face na sétima noite (Oolan-Naël, a jornada vermelha das semanas de treze dias), seu sacerdote empreende o Caminho do Norte pela margem direita do rio. Solitário, chora ou canta em silêncio.”

Os bandidos que ninguém anda “pacificando” – por alceu sperança /cascavel.pr

Se alguém sujar a água da sua caixa-reservatório estará cometendo um crime,

não é? Um crime contra você e sua família.

Se alguém fizer fogueiras ao redor de sua casa, estará sujando o ar que você, sua família e seus vizinhos respiram. Não é um crime?

Deveria ser. Mas no Brasil estragar a água, a terra, o ar, a natureza para ganhar dinheiro e lucrar com a destruição, em prejuízo da natureza e das pessoas, não é considerado crime.

Não deveria ser? Parece tão claro isso, tão claro que é crime estragar a natureza, que não pensamos na verdade: os interesses egoístas, para não ter obstáculos à sua ação predatória, deram um jeito de destruir sem que essa destruição seja considerada crime.

O advogado criminalista Guilherme Nostre, em sua tese de doutorado “Direito Penal das Águas”, para a Faculdade de Direito da USP, pergunta por que não existe no Brasil uma lei que considere crime sujar a água.

Os donos de terra foram tão espertos que só se considera crime a água poluída se ela leva animais (seres humanos também) à morte.

Se não provar que foi a água que matou, enterra o falecido e tudo fica do mesmo jeito.

Um crime perfeito, não?

Mas não existe crime perfeito. Sujar a água é um crime, uma indecência, um desrespeito à vida.

Existe uma planta no Cerrado brasileiro que limpa o solo contaminado com metais pesados. Esses metais, que provocam terríveis prejuízos à saúde humana e ao equilíbrio da natureza, ficam escondidos nos descartes de produtos industriais.

A planta milagrosa, cujo nome científico é Galianthe grandifolia, pertence à família do nosso conhecido café.

Ela foi definida como uma faxineira de metais pesados no ambiente por uma tese de doutorado elaborada pela pesquisadora Divina Vilhalva, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas,

Essa planta é a primeira conhecida que absorve grandes quantidades de cádmio, um metal muito perigoso para a vida, encontrado em baterias de telefones celulares e pilhas. Se ele contaminar o corpo humano, vai causar doenças renais, enfisemas pulmonares, osteoporose e vários tipos de câncer.

A descoberta da função de faxineira de metais pesados por parte dessa planta é da maior importância.

Hoje, os processos de fitorremediação – ou seja, a descontaminação do solo com plantas – são realizados, na maioria das vezes, com plantas geneticamente modificadas originárias de outros países.

Por aí percebemos que a natureza, quando consegue, encontra em si mesma os remédios para os nossos males.

Mas para isso precisamos estudá-la melhor e favorecer a ação dos vegetais capazes de fazer a faxina daquilo que sujamos sem pensar ou, no caso dos capitalistas gananciosos, de caso criminosamente pensado.

O que mais precisamos, no entanto, é deixar de causar danos à natureza para que ela depois tenha que se virar sozinha para resolver.