O NOME DA DEUSA – por jorge lescano / são paulo.sp


Não há provas de que esta criatura constitua uma espécie. O exemplara que registramos é, conforme declaração textual, o único avistado pelo autor do manuscrito compilado e comentado, provavelmente, pelo ilustre bibliotecário cego; versão esta que ora apresentamos em tradução livre. Acreditamos que o leitor, por pouco erudito que seja, poderá identificá-la entre suas lembranças de juventude.

 

“Lucádia ou Dulcáia, a Princesinha, tal a estirpe, e a alcunha, pelas quais é conhecida entre os tcharooas, na terceira margem do rio Cunaimama. Todavia, por motivos que a história omite, os francos e certo autor hebreu-germano-sueco, a denominam Charlotte, a Coxa.

“Presume-se que seu nome, como o da América (Amerik: elevação de terreno não vulcânico na atual província de Chontales, Nicarágua), foi transferido para solo europeu por navegadores espanhóis do século XVI. Como Amerik, foi rebatizada e devolvida ao Novo Mundo com a função de vestal.

“Eis a descrição suscinta legada pela tradição:

Cor: mourisca; cheiro: de felino silvestre de pequeno porte; cabelos: liga de cobre e ouro velhos; nariz: cleopátrico; olhos: sarracenos; voz: damasco em salva de cobre.

“Dadas as referências orientais, é-nos lícito suspeitar que o Império Otomano não esteve ausente na sua reconstituição. Há quem insista no caráter esotérico (alquímico, cabalístico) da passagem citada. conjeturou-se que era uma versão abreviada do simurg proposto pelo persa Farid ud-Din Attar. Talvez fosse previsível que alguém associasse a Princesinha à Zoraida do capítulo XL, da primeira parte do Quixote.

“A antiguidade clássica guarda silêncio ao seu respeito. Platão não a menciona em suas obras, o que induz a não poucos helenistas apressados a adjudicá-la, de forma pueril, ao culto de Eros. Outros, não menos anacrônicos, optam por oferenda-la a Dionísio. Deve atribuir-se isto à sua tendência a pousar sobre as mesas na posição de flor de lótus? A imobilidade, contudo, não é sua característica principal.

“Um velho mendigo a quem consultamos, interrompe seu zazen para sussurrar,  olhando para os lados, que, ‘devido às suas minúsculas proporções e aos seus passos miúdos, quando surge no crepúsculo dos corredores dos teatros pode ser confundida com um castorzinho assustado. E ainda: ‘Recomenda-se ceder-lhe a passagem desviando os olhos, sua mirada tem poderes ígneos’.

“Os chineses a admitem como justa equivalência do atroz monstro Aqueronte, avistado apenas uma vez, no século XII, por Túndalo, jovem e dissoluto cavaleiro irlandês.

“Para os tcharooas personifica Oolan-Naooëv, a lua nova de sirënev (sexta-feira). Nessas ocasiões, genuflexos, entoam poemas para sua natureza úmida no leito do Cunaimama, pois o que está acima está embaixo, acreditam. Porém, se a divindade mostra a face na sétima noite (Oolan-Naël, a jornada vermelha das semanas de treze dias), seu sacerdote empreende o Caminho do Norte pela margem direita do rio. Solitário, chora ou canta em silêncio.”

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